segunda-feira, 1 de agosto de 2011

um trecho de um livro dentro de outro livro

"Há algum livro que tenha marcado sua infância, J.?
A mim, não há. Não me recordo de mamãe ou papai lendo-me histórias até os seis anos de idade. E, lembre-se, dos seis aos onze anos eu não tenho memória. Quer dizer, hoje penso que devo tê-las, apenas não consigo acessá-las. Ou não queira. É bem possível. E um pouco já conversamos sobre a prática da leitura nas nossas vidas. Eu até hoje não me formei leitora de livros. Leio um ou outro. Prefiro a leitura de mim mesma. E até dos outros. Prefiro a leitura ouvida. Talvez por isso ler uma música me seja mais interessante do que ler um texto.
A escrita, vejo agora, parece-me uma terapia. Principalmente esta escrita de cartas com você. Escrever histórias como escrevem os escritores reconhecidos nacional e internacionalmente não me agrada. Se bem que não me agrada porque eu não me interesse em lê-las. (Ah, essa relatividade das coisas. Tão presente. Tão perigosa). Mas faço referência à escrita sobre nós mesmos. Nunca fiz terapia (sinto que um dia virei a fazer), porém, do que já ouvi falar, a terapia é isto que é nossa escrita: um mexer fundo dentro de si. Colocar a mão lá para dentro, muito para dentro, tatear, tocar, apertar, puxar, trazer para fora. Encarar (Quem sabe seja este o momento mais impactante). E depois não sei mais. Afinal, pergunto-lhe, o que nós fazemos com tudo isto que escrevemos? Para aonde vai a escrita? Para aonde nos leva a leitura?
Há um livro, J., que eu li para trabalhar com meus alunos há quatro anos. Pelo que me lembre, nunca lhe contei isto. Pois agora vai. Uma professora me sugeriu a leitura do livro “A bolsa amarela”, de uma escritora chamada Lygia Bojunga Nunes. Eu li, claro. Não vou atrás de livro, mas quando eles aparecem, assim sugeridos, aceito-os. Li, e gostei muito. E criei um bonito trabalho junto com meus alunos. Eram de 4ª série. Um trabalho envolvendo a escrita sobre si mesmo. Maldade minha, não é? Tão novinhos e já procurando algo dentro si. Mas há um porquê, claro. E o resultado final não ficou ruim. Pelo contrário. Os alunos gostaram bastante. Segundo me diziam, durante os meses em que estivemos escrevendo (cada um sobre si mesmo, sobre seus sentimentos, sobre o dia-a-dia), eles passaram a perceber coisas de que gostavam e de que não gostavam. Mas não nos outros. Desenvolveram essa percepção neles mesmos. O que é muito óbvio, eu e você podemos concordar, uma vez que a escrita provoca bem isso, não é mesmo? Um descobrir-se muito e cada vez mais íntimo. Que muda significativamente qualquer pessoa.
Você conhece a história da bolsa amarela, J.? Posso contá-la a você, de forma mais resumida? Obrigada. É assim: Há uma menina, a Raquel, que vive em conflito consigo mesma e com a família. Família esta que a reprimia em seus desejos e vontades. A Raquel tinha três grandes vontades, J.: crescer; ser garoto; tornar-se escritora. Um dia, ela ganhou uma bolsa amarela, de um familiar. Não propriamente ganhou. A família toda ganhou muita roupa e objetos para uso pessoal, e a ela pode-se dizer que sobrou a bolsa. E ela não precisou de mais nada. Porque naquela bolsa ela passou a guardar suas três grandes vontades, e também seres e objetos imaginários que ela tinha como companhia: os galos Afonso e Terrível, uma guarda-chuva (isso mesmo, uma) e um alfinete de fralda. E mais coisa. E ela convivia era com eles. E com sua bolsa. E sendo assim ela se sentia muito ela mesma. É preciso mais do que isso, J.?
E a Raquel escrevia. (Claro, né, Cê, se ela queria ser escritora!). Tudo bem. É isso mesmo. Raquel escrevia porque queria ser escritora. Ou queria ser escritora porque escrevia. E o livro contém muitas histórias escritas por Raquel. Fica algo uma história dentro da outra. Ou algumas histórias dentro de uma só. O que é muito o que nós vivemos, não é mesmo? Temos nossa história de vida que é abraçada e abraça tantas outras histórias de vida. De vida vivida e de vida imaginada, J. Nós sabemos que é assim.
Não vou lhe contar o final desse livro. Não. O que acontece com Raquel? Mais do que isso, o que acontece com os personagens imaginários de Raquel? Com as vontades de Raquel? Não é válido descrever aqui algo tão dela. Vá lê-la, J. Vá. Tenho certeza de que você se identificará. Você sabe o porquê.
(...)
Cê".
_ _ _ _ _ 
de minha autoria. 
ítalo. 

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