terça-feira, 30 de agosto de 2011

a função do leitor - 1

"Quando Lucia Peláez era pequena, leu um romance escondida. Leu as pedaços, noite após noite, ocultando o livro debaixo do travesseiro. Lucia tinha roubado o romance da biblioteca de cedro onde seu tio guardava os livros preferidos.
Muito caminhou Lucia, enquanto passavam-se os anos. Na busca de fantasmas caminhou pelos rochedos sobre o rio Antióquia, e na busca de gente caminhou pelas ruas das cidades violentas.
Muito caminhou Lucia, e ao longo de seu caminhar ia sempre acompanhada pelos ecos daquelas vozes distantes que ela tinha escutado, com seus olhos, na infância.
Lucia não tornou a ler aquele livro. Não o reconheceria mais. O livro cresceu tanto dentro dela que agora é outro, agora é dela".

eduardo galeano, página 20 de "o livro dos abraços".
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eu comecei uma aula com a sexta série, ontem, lendo isso. apenas lendo. porque às vezes ler-por-ler é muito mais interessante do que ler-para-cobrar-algo. porque daí você lê, fecha o livro, olha praquelas carinhas miúdas que devolvem o olhar para você como que dizendo "tá, e daí?". e daí você devolve a pergunta "tá, e daí?". e o melhor de tudo é o silêncio que fica. essencial para se tocar a aula adiante. até quem sabe, no meio dela, ser interpelado por uma pergunta: "quem inventou a escada, professor, queria subir ou queria descer?". 

aí você sente que muita coisa nessa vida vale toda uma existência.

ítalo.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

o consumismo em mim


Se há algo que faz disparar meu lado consumista são livros, cd´s e dvd´s (necessariamente nesta ordem), então que o zelo que tenho por estes objetos traz consigo ares de chatice, típico de quem se apega a algum bem material e passa a ter com e por ele uma identificação que às vezes permite ultrapassar a barreira do bom senso (seja lá o que quer que defina esse bom senso).
Costumo cometer alguns “crimes” de vez em quando. Tenho que me policiar constantemente ao andar pelas ruas da cidade. Entrar em livrarias, lojas de cd´s e dvd´s, ou em sebus, é um assassinato ao meu sempre tão controlado bolso. O mais inesperado acontece. Entre tantos e tantos livros, por exemplo, que coincidência, o olho é puxado para aquele que “ah, não, esse eu não posso deixar passar. Procuro há tanto tempo!”.
Ainda que o apego a esses objetos se dê muito mais em função do caráter cultural e sem-sentido (porque as melhores coisas da vida não servem para nada, e nem precisam) que eles trazem consigo, do que propriamente da mera satisfação de tê-los nas estantes espalhadas pela casa, visíveis não só aos próprios olhos, mas, arrisco dizer, principalmente aos olhos alheios, apesar disso, esse apego contém em si um olhar muito cuidadoso na forma como os livros, cd´s e dvd´s são acomodados pela casa, e uma organização rígida no que diz respeito ao empréstimo que é feito deles para os mais próximos (sim, pois é algo fora de cogitação colocá-los em mãos que não inspiram a mínima confiança necessária para tal também dolorosa ação).
Roupas, calçados, decorações para a casa, perfumes, xampus ou sabonetes, o que vier está bom. Não vou atrás para tê-los. Entrar em uma loja para comprar alguma peça de roupa, só em casos extremos, quando não tenho, realmente, o que vestir de tal peça (fato que aconteceu em minha vida apenas duas vezes, para comprar duas calças-jeans). No máximo causa-me um bem-estar ir a brechós atrás de boinas e cachecóis. É a forma com a qual me sinto bem utilizando o dinheiro que ganho mensalmente.  
Certa vez, numa aula da pós-graduação, o professor de Educação Inclusiva trouxe-nos um maravilhoso resgate da exclusão social existente desde a idade antiga, com os gregos e romanos, passando pela idade média e a influência exercida pela igreja católica, até a idade moderna, com o advento do capitalismo e as diversas formas de exclusão conseqüentes do consumismo desenfreado. Foi uma conversa muito boa, muito franca e aberta, sem falsas ideologias, que me levou a construir estas linhas. Senti-me muito bem. Indignar-me diante dos caminhos tortuosos em que o humano faz girar o mundo é inerente ao meu ser. Desde que me conheço por gente não sou ligado ao ato de comprar, de ter cada vez mais um pouco de tudo, de estar numa pseudo-moda mundial, de exibir artigos de luxo-reveladores-do-lixo-interno. No máximo desenvolvi em mim o gosto em possuir livros, cd´s e dvd´s. Bastam para mim. Comida e saúde não entram no caso. São elementos externos ao consumismo desenfreado que atinge a maior parcela da população mundial.
Ainda alimento o desejo de ler nos noticiários policiais mais “crimes” e “assassinatos” como os que eu cometo periodicamente.

Ítalo. (publicado também aqui

sábado, 13 de agosto de 2011

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

então (cena de leitura)


"a Cláudia, aquela leitora, esteve aqui; e me contou que quando ela lê aqueles livros enormes dela, durante uma tarde inteira, adentrando a noite com o abajurzinho no criado mudo, ela fica tão dentro do livro (esquece de comer, esquece de falar, de ouvir) que se assusta demais quando o marido dela entra no quarto. Já chegou a gritar".

e-mail enviado por enzo potel.

í.ta**

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

fazendo bater


acho que é isso que acontece quando eu levo um livro para os meus alunos. para ler com os meus alunos. acho que rola dentro de mim, quase no inconsciente, um querer que eles se batam. os livros e os alunos. que eles colidam, entrem em choque mesmo. em todos os sentidos. porque a leitura precisa marcar. porque a vida precisa ser marcada pelas leituras. senão não é leitura. senão não pode ser vida.

é assim que eu leio um pouco a cada semana, por exemplo, "a bolsa amarela". e vejo nos olhos deles tantas raquel. cada uma vestida com a roupa que a própria vida deles dá a elas. porque ser leitor pode ser isso. vestir o personagem com aquilo que você tem em casa. ou mesmo dentro de você. 

é quando eles passam a sentir a angústia em querer saber o que vai acontecer com o pedro, em "a distância das coisas". cadê a mãe do pedro? por que o pedro não larga tudo e busca descobrir o que aconteceu realmente? o que leva o tio do pedro a agir daquela forma?

e, não, eu não os deixo emprestar aquele livro, aquela história, para ler em casa. porque é história escolhida para ser ouvida em sala. porque a leitura ouvida não é a leitura lida. e vice-versa. e ler num soco não é ler a prazo.

é muita vida para um só dia. 

í.ta**

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

um trecho de um livro dentro de outro livro

"Há algum livro que tenha marcado sua infância, J.?
A mim, não há. Não me recordo de mamãe ou papai lendo-me histórias até os seis anos de idade. E, lembre-se, dos seis aos onze anos eu não tenho memória. Quer dizer, hoje penso que devo tê-las, apenas não consigo acessá-las. Ou não queira. É bem possível. E um pouco já conversamos sobre a prática da leitura nas nossas vidas. Eu até hoje não me formei leitora de livros. Leio um ou outro. Prefiro a leitura de mim mesma. E até dos outros. Prefiro a leitura ouvida. Talvez por isso ler uma música me seja mais interessante do que ler um texto.
A escrita, vejo agora, parece-me uma terapia. Principalmente esta escrita de cartas com você. Escrever histórias como escrevem os escritores reconhecidos nacional e internacionalmente não me agrada. Se bem que não me agrada porque eu não me interesse em lê-las. (Ah, essa relatividade das coisas. Tão presente. Tão perigosa). Mas faço referência à escrita sobre nós mesmos. Nunca fiz terapia (sinto que um dia virei a fazer), porém, do que já ouvi falar, a terapia é isto que é nossa escrita: um mexer fundo dentro de si. Colocar a mão lá para dentro, muito para dentro, tatear, tocar, apertar, puxar, trazer para fora. Encarar (Quem sabe seja este o momento mais impactante). E depois não sei mais. Afinal, pergunto-lhe, o que nós fazemos com tudo isto que escrevemos? Para aonde vai a escrita? Para aonde nos leva a leitura?
Há um livro, J., que eu li para trabalhar com meus alunos há quatro anos. Pelo que me lembre, nunca lhe contei isto. Pois agora vai. Uma professora me sugeriu a leitura do livro “A bolsa amarela”, de uma escritora chamada Lygia Bojunga Nunes. Eu li, claro. Não vou atrás de livro, mas quando eles aparecem, assim sugeridos, aceito-os. Li, e gostei muito. E criei um bonito trabalho junto com meus alunos. Eram de 4ª série. Um trabalho envolvendo a escrita sobre si mesmo. Maldade minha, não é? Tão novinhos e já procurando algo dentro si. Mas há um porquê, claro. E o resultado final não ficou ruim. Pelo contrário. Os alunos gostaram bastante. Segundo me diziam, durante os meses em que estivemos escrevendo (cada um sobre si mesmo, sobre seus sentimentos, sobre o dia-a-dia), eles passaram a perceber coisas de que gostavam e de que não gostavam. Mas não nos outros. Desenvolveram essa percepção neles mesmos. O que é muito óbvio, eu e você podemos concordar, uma vez que a escrita provoca bem isso, não é mesmo? Um descobrir-se muito e cada vez mais íntimo. Que muda significativamente qualquer pessoa.
Você conhece a história da bolsa amarela, J.? Posso contá-la a você, de forma mais resumida? Obrigada. É assim: Há uma menina, a Raquel, que vive em conflito consigo mesma e com a família. Família esta que a reprimia em seus desejos e vontades. A Raquel tinha três grandes vontades, J.: crescer; ser garoto; tornar-se escritora. Um dia, ela ganhou uma bolsa amarela, de um familiar. Não propriamente ganhou. A família toda ganhou muita roupa e objetos para uso pessoal, e a ela pode-se dizer que sobrou a bolsa. E ela não precisou de mais nada. Porque naquela bolsa ela passou a guardar suas três grandes vontades, e também seres e objetos imaginários que ela tinha como companhia: os galos Afonso e Terrível, uma guarda-chuva (isso mesmo, uma) e um alfinete de fralda. E mais coisa. E ela convivia era com eles. E com sua bolsa. E sendo assim ela se sentia muito ela mesma. É preciso mais do que isso, J.?
E a Raquel escrevia. (Claro, né, Cê, se ela queria ser escritora!). Tudo bem. É isso mesmo. Raquel escrevia porque queria ser escritora. Ou queria ser escritora porque escrevia. E o livro contém muitas histórias escritas por Raquel. Fica algo uma história dentro da outra. Ou algumas histórias dentro de uma só. O que é muito o que nós vivemos, não é mesmo? Temos nossa história de vida que é abraçada e abraça tantas outras histórias de vida. De vida vivida e de vida imaginada, J. Nós sabemos que é assim.
Não vou lhe contar o final desse livro. Não. O que acontece com Raquel? Mais do que isso, o que acontece com os personagens imaginários de Raquel? Com as vontades de Raquel? Não é válido descrever aqui algo tão dela. Vá lê-la, J. Vá. Tenho certeza de que você se identificará. Você sabe o porquê.
(...)
Cê".
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de minha autoria. 
ítalo.