quarta-feira, 6 de julho de 2011

Vamos deixar que os lobos falem

Antes, o medo. Aquele que assusta, que trapaceia, que está lá para mostrar o que não deve ser feito. O mau exemplo do personagem que engana uma criança – ou tenta – ou que vai à caça de carne suína. É o lobo de “Chapeuzinho Vermelho”, conto de fadas escrito por Charles Perrout, e é o lobo de “Os três porquinhos”, escrito por Joseph Jacobs. O lobo presente nos contos de fadas mais clássicos, o malvado.
            Agora – nesse mundo contemporâneo e pós-moderno – ele, o lobo, não vem para representar nada. Vem para se apresentar. Ou para apresentar a sua versão das histórias em que ele aparece. É o lobo de “A verdadeira história de Chapeuzinho Vermelho”, escrito por Agnese Baruzzi e Sandro Natalini, e é o lobo de outra verdadeira história, “A verdadeira história dos três porquinhos”, escrito por Jon Scieszka, com ilustrações de Lane Smith.

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           Na primeira, o leitor se depara com o antes da famosa história, momento em que a Chapeuzinho Vermelho recebe uma cartinha do lobo, implorando ajuda para que ele passe a ter uma boa impressão junto às pessoas. Pedido prontamente atendido por Chapeuzinho, que pede ao lobo para que venha visitá-la. Assim se tem início a convivência entre os dois, na qual o lobo aprende a regra mais importante: nada de carne. Dessa forma, Chapeuzinho prepara um cardápio de “Refeições sem-carne para carnívoros recuperados”. Além disso, o lobo fica na casa de Chapeuzinho, enquanto esta sai para trabalhar. Cuida e limpa a casa. Busca Chapeuzinho na escola, e até ajuda a mãe dela a cozinhar.
            Com esse comportamento exemplar, o lobo logo vira notícia, nos jornais e tele-jornais da cidade. E boas notícias, dessa vez. Torna-se o mais querido por todos, fato que passa a irritar e a enciumar Chapeuzinho, que resolve dar fim ao dengo que o animal vinha recebendo. Prepara uma festa para ele e serve um sanduíche misterioso, que contém uma salsicha dentro. É o momento de recaída do lobo. Ele volta a ser o malvado de antes ao cair na arapuca armada por Chapeuzinho. E vem dali o mau comportamento com Chapeuzinho e sua vovozinha, contado na versão mais conhecida da história.
            Já com os três porquinhos, é o próprio lobo, de nome Alexandre T. Lobo, quem conta a sua versão para o caso, no seu diário. E em sua versão o lobo deixa claro não entender o julgamento que passaram a fazer dele, uma vez que, segundo ele, não se pode julgá-lo por apreciar carne suína, afinal, não é culpa deles se eles comem bichos engraçadinhos como coelhos e porquinhos: “É apenas nosso jeito de ser. Se os cheeseburgers fossem uma gracinha, todos iam achar que você é mau”, diz ele ao leitor.
No dia do ocorrido caso com os três porquinhos, ele apenas bateu nas casas dos três para pedir uma xícara de açúcar emprestada, com o objetivo de terminar de fazer um bolo de aniversário para a sua querida e amada vovozinha. Porém, ele, lobo, estava resfriado neste dia, motivo principal por ter espirrado em direção à casa de palha e à casa de madeira dos dois primeiros porquinhos. Restaram os dois entre os escombros, mortinhos da silva, conforme palavras dele. Ele não pode fazer nada a não ser comê-los. E com o terceiro porquinho ele perdeu foi a cabeça mesmo, quando ouviu aquele lhe dizer: “E a sua velha vovozinha pode ir às favas”. Mesmo sendo um sujeito muito sossegado, o lobo não podia deixar passar tamanha ofensa. Foi apenas por isso que tentou a todo custo invadir a casa de material do porquinho. Mas não teve muito tempo para isso. Logo a polícia chegou para prendê-lo, tendo contra ele a acusação de ter matado dois outros porquinhos.
A literatura pós-moderna apresenta ao leitor revisitamentos aos contos de fadas. O leitor passa a conhecer outras versões para as histórias chamadas clássicas, versões que negam as verdades das histórias originais, desconstroem valores e propostas, dão novo significado a elas. O “felizes para sempre” é substituído pelo “pra sempre sempre acaba”. O final feliz passa a não mais se tornar referência marcante e exata nas histórias. A vida como ela é dá o tom, e não mais a vida como deveria ou poderia ser.
Deparamo-nos, hoje, com um mundo caótico, fragmentado, mega-produzido, desprovido de verdades. A incerteza é a certeza do mundo de hoje. Tanto é verdade que o pensamento contemporâneo se divide entre os que pensam o mundo sob o rótulo pós-moderno e os que negam tal possibilidade. É a dúvida instaurada. Para Maffesoli, em seu “O Ritmo da Vida” (2007, p. 30), nada mais salutar:

Não é [então] a verdade que importa, podemos deixá-la para os clérigos de todo o tipo, mas esse pedaço de verdade de que nos aproximamos na maneira de viver o tempo, no jogo das paixões, na arte de morar ou de se vestir, em suma, naquilo que poderíamos chamar de 'cosmética transcendental', como forma de nos acomodarmos no mundo como um todo, vale dizer, no ambiente natural e social.

A desconstrução do que é verdade. Segundo ele ainda, "a vida é feita de destruição e construção" (2007, p. 11), assunto que interessa sobremaneira este recorte de reflexão acerca das produções literárias infantojuvenis contemporâneas; a destruição dos valores nesta literatura que se refaz a partir de releituras dos clássicos.

Referências Bibliográficas

BARUZZI, Agnese & NATALINI, Sandro. A verdadeira história de Chapeuzinho Vermelho. São Paulo: Brinque-Book, 2010.

MAFESOLI, Michel. O ritmo da vida: variações sobre o imaginário pós-moderno. Tradução de Clóvis Marques – Rio de Janeiro: Record, 2007.

PERRAULT, Charles, GRIMM Jacob e Wilhelm, ANDERSEN, Hans Christian & outros. Contos de fadas. Apresentação de Ana Maria Machado, tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

SCIESZKA, Jon. A verdadeira história dos três porquinhos: por A. Lobo, tal como foi contada a Jon Scieszka. Ilustrada por Lane Smith. Tradução Pedro Maia. – 2ª ed. – São Paulo: Companhia das letrinhas, 2005.

SCIESZKA, Jon. O patinho realmente feio e outras histórias malucas. Ilustrada por Jane Smith. Tradução Isa Mara Lando. – São Paulo: Companhia das letrinhas, 1997. 

7 comentários:

Priscila Lopes disse...

Puta, que delícia de texto, Italo!








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