sábado, 18 de junho de 2011

é a literatura

o joão ubaldo ribeiro, de quem eu ainda não li nada, esculhambou geral. adorei as palavras, publicadas no jornal rascunho a partir de uma fala dele no "paiol literário", evento promovido pelo próprio jornal em parceria com outros meios de comunicação. 
selecionei trechos da fala. todos ligados à literatura. vale a conversa toda, aqui.
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"Esta pergunta (Qual a importância da literatura na vida cotidiana das pessoas?) poderia abranger a noite inteira de conversa, porque seria algo relacionado com a filosofia da arte. Para que serve a arte? A literatura, assim como a arte, é uma forma de conhecimento, de perceber o mundo e de expressar essa percepção. Nesse sentido, toda arte teria uma utilidade. Mas não acho que o critério da utilidade deva ser usado em relação à arte. A arte não deve ser vista de uma maneira tão pragmática, tão imediatista. Não se pode negar que a literatura contribui para a maturação e evolução da língua, para a expressividade dessa língua, para a utilização dessa língua, inclusive para a comunicação científica, porque as linguagens se entrelaçam. E como qualquer arte, a literatura é uma forma importante de conhecimento, de ver o mundo e de expressar o mundo através da linguagem. Acho que quem se expõe a um estímulo intelectual, emocional, artístico, está dando a si mesmo uma chance de expansão da sua sensibilidade, da sua humanidade. Se nós nos limitássemos a comer e procriar, tudo seria muito pobre".

"Como é que se estimula a leitura na escola brasileira? Se aterrorizando o pobre do menino com a idéia de ter que responder perguntas horrorosas depois de ler o livro. Em vez de se fluir, se perpetuar uma leitura agradável, se incute o medo da leitura nos estudantes. Aquilo é uma prova. O aluno lê sob tensão para ter que entender e dizer coisas inteligentes a respeito ao professor. Um dos grandes obstáculos para a leitura dos clássicos é a apresentação dos clássicos. Aquela coisa solene, que tem que gostar, aquela coisa abstrusa. Fica uma espécie de obrigação e não de conhecimento, de desfrute, enfim de se gozar de um prazer que seria a literatura. Aquilo vira um carma, uma coisa terrível. Na escola, estamos acostumados com a tarefa árdua de responder perguntas. Eu já vi várias vezes, não foram poucas, livros meus adotados para o vestibular cujas perguntas sobre o livro eu não acerto nenhuma. Verdade".

"Não se lê porque não se gosta de ler, porque dá trabalho. Ler é chato porque a pessoa não aprendeu a ler. Ela aprendeu a ficar na frente da TV onde tudo é fornecido. O audiovisual fornece o som, a imagem, a cor, enfim, tudo. O livro só fornece as palavras. O resto é fornecido pelo leitor. E isso é a beleza e a força da literatura. Ela tira de cada um a sua contribuição. Então, o livro só existe porque existe leitor e ele é um livro diverso para cada leitor. É uma coisa extraordinariamente rica. Já a arte audiovisual não é. Não que eu deva condená-la, mas exige muito menos da pessoa. É uma arte que oferece mais passividade. Uma música você pode ouvir até dormindo. Já um livro você não pode ler dessa forma".

"Se lêssemos mais, não sei se seríamos um país melhor. Provavelmente, sim. Seríamos um país de gente mais sensível, de visão mais ampla, capaz de se expressar melhor, de se entender melhor. Não é tranqüilizador ver um líder brasileiro, em qualquer nível, se expressando como um tartamudo com uma riqueza de pensamentos e idéias. Aqui no Brasil só se fala assim agora: “A democracia ela é”; “O estudante ele” não pode, com a repetição do sujeito. Um anacoluto pendurado. Esta pobreza de expressão reflete pobreza de raciocínio também, pobreza de pensamento. Afinal de contas, a gente expressa e formula pensamentos através da linguagem. Nós não sabemos usar essa linguagem, não sabemos nem conjugar os verbos. Queremos abolir: o inglês não tem conjugação, o verbo não tem flexão, é melhor que o português".

"Tem gente inclusive que diz que não lê ficção porque não vai perder tempo lendo coisas que não aconteceram. Como se ler uma reportagem fosse ler o que aconteceu. Como se o que o repórter está contando foi o que aconteceu. O repórter já está distorcendo a história, sem querer, não que ele queira distorcer, mas ele introduz o elemento distorcivo quando escolhe quem está entrevistando. Não tem nenhuma realidade sendo dita ali. Então a pessoa diz que não perde tempo lendo o que nunca existiu. Como é que a língua poderia existir? Como um instrumento de transmissão de conhecimento, inclusive de transmissão de conhecimento científico, se não tivesse a literatura, se não se explorasse a palavra na poesia, que é quando a palavra atinge a sua maior autenticidade, sua maior contundência, suas funções rítmicas, que são forçadoras da linguagem? Sem a literatura como iria se descrever certos estados de angústias, se o poeta já não tivesse passado lá antes? Certos estados de perplexidade, se o poeta não tivesse passado antes? Não haveria palavra na medicina para distinguir isso. A língua precisa de seus escritores, de seus poetas, de seus compositores para poder se manter como instrumento hábil de expressão e de tradução da alma humana. Mas nós somos um país muito esculhambado. É o que nós somos. Não damos a menor importância. Menor importância é exagero. Falando genericamente, não damos importância a isso". 

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í.ta**

5 comentários:

Assis Freitas disse...

João tem razão em alguns pontos, mas mesmo antes de existir a televisão no dia a dia não líamos, o que não é um problema atual vem desde a fundação desse país. e sempre é bom lembrar que a leitura liberta e os nossos governantes nunca gostaram de liberdade,


abraço

Eduardo Silveira disse...

nossa, eu adorei as palavras dele
e concordei com tudo.

(a observação do assis confere. a tv não é a grande vilã. é uma delas. e acho que nem é a principal)

vou guardar esses trechos em alguma pastinha aqui!
obrigado

abraço

Eduardo Silveira disse...

ah, uns PS's!

"O cheque tem uma função inspiradora. Inspira muito. Fiquei completamente inspirado, mais inspirado ainda depois que depositei o cheque." HAHA

Aquele tópico, "ladeira abaixo", dá uma discussão e tanto...
ele soa um tanto anacrônico,defendendo atividades já fora das práticas. mas muita coisa ali faz sentido.
chega de falar. obrigaço!

Guilherme disse...

Adorei. Sem mais palavras... não encontro-as/ hahah

Abraços, gui

Eduardo Silveira disse...

tá guardado,
muitobom, o ubaldo.