quarta-feira, 18 de maio de 2011

Tornando história aquilo que era só memória


Em sua primeira coletânea de contos, Milton Hatoum expõe sementes de histórias que apresentam uma diversidade – a primeira visita a um bordel em 'Varandas da Eva'; uma passagem de Euclides da Cunha em 'Uma carta de Bancroft'; a vida de exilados em 'Bárbara no inverno' ou 'Encontros na península'; o amor platônico por uma inglesinha em 'Uma estrangeira da nossa rua' – ao mesmo tempo que uma singularidade: apresentam-se como frutos do acaso e da biografa pessoal. E é dessa forma que o autor trabalha com temas aparentemente comuns, tendo como cenário sua velha Manaus de rios e turistas estrangeiros. Assim são construídos contos repletos de silêncios e sutilezas, exigindo um leitor atento e participativo.
Milton Hatoum nasceu em Manaus/AM em 1952. Estudou arquitetura, e ensinou Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Estreou na ficção com Relato de um certo Oriente, publicado em 1989 e vencedor do prêmio Jabuti de melhor romance do ano. Seu segundo romance, Dois irmãos (2000), mereceu outro Jabuti e foi traduzido para oito idiomas. Com Cinzas do Norte (2005) Hatoum ganhou os prêmios Jabuti, Bravo!, APCA e Portugal Telecom. Em 2008, publicou Órfãos do EldoradoA cidade ilhada é sua primeira coletânea de contos. Atualmente, é colunista do Estado de S. Paulo e do Terra Magazine.
         Em todos os contos de "A cidade ilhada" há a referência a Manaus, cidade de Hatoum. No conto “Uma carta de Bancroft”, por exemplo, ela se faz presente quando o narrador-personagem conta ter encontrado na biblioteca de Bancroft uma carta inédita do escritor brasileiro Euclides da Cunha sobre Manaus: “Encontrar essa carta inédita em Bancroft, com a caligrafia nervosa de Euclides, é quase um milagre. Mas, para onde vou, Manaus me persegue, como se a realidade da outra América, mesmo quando não é solicitada, se intrometesse em espiral do devaneio para dizer que só vim a Bancroft para ler uma carta amazônica do autor d’Os sertões. Mas há algo nessa missiva além dos reclamos contra o calor de Manaus. A linguagem de Euclides – barroca, sinuosa, exuberante – está presente do início ao fim”.
          Segundo palavras do autor, sobre o livro, “A Cidade Ilhada é um livro de passagem. O primeiro conto ("Varandas da Eva") é um vocativo aos anos 60 e o último conto ("Dançarinos na última noite") se dá 35 anos depois do primeiro, quando a cidade passou por uma violenta industrialização e já anuncia o que vem adiante. Neste último, me inspirei na Terpsícore, musa da dança. A Cidade Ilhada é um arco temporal de alguém que viajou, morou em muitos lugares, feito de narradores nômades. O fato é que não houve interrupção. Não comecei a fazer um livro de contos após romances. Esse livro reuniu contos escritos durante 20 anos. Seis contos que estão neste livro eram inéditos em português. Todos foram reescritos para essa edição. Estou muito feliz porque o meu livro Dois Irmãos, um romance,  está chegando ao patamar de 100 mil exemplares. E vários títulos estão sendo traduzidos. Tudo o que um autor quer são bons leitores”.
            No conto “A natureza ri da cultura” há uma referência clara ao nome do livro, quando o narrador-personagem pergunta ao professor Delatour o que o levara àquela “cidade ilhada, talvez perdida?”. E neste mesmo conto tem-se a presença de um pensar sobre línguas nativas, quando o mesmo professor refere-se a um personagem estudioso dessas línguas: “Verne pensa que pode promover a cultura indígena elaborando cartilhas bilíngues. É um equívoco: não se pode dominar totalmente um idioma estrangeiro, porque ninguém pode ser totalmente outro. Um deslize no sotaque ou na entonação já marca uma distância entre os idiomas, e essa distância é fundamental para manter o mistério da língua nativa”.
Assim Milton Hatoum apresenta sua cidade, Manaus, sua infância, e a escrita: “Tive a sorte de nascer e morar numa cidade portuária, onde não faltam novidades nem aventuras ou casos escabrosos. Além disso, os membros da minha tribo manauara, amigos, parentes e vizinhos não eram figuras de uma natureza-morta. Histórias que vinham de todos os lados, de minha casa, da vizinhança, do porto, dos bordéis-balneários e até da casa do arcebispo. Quando penso na minha infância e juventude, percebo que foi a época em que vivi com mais intensidade, dia e noite. Havia tudo, inúmeras peripécias e também a política, pois meus tios participavam da vida política, que era mais um assunto doméstico. Aos 15 anos saí sozinho e fui morar em Brasília, isso em 1968. E depois morei em São Paulo e fora do Brasil, o que foi importante para minha formação. Chegou um momento em que fiz uma pausa e comecei a escrever sobre esse passado. Mas não queria escrever qualquer coisa, me debrucei no trabalho, na forma do texto, na construção dos personagens”. 
O leitor se depara neste livro de contos do escritor amazonense com referências autobiográficas entranhadas nas histórias de outros personagens. Há uma busca pelos fatos do passado. Na maioria dos contos um fato presente leva os personagens a vivências já sentidas, que marcam fundo. É quando a escrita se faz presente pela voz de alguém que narra, tornando história aquilo que era só memória. Hatoum nos ensina isso.

Ítalo.

2 comentários:

Loba disse...

que prazer é ler uma resenha bem feita. a gente fica com vontade de correr ate´a primeira livraria e literalmente transformar o livro resenhado em alimento!
beijo

Priscila Lopes disse...

gosto do modo como você escreve, faz eu querer ler todos os livros!

um abraço, bom final de semana!