sábado, 14 de maio de 2011

cena de leitura


É impossível me aproximar de Lyris, pensei, enlouquecido numa tarde quente de agosto em que a vi deitada na cama, nua, lendo um livro de capa vermelha. As lentes do binóculo traziam para perto de mim o contorno e os relevos do corpo, os cachos de cabelo ruivo e os olhos verdes. Tranquei a porta da varanda e com as mãos suadas me deliciei com a visão do corpo de Lyris. Vez ou outra ela movia a cabeça, arqueava ou contraía o corpo. Foi a primeira moça que vi assim: leitora e nua, no mormaço da minha cidade. Durou quase uma hora. E a lembrança daquele quadro durou o tempo da juventude. Lyris deixou o livro aberto sobre o travesseiro, esfregou os olhos, depois remexeu no cabelo cacheado, e saiu bruscamente da cama. O quarto vazio me entristeceu, os gritos de outros vizinhos me irritaram. Foquei o binóculo lá embaixo, nas casas da vila, e vi corpos balançando-se devagar, rostos engelhados, cansados. Todos dormindo. As lentes voltaram para Lyris e agora ela estava sentada no chão, manuseando um objeto escuro, de costas para o meu olhar. Virou a cabeça para a janela, se levantou, e aquela cena nunca mais se repetiu.

Página 19 do livro “A cidade ilhada”, de Milton Hatoum. Conto “Uma estrangeira da nossa rua”.
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í.ta** 

6 comentários:

Guilherme Sakuma disse...

Cena maravilhosa, pqp. Sensualíssima a paradinha.

Assis Freitas disse...

tem um filme chamado a Leitora que brinca com esse universo erótico da nudez e da leitura,


abraço

Larissa Santiago disse...

curti

Maeles Geisler disse...

saudades daqui...
quero ler um livro dele também. Por hora estou atarefada com as leituras da aula, com dificuldade de conciliar trabalho e estudo, mas valerá a pena.
Abraço
Maeles

Fernanda Hauptmann disse...

Agora quero ler esse livro!

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

Cadente, suave... gostei... [tem um que de conto que não seria preciso revelar, a despeito de só trecho]... confesso conheci o autor aqui e agora, por teu intermédio... li o 'post' posterior, mt. bom tb [descendente de índios, arquiteto, ministrando aulas de literatura fora, vida bem vivida]...

Forte abraço, Í.ta** :)