terça-feira, 31 de maio de 2011

listar uma ova!

o enzo e o eduardo começaram a listar romances e contos. e eu me meti mesmo, dizendo do absurdo da coisa. ora, onde já se viu?! só louco mesmo pra listar algo do tipo "melhores e piores". 

pois então o enzo fez lista especialmente pra mim. pra provocar, é claro. lista dos filmes, dos melhores, pra ele. e eu digo que gosto do critério que eles utilizaram, de pensar nas histórias (em livro ou em filme) que mais tocaram a cada um deles. faz todo o sentido. mas eu jamais farei isso. eu estaria pisando amargamente em muita coisa boa que em determinado momento da minha vida muito me significou. 

e de outra coisa que muito gostei foram as mini-resenhas escritas pelo enzo para cada filme. acho isso o máximo, satirizar aquilo que muito representa a nós. nada de levar a coisa tão a sério assim. amo mesmo tudo isso.

então seguem as tais listas dos doidos-de-pedras-e-livros-e-afins:
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Meus filmes preferidos. Filmes que amo amo demais, que me construíram. Com certeza já vi mais de cinco vezes cada um. Acompanha mini-resenha debochada. 

1º O Paciente Inglês. Casa de swing no Egito deixa alguém segurando vela, e toda a poesia que se pode tirar disso. 

2º Iris. Judi Dench e Kate Winslet dançam quadrilha para contar duas épocas de vida da escritora Iris Murdoch. Fique longe de cordas, giletes ou fornos a gás.  

3º Contato. Jodie Foster é uma loca hightech do deserto que ganha um presentão da vida. 
 
4º As asas do amor. Helena Bonham Carter faz a exu caveirinha tentando tirar dinheiro de cadáver. 

5º Além da Linha Vermelha. No meio da guerra, os soldados viram filósofos ou budas ou maridos exemplares e ensinam como (não) estar em um lugar.



as famigeradas listas: sempre há quem as critique.
eu adoro. onde há uma, eis eu e minha caneta anotando sugestões.
o enzo potel fez há pouco, um top 3 para romances e contos lidos lá na coluna dele

deixo o meu:
1º Crime e Castigo, do Dostô.
2º O ajudante, de Robert Walser
3º O apanhador no campo de centeio (salinger), O grande Gatsby (Fitzgerald), Inferno (barbusse)? Breve romance de um sonho (schnitzler), O processo (kafka)?

Empate, vai. Não sei precisar qual.

Obs 1: O critério que utilizei foi o mesmo do enzo: obras que vão fundo, que mexem com a gente. porque há várias obras, dentro dos meus "favoritos", que estão lá por outros motivos. Caso do louco "Macunaíma", ou do enfadonho "O ciúme", do Robbe-Grillet, um livro raso como uma poça que não recomendo a ninguém, mas no qual aprecio a cara de pau do autor.

Obs 2: Desculpem-me pelo primeiro lugar óbvio, mas tem que ser. Ele pôs um machado na minha mão.

Obs 3: Se fosse para considerar "A obscena senhora D", da hilst, como um romance, então ele deveria estar aqui. Mas vou contá-lo como uma narrativa curta, prosa poética. Deixo a lista para os romances mais tradicionais.

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E quanto aos contos, céus, que dificuldade. Não consigo definir 3, nem precisar qual o favorito. Alguns:

 - Bliss - katherine mansfield
 - Casa Tomada/As fases de severo de J. Cortázar
 - Nota de pé de página, de Rodolfo Walsh
- A queda da casa de Usher, Poe.
 - A prodigiosa tarde de Baltazar, de Gabriel G. Marquez
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í.ta**

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Linguagem de quem conversa com o leitor

Ao final da narrativa de “Jorge, um brasileiro”, o narrador-personagem declara: “E digo para você que não gosto mais nem de me lembrar dessas coisas, e só me lembro mesmo, quando alguém chega e a gente fica batendo papo”.
Jorge narra suas aventuras como se estivesse batendo papo, o que torna necessário um interlocutor, um leitor, que se prontifica a ouvir desde a primeira frase do romance: “Eu estava com uma fome que vou contar para você”, “Pois é, meu amigo, a coisa é assim (...) Está entendendo?”. A narrativa, assim, baseia-se na oralidade, que não favorece a sutileza e a complexidade. Dessa forma, o romance fica estruturado sem divisões em capítulos, com o texto sendo muito ágil, ligeiro para o leitor, com um ritmo contínuo, apresentando uma linguagem simples.
“Jorge, um brasileiro” é uma história oral de um viajante que tem muito a contar ao seu ouvinte/leitor. Jorge narra suas aventuras com base em suas próprias experiências, na vivência do dia a dia das estradas por onde rodou. Uma narrativa tendo como fio condutor uma história principal que abre para histórias secundárias. Como uma avenida que recebe ruas transversais.
O uso de frases longas, de muitos relativos e de muitas conjunções são exemplos de como o livro se utiliza de uma linguagem que remete à oralidade. As pausas de respiração apresentam a característica de quem fala, e não de quem escreve. Narrado em primeira pessoa pelo personagem principal Jorge, o livro conta as aventuras deste caminhoneiro. E conta como se estivesse falando in loco com seu interlocutor, seu ouvinte e/ou leitor. Esta é uma característica muito considerada no romance, que lhe rendeu o Prêmio Walmap de 1967 (O livro ainda deu origem ao seriado de televisão “Carga Pesada”, e recentemente foi transformado em filme de grande produção, com direção de Paulo Thiago, tendo nos papéis principais os atores Carlos Alberto Riccelli, Dean Stockwell, Paulo Castelli, e as atrizes Denise Dumont e Glória Pires).
Conforme é escrito por Antônio Olinto no Prefácio da obra, “É com essa espécie de sabedoria do narrador que finge dirigir-se a uma só pessoa – e pode dirigir-se a muitas – que Oswaldo França Júnior conta as andanças de Jorge. A história vai do começo ao fim de uma só vez. Não há divisões de capítulos nem retenção do fluxo da narrativa. Sem parar, o narrador começa a falar (a impressão do leitor se fixa mais no estar ouvindo do que no estar lendo) e, falando, chega, quase no mesmo fôlego, ao término do que tinha a dizer. O narrador fala para cada um, chama esse cada um de ‘você’, interrompe um caso e, como acontece nos relatos orais, parece ter perdido o fio da meada (e o leitor-ouvinte pensa que ele não mais conseguirá reatar a corrente da estória), mas volta ao caso anterior, às vezes, sem haver terminado o que se intercalara (e o leitor-ouvinte torna a achar que, desta vez, o caso do meio é que ficará sem fim). Depois de muitas veredas de estórias, porém, de muito caso puxa-saco e de uma série de considerações intermediárias, o narrador fecha o romance com extraordinário senso de completidão sem, contudo, encerrá-lo por completo”. 
           Neste romance, Oswaldo França Júnior apresenta ao leitor o universo dos motoristas de caminhão, suas máquinas, as distâncias que precisam percorrer, as paradas, as distrações no meio do caminho, os infortúnios de toda viagem. E tudo isso é contado de modo muito digno e sincero. “Trata-se da confidência em voz alta, confidência democratizada, que fala de experiências vividas e deseja colocar o outro, que a ouve, em contato claro e aberto com uma realidade não mais presente”. É apresentado ao leitor um Jorge, sim, brasileiro. De um Brasil que se descobre à medida que se lê. De um Brasil dos motoristas, que se conhece à medida que se viaja.

Ítalo.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

"tudo é amrik"


O mais interessante ao ler e estudar "Amrik", da Ana Miranda, é saber que a autora nunca esteve no Líbano, embora seja casada com um descendente de libaneses, o sociólogo Emir Sader. Segundo as palavras da mesma, “Este livro surgiu como uma homenagem a meu marido, Emir Sader, que é filho de libaneses. (...) Foi uma tentativa de conhecê-lo melhor, através de suas raízes”. 
A escrita leva a um conhecer-se que extrapola sentidos. Isso é muito natural a quem escreve. E a quem lê, parece-me. 
No final do século XIX, muitos cristãos libaneses pobres emigraram para a América – Amrik, em libanês. Mas nada era simples. "Os libaneses saíam do Líbano, pensavam que estavam indo para a América do Norte [...] e desembarcavam na América do Sul. Quando iam reclamar que estavam na América errada, o estafeta dizia: 'Tudo é América!'". A São Paulo do final do século passado retratada pelos olhos de uma dessas imigrantes – a bela Amina, dançarina "dona de um narizinho de serpent of the Nile".
No Jardim da Luz, em São Paulo, final do século XIX, o imigrante libanês cego Naim Salum pergunta à sobrinha Amina se aceita casar com o mascate Abraão. A pergunta lança a dançarina num mergulho em suas lembranças, desde a infância no Líbano, quando a avó a ensinava a dançar no teto de casa, até sua imigração para a América – Amrik – e a chegada ao Brasil.
A história de Amina é contada numa linguagem que floresce das partes profundas da mente. Dividida em 11 partes, apresenta-se ousada, livre, tecida com antigos poemas árabes, imagem das Mil e uma noites, receitas da cozinha libanesa, canções, fábulas, sons, ritmos, crenças, livros de delícias e prazeres.
A pontuação das frases ditas pelos personagens é bastante marcada pela oralidade, algo que também pode ser observado no uso de onomatopeias: “Tenura cantava na cozinha e tilintava suas pulseiras tlinq tlinq tinqlqlql”; “E depois do maldito casamento o Abraão sumiu desapareceu virou fumaça shshshshsft”.
Ao iniciar a leitura do livro, o leitor se depara com uma epígrafe no mínimo inquietante: “Ser livre é, frequentemente, ser só”. Verso do poeta inglês W. H. Auden, esta frase, isolada numa página, abre para leituras que deixam o leitor na dúvida do porquê dela estar ali, e que, a cada página, a cada detalhe a mais que se conhece de Amina, entende-se. Entende-se a frase e entende-se a personagem. Uma personagem que busca a liberdade desde o começo, mas que sofre com a solidão que acaba vivendo nessa busca. Ao final, Amina cede a um estar-acompanhada, mesmo que seja de alguém por quem ela não nutre grande amor. Sua grande paixão, Chafic, ela não consegue alcançar. E entre continuar livre, mas só, prefere a companhia de alguém. 
A história de Amina pode ser, sim, a história de muitas pessoas na luta da liberdade contra a solidão. Acredito muito que sim. 

Ítalo.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Tornando história aquilo que era só memória


Em sua primeira coletânea de contos, Milton Hatoum expõe sementes de histórias que apresentam uma diversidade – a primeira visita a um bordel em 'Varandas da Eva'; uma passagem de Euclides da Cunha em 'Uma carta de Bancroft'; a vida de exilados em 'Bárbara no inverno' ou 'Encontros na península'; o amor platônico por uma inglesinha em 'Uma estrangeira da nossa rua' – ao mesmo tempo que uma singularidade: apresentam-se como frutos do acaso e da biografa pessoal. E é dessa forma que o autor trabalha com temas aparentemente comuns, tendo como cenário sua velha Manaus de rios e turistas estrangeiros. Assim são construídos contos repletos de silêncios e sutilezas, exigindo um leitor atento e participativo.
Milton Hatoum nasceu em Manaus/AM em 1952. Estudou arquitetura, e ensinou Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Estreou na ficção com Relato de um certo Oriente, publicado em 1989 e vencedor do prêmio Jabuti de melhor romance do ano. Seu segundo romance, Dois irmãos (2000), mereceu outro Jabuti e foi traduzido para oito idiomas. Com Cinzas do Norte (2005) Hatoum ganhou os prêmios Jabuti, Bravo!, APCA e Portugal Telecom. Em 2008, publicou Órfãos do EldoradoA cidade ilhada é sua primeira coletânea de contos. Atualmente, é colunista do Estado de S. Paulo e do Terra Magazine.
         Em todos os contos de "A cidade ilhada" há a referência a Manaus, cidade de Hatoum. No conto “Uma carta de Bancroft”, por exemplo, ela se faz presente quando o narrador-personagem conta ter encontrado na biblioteca de Bancroft uma carta inédita do escritor brasileiro Euclides da Cunha sobre Manaus: “Encontrar essa carta inédita em Bancroft, com a caligrafia nervosa de Euclides, é quase um milagre. Mas, para onde vou, Manaus me persegue, como se a realidade da outra América, mesmo quando não é solicitada, se intrometesse em espiral do devaneio para dizer que só vim a Bancroft para ler uma carta amazônica do autor d’Os sertões. Mas há algo nessa missiva além dos reclamos contra o calor de Manaus. A linguagem de Euclides – barroca, sinuosa, exuberante – está presente do início ao fim”.
          Segundo palavras do autor, sobre o livro, “A Cidade Ilhada é um livro de passagem. O primeiro conto ("Varandas da Eva") é um vocativo aos anos 60 e o último conto ("Dançarinos na última noite") se dá 35 anos depois do primeiro, quando a cidade passou por uma violenta industrialização e já anuncia o que vem adiante. Neste último, me inspirei na Terpsícore, musa da dança. A Cidade Ilhada é um arco temporal de alguém que viajou, morou em muitos lugares, feito de narradores nômades. O fato é que não houve interrupção. Não comecei a fazer um livro de contos após romances. Esse livro reuniu contos escritos durante 20 anos. Seis contos que estão neste livro eram inéditos em português. Todos foram reescritos para essa edição. Estou muito feliz porque o meu livro Dois Irmãos, um romance,  está chegando ao patamar de 100 mil exemplares. E vários títulos estão sendo traduzidos. Tudo o que um autor quer são bons leitores”.
            No conto “A natureza ri da cultura” há uma referência clara ao nome do livro, quando o narrador-personagem pergunta ao professor Delatour o que o levara àquela “cidade ilhada, talvez perdida?”. E neste mesmo conto tem-se a presença de um pensar sobre línguas nativas, quando o mesmo professor refere-se a um personagem estudioso dessas línguas: “Verne pensa que pode promover a cultura indígena elaborando cartilhas bilíngues. É um equívoco: não se pode dominar totalmente um idioma estrangeiro, porque ninguém pode ser totalmente outro. Um deslize no sotaque ou na entonação já marca uma distância entre os idiomas, e essa distância é fundamental para manter o mistério da língua nativa”.
Assim Milton Hatoum apresenta sua cidade, Manaus, sua infância, e a escrita: “Tive a sorte de nascer e morar numa cidade portuária, onde não faltam novidades nem aventuras ou casos escabrosos. Além disso, os membros da minha tribo manauara, amigos, parentes e vizinhos não eram figuras de uma natureza-morta. Histórias que vinham de todos os lados, de minha casa, da vizinhança, do porto, dos bordéis-balneários e até da casa do arcebispo. Quando penso na minha infância e juventude, percebo que foi a época em que vivi com mais intensidade, dia e noite. Havia tudo, inúmeras peripécias e também a política, pois meus tios participavam da vida política, que era mais um assunto doméstico. Aos 15 anos saí sozinho e fui morar em Brasília, isso em 1968. E depois morei em São Paulo e fora do Brasil, o que foi importante para minha formação. Chegou um momento em que fiz uma pausa e comecei a escrever sobre esse passado. Mas não queria escrever qualquer coisa, me debrucei no trabalho, na forma do texto, na construção dos personagens”. 
O leitor se depara neste livro de contos do escritor amazonense com referências autobiográficas entranhadas nas histórias de outros personagens. Há uma busca pelos fatos do passado. Na maioria dos contos um fato presente leva os personagens a vivências já sentidas, que marcam fundo. É quando a escrita se faz presente pela voz de alguém que narra, tornando história aquilo que era só memória. Hatoum nos ensina isso.

Ítalo.

sábado, 14 de maio de 2011

cena de leitura


É impossível me aproximar de Lyris, pensei, enlouquecido numa tarde quente de agosto em que a vi deitada na cama, nua, lendo um livro de capa vermelha. As lentes do binóculo traziam para perto de mim o contorno e os relevos do corpo, os cachos de cabelo ruivo e os olhos verdes. Tranquei a porta da varanda e com as mãos suadas me deliciei com a visão do corpo de Lyris. Vez ou outra ela movia a cabeça, arqueava ou contraía o corpo. Foi a primeira moça que vi assim: leitora e nua, no mormaço da minha cidade. Durou quase uma hora. E a lembrança daquele quadro durou o tempo da juventude. Lyris deixou o livro aberto sobre o travesseiro, esfregou os olhos, depois remexeu no cabelo cacheado, e saiu bruscamente da cama. O quarto vazio me entristeceu, os gritos de outros vizinhos me irritaram. Foquei o binóculo lá embaixo, nas casas da vila, e vi corpos balançando-se devagar, rostos engelhados, cansados. Todos dormindo. As lentes voltaram para Lyris e agora ela estava sentada no chão, manuseando um objeto escuro, de costas para o meu olhar. Virou a cabeça para a janela, se levantou, e aquela cena nunca mais se repetiu.

Página 19 do livro “A cidade ilhada”, de Milton Hatoum. Conto “Uma estrangeira da nossa rua”.
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í.ta** 

quarta-feira, 11 de maio de 2011

leituras que marcam

sexta-feira passada dei minha última aula no colégio de jaraguá do sul em que lecionava literatura desde 2007. os colégios em que agora leciono são outros. os alunos são outros. os trabalhos desenvolvidos são outros. as leituras - de mundo e de livros - são outras. nem melhores nem piores. apenas outras. e o que mais marca a mim nesses anos são os livros lidos com aqueles alunos. fica muito claro como uma leitura é sempre uma nova leitura a cada vez que é feita. porque um mesmo livro eu li, por exemplo, com quatro diferentes turmas, em quatro diferentes anos. e em cada leitura era um novo livro para mim. e para eles, claro. e você jamais vai contribuir para a formação de um aluno leitor sem ler com este aluno. a preposição é mais "com" do que "para". e o imperativo do verbo ler pouco deve constar nessa mediação. é preciso ler junto, não mandar ler. e era isso o que eu mais fazia com aquela guriada. que no começo sentiu bastante a diferença. o não estar acostumado a ler em sala foi um empecilho. mas quando a prática é feita com gosto, com paixão, ela contagia. e agora eu saio de lá e ouço e leio de alguns alunos dizeres como este: "vou sentir falta é de suas leituras". e eu não preciso de mais nada para tocar a vida em frente com a sensação de que algo foi bem feito nesse trajeto. com a certeza de que alguém se encantou com "os meninos da rua paulo", ou com o "as aventuras de robinson crusoé". que alguém entrou na história do "sofá estampado", ou da "flauta mágica", ou do "cadáver na banheira". que alguém se permitiu conhecer "o espelho dos nomes", "moby dick" e "de repente, nas profundezas do bosque". que alguém correu atrás do "diário de anne frank" após ler apenas alguns trechos em sala. até que chega um momento em que os livros pedem novos leitores. às vezes partem em busca disso. ou são levados para. e eu sou um levador de livros. assim despeço-me desses alunos-leitores.

ítalo.

domingo, 8 de maio de 2011

livro como puta

Acabou de sair daqui do sebo um senhor que deixou uns 100 livros excelentes. Fiquei de olho, autores que nunca vi; já googlelizei. Quando fui levar no carro os livros novos dele (pelos quais trocou aqueles bons), e puxei papo sobre os autores, ele não sabia dizer absolutamente nada sobre os livros.
Sei que isso é normal, mas ainda me pega de surpresa. É como ver um homem tratando uma mulher como uma prostituta. Esse tipo de gente não falta, tanto homem como mulher: leem muito. Grandes leitores? Nem um pouco. Passam por um livro como quem vê uma paisagem de um trem.
Não adianta culpar falta de memória, isso é leitor ruim mesmo. Não entra no livro, não deixa o livro entrar. Até os livros que não gostei, e que li pela metade ou com má vontade, entraram em mim.
Esses leitores são daqueles que veem título e autor na prateleira, compram, e quando chegam em casa, descobrem que já leram. É absurdo, é tratar livro como puta.
 
Enszö Pohtél