sábado, 9 de abril de 2011

O inimigo


Existe alguém
Que está contando com você
Pra lutar em seu lugar
Já que nessa guerra
Não é ele quem vai morrer...

E quando longe de casa
Ferido e com frio
O inimigo você espera
Ele estará com outros velhos
Inventando
Novos jogos de guerra.

(Canção do Senhor da Guerra, Legião Urbana)

       Publicado em 2008 pela editora Cosac Naify, com tradução de Paulo Neves, e ilustrações de Serge Bloch, o livro do escritor suíço Davide Cali se apresenta como um livro que, para ser lido, precisa ser tocado e explorado em todas suas dobras e dimensões. A começar pelas imagens presentes na capa e na quarta capa, com detalhes sutis (com o perdão do pleonasmo) que podem passar despercebidos pelo leitor mais ávido pelo texto escrito. Sem contar, então, a primeira e a última folha do livro, que se tornam uma só com suas respectivas orelhas. As imagens de vários bonequinhos-soldados, repetidos, causa um efeito visual que envolve o leitor antes mesmo dele entrar na história (e fica uma surpresa, para quem ainda não leu este livro, na orelha da quarta capa).
            O texto escrito em si conta uma história narrada em primeira pessoa. Uma história com dois personagens centrais. Quem narra? Não se sabe. Fica a critério do leitor adivinhar ou escolher quem está contando para ele a história de como um soldado aprende a guerrear. Através de um manual de instruções. Um simples manual: “O manual diz tudo sobre o inimigo: devemos matá-lo antes que ele nos mate, porque é cruel e impiedoso. Se nos matar, ele dizimará nossas famílias. E nem assim ficará satisfeito. Matará também os cachorros, depois todos os animais, queimará os bosques, envenenará a água. O inimigo não é um ser humano”.
            O leitor se depara, então, com dois soldados que não sabem o que estão fazendo em seus respectivos buracos. Não sabem o que estão protegendo, nem de quem. Apenas sabem que há um inimigo. E que este inimigo precisa ser morto. Para que uma guerra acabe, é preciso que uma das duas forças seja derrotada. Assim diz o manual. E o que mais querem os dois soldados é o término da guerra. Para isso, então, eles buscam um meio de alcançar o esconderijo do outro.
            É o momento em que os dois soldados percebem que o inimigo presente no manual deles podem ser eles mesmos: “Eu sou um homem, este manual só diz mentiras. Não fui eu que comecei esta guerra! E não vou matar os animais nem queimar os bosques nem envenenar a água, se ele se render!”.
            “O inimigo” se apresenta como um livro. Mas pode também ser um espelho. Um espelho entre os dois personagens, porque o que um diz ou pensa, pode também ser dito ou pensado pelo outro, ou um espelho para o próprio leitor, uma vez que entrar num livro significa se ver dentro e diante dele, encontrar a si mesmo por ali, deparar-se com um consigo mesmo antes desconhecido.

í.ta**

5 comentários:

livia soares disse...

Interessante reflexão.
Jogo de espelhos que nos desconcerta.
A literatura está aqui... por todo este blog.
Um abraço.

**** disse...

bonito convite.
e o livro é lindo mesmo, sensível
pacas.

Anônimo disse...

que bando de asteriscos é esse?
esse aí de cima sou eu!!

eduardo s.

Ph disse...

Muito foda mesmo esse livro.
É desconcertante como ele consegue tratar de um tema tão soco-no-estômago de uma forma (até certo ponto) infantil e filosófica.
Existe também outro livro parecido, O Menino, a Guerra e a Bola, já lestes?
Abraço

Cristina Lira disse...

Nas minhas andanças pela blogosfera encontrei teu cantinho, lindo demais por sinal, aconchegante...

E é claro que vou ficar por aqui, curtindo um pouco mais todas essas palavras...


Beijos no coração e bom fim de semana pra vc...

http://passossilenciosos.blogspot.com