domingo, 3 de abril de 2011

Brown & Borges



Pensar literatura como portas, não como escadas. Nunca um Dan Brown vai te levar a um Borges. Se eu não gosto de Henry James eu não preciso ler mil autores para alcançar aquele homem: o leitor maduro se encontra no mesmo nível que todos os autores maduros – rotulados como gênios ou não. E linguagens literárias lhe atraem como um paladar que muda de repente: ninguém precisa aprender a gostar de raiz-forte. A vida não-intelectual do leitor é obviamente quem também lhe dita o que toca e o que não toca. Então se traição para mim nunca foi um dilema (ou seja: nunca foi vida), eu não preciso achar Dom Casmurro genial. Eu não preciso alcançar Machado de Assis. Genialidade não deve nem precisa ser unânime. É claro que o exemplo ali do Dom Casmurro foi superficial e eu precisava escrever outro texto sobre as camadas de um livro, sobre as inúmeras maneiras que ele tem de nos pegar. Sem falar que às vezes uma obra é algo tão novo na nossa vida, tão estranho, que somente uma primeira leitura (feita com desgosto ou ausência de sentir) é a única vivência necessária para que na releitura a gente descubra que ela é inteiramente nós. A leitura quando é boa continua na cabeça. Já li muito livro tomando banho.  

por Enzo Potel, originalmente aqui.
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í.ta**

7 comentários:

Dilberto L. Rosa disse...

Pois Machado, pra mim e pra muitos leitores maduros, continua genial, pelas camadas de narrativa, de Literatura e de sentires de cada linha, de cada personagem... Uma pena não te arrebatar... Mas que é genial, objetivamente falando (e me atrai, deveras), lá isso é, sim!

Mas estás certo quanto ao contínuo 'leit motiv' de cada u: é ele quem define se Borges ou se Brown é que irá triunfar! Senão, a gente larga o livro no terceiro capítulo, como bem o disseste na postagem anterior! Abração e apareça!

Ana SS disse...

Genial!

Já vi muitas leituras grudarem no travesseiro.

Assis Freitas disse...

e sentir as palavras se derramando sob o efeito ducha,


abraço

Ph disse...

Realmente, a boa leitura é aquela que te faz levar além do livro, é o que penso.

Moni. disse...

Enzo certeiro, ainda que eu considere Dom Casmurro um primor...

Cada leitor com seus olhos e seus sentires, né?

Beijim

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

Dom Casmurro é um canalha que todo mundo gosta

Ilaine disse...

Ítalo, que interessane texto de Enzo. Fui visitar o seu blog, obrigada pela indicação.

E sim, uma obra, muitas vezes, não nos toca de primeira. Ficamos, então, somente na borda de seu valor e não enxergamos o essencial. Depois, em outro dia, descobrimos um verdadeiro tesouro e podemos ler "debaixo da ducha". Quanto a Machado de Assis- sempre um marco na literatura. Beijo