sábado, 30 de abril de 2011

Histórias que eu ouvi e gosto de contar

O universo indígena é habitado por muitas histórias. São todas bastante vivas, porque reais. (MUNDURUKU, Daniel)

            O título deste escrito é também o nome de um dos livros do escritor Daniel Munduruku, autor de “Parece que foi ontem” e “Do mundo do centro da Terra do mundo de cima”, entre outros, todos livros que apresentam como temática mitos e lendas indígenas.
            É sabido que a prática de contar e de ouvir histórias é muito mais antiga do que podemos imaginar. Remete a nossos ancestrais mais primitivos. Muito antes da invenção do papel ou do livro ela já se fazia presente, deixando marcas culturais em diferentes épocas, registrando fatos e causos, ainda que por um tempo determinado, uma vez que a história oral não garante a eternidade do que é contado (se pensarmos bem, nem mesmo as histórias impressas, no ritmo de produção, de publicação e de consumo que temos hoje, garantem isto).
            Na cultura indígena, por exemplo, a maior felicidade alcançada pelos homens é a de ser avô, pela oportunidade que se apresenta a eles de contar histórias, muitas histórias, a seus filhos e netos. A oralidade é marca importantíssima nesta cultura, mas não só ela. A quantidade de livros que vem sendo publicada contando ou recontando mitos indígenas sugere a preocupação que existe na divulgação e no alcance dessas histórias através de outros meios.
            Daniel Munduruku é indígena. Nascido em Belém(PA), índio da nação Munduruku, “nasceu índio e gosta de ser índio”, conforme é apresentado em seus livros. É formado em Filosofia pela UNISAL – Lorena, e é diretor-presidente do Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual – INBRAPI, cujo objetivo é a defesa do patrimônio cultural e dos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas brasileiros.
O escritor indígena com maior repercussão atualmente é autor premiado de muitos livros com histórias que apresentam ao leitor mitos e lendas do universo indígena, como “Coisas de índio”, “As serpentes que roubaram a noite” e “O segredo da chuva”. Mitos e lendas porque lenda é a forma como o mito é contado. Toda lenda apresenta um mito. Mas nem todo mito é apresentado por uma lenda. Lenda vem do latim legere, que significa ler. Mito é palavra grega que significa discurso, oralidade. No mito existe a busca de um porquê para a vida, que muitas vezes é contado em uma lenda.
            E aqui se apresenta ao leitor o recontar. Porque um mito pode ser contado e recontado de diferentes formas, diversas vezes. Para o mito de como surgiu a noite, por exemplo, Munduruku apresenta dois livros, citados no primeiro parágrafo deste escrito. Conforme conta a Clarice, em “Como nasceram as estrelas”, “Sempre, é uma história que não acaba nunca”.
            Para construir é preciso, antes, desconstruir. Pensar mitos e lendas pode ser seguir esse caminho da reconstrução. Do reconto. É isto que faz perpetuar histórias por gerações. A história é manutenção de vida das/nas coisas. A história é construção de identidade de um povo. A perda de identidade é parte do processo de morte de uma cultura. Diante disso, precisamos, como leitores e professores, dos contos e de seus recontos. Dos mitos e das lendas. Das diversas formas de perpetuarmos histórias e vidas. Histórias de vidas. Isto porque contar histórias, todos contamos. E, ao contarmos histórias, contamos a nós mesmos.
Minha lida com o texto literário – como leitor e como professor – é o de pensá-lo sempre como uma possibilidade de ressignificação. Junto ao texto literário é preciso que o aluno reconstrua. E para reconstruir é preciso, antes, que o texto seja destruído pelo leitor. Ou seja, objetivo que meu aluno produza sobre o texto que lê, construa seus sentidos para o que está lendo, ressignifique o texto com o qual está em contato. Literatura precisa ser contato. Toda leitura precisa ser um contato. Não contato no sentido físico exatamente. Mas contato no sentido de tocar em algo, produzir algo novo a partir desse novo toque, uma vez que nos ressignificamos o tempo todo, pelo simples fato de vivermos uns com os outros.
São vidas com as quais nos deparamos nas histórias da cultura indígena e também nas histórias sobre passarinhos, por exemplo. São vidas diferentes? Claro que são. Cada vida é uma vida. Mas a diferença não reside só nisto. Reside no modo como são contadas. O Bartolomeu Campos de Queirós, por exemplo, conta que

Para bem criar passarinhos é necessário ter o corpo capaz de escutar o silêncio das pedras, o som do vento nas folhas, o ruído de soluços preso em garganta. (...) Para bem criar passarinho há que se sonhar borboleta, anjo ou estrela cadente. É importante ter imensas intimidades com o nada, admirar o vazio e um especial encantamento pelo azul que existe muito depois das nuvens, infinito adentro.

Já o Marcos Bagno não conta sobre passarinhos, mas sim sobre corujas. Ou, mais especificamente, sobre Murucututu, a grande coruja da noite, que é “mais que grande, enorme. Seu gemido ecoa pela noite, Murucututu, arrepiando os corações de quem se atreve a escutar”.
É a avó quem conta para a sua neta a história de Murucututu, com a intenção de frear os avanços da menina na descoberta do mundo. Mas esta neta não temia nem o mundo nem as histórias: “Achava bonito só pela beleza de ser história, lenda, conto, fantasia de miragem mirabolante. Mas acreditar, ela, isso mesmo é que nunquinha”.
            Talvez porque contar histórias seja compor os silêncios sugeridos pelo Manoel de Barros. Os silêncios que cada um traz dentro de si para compartilhar ao contar e ouvir uma história. Porque há silêncios que falam. E aprendendo isto a gente aprende o que ninguém nunca soube. Adivinha mistérios. Sente de longe o cheio de algum segredo. E até consegue enxergar no escuro. Como faz a personagem que avoa com Murucututu.
            Contar histórias pode ser também fazer voar as palavras para encontrar seus silêncios a serem compostos.

Referências Bibliográficas

BAGNO, Marcos. Murucututu: a coruja grande da noite. Ilustrações Nelson Cruz. São Paulo: Ática, 2005.

LISPECTOR, Clarice. Como nasceram as estrelas. São Paulo: Nova Fronteira, 1999.

MUNDURUKU, Daniel. Histórias que eu ouvi e gosto de contar. Ilustrações: Rosinha Campos. São Paulo: Callis, 2004.

MUNDURUKU, Daniel. Parece que foi ontem. Ilustrações: Maurício Negro. São Paulo: Global, 2006.

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Para criar passarinhos. São Paulo: Editora Global, 2009.
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Ensaio produzido para o PROLIJ - Programa Institucional de Literatura Infantil Juvenil da UNIVILLE. 

í.ta**

domingo, 24 de abril de 2011

sem título



ontem sonhei outra vez com o decote seu uma parte isolada de ti separada mesmo assim ele se apresenta a mim tenho-o como um objeto inalcançável talvez intocável algo que se alcança com o olhar ou com uma ideia deste olhar mas não com o toque nunca com o toque

[como aquele poema mais marcante daquele livro de poesias em que você rasga a folha guarda-a consigo mas somente o alcança – o poema – através da leitura que dele faz até que ele se torne parte corpórea sua e então você não precise mais nem lembrar de onde você o roubou]


í.ta**

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O meu professor de literatura

O homem que desistiu de "assassinar" livros em sala de aula para abrir uma livraria.

por Claudia Lage, aqui.


Às vezes, eu costumava matar aula no colégio para ir ao cinema, outras vezes, vejam só, para ir à biblioteca da escola mesmo. Foi estranho quando, um dia, o meu professor de literatura da época me encontrou numa dessas vezes entre as estantes, procurando um livro. Naquela hora, na minha turma, era a aula dele. Por algum motivo, ele precisou deixar a sala e ir à biblioteca rapidamente. Teve um espanto ao me ver ali. Não sei se por que eu matava a sua aula, ou por que fazia isso na biblioteca, com um livro nas mãos. Ele me olhava e olhava o livro. Ia e voltava com os olhos, perplexo. Eu não soube, por um instante, se devia justificar a minha ausência na sala ou o fato de ter escolhido um lugar cheio de livros para faltar à aula de literatura. Quando enfim comecei a gaguejar alguma coisa, ele se afastou, transtornado, e saiu, mas não antes de olhar mais uma vez o livro que eu tinha nas mãos, com evidente ressentimento.
Eu havia cometido algum delito grave para aquele professor. O fundo em meu estômago dizia isso. Não podia ser só a aula. Outros alunos também a matavam de vez em quando, e ele depois lhes chamava a atenção com uma seriedade divertida e irônica. Nada de perplexidades constrangidas. Olhares graves e ressentidos. Aquela reação perturbadora ele havia reservado apenas para mim. Mas, tampouco, devia ser a biblioteca, ou era? O livro suava em minhas mãos, assumindo talvez a culpa. Levei-o para casa, apertando-o em meu peito. Éramos cúmplices, nós dois, de um ato horrível e misterioso contra o professor. Naquela noite, tive pesadelos. Os olhos do professor tomavam inteiramente o seu rosto, e me enfrentavam indignados e ofendidos.
Na aula seguinte, tentei me comportar da melhor maneira possível. Não passei o tempo olhando para a janela, como costumava fazer, em busca de um horizonte qualquer. Nem me distraí com rabiscos, desenhos e frases inúteis no caderno. Fixava o professor com atenção exagerada, tentando absorver e compreender tudo o que ele dizia sobre o estilo de época Arcadismo, anotando bucolismo e pastoralismo com caligrafia exemplar, e assentindo com a cabeça toda a vez que seus olhos passavam por mim e não me viam. Ao contrário do meu pesadelo, o professor não me olhava mais. Era dessa forma retraída que ele lidava com o ressentimento. Eu, por outro lado, assumia todas as culpas na medida em que ele silenciosamente me acusava. No corredor, evitava cruzar comigo, e se me via no pátio lendo um livro, como eu gostava de fazer, mudava de direção como se estivesse diante de um obstáculo intransponível. Era sempre à noite, na escuridão da insônia, que eu ruminava as atitudes do professor e repassava a matéria. Romantismo: nacionalismo, exaltação do eu. Realismo: racionalismo, crítica social. Não sei por que, naquele dia, eu achei que ele tremera um pouco durante a aula, a voz rasgando a garganta, ao dizer, crítica social.
Semanas depois, eu percebi: o professor não fazia mais a barba, engordava, e, como se não tivesse mais nada a fazer, envelhecia. Se antes não era alegre nem triste, agora não era, simplesmente. Entrava na sala de aula resignado, dizia algumas coisas, escrevia outras, para depois desaparecer. A sua apatia era tão grande que um dia ele deve ter se esquecido que sua presença era aguardada e realmente desapareceu. "Viajou", explicou a diretora, como se o fato de alguém ir de um lugar para o outro explicasse tudo. E assim os anos se passaram sem notícias do professor.
Nos encontramos anos depois, por acaso, numa livraria. Eu a freqüentava sempre, e não sabia que, desde que entrei pela primeira vez ali, era observada pelo professor. Já sentia o livro suando em minhas mãos, quando ele me cumprimentou, perguntando se eu era eu, a sua aluna. Sim, confirmei. Ele me olhava e olhava o livro, como nosso constrangido encontro na biblioteca da escola. De repente, me abraçou, com uma gratidão que eu não pude entender. Mas, em seguida, o professor foi de uma claridade imprevista, de fechar os olhos. Uma de suas alegrias era me ver ali em sua livraria, ele disse. E sorriu, confirmando, sim, sou livreiro. E pegando um livro, levou-o ao peito. A capa sobre o coração, enquanto ele confirmava a satisfação de ver que eu continuava a gostar de ler, apesar de suas aulas. Aquele dia na biblioteca ressurgiu então entre nós. Me ver matar a aula de literatura para ler foi a gota d'água para o professor. Havia passado a noite anterior preparando uma aula de literatura, elencando, não poetas e escritores, seus textos e suas poesias, mas características, datas e nomes que os alunos não podiam deixar de saber, porque ia cair na prova, porque estava no currículo do semestre. Às vezes, conseguia uma aula ou outra para os textos, mas era pouco, muito pouco. Até me ver na biblioteca, o professor me julgava uma aluna desinteressada e desinteressante, daquelas que não se avista o futuro. Não me imaginava abrindo um livro, como podia supor que eu era uma leitora? Mas eu era, e, para ele, havia sido como um marido, que sempre considerara a esposa frígida, descobrir que ela tem um amante. Eu, que já tinha idade e altura para sorrir dessa imagem, sorri, profundamente feliz. O professor abraçava o livro, apaixonado. Contou que um dia, se levantou da cama, se arrumou para ir trabalhar, saiu de casa, mas, em vez de ir à escola, foi para uma livraria. No dia seguinte, pediu demissão. Juntou dinheiro, conseguiu um empréstimo e abriu uma pequena livraria, que se expandira em outras. "Eu queria estar perto dos livros", explicou. "Antes, eu achava que podia ser professor de literatura impunemente", disse. O professor entrara na escola cheio de esperanças de mudar o modo em que é feito o ensino da literatura, de driblar, dia a dia, o sistema. Mas foi ao contrário, era o sistema que estava, pouco a pouco, mudando o professor, encurralando-o numa sala escura. "Até te ver na biblioteca, eu não tinha a real consciência da dimensão do que eu fazia. A cada aula, eu matava um livro. A cada aula, um leitor morria."
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í.ta**

domingo, 17 de abril de 2011

twitt fora do twitter #12



o "felizes para sempre" nesse mundo pós-moderno mudou para "o pra sempre sempre acaba".


í.ta**

twitt fora do twitter #11


são dois:


. esse mundo pós-moderno é dadaísta.

. mais do que ser inteligente, a gente precisa aprender a ser sensível.


í.ta**

segunda-feira, 11 de abril de 2011

o ensaio


as três postagens abaixo estão presentes num ensaio de minha autoria, "fraturas emocionais: marcas leitoras", escrito para o blog do prolij, no qual apresento esta relação entre três livros cujas propostas são a de ressignificar as guerras a partir do texto literário.

o ensaio completo, com estes três textos mais introdução e conclusão, pode ser lido aqui.

ítalo.

Um fio de esperança


Mais uma guerra sem razão
Já são tantas as crianças
Com armas na mão
Mas explicam novamente
Que a guerra gera empregos
Aumenta a produção...

Uma guerra sempre avança
A tecnologia
Mesmo sendo guerra santa
Quente, morna ou fria
Prá que exportar comida?
Se as armas dão mais lucros
Na exportação.

(Canção do Senhor da Guerra, Legião Urbana)

            A produção mais recente das três abordadas neste ensaio é de autoria de Marjolijn Hof, escritora holandesa. Seu livro, aqui no Brasil traduzido com o título de “Um fio de esperança”, publicado em 2010 também pela Editora Martins Fontes, coloca diante do leitor a história de Lili, uma menina que sente na pele a agonia da espera por alguém que partiu para guerrear, com ou sem manual à disposição.
            Mesmo tendo aprendido com seu pai que acidentes acontecem em qualquer lugar, Lili narra o livro deixando claro que entre a teoria ensinada pelo pai e a prática de senti-lo longe, sem notícias frequentes, e exposto a um ambiente de guerra, fica um fio de esperança de que acidente nenhum aconteça, ainda mais devido à atividade que seu pai realizava por lá: “Meu pai ia para a guerra. A bagagem já estava pronta, só faltava dizer tchau. Ele ia bastante para a guerra. Pelo menos uma vez por ano. Em geral, as pessoas fogem da guerra como o diabo foge da cruz, mas meu pai ia lá para trabalhar. Ele é médico humanitário: no campo de batalha, precisam de gente como ele. Ele gostava muito de ser útil”.
            É assim que começa o livro. Com esta apresentação, escrita por Lili, de seu pai. E a narrativa segue em primeira pessoa, com a garotinha contando ao leitor que seu pai vive indo para a guerra, e que sempre volta. Mas dessa vez ela parece sentir que este ir e voltar não será tão simples. E tenta de todas as formas convencer seu pai disso: “(...) preferia que ele ficasse conosco. E as balas perdidas, então? São mais perigosas que os soldados, porque só fazem o que lhes dá na telha. Vão para onde bem entendem e ninguém dá bola para elas.
            - Balas perdidas não existem – disse papai.
            - Existem sim!
            - Não se preocupe, eu nunca vi nenhuma!
            - O dia em que você vir uma, será tarde demais – respondi”.
            E as conversas assim diretas continuam. Agora entre Lili e sua mãe. E é a partir de uma dessas conversas que a menina decide querer ter um ratinho, além de Mona, a cachorrinha da casa. Isto porque, pensa Lili, a probabilidade de ter um pai morto, um cachorro morto, e um rato morto eram muito menores do que ter somente o pai morto. Assim, ela evitava que acontecesse de ficar sem pai, porque as chances se tornariam muito menores.
            É com essa sensibilidade que o leitor se depara no decorrer desta história. É um deparar-se aliado a uma entrega. Um não querer mais desgrudar de Lili e de seus pensares e de suas ações tão inocentes ao mesmo tempo que tão sensíveis diante de um mundo que lhe apresenta o oposto do que ela pratica.

í.ta**

domingo, 10 de abril de 2011

O menino, a guerra e a bola


Que belíssimas cenas
De destruição
Não teremos mais problemas
Com a superpopulação...

Veja que uniforme lindo
Fizemos prá você
Lembre-se sempre
Que Deus está
Do lado de quem vai vencer.

(Canção do Senhor da Guerra, Legião Urbana)

            Três palavras como título, excetuando-se os artigos e a conjunção aditiva “e”. Três palavras que apresentam ao leitor, desde o início, o que ele poderá encontrar no livro.  É um título que inquieta. Que segura o leitor. Que não o deixa abrir o livro e folhear as páginas. Ainda não. Antes é preciso pensar que relações se podem estabelecer entre menino, guerra e bola.
            O livro do escritor francês Jean-Baptiste Cabaud, com ilustrações de Fred Bernard, tradução de Monica Stahel, publicado no Brasil em 2009 pela Editora Martins Fontes, encanta desde a capa, ao mesmo tempo em que inquieta. Seduz o leitor para o seu começo. E seduz ainda mais por apresentar na grafia do texto do livro todas as letras “o” em cor vermelha. Fica o leitor, novamente, com a dúvida do porquê é assim. E quando um livro coloca várias pulgas atrás da orelha do leitor é porque ele já cumpriu com seu propósito.
            Ao conhecer a história, então, o leitor entra em uma área disputada por dois grupos rivais. Uma área fria no inverno europeu. Uma área cinza, como toda área de guerra parece ser. Uma área cheia de buracos e de esconderijos, como aqueles em que ficam os dois personagens da história anterior: “Os soldados esperavam ordens absurdas, deitados na lama úmida das trincheiras, tremendo de medo e encharcados. As pessoas que não tinham fugido da zona dos combates se trancavam em casa, apavoradas, sem saber o que fazer para não ouvir os tiros de canhão ininterruptos e para continuar acreditando que sobreviveriam a tudo aquilo”.
            “Mas em todas as guerras há imprevistos”, diz o texto mais para a frente. E eis que o imprevisto surge rolando por um campo vasto. Descendo uma região montanhosa, lá vinha aquela esfera vermelha, “um tesouro frágil e precioso (...). Era um tesouro de couro velho e todo rachado, de tanto que já tinha sido usado”. Era a bola do menino.
            “Então os soldados desviaram os olhos, porque de repente uma voz na colina falou mais alto do que a voz louca. Era uma voz aflita que gritava: ‘Não! Volte! Volte aqui!’ E a voz corria atrás de um menino que corria atrás de uma bola que corria pela colina rumo aos campos de batalha”.
            E o leitor corre atrás da voz que corre atrás do menino que corre atrás da bola. O leitor corre para não deixar sozinho naquele espaço o menino. Porque o leitor, a partir do momento em que lê um texto, dá a este a vida que lhe faltava. A partir disso, então, é preciso cuidar dele e das vidas que dele surgem. Porque toda leitura precisa ser cuidadosa.

í.ta**

sábado, 9 de abril de 2011

O inimigo


Existe alguém
Que está contando com você
Pra lutar em seu lugar
Já que nessa guerra
Não é ele quem vai morrer...

E quando longe de casa
Ferido e com frio
O inimigo você espera
Ele estará com outros velhos
Inventando
Novos jogos de guerra.

(Canção do Senhor da Guerra, Legião Urbana)

       Publicado em 2008 pela editora Cosac Naify, com tradução de Paulo Neves, e ilustrações de Serge Bloch, o livro do escritor suíço Davide Cali se apresenta como um livro que, para ser lido, precisa ser tocado e explorado em todas suas dobras e dimensões. A começar pelas imagens presentes na capa e na quarta capa, com detalhes sutis (com o perdão do pleonasmo) que podem passar despercebidos pelo leitor mais ávido pelo texto escrito. Sem contar, então, a primeira e a última folha do livro, que se tornam uma só com suas respectivas orelhas. As imagens de vários bonequinhos-soldados, repetidos, causa um efeito visual que envolve o leitor antes mesmo dele entrar na história (e fica uma surpresa, para quem ainda não leu este livro, na orelha da quarta capa).
            O texto escrito em si conta uma história narrada em primeira pessoa. Uma história com dois personagens centrais. Quem narra? Não se sabe. Fica a critério do leitor adivinhar ou escolher quem está contando para ele a história de como um soldado aprende a guerrear. Através de um manual de instruções. Um simples manual: “O manual diz tudo sobre o inimigo: devemos matá-lo antes que ele nos mate, porque é cruel e impiedoso. Se nos matar, ele dizimará nossas famílias. E nem assim ficará satisfeito. Matará também os cachorros, depois todos os animais, queimará os bosques, envenenará a água. O inimigo não é um ser humano”.
            O leitor se depara, então, com dois soldados que não sabem o que estão fazendo em seus respectivos buracos. Não sabem o que estão protegendo, nem de quem. Apenas sabem que há um inimigo. E que este inimigo precisa ser morto. Para que uma guerra acabe, é preciso que uma das duas forças seja derrotada. Assim diz o manual. E o que mais querem os dois soldados é o término da guerra. Para isso, então, eles buscam um meio de alcançar o esconderijo do outro.
            É o momento em que os dois soldados percebem que o inimigo presente no manual deles podem ser eles mesmos: “Eu sou um homem, este manual só diz mentiras. Não fui eu que comecei esta guerra! E não vou matar os animais nem queimar os bosques nem envenenar a água, se ele se render!”.
            “O inimigo” se apresenta como um livro. Mas pode também ser um espelho. Um espelho entre os dois personagens, porque o que um diz ou pensa, pode também ser dito ou pensado pelo outro, ou um espelho para o próprio leitor, uma vez que entrar num livro significa se ver dentro e diante dele, encontrar a si mesmo por ali, deparar-se com um consigo mesmo antes desconhecido.

í.ta**

quarta-feira, 6 de abril de 2011

twitt fora do twitter #10


bandeiras

uma: se é pra fazer merda, vamos fazer menos esforço.

duas: revisão demais desconstrói a vida do texto.

í.ta**

domingo, 3 de abril de 2011

Brown & Borges



Pensar literatura como portas, não como escadas. Nunca um Dan Brown vai te levar a um Borges. Se eu não gosto de Henry James eu não preciso ler mil autores para alcançar aquele homem: o leitor maduro se encontra no mesmo nível que todos os autores maduros – rotulados como gênios ou não. E linguagens literárias lhe atraem como um paladar que muda de repente: ninguém precisa aprender a gostar de raiz-forte. A vida não-intelectual do leitor é obviamente quem também lhe dita o que toca e o que não toca. Então se traição para mim nunca foi um dilema (ou seja: nunca foi vida), eu não preciso achar Dom Casmurro genial. Eu não preciso alcançar Machado de Assis. Genialidade não deve nem precisa ser unânime. É claro que o exemplo ali do Dom Casmurro foi superficial e eu precisava escrever outro texto sobre as camadas de um livro, sobre as inúmeras maneiras que ele tem de nos pegar. Sem falar que às vezes uma obra é algo tão novo na nossa vida, tão estranho, que somente uma primeira leitura (feita com desgosto ou ausência de sentir) é a única vivência necessária para que na releitura a gente descubra que ela é inteiramente nós. A leitura quando é boa continua na cabeça. Já li muito livro tomando banho.  

por Enzo Potel, originalmente aqui.
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í.ta**