terça-feira, 15 de março de 2011

livro de resenhas do prolij



e o prolij (o grupo de pesquisa em literatura infantojuvenil do qual faço parte) lançará, nesta quarta-feira, um novo trabalho. um livro de resenhas (84 ao total) sobre livros de literatura infantojuvenil (livros literários e livros teóricos), divididos em infantis, infantojuvenis, juvenis, narrativas visuais e teóricos. 

tenho no livro quatro resenhas, dos livros "de repente nas profundezas do bosque" (amos óz), "a morte, o pato e a tulipa" (wolf erlbruch), "para criar passarinhos (bartolomeu campos de queirós)" e "o imaginário no poder" (jacqueline held). segue abaixo a de que mais gosto, como um convite à leitura do livro todo, que pode ser adquirido a R$ 15 + postagem correio (email pra cá, quem quiser: italopuccini@yahoo.com.br). 
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A morte, o pato e a tulipa


A presença da morte como personagem de livros infanto-juvenis não é novidade para os leitores mais atentos. O que encanta, justamente, são as possibilidades de narrativa e de personagens criadas por escritos no mínimo sensíveis a esta temática que, ao mesmo tempo em que assusta a muitos, encanta a outros tanto.

O escritor alemão Wolf Erlbruch, ganhador do prêmio Hans Christian Andersen em 2006, pelo conjunto da obra, bebeu desta fonte. São deles duas histórias nas quais a morte se personaliza.

Ele é autor de um livro lindíssimo, chamado “A grande questão”, no qual a grande questão que dá nome ao livro é a do por que viemos ao mundo. E ele apresenta respostas das mais finas para isso. Mas não são respostas dele, não. Ele apresenta os dizeres de diversos seres importantes sobre o porquê de estarmos aqui no mundo, como por exemplo: para o passarinho, a grande questão do por que viemos ao mundo é para cantarmos a nossa própria canção. Algo como construirmos nossa própria história. Para o marinheiro, é para navegarmos por todos os mares. Para o jardineiro, viemos ao mundo para aprendermos a ser pacientes. O pato diz não fazer a menor ideia do por que viemos ao mundo. Para a pedra, estamos aqui para estar aqui, somente. E para a morte, estamos aqui “para amar a vida”.

E a morte que nos diz isso em “A grande questão” reaparece em “O pato, a morte e tulipa”, o outro livro do Wolf Erlbruch. Reaparece para nós, leitores, e aparece, pela primeira vez, para o pato. Aquele mesmo pato do outro livro, sim, que não fazia a menor ideia do por que estava no mundo. E, como a vida mais das vezes toma proporções que nos fogem ao alcance, é este pato quem ensinará à morte o que é, ou pode ser, amar a vida.

A história da morte, do pato e da tulipa, ou do pato, da morte e da tulipa, como queiram, começa com um pato inquieto, incomodado com algo há algum tempo, e que de repente se depara com a morte ao seu lado. A morte que “tinha um sorriso amigo”, que até era simpática, bem simpática mesmo, “quando não se levava em conta quem ela era”.

A morte que passa a conviver com o pato por alguns dias. Que passa a sentir o que é, ou pode ser, viver e amar a vida. A morte que entra no lago com o pato, que inverte os papéis com o pato, passando a se sentir ela incomodada, e não ele:

“ – Está com frio? – perguntou o pato. – Posso te esquentar?

Ninguém jamais havia feito a ela uma proposta parecida”.

E nesse ritmo a morte segue aprendendo coisas boas da vida com o pato. Coisas que não servem pra nada, não. Sentindo justamente que as melhores coisas da vida não devem servir para nada. Como, por exemplo, a sentar-se lado a lado com alguém sem a necessidade de se falar algo. Como, por exemplo, a subir em árvores.

Até que um dia o pato sente frio. Um frio incômodo. E pede à morte se ela não quer esquentá-lo um pouco. E a morte fica a olhar para o pato. Esquentando-o com o olhar. Enquanto ele descansa.

Um descanso que se torna eterno. E a morte, então, carrega o pato no colo até o grande rio. Coloca-o lá, com cuidado, deitado para cima:

“E continuou olhando o fluxo do rio por um bom tempo.

Quando perdeu o pato de vista, por pouco a morte não ficou triste.

Mas assim era a vida”.

A última linha do breve texto da contra-capa do livro pergunta: “E onde a tulipa entra nesta história?”.

Pois a tulipa está na mão da morte desde o momento em que ela aparece para o pato. E é ela que a morte coloca sob o peito do pato no momento em que o ajeita nas águas do rio. Uma cena encantadora.

A tulipa amarela representa o amor impossível, ou a luz do sol. A tulipa roxa, a quietude e a paz. Mas é a tulipa vermelha que se faz presente na história. E é a tulipa que simboliza o amor verdadeiro. O amor pela vida, citado pela morte de “A grande questão”. O amor que humaniza a morte nas intermitências escritas pelo Saramago. E o amor que encanta ao aproximar a morte do pato, ao novamente humanizá-la. Ao desnorteá-la em seus afazeres. Ao deixá-la apaixonada. E ao torná-la apaixonante para o leitor.
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ítalo.

2 comentários:

sidnei olivio disse...

Grande trabalho, Ita, parabéns e sucesso. Abs.

Assis Freitas disse...

não conhecia, bastante interessante


abraço