terça-feira, 1 de março de 2011

ler sobre o que não lemos

gosto muito disso. de ler escritas sobre livros e autores que nunca li. é um conhecer algo através do olhar e do sentir do outro. é abrir-se ao novo. segue mais um exemplo.
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A ESCUTA DE FLAUBERT
Maupassant considerava a relação de Flaubert com a escrita a lição mais importante de todas para um escritor


por Claudia Lage, aqui



Guy de Maupassant, o célebre contista, que viveu todas as angústias e prazeres do século 19, costumava dizer ao amigo e mestre, também escritor e não menos célebre, Gustave Flaubert: "a literatura não vale uma vida, mas uma vida vale à literatura". Flaubert, que dedicou obsessivamente a maior parte dos seus dias à escrita, exigia de seu discípulo entrega completa, disciplina e exatidão. Qualidades que Maupassant perseguia ao mesmo tempo em que também se deixava abstrair nos salões e nas aventuras amorosas. A exigência de Flaubert era tanta que o proibia de publicar qualquer texto que não estivesse perto da perfeição. Ou da exatidão, o jovem escritor assim compreendia. Na arte não se busca aquilo que é perfeito, já havia entendido, mas aquilo que é exato. Aquilo que só daquele modo se pode expressar. "Só existe um modo de exprimir uma coisa, uma só palavra para dizê-la, um só adjetivo para qualificá-la e um só verbo para animá-la", o mestre Flaubert ensinara. Com a lição aprendida, Maupassant buscou até o fim a simplicidade objetiva em seus contos. A palavra exata, o essencial em cada ação, o principal de cada fato. Não era, entretanto, um escritor de superficialidades, restringindo-se apenas à descrição de acontecimentos, como a má vontade e a obtusidade de alguns críticos gostavam de afirmar. "A meta do escritor não é contar uma história", Maupassant disse uma vez, "nem comover ou divertir, mas nos levar a entender o sentido oculto e profundo dos fatos". Para ele, o escritor enxerga o universo, os objetos, os fatos e os seres humanos de uma maneira pessoal que é o resultado de suas observações e reflexões. E comunica essa visão pessoal do mundo reproduzida em ficção. "Cada conto é uma criação específica, jamais genérica. É como se cada palavra do conto que escrevemos nunca tivesse sido usada antes. Faz parte de sua ilusão e de sua beleza."

Com sua prosa rápida e afiada, Maupassant criou memoráveis descrições da aristocracia, da burguesia e do proletariado parisiense, assim como dos camponeses da Normandia, a sua terra natal, e da experiência de soldados nas frentes de batalha, procurando sempre seguir à risca um dos principais conselhos do mestre Flaubert, em relação à visão pessoal do escritor. "Devemosexaminar com a demora suficiente e bastante atenção o que quisermos descrever, a fim de descobrir algum aspecto que ninguém tenha ainda visto ou de que ninguém tenha ainda falado." Esse aspecto, para Flaubert, era a alma da história, o que diferencia e alimenta a personalidade do escritor. "Em todas as coisas existe algo de inexplorado. Estamos habituados a utilizar-nos de nossos olhos apenas com a recordação daquilo que já foi antes pensado a respeito do objeto de nossas contemplações. Todas as coisas, por insignificantes que sejam, contêm um pouco de desconhecido. É isto o que devemos procurar. Para descobrir um fogo em chamas e uma árvore em uma planície, permaneçamos ante este fogo e esta árvore até que já não se pareçam, para nós, com nenhuma outra árvore e com nenhum outro fogo."
Flaubert utilizava esse ensinamento como um método, procurando sempre descrever de forma concisa os personagens, os objetos e as situações de um modo que os singularizava por completo, diferenciando-os de todos os outros personagens, objetos e situações. "Quando você passar junto de um merceeiro sentado à frente de seu armazém, ou de algum porteiro fumando seu cachimbo, ou de um cavalo de cabriolé num ponto de estacionamento, mostre-me aquele merceeiro e aquele porteiro na posição em que estavam, com seu aspecto físico, salientando também, por meio da fidelidade de seu retrato, toda a natureza moral dos mesmos, de modo que eu nunca os possa confundir com outros merceeiros ou porteiros. E faça-me ver com uma simples palavra, com uma frase, que o cavalo do cabriolé não se parece com os outros cinqüenta que se seguiam e que o antecediam."
A singularidade expressa por meio da concisão e da simplicidade se tornou a busca literária de Maupassant. Em mais de 300 contos, exercitou o manejo das palavras sob o olhar e os conselhos do mestre Flaubert, a quem admirava profundamente, pela profunda dedicação à literatura. "Flaubert me ensinou, através de seus conselhos e também de seus livros, que mais vale ao autor a singularidade do que o estilo." A explicação é, ainda hoje, inquietante, já que a maioria dos escritores transpira e aspira toda a vida para encontrar o seu estilo. "Flaubert não tem um estilo definido, mas vários, que seguem o fluxo das palavras e das frases moldadas pelos seus personagens." Maupassant compreendeu: o escritor não deve se impor ao texto, como se fosse um patrão a ordenar seus empregados. A linguagem deveria então surgir do universo descrito, de sua respiração, suas nuances e experiências, e não do autor e de suas ambições literárias e pessoais. "É um trabalho de abnegação", disse Maupassant, "de sensibilidade, e, principalmente, de escuta". Maupassant considerava a relação de Flaubert com a escrita a lição mais importante de todas para um escritor. Antes de tomar decisões sobre isso e aquilo em seu livro, colocar-se numa posição receptiva. E escutar o tema, os personagens - seus pensamentos e desejos, e todo o universo a ser criado, como se fosse música.
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í.ta**

7 comentários:

Maria Rita disse...

Também gosto muito de ver o mundo com os olhos alheios e descobrir coisas novas.

Gostei muito de tudo por aqui!

Beijos pra Ti

Assis Freitas disse...

gosto de ambos e do que escreveram,


abraço

Záia disse...

Li há uns dois anos "Forte como a morte" de Maupassant. Estupendo! Trata-se da experiência de um homem que vive a angustia obsessiva do envelhecimento e da proximidade da morte e ao mesmo tempo um retrato da sociedade burguesa francesa do séc XIX.

Tem um conto fantástico chamado "A noite" de tirar o folego. vixe nossa rapaiz!

Flaubert ainda virá quem sabe!

Também já cheguei a livros e autores por meio de outros. Tem gente que num gosta deste exercício, eu num tenho nada contra quero mais é me apropriar antropofagicamente de tudo. haha

abraço

Cássio Amaral disse...

o primeiro show do Djam ele foi preso, era negro no estado dele sergipe parece, sentou no passei, na calçada antes do show e a segurança o abordou perguntando o que queria. ele disse que ele era o artista o cantor. pode isso?
mano, meu gosto musical vai do punk rock, do rock, do blues, mpb, jazz. sou mineiro lembra? e minas é cultura brother!
a música mineira, o próprio the cure gravou nos anos 80. sou da geração coca cola vi muitos show de bandas importantes desse período. um pesar particular que nunca vi a legião urbana ao vivo.
dos atuais gosto do lenine aí embaixo, do baleiro, do chico ciência, chico science e a nação zumbi, itamar assumpção que já morreu tumbém, gosto de paulinho moska, de don ross, path matheny, andy mckee, keb mo que é blues, de chico césar, tem uma banda de uberlândia que chama porcas borboletas grande banda pra mim dos últimos tempos faz um rock anos setenta com pop. cara, tem muita coisa boa mauricio timzuba, tem caras que se falassemos de música tomaríamos muitas cervejas e a noite a dentro ficaria pouca.
chamo a atenção para paulinho pedra azul mineiro também que é muito bom compositor e cantor.

bons posts aqui.

abração. muita saúde e luz.

Cássio Amaral disse...

esqueci te te contar o primeiro show que vi, meu tio que era ator me levou num festival de música onde o OSWALDO MONTENEGRO estava tocando em Araxá na minha cidade em Minas Gerais, cara aquilo pra mim foi demais.

Braços.

Rikki-Tikki-Tavi disse...

a Cláudia Lage deixa até o pum do Tchekhov interessante!

Rikki-Tikki-Tavi disse...

foi ela quem me indicou o As Filhas do Falecido Coronel.
mas seu melhor texto é esse aqui:

http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=3&lista=1&subsecao=65&ordem=2956&semlimite=todos