sexta-feira, 11 de março de 2011

Entrevista com Miguel Sanches Neto

o primeiro livro do miguel sanches neto com o qual me deparei foi o "herdando uma biblioteca". e foi um encanto que só! um livro sobre livros com sensíveis marcas leitoras de seu autor. isto foi em 2009. inclusive tem aqui no blog sobre o mesmo. depois disso, fiquei namorando um tempão o título "chove sobre a minha infância", o primeiro romance dele. até que em fevereiro deste ano o peguei finalmente e o li. e foi outro encanto. uma narrativa em primeira pessoa que conduz o leitor ao um tempo de vida do autor, que no caso de miguel sanches neto faz referência à infância no interior do paraná, às dificuldades de relacionamento com a família (leia-se família do padrasto), e as primeiras descobertas da adolescência, onde aí entram os livros, uma espécie de fuga da vida que era obrigado a viver aquele então adolescente. por sequência, tirei da minha estante "a primeira mulher", o terceiro romance de miguel, e ali encontrei outro personagem ligado à literatura, o professor universitário carlos eduardo com sua vida permeada por paixões, a mulheres e à literatura.
foi então que decidi, ao invés de resenhar estas leituras, entrevistar o autor destes livros, com quem passei a trocar twitts enquanto lia seus dois romances. convite feito, convite aceito, a entrevista que segue é a conversa que se estabeleceu via e-mail. um pouco do miguel sanches neto leitor e escritor, para quem já leu algum livro dele (que são muitos, de variados gêneros, como é possível conhecer aqui no blog dele), e para quem ainda não se deparou com este contar-se através dos livros tão bem apresentado pelo autor em suas obras.
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Como você apresentaria o Miguel Sanches Neto leitor?

Como uma pessoa que se interessa por uma literatura que coloque no centro a vida, os dramas e as alegrias humanas, como alguém que só se interessa pela literatura em que vida e linguagem são indissociáveis. Não me interessa apenas a linguagem como experiência fria, nem apenas a vida como uma história flácida. A união destas duas esferas, a conjunção delas, faz a grande literatura para mim. Em uma época, li mais literatura brasileira do que as estrangeiras, mas hoje, com a quantidade de grandes livros contemporâneos traduzidos, tenho lido obras de países cuja tradição literária eu desconhecia totalmente. Um exemplo – tenho lido autores japoneses contemporâneos.

Parece-me que sua escrita apresenta claramente marcas de você leitor, do seu movimento em busca dos livros e da sua relação com os livros. Foi-me notório isto nos livros “Chove sobre a minha infância” e “Herdando uma biblioteca”. O primeiro, um romance. O segundo, um livro sobre livros, podemos dizer isso. Conte um pouco de como foi seu envolvimento inicial com a escrita.

O tema da leitura, por ser para mim atividade cotidiana – eu vejo pouco cinema, ouço pouca música, enfim, meu lazer é a leitura – e também uma atividade profissional – sou professor de literatura, está muito presente em minha vida e, consequentemente, na minha escrita. Sou um homem entre livros, sou um homem-narrativa. Nestes dois livros, mas mesmo em outros, como em Chá das cinco com o vampiro, eu coloco personagens que se constroem a partir dos livros. Em Chove sobre minha infância, é a história de um menino que dota a sua família analfabeta de uma tradição escrita. É um livro em que apresento as armas. Como é autobiográfico, ele dá as coordenadas sociais do surgimento do escritor em um meio improvável. O menino nega a família rural para poder ter linguagem e contar a história desta família. Um processo de negação e de afirmação, força centrífuga e força centrípeta. Assim, escrever, para mim, é e sempre foi mais do que uma carreira, e sim uma carência. Venho de uma família sem discurso. Tive que dar a ela esta vestimenta de palavras.

Recordando “Chove sobre a minha infância”, a leitura que fiz foi de que para você os livros foram, em sua infância e adolescência, uma fuga da realidade que lhe era imposta pela família. Você ia à busca deles sentindo isso mesmo? E hoje, o que representa para você cada livro lido?

O processo de leitura é sempre um apagamento da realidade imediata, do mundo circundante. Lemos como uma forma de nos ausentarmos do lugar que ocupamos. Lemos nos colocando dentro dos livros, mesmo dos livros de ensaios. Mas não é uma fuga alienante, e aí está a grandeza deste deslocamento. Nós saímos de nosso mundo para retornar a ele com uma visão externa. Esta visão externa nos permite ver melhor quem somos na sociedade em que vivemos. A ausência é necessária para reconhecer a nossa identidade. É como fazer uma viagem longa e voltar para ver a nossa terra com outros olhos.

Em termos de profissão, os caminhos que sua vida tomaram (professor em universidade, cronista de jornal, resenhador) possivelmente fizeram com que a leitura adquirisse outro significado em sua vida. Você vê dessa forma? Como você sente a sua prática de leitura hoje?

Há várias funções da leitura em minha vida. A profissional universitária, que vai dos clássicos da literatura brasileira a ensaios e teorias, e que me ajudam muito a compreender o fenômeno literário como um especialista, buscando questões mais densas. Na leitura para escrever uma resenha, eu me valho deste conhecimento, mas ele não é explicitado, fica mais pressuposto. Na resenha, o desafio é dizer por qual razão o livro é bom ou importante. Mas também há as leituras de formação, aquelas que faço para me fortalecer como ser humano. São leituras muito livres, sem nenhum método. E ainda existem as leituras que são necessárias para escrever livros. No momento, como trabalho com um romance histórico, estou lendo muita coisa do século XIX para fundamentar o livro. Uma ajuda a outra, mas elas cumprem funções muito distintas.

Após ter ingressado nesse meio acadêmico, como estudante, você não parou na graduação e fez doutorado em Teoria Literária pela Unicamp. De modo geral, podemos dizer que a escrita acadêmica e a escrita de romances, de contos e de crônicas não se assemelham muito. Como foi para você, ou ainda é, lidar com essas escritas com finalidades diferentes?

É um exercício de alteridade. Você tem que controlar, principalmente na hora de escrever ficção, os vícios de linguagem e de raciocínio da escrita acadêmica. E na escrita acadêmica é preciso adensar mais as discussões, é uma escrita mais preguiçosa esta dos ensaios, mas detalhada, mas referencial. Nestes deslocamentos de uma identidade para outra, você pode se perder. Mas pode também tirar proveito. O romancista que sou não escreve ingenuamente o romance, por mais que eu me entregue ao poder da escrita. Há sempre um nível de consciência.

Há uma fala do professor Carlos Eduardo – professor de Literatura em Universidade, personagem principal do seu romance “a primeira mulher” – que diz assim: “Em literatura a gente não admira. Quem admira tem uma relação superficial. Em literatura, a gente ama”. Cursar a faculdade de Letras foi também uma fuga e/ou um desejo muito grande de se aprofundar neste amor pela literatura?

Foi uma tentativa de me profissionalizar, de ter um salário que bancasse o vício da literatura. Eu sou tímido e sofro para dar aula, mas é a profissão mais próxima da literatura que eu poderia ter. Sou grato ao magistério superior: posso trabalhar com uma matéria que amo. Sei que muitos professores de literatura nem admiram a literatura, uns gostam da teoria, outros não gostam de nada, mas muitos são movidos por este amor incondicional pela literatura. É uma coisa muito forte.

Ainda sobre “a primeira mulher”, a leitura deste romance reforçou minha ideia inicial de que sua escrita apresenta muito de você leitor. O personagem Carlos Eduardo é um poucomuito do Miguel Sanches Neto? Um professor de literatura que busca apresentar o texto literário pelo texto mesmo, e não por vozes de teóricos sobre aquilo que se está lendo?

Em boa medida ele traz as minhas obsessões, não poderia ser diferente num personagem que é professor de literatura. Mas não assino embaixo de tudo que ele diz. Concordo com ele que há uma dosagem cavalar de teoria nas aulas de literatura, aplicada em alunos que ainda não são leitores literários. Este olhar técnico, mesmo em que se fez leitor, é nocivo porque tira o encanto primeiro pela obra. Advogo a necessidade de que professores e alunos construam teorias a partir das obras literárias lidas, e que não sejam meros reprodutores das teorias da moda. É muito mais difícil esta tarefa criativa no ensino universitário. Mas também é muito mais fascinante.

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ítalo.

4 comentários:

Eduardo Silveira disse...

pô, ideias bacanas, essas do miguel. cara mui inteligente.
há pouco a gente se despediu de um autor inteligente e simpático, o moacir. acho que os mesmas qualidades se aplicam ao miguel sanches.
adorei a entrevista!

Eduardo Silveira disse...

esqueci de dizer que fiquei curioso acerca desse "herdando uma biblioteca". adoro livros sobre livros. do miguel só conheço "inscrições a giz", livro de poemas meio antiguinho, acho que um dos primeiros dele. um livro muito bom.

abraço

Ana SS disse...

escrever é difícil e dá trabalho.
mesmo pra aqueles que têm o dom!
dizem...rs

Ilaine disse...

A vida e a literatura, andando juntas, de mãos dadas - vida e linguagem indissociáveis - penso que é assim que nascem as grandes obras. Muito interessante, Ítalo. Confesso,não conheço o Miguel, mas fiquei muito curiosa. Obrigada por apresentá-lo aqui. Beijo