quarta-feira, 30 de março de 2011

sobre mim,

cantado pelo "o rappa":

"Tentei ser crente,
Mas meu cristo é diferente
A sombra dele é sem cruz, dele é sem cruz
No meio daquela luz, daquela luz"


("meu mundo é o barro", cd "7 vezes")


í.ta**

segunda-feira, 28 de março de 2011

do direito de abandonar uma leitura

este é um dos dez mandamentos (que eu prefiro chamar de direitos) do leitor apresentados pelo daniel pennac no seu livro "como um romance" (sobre o qual já escrevi aqui). e se antes eu sentia uma dor em abandonar algum livro, de uns anos pra cá eu faço isso com a maior facilidade. antes mesmo de ter feito a leitura dos mandamentos do pennac. ainda mais levando em conta a quantidade de livros diferentes nos quais entro (literatura como portas, não é, enzo?, não como escadas) semanalmente, como leitor-professor, leitor-pesquisador e leitor-leitor que tento ser. 

o último exemplo de abandono praticado por mim foi com o livro "a confissão", do flávio carneiro. fui até a página 46, dois capítulos inteiros. um de cada vez, um em cada dia. e daí abri mão. cansei fácil, fácil. encantei-me com o personagem-narrador já na primeira linha. mas a história não mudou em nada dali pra frente. ficou aquele personagem-narrador falando, falando, falando, e eu cansando, cansando, cansando. com este livro eu entrei nele, e logo saí. não quis ficar para um chá ou um café, quem sabe, então, depois um vinho. 

ao contrário do que senti ao ler, duas semanas antes, outro livro do mesmo autor. "o campeonato". uma narrativa policial muito empolgante, que me prendeu por quatro horas à cama quando iniciei a leitura. foram quase duzentas das quatrocentas páginas do livro numa deitada só. uma paixão mesmo! dei um tempo nele, e uma semana depois fechei a conta com mais duzentas páginas num tiro só. coisa mais maravilhosa que foi aquela leitura! ao final ainda fiquei com a sensação de que melhor seria não tê-la finalizado. porque o durante foi muito mais gostoso do que o seu resultado final.

semanas antes disso, eu havia lido dois outros livros do flávio carneiro, que além de literatura escreve sobre futebol e sobre teoria literária. (qualquer semelhança com meus gostos...). o livro teórico "o leitor fingido" é um convite a mergulhar nas leituras deste autor. um convite a uma conversa com o leitor flávio carneiro, um leitor muito preocupado com nossos caminhos de formação leitora. e o livro futebolístico tá presente aqui, ó.

entrem e fiquem à vontade nos livros deste goiano morador carioca.

í.ta**

sexta-feira, 25 de março de 2011

matéria de poesia

às vezes, quando vou trabalhar poesia com minhas turmas, costumo apresentar-lhes o livro "matéria de poesia", do manoel de barros. não na íntegra. apresento trechos de poemas. e leio para eles o poema que dá título ao livro, "matéria de poesia". aquele que diz, por exemplo, que "tudo o que serve para o lixo, serve para a poesia". a partir disso, faço a guriada circular pela escola com o objetivo de observar o que há na escola que serve para a poesia, de concreto e de abstrato. é um momento total viagem, de esquecer conceitos pré-formados e de se permitir à pseudo-liberdade de olhar as coisas como uma primeira vez. é através do olhar ressignificar as coisas. e a poesia. e esse movimento, depois de muita troca de matérias de poesia, desencadeia em produções de poemas escritas por eles, utilizando-se de suas matérias de poesia. e eu resolvi postar aqui alguns versos que brotaram daquele lugar-espaço em que a gente precisa cada vez se permitir a ressignificar o que vemos e o que conhecemos.

"Eu tenho o sentimento de uma
folha rasgada
Às vezes até de madeira esculhambada
Estou fazendo poeira em alto-mar
Estou sambando sem enredo"


"Lápis de sabão 
sem cor
E sem razão"


"o que
simplesmente precisamos
é olhar o mundo e deixar
a mente voar"


"Qualquer coisa serve para poesia,
Até mesmo uma lata vazia,
A curiosidade é o que tem lá dentro,
Será um alicate gosmento?"


"Mas será que
lagosta gosta de ser servida
a la manteiga?"


"Na poesia tem cortina
tem quadro
tem giz também.
A poesia é feita de chão invisível
A matéria-prima da poesia é água seca"


"Os corações das
pessoas loucas são
triângulos".

ítalo.

terça-feira, 22 de março de 2011

cena de leitura II



"O dia inteiro Felícia sentava o rabo, lendo".

(do conto "a gente boa da roça", de flannery o'connor, do livro "é difícil encontrar um homem bom", p. 203)

í.ta**

sábado, 19 de março de 2011

cena de leitura I

toda noite em que meu irmão pequeno vai dormir com a minha mãe, eles rezam pedindo ao papai do céu proteção a todos da família. às segundas-feiras, quando ele vem dormir comigo, em meu quarto, nossas mãos se juntam não para uma prece, mas para a leitura de algum livro escolhido a dedo por ele. 

í.ta**

das profissões do scliar



um dos capítulos do livro "contos reunidos", organizado pela companhia das letras em 1995 com contos do moacyr scliar, chama-se "as profissões". e dentre as profissões apresentadas pelo escritor, eu me encantei por esta, a do carteiro. (scliar vem me ganhando assim, no conto curto, que diz justamente por não querer dizer nada. que entrega a vida ao leitor em sua fragilidade mais escancarada).
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"Matias, o carteiro relapso

Durante dez anos Matias, o carteiro relapso, subtraiu cartas à correspondência que deveria entregar diariamente. Essas cartas, abertas, foram descobertas pela esposa três meses depois da morte do relapso. O encarregado do inquérito, Diógenes, ex-chefe de Matias, transcreveu trechos da correspondência desviada, trechos esses que muitas pessoas têm lido entre lágrimas: "Por que não respondes às minhas cartas, filho?", pergunta um homem (idoso, a julgar pela trêmula letra). "Se não me escreveres, nosso noivado será desfeito", diz uma certa Lucila. 
No mesmo inquérito há um depoimento de Arlindo, filho do carteiro Matias. Diz que o pai costumava trancar-se à noite no sótão, ficando lá horas, às vezes gargalhando histericamente. Arlindo imaginava que o pai se ocultava para ler histórias cômicas, mas não podia garantir. O achado das cartas esclareceu o mistério". (p. 200)
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í.ta**

terça-feira, 15 de março de 2011

livro de resenhas do prolij



e o prolij (o grupo de pesquisa em literatura infantojuvenil do qual faço parte) lançará, nesta quarta-feira, um novo trabalho. um livro de resenhas (84 ao total) sobre livros de literatura infantojuvenil (livros literários e livros teóricos), divididos em infantis, infantojuvenis, juvenis, narrativas visuais e teóricos. 

tenho no livro quatro resenhas, dos livros "de repente nas profundezas do bosque" (amos óz), "a morte, o pato e a tulipa" (wolf erlbruch), "para criar passarinhos (bartolomeu campos de queirós)" e "o imaginário no poder" (jacqueline held). segue abaixo a de que mais gosto, como um convite à leitura do livro todo, que pode ser adquirido a R$ 15 + postagem correio (email pra cá, quem quiser: italopuccini@yahoo.com.br). 
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A morte, o pato e a tulipa


A presença da morte como personagem de livros infanto-juvenis não é novidade para os leitores mais atentos. O que encanta, justamente, são as possibilidades de narrativa e de personagens criadas por escritos no mínimo sensíveis a esta temática que, ao mesmo tempo em que assusta a muitos, encanta a outros tanto.

O escritor alemão Wolf Erlbruch, ganhador do prêmio Hans Christian Andersen em 2006, pelo conjunto da obra, bebeu desta fonte. São deles duas histórias nas quais a morte se personaliza.

Ele é autor de um livro lindíssimo, chamado “A grande questão”, no qual a grande questão que dá nome ao livro é a do por que viemos ao mundo. E ele apresenta respostas das mais finas para isso. Mas não são respostas dele, não. Ele apresenta os dizeres de diversos seres importantes sobre o porquê de estarmos aqui no mundo, como por exemplo: para o passarinho, a grande questão do por que viemos ao mundo é para cantarmos a nossa própria canção. Algo como construirmos nossa própria história. Para o marinheiro, é para navegarmos por todos os mares. Para o jardineiro, viemos ao mundo para aprendermos a ser pacientes. O pato diz não fazer a menor ideia do por que viemos ao mundo. Para a pedra, estamos aqui para estar aqui, somente. E para a morte, estamos aqui “para amar a vida”.

E a morte que nos diz isso em “A grande questão” reaparece em “O pato, a morte e tulipa”, o outro livro do Wolf Erlbruch. Reaparece para nós, leitores, e aparece, pela primeira vez, para o pato. Aquele mesmo pato do outro livro, sim, que não fazia a menor ideia do por que estava no mundo. E, como a vida mais das vezes toma proporções que nos fogem ao alcance, é este pato quem ensinará à morte o que é, ou pode ser, amar a vida.

A história da morte, do pato e da tulipa, ou do pato, da morte e da tulipa, como queiram, começa com um pato inquieto, incomodado com algo há algum tempo, e que de repente se depara com a morte ao seu lado. A morte que “tinha um sorriso amigo”, que até era simpática, bem simpática mesmo, “quando não se levava em conta quem ela era”.

A morte que passa a conviver com o pato por alguns dias. Que passa a sentir o que é, ou pode ser, viver e amar a vida. A morte que entra no lago com o pato, que inverte os papéis com o pato, passando a se sentir ela incomodada, e não ele:

“ – Está com frio? – perguntou o pato. – Posso te esquentar?

Ninguém jamais havia feito a ela uma proposta parecida”.

E nesse ritmo a morte segue aprendendo coisas boas da vida com o pato. Coisas que não servem pra nada, não. Sentindo justamente que as melhores coisas da vida não devem servir para nada. Como, por exemplo, a sentar-se lado a lado com alguém sem a necessidade de se falar algo. Como, por exemplo, a subir em árvores.

Até que um dia o pato sente frio. Um frio incômodo. E pede à morte se ela não quer esquentá-lo um pouco. E a morte fica a olhar para o pato. Esquentando-o com o olhar. Enquanto ele descansa.

Um descanso que se torna eterno. E a morte, então, carrega o pato no colo até o grande rio. Coloca-o lá, com cuidado, deitado para cima:

“E continuou olhando o fluxo do rio por um bom tempo.

Quando perdeu o pato de vista, por pouco a morte não ficou triste.

Mas assim era a vida”.

A última linha do breve texto da contra-capa do livro pergunta: “E onde a tulipa entra nesta história?”.

Pois a tulipa está na mão da morte desde o momento em que ela aparece para o pato. E é ela que a morte coloca sob o peito do pato no momento em que o ajeita nas águas do rio. Uma cena encantadora.

A tulipa amarela representa o amor impossível, ou a luz do sol. A tulipa roxa, a quietude e a paz. Mas é a tulipa vermelha que se faz presente na história. E é a tulipa que simboliza o amor verdadeiro. O amor pela vida, citado pela morte de “A grande questão”. O amor que humaniza a morte nas intermitências escritas pelo Saramago. E o amor que encanta ao aproximar a morte do pato, ao novamente humanizá-la. Ao desnorteá-la em seus afazeres. Ao deixá-la apaixonada. E ao torná-la apaixonante para o leitor.
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ítalo.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Entrevista com Miguel Sanches Neto

o primeiro livro do miguel sanches neto com o qual me deparei foi o "herdando uma biblioteca". e foi um encanto que só! um livro sobre livros com sensíveis marcas leitoras de seu autor. isto foi em 2009. inclusive tem aqui no blog sobre o mesmo. depois disso, fiquei namorando um tempão o título "chove sobre a minha infância", o primeiro romance dele. até que em fevereiro deste ano o peguei finalmente e o li. e foi outro encanto. uma narrativa em primeira pessoa que conduz o leitor ao um tempo de vida do autor, que no caso de miguel sanches neto faz referência à infância no interior do paraná, às dificuldades de relacionamento com a família (leia-se família do padrasto), e as primeiras descobertas da adolescência, onde aí entram os livros, uma espécie de fuga da vida que era obrigado a viver aquele então adolescente. por sequência, tirei da minha estante "a primeira mulher", o terceiro romance de miguel, e ali encontrei outro personagem ligado à literatura, o professor universitário carlos eduardo com sua vida permeada por paixões, a mulheres e à literatura.
foi então que decidi, ao invés de resenhar estas leituras, entrevistar o autor destes livros, com quem passei a trocar twitts enquanto lia seus dois romances. convite feito, convite aceito, a entrevista que segue é a conversa que se estabeleceu via e-mail. um pouco do miguel sanches neto leitor e escritor, para quem já leu algum livro dele (que são muitos, de variados gêneros, como é possível conhecer aqui no blog dele), e para quem ainda não se deparou com este contar-se através dos livros tão bem apresentado pelo autor em suas obras.
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Como você apresentaria o Miguel Sanches Neto leitor?

Como uma pessoa que se interessa por uma literatura que coloque no centro a vida, os dramas e as alegrias humanas, como alguém que só se interessa pela literatura em que vida e linguagem são indissociáveis. Não me interessa apenas a linguagem como experiência fria, nem apenas a vida como uma história flácida. A união destas duas esferas, a conjunção delas, faz a grande literatura para mim. Em uma época, li mais literatura brasileira do que as estrangeiras, mas hoje, com a quantidade de grandes livros contemporâneos traduzidos, tenho lido obras de países cuja tradição literária eu desconhecia totalmente. Um exemplo – tenho lido autores japoneses contemporâneos.

Parece-me que sua escrita apresenta claramente marcas de você leitor, do seu movimento em busca dos livros e da sua relação com os livros. Foi-me notório isto nos livros “Chove sobre a minha infância” e “Herdando uma biblioteca”. O primeiro, um romance. O segundo, um livro sobre livros, podemos dizer isso. Conte um pouco de como foi seu envolvimento inicial com a escrita.

O tema da leitura, por ser para mim atividade cotidiana – eu vejo pouco cinema, ouço pouca música, enfim, meu lazer é a leitura – e também uma atividade profissional – sou professor de literatura, está muito presente em minha vida e, consequentemente, na minha escrita. Sou um homem entre livros, sou um homem-narrativa. Nestes dois livros, mas mesmo em outros, como em Chá das cinco com o vampiro, eu coloco personagens que se constroem a partir dos livros. Em Chove sobre minha infância, é a história de um menino que dota a sua família analfabeta de uma tradição escrita. É um livro em que apresento as armas. Como é autobiográfico, ele dá as coordenadas sociais do surgimento do escritor em um meio improvável. O menino nega a família rural para poder ter linguagem e contar a história desta família. Um processo de negação e de afirmação, força centrífuga e força centrípeta. Assim, escrever, para mim, é e sempre foi mais do que uma carreira, e sim uma carência. Venho de uma família sem discurso. Tive que dar a ela esta vestimenta de palavras.

Recordando “Chove sobre a minha infância”, a leitura que fiz foi de que para você os livros foram, em sua infância e adolescência, uma fuga da realidade que lhe era imposta pela família. Você ia à busca deles sentindo isso mesmo? E hoje, o que representa para você cada livro lido?

O processo de leitura é sempre um apagamento da realidade imediata, do mundo circundante. Lemos como uma forma de nos ausentarmos do lugar que ocupamos. Lemos nos colocando dentro dos livros, mesmo dos livros de ensaios. Mas não é uma fuga alienante, e aí está a grandeza deste deslocamento. Nós saímos de nosso mundo para retornar a ele com uma visão externa. Esta visão externa nos permite ver melhor quem somos na sociedade em que vivemos. A ausência é necessária para reconhecer a nossa identidade. É como fazer uma viagem longa e voltar para ver a nossa terra com outros olhos.

Em termos de profissão, os caminhos que sua vida tomaram (professor em universidade, cronista de jornal, resenhador) possivelmente fizeram com que a leitura adquirisse outro significado em sua vida. Você vê dessa forma? Como você sente a sua prática de leitura hoje?

Há várias funções da leitura em minha vida. A profissional universitária, que vai dos clássicos da literatura brasileira a ensaios e teorias, e que me ajudam muito a compreender o fenômeno literário como um especialista, buscando questões mais densas. Na leitura para escrever uma resenha, eu me valho deste conhecimento, mas ele não é explicitado, fica mais pressuposto. Na resenha, o desafio é dizer por qual razão o livro é bom ou importante. Mas também há as leituras de formação, aquelas que faço para me fortalecer como ser humano. São leituras muito livres, sem nenhum método. E ainda existem as leituras que são necessárias para escrever livros. No momento, como trabalho com um romance histórico, estou lendo muita coisa do século XIX para fundamentar o livro. Uma ajuda a outra, mas elas cumprem funções muito distintas.

Após ter ingressado nesse meio acadêmico, como estudante, você não parou na graduação e fez doutorado em Teoria Literária pela Unicamp. De modo geral, podemos dizer que a escrita acadêmica e a escrita de romances, de contos e de crônicas não se assemelham muito. Como foi para você, ou ainda é, lidar com essas escritas com finalidades diferentes?

É um exercício de alteridade. Você tem que controlar, principalmente na hora de escrever ficção, os vícios de linguagem e de raciocínio da escrita acadêmica. E na escrita acadêmica é preciso adensar mais as discussões, é uma escrita mais preguiçosa esta dos ensaios, mas detalhada, mas referencial. Nestes deslocamentos de uma identidade para outra, você pode se perder. Mas pode também tirar proveito. O romancista que sou não escreve ingenuamente o romance, por mais que eu me entregue ao poder da escrita. Há sempre um nível de consciência.

Há uma fala do professor Carlos Eduardo – professor de Literatura em Universidade, personagem principal do seu romance “a primeira mulher” – que diz assim: “Em literatura a gente não admira. Quem admira tem uma relação superficial. Em literatura, a gente ama”. Cursar a faculdade de Letras foi também uma fuga e/ou um desejo muito grande de se aprofundar neste amor pela literatura?

Foi uma tentativa de me profissionalizar, de ter um salário que bancasse o vício da literatura. Eu sou tímido e sofro para dar aula, mas é a profissão mais próxima da literatura que eu poderia ter. Sou grato ao magistério superior: posso trabalhar com uma matéria que amo. Sei que muitos professores de literatura nem admiram a literatura, uns gostam da teoria, outros não gostam de nada, mas muitos são movidos por este amor incondicional pela literatura. É uma coisa muito forte.

Ainda sobre “a primeira mulher”, a leitura deste romance reforçou minha ideia inicial de que sua escrita apresenta muito de você leitor. O personagem Carlos Eduardo é um poucomuito do Miguel Sanches Neto? Um professor de literatura que busca apresentar o texto literário pelo texto mesmo, e não por vozes de teóricos sobre aquilo que se está lendo?

Em boa medida ele traz as minhas obsessões, não poderia ser diferente num personagem que é professor de literatura. Mas não assino embaixo de tudo que ele diz. Concordo com ele que há uma dosagem cavalar de teoria nas aulas de literatura, aplicada em alunos que ainda não são leitores literários. Este olhar técnico, mesmo em que se fez leitor, é nocivo porque tira o encanto primeiro pela obra. Advogo a necessidade de que professores e alunos construam teorias a partir das obras literárias lidas, e que não sejam meros reprodutores das teorias da moda. É muito mais difícil esta tarefa criativa no ensino universitário. Mas também é muito mais fascinante.

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ítalo.

terça-feira, 8 de março de 2011

mas chegou o carnaval...

...e ela não desfilou.

e eu quase choro sempre que ouço a letra dessa música. seja na voz do benito di paula. seja na versão mais batida lindamente gritada pelo zeca baleiro.

ficam as duas aí para apreciação. e para muitas lágrimas. por que que história é essa?

retalhos de cetim


Ensaiei meu samba o ano inteiro,
Comprei surdo e tamborim.
Gastei tudo em fantasia,
Era só o que eu queria.
E ela jurou desfilar pra mim,
Minha escola estava tão bonita.
Era tudo o que eu queria ver,
Em retalhos de cetim.
Eu dormi o ano inteiro,
E ela jurou desfilar pra mim.
Mas chegou o carnaval,
E ela não desfilou,
Eu chorei na avenida, eu chorei.
Não pensei que mentia a cabrocha,que eu tanto amei.








í.ta**

sábado, 5 de março de 2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

sobre o scliar

jornal anotícia, aqui de joinville/sc, ligou pedindo algum dizer sobre a morte do scliar. eu dizo. taí, então :)


Autor dos livros de cabeceira

“Eu senti muito a morte do Moacyr Scliar porque justo neste começo de ano eu estava lendo dois livros dele: o ‘Contos Reunidos’, que é uma junção de vários contos que ele publicou durante a vida, e ‘O Exército de um Homem Só’, um livro da década de 70 que causou muito barulho quando foi lançado. E logo ele adoeceu e fiquei muito triste que ele tenha partido agora, quando eu estava conhecendo melhor a obra dele.

O que me impressiona na escrita de Moacyr Scliar é como ele consegue uma potência nos contos dele: são curtos e, em duas ou três páginas, ele prende o leitor. Mas acho que a influência dele vai continuar por muito tempo, ele produziu durante praticamente 60 anos e há muito o que ser estudado sobre a obra dele. Por exemplo, ao ler o que ele escreveu quando começou e os últimos livros, percebe-se claramente a evolução dele como escritor.”

Ítalo Puccini, escritor e professor de língua portuguesa e literatura.


os dizeres de duas professoras minhas, sueli cagneti e taiza mara - as duas melhores da graduação em letras - estão na mesma matéria, que pode ser conferida aqui.

ítalo.

terça-feira, 1 de março de 2011

ler sobre o que não lemos

gosto muito disso. de ler escritas sobre livros e autores que nunca li. é um conhecer algo através do olhar e do sentir do outro. é abrir-se ao novo. segue mais um exemplo.
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A ESCUTA DE FLAUBERT
Maupassant considerava a relação de Flaubert com a escrita a lição mais importante de todas para um escritor


por Claudia Lage, aqui



Guy de Maupassant, o célebre contista, que viveu todas as angústias e prazeres do século 19, costumava dizer ao amigo e mestre, também escritor e não menos célebre, Gustave Flaubert: "a literatura não vale uma vida, mas uma vida vale à literatura". Flaubert, que dedicou obsessivamente a maior parte dos seus dias à escrita, exigia de seu discípulo entrega completa, disciplina e exatidão. Qualidades que Maupassant perseguia ao mesmo tempo em que também se deixava abstrair nos salões e nas aventuras amorosas. A exigência de Flaubert era tanta que o proibia de publicar qualquer texto que não estivesse perto da perfeição. Ou da exatidão, o jovem escritor assim compreendia. Na arte não se busca aquilo que é perfeito, já havia entendido, mas aquilo que é exato. Aquilo que só daquele modo se pode expressar. "Só existe um modo de exprimir uma coisa, uma só palavra para dizê-la, um só adjetivo para qualificá-la e um só verbo para animá-la", o mestre Flaubert ensinara. Com a lição aprendida, Maupassant buscou até o fim a simplicidade objetiva em seus contos. A palavra exata, o essencial em cada ação, o principal de cada fato. Não era, entretanto, um escritor de superficialidades, restringindo-se apenas à descrição de acontecimentos, como a má vontade e a obtusidade de alguns críticos gostavam de afirmar. "A meta do escritor não é contar uma história", Maupassant disse uma vez, "nem comover ou divertir, mas nos levar a entender o sentido oculto e profundo dos fatos". Para ele, o escritor enxerga o universo, os objetos, os fatos e os seres humanos de uma maneira pessoal que é o resultado de suas observações e reflexões. E comunica essa visão pessoal do mundo reproduzida em ficção. "Cada conto é uma criação específica, jamais genérica. É como se cada palavra do conto que escrevemos nunca tivesse sido usada antes. Faz parte de sua ilusão e de sua beleza."

Com sua prosa rápida e afiada, Maupassant criou memoráveis descrições da aristocracia, da burguesia e do proletariado parisiense, assim como dos camponeses da Normandia, a sua terra natal, e da experiência de soldados nas frentes de batalha, procurando sempre seguir à risca um dos principais conselhos do mestre Flaubert, em relação à visão pessoal do escritor. "Devemosexaminar com a demora suficiente e bastante atenção o que quisermos descrever, a fim de descobrir algum aspecto que ninguém tenha ainda visto ou de que ninguém tenha ainda falado." Esse aspecto, para Flaubert, era a alma da história, o que diferencia e alimenta a personalidade do escritor. "Em todas as coisas existe algo de inexplorado. Estamos habituados a utilizar-nos de nossos olhos apenas com a recordação daquilo que já foi antes pensado a respeito do objeto de nossas contemplações. Todas as coisas, por insignificantes que sejam, contêm um pouco de desconhecido. É isto o que devemos procurar. Para descobrir um fogo em chamas e uma árvore em uma planície, permaneçamos ante este fogo e esta árvore até que já não se pareçam, para nós, com nenhuma outra árvore e com nenhum outro fogo."
Flaubert utilizava esse ensinamento como um método, procurando sempre descrever de forma concisa os personagens, os objetos e as situações de um modo que os singularizava por completo, diferenciando-os de todos os outros personagens, objetos e situações. "Quando você passar junto de um merceeiro sentado à frente de seu armazém, ou de algum porteiro fumando seu cachimbo, ou de um cavalo de cabriolé num ponto de estacionamento, mostre-me aquele merceeiro e aquele porteiro na posição em que estavam, com seu aspecto físico, salientando também, por meio da fidelidade de seu retrato, toda a natureza moral dos mesmos, de modo que eu nunca os possa confundir com outros merceeiros ou porteiros. E faça-me ver com uma simples palavra, com uma frase, que o cavalo do cabriolé não se parece com os outros cinqüenta que se seguiam e que o antecediam."
A singularidade expressa por meio da concisão e da simplicidade se tornou a busca literária de Maupassant. Em mais de 300 contos, exercitou o manejo das palavras sob o olhar e os conselhos do mestre Flaubert, a quem admirava profundamente, pela profunda dedicação à literatura. "Flaubert me ensinou, através de seus conselhos e também de seus livros, que mais vale ao autor a singularidade do que o estilo." A explicação é, ainda hoje, inquietante, já que a maioria dos escritores transpira e aspira toda a vida para encontrar o seu estilo. "Flaubert não tem um estilo definido, mas vários, que seguem o fluxo das palavras e das frases moldadas pelos seus personagens." Maupassant compreendeu: o escritor não deve se impor ao texto, como se fosse um patrão a ordenar seus empregados. A linguagem deveria então surgir do universo descrito, de sua respiração, suas nuances e experiências, e não do autor e de suas ambições literárias e pessoais. "É um trabalho de abnegação", disse Maupassant, "de sensibilidade, e, principalmente, de escuta". Maupassant considerava a relação de Flaubert com a escrita a lição mais importante de todas para um escritor. Antes de tomar decisões sobre isso e aquilo em seu livro, colocar-se numa posição receptiva. E escutar o tema, os personagens - seus pensamentos e desejos, e todo o universo a ser criado, como se fosse música.
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í.ta**