quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

manguel e as epígrafes



o verdadeiro leitor não precisa continuar lendo.
(alberto manguel, todos os homens são mentirosos, 2010)

gosto muito de fazer uso de epígrafes para meus textos. não para todos. acredito que alguns textos pedem epígrafes, clamam por elas. não para serem melhores compreendidos, e sim para que seus caminhos de leitura se abram ainda mais. uma epígrafe precisa servir não para entregar ao leitor o que vem pela frente, e sim para que, ao terminar de ler o texto, o leitor se pergunte o que faz aquela frase lá, antes de tudo?, qual a relação dela com o que foi lido?, que costuras podem ser feitas entre essas duas pontas e seu meio?

um dos estudiosos da leitura de que mais gosto é quem mais eu vejo fazendo uso de epígrafes em seus inúmeros ensaios publicados pelo mundo. refiro-me ao escritor e editor alberto manguel, nascido em buenos aires, e já há algum tempo cidadão canadense. tenho leitura de vários livros dele, a contar: "uma história da leitura", "no bosque do espelho", "os livro e os dias", "a cidade das palavras", e "à mesa com o chapeleiro maluco". e é desses livros que mais me utilizo para epígrafes de textos meus, porque uma das maiores qualidades que encontro na escrita deste autor é a das frases-escondidas-que-saltam-para-o-leitor, aquelas perdidas em meio a uma ideia maior em algum parágrafo solto no texto, aquelas para as quais é preciso se desprender do texto para então encontrá-las por baixo de palavras que as escondem.

o último que li do manguel foi um romance, "todos os homens são mentirosos", publicado pela companhia das letras em 2010. um livro que foge à regra do escritor, de ensaios sobre a leitura e suas práticas, sobre leitores e sobre escritas. foge ao mesmo tempo que não foge. pois é um romance que nas entrelinhas apresenta muitas das ideias presentes em seus ensaios, como a de que é o leitor que cria um sentido ao texto que é lido, o que acarreta na afirmação de que um texto nunca é o mesmo tempo uma vez lido por dois leitores diferentes, ou até mesmo relido por um mesmo leitor.

mesmo neste romance, as epígrafes são várias. desde as páginas anteriores ao início do romance, até as páginas que abrem novos capítulos na história. e as epígrafes apresentadas por manguel são aquelas de que gosto muito, uma vez que deixam o leitor confuso diante delas. confusão esta que pode ir se desfazendo na medida em que as páginas vão sendo lidas, mas isto dependerá das relações leitoras a serem construídas por cada um. às vezes consigo alcançá-las, as epígrafes, diante dos textos que abrem. às vezes, não.

por isso que as considero muito importantes. porque são chaves que ficam à disposição do leitor. há quem consiga utilizá-las para abrir ainda mais o texto apresentado pelo autor. há quem não saiba, ainda, delas fazer uso. são trajetórias leitoras que se apresentam dessa forma.

í.ta**

5 comentários:

Regina Carvalho disse...

Vejo as epígrafes sempre como uma provocação, um enigma para o leitor decifrar: adivinha porque estou aqui... Adoro isso! bj

Camila F. disse...

muito interessante o seu texto... vou pensar melhor na escolha de minhas epígrafes.
:)

abraço!

Rikki-Tikki-Tavi disse...

é... não são só epígrafes que ficam desfocadas. hahahahahah

Franccesco disse...

EU te vi bater esta foto....rsrs!

Lívia disse...

To lendo agora A cidade das palavras e tá sendo uma surpresa muito agradável...!