quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Flannery O' Connor

O caminho ao contrário

Por Enzo Potel


Existe, o que para mim é, um enorme defeito nos artigos sobre Flannery O´Connor. Todos eles buscam obcecadamente associar seus contos à sua biografia, na limitante idéia de uma escritora católica com a necessidade de salvar o leitor.

“Se eu não fosse católica”, ela declara, “eu não teria razão para escrever, para ver, nem qualquer razão para ficar horrorizada com algo ou sentir prazer com qualquer coisa”. A partir de afirmações como esta, os estudiosos acabam rotulando a escritora norte-americana como uma missionária da Palavra e esquecem que, antes de mais nada, ela é Literatura - e das maiores. Sua produção não deve ser mais vista como modernista, sulista ou religiosa: ela já está entre os clássicos, porque criou uma percepção singular da vida num texto que, com o tempo, tende a se tornar cada vez mais inesperado.  

Harold Bloom define como clássico um texto que nos faz permanentemente reorganizar os móveis de nossas vidas. Textos clássicos possuem o que Bloom chama de "uma aprisionante estranheza", um desfamiliarizante do comum - de modo a abrir radicalmente novos horrores e possibilidades maravilhosas que até então conseguimos evitar - colocando um aperto oportuno sobre a nossa existência ética e religiosa.


Por isso, em Flannery O´Connor, a arte fala mais alto. Mais alto que a própria autora e a visão que tinha do que estava fazendo. E eu fui desistindo de tentar me aprofundar em sua obra através de cartas e ensaios, e ficar somente com a sensação apaixonante que me persegue depois de ler cada conto seu, como A Boa Gente do Campo.



O título já é uma ironia. Porque na maioria de seus contos a cidade é sempre vista como o lugar terrível, principalmente as do norte do país (onde os negros vivem como se fossem brancos – e a coragem de Flannery em dar voz para personagens racistas é um retrato que nem todo mundo entende). Em A Boa Gente do Campo, uma moça de uns trinta anos, PhD em Filosofia, tem uma perna mecânica e mora com uma mãe timidamente católica. Certo dia um rapaz que vende bíblias chega na casa, conversa horas com a mãe, e no portão encontra a moça. Não sabemos o que eles conversam, mas ele conseguiu convencer aquela moça fria a se encontrarem de noite no sótão do celeiro. Lá, ele se declara apaixonado, ela acaba tendo piedade por inúmeros motivos (o maior: porque ele acredita em Deus), e ele começa a fazer um jogo mental infantil e impressionante, pedindo para que ela mostre a perna mecânica. E, para o desespero dela,  ele não só consegue como depois pede que ela mostre como se tira a perna. E não conto como termina essa obra-prima.


Aliás, O´Connor sabe como terminar um conto, deixando a bomba nas mãos do leitor. Porque o que aconteceria depois da última frase ou seria muito óbvio, ou seria outra história - talvez menos interessante, talvez muito maior. Prova disso são os excelentes O Rio O Círculo no Fogo.



Em É difícil encontrar um Homem Bom, a última frase discretamente equilibra os universos, revelando a infelicidade tanto das vítimas quanto dos assassinos, mesmo que “freqüentemente, a tragédia decorra da ignorância, mas nunca é perdoada, justificada ou poetizada por um desígnio divino transcendente”, comenta Cristóvão Tezza sobre a autora. Nisso reside toda a supremacia de sua narrativa e toda a decepção do leitor religioso que esperava um doutrinamento, um clichê moralizador (talvez somente em O Negro Artificial é que um ciclo interno se complete, produzindo uma renovação de valores, mas isso feito de forma brilhante na relação entre avô e neto).

A imagem de Flannery lhe faz um mito imediato: uma mulher isolada, devotada à “clareza” de sua religião e à “obscuridade” de sua escrita, apoiada em muletas, sendo lentamente encaminhada para a morte através do lúpus e rodeada de pavões (a descrição que ela faz de um pavão abrindo a cauda diante de um padre em O Refugiado de Guerra é monumental). Toda essa dualidade, toda a ambigüidade desconstrutora de sua produção, cria a riqueza de uma alma que chegou onde queria fazendo um caminho ao contrário. Não é à toa que alguns colégios e católicos de sua época acharam seus trabalhos mais próximos do Demônio do que de Cristo.


“Em minhas histórias, eu descobri que a violência é estranhamente capaz de voltar meus personagens para a realidade e prepará-los para aceitar seu momento de graça”, afirma O´Connor. “Graça, no modo católico de pensar, pode e deve usar como caminho o imperfeito, o puramente humano e até mesmo o hipócrita”.



E se há algo de grotesco em seus personagens é simplesmente o fato de se acharem auto-suficientes, mas não por suas deformidades físicas, depravações ou impossibilidade de redenção. “Se você vive hoje”, ela escreveu para Elizabeth Hester em 1955, “você respira niilismo. Dentro ou fora da Igreja, esse é o gás que você respira”. Acima do racismo, preconceito contra idade, deficiência física ou gênero, o distanciamento entre as pessoas era o que realmente fazia Flannery pensar que Nietzsche tinha sensatos motivos para dizer que Deus estava morto (“Não é a dimensão divina que é seu objeto de literatura, mas o homem que pensa sobre ela", acerta novamente Tezza).



“Preciso escrever para descobrir o que estou fazendo. Como a velhinha, não sei muito bem o que pensar até ver o que digo”. Numa prosa irônica, polida e certeira, Flannery O´Connor fala de Deus pelo avesso, ou seja: pelo nosso lado, pelo lado de quem nada sabe - mostrando o pior da vida. Porque, no final das contas, o narrador maior é Deus. E Flannery tem a certeza de que só Ele é quem sabe o que está fazendo.  



*



Sugestão de Leitura


A Cosac Naify publicou no Brasil os “Contos Completos” em 2008, na sempre excelente tradução de Leonardo Froes. Quase duas décadas antes, a Arx lançou o primeiro livro de contos da autora, “É difícil encontrar um homem bom” (no qual este artigo foi baseado), numa tradução e revisão que às vezes pecam, mas que, diante de um leitor mais atento, fazem Flannery cativar da mesma maneira.


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o enzo costuma escrever sobre livros e autores que eu pouco ou quase nada conheço. o que é ótimo. chegar a um livro através de um dizer ou um escrito de um amigo torna aquela leitura sempre diferente - por mais que toda leitura seja diferente uma da outra -, sempre especial. 

gosto dessa possibilidade de postar escritos de outros leitores sobre livros e autores. vou à caça de mais e mais. e deixo o espaço aberto para quem quiser se fazer presente dessa forma neste espaço do um-sentir. basta um e-mail para italopuccini@yahoo.com.br

í.ta**

6 comentários:

Regina Carvalho disse...

Pra quem gosta de crueldade, Flannery é um prato cheio,hehehe...
Mas se ela se rotula como católica, porque encrencas com os críticos? Pode ser respeito por ela,ora! bj

Lídia Borges disse...

Vida e obra... Coisas distintas
Para haver arte é preciso despersonalização. O que um autor cria, por meio da literatura, é ficção.

Obrigada pelas sugestões.

Um beijo

Enzo disse...

É verdade, Regina.
Mas acho que é uma fresta que a gente tem que abrir nessa casca infelizmente criada por autor e críticos.
Vale muito a pena.
bjones!

Dilberto L. Rosa disse...

Ítalo, 'nes't pas'?! Salve, meu caro (curioso para entender tua "sigla de assinatura"): inicialmente pensei que fosses uma mulher, dada a delicadeza de tuas letras nos recados nos Morcegos; depois vi que tens alma feminina, algo raro e rico para quem se dedica ao árduo sacerdócio do ler/escrever; e constatei, através de teu "Olhos Verdes", além da ousadia da estória e do maneirismo de não usar as pontuações de vírgulas, a mulher saltando do personagem Ítalo/autor!

Daí li tudo por aqui e me deliciei com as análises de certas obras e de autores que sempre passei perto, mas que, por algum motivo que ora me foge, acabei por não os ler... Ávido por ler as obras e os autores citados e por mais textos do chicobuarquiano (Ô, cabra pra ter alma feminina nas canções!) Ítalo!

Sobre o 'post' atual, interessantes as análises do Enzo sobre a autora, e me soaram interessantes duas coisas: ver teu espaço aberto para outros escritores e ver que o Enzo foi inteligente ao analisar Flannery (que ainda não conheço, mas sobre a qual me interessei em saber mais) por cima de estereótipos e fáceis rotulações geralmente dadas a autores marcados como "autobográficos"! Digo isso porque tu, Ítalo, foste o único a avaliar meu último 'post' como um texto - o que o é, uma crônica poética, ainda que sobre uma reminiscência pessoal! Porque cansa essa visão de que blogueiros são meros "auto-escritores", a desabafar idiossincrasias íntimas e a querer sempre um "conselhinho" dos seus leitores/demais blogueiros! Sou escritor, ainda que amador ou menor ou algo assim!

No mais, abração e obrigado pelos sempre gentis comentários em meu humilde espaço virtual!

Eduardo Silveira disse...

baita escrito do enzo.
tô com este "é difícil encontrar..." por aqui. da edit. siciliano. o texto deu vontade de conhecer a flannery.
como vc, gosto muito de ler alguém falando sobre escritores novos pra mim.
ler alguém falando sobre um já conhecido é bom, joga novas luzes ao que a gente pensa, mas prefiro sempre essas novas trilhas.

abrass

Vanessa Souza Moraes disse...

Nunca li :(

http://vemcaluisa.blogspot.com