sábado, 8 de janeiro de 2011

a escrita (repetitiva) que cansa o leitor



eu me considero muito leitor do escritor norueguês jostein gaarder. não apenas pelo fato de ter dez livros dele, mas por ter lido - ou tentado ler - todos eles. mas aí é que está o detalhe: a mim não é possível ler todos esses dez gaarder que eu tenho aqui. realmente não é. e explico o porquê.

comecei com "o mistério de natal". amei a história. reli-a um ano depois. já não me soou tão boa assim. 

parti, então, para o aclamado "o mundo de sofia". apaixonei-me. mas não me aventuro a relê-lo tão cedo. 

e emendei, então, "o dia do curinga". livro que li duas vezes seguidas. assim que cheguei à última página, e a li por inteira, voltei para a primeira página do romance, e em poucos dias reli tudo. 

dali por diante não me lembro da ordem, mas li "o pássaro raro", único livro de contos dele que eu tenho, "através do espelho", "ei, tem alguém aí?", "o vendedor de histórias" e "a biblioteca mágica de bibbi bokken" (os dois primeiros, muito fracos. os dois últimos, com uma narrativa segura e bom enredo para o leitor). não todos seguidamente. mas em um ano dei conta deles. e patinei sem sair do lugar em "maya", e agora abri mão de ler "a garota das laranjas", o último, dos que eu tenho, que me faltava ler.

e o detalhe, para mim, na leitura dos livros do gaarder está numa característica bastante comum a muitos escritores, até aclamada em parte pela crítica, que é o tal do estilo, da voz própria que um escritor alcança e todo aquele blábláblá tradicional. porque é delicado demais isso de alcançar uma voz narrativa própria e de, a partir dela, não tornar seus livros repetitivos. o gaarder alcança, sem dúvida, uma narrativa que é só dele, que lido um livro, você já sabe o que vai encontrar no próximo, e é aí que ele derrapa, ao meu ver. porque me enche o saco, como leitor, ler tantos livros com a mesma fórmula, mudando apenas o tema da história (isso quando são mudados os temas) - por isso que tanto abomino os best-sellers, que são feitos numa mesma forma que continua agradando a um sem número de leitores, mas não a mim.

abri mão, por exemplo, de ler "a garota das laranjas" porque em vinte páginas foi a mesma ladainha narrativa de todos os outros livros dele. e eu realmente não tenho mais saco para isso. porque eu realmente busco narrativas que se diferenciam pela inovação e pela qualidade nessa inovação. e não é nos livros deste norueguês que eu encontrarei isto (sem contar a repetição de tema também, a tal da metaliteratura presente em pelo menos metade desses dez livros que li).

jostein gaarder marcou um período da minha vida de leitor. marcou de maneira bastante intensa. e, antes de quebrar esse encanto que se construiu entre mim e os livros dele, é melhor ficar com a lembrança do que foi lido, dos diferentes momentos de leitura, dos sentires leitores que dali surgiram. e seguir meu caminho de busca por outras formas de leitura e de escrita.

í.ta**

8 comentários:

en\zo disse...

que maravilha: como é difícil encontrar alguém que leia gaarder e escreva sobre gaarder!

no começo da minha adolescência, eu li O Mundo de Sofia, Dia do Curinga e Mistério de Natal. Lembro que meu preferido foi o Mistério.

"porque eu realmente busco narrativas que se diferenciam pela inovação e pela QUALIDADE nessa inovação."

muito bem lembrado. porque se tem qualidade, não precisa nem de inovação. Pode não ser eterno, mas cumpre seu destino como livro: o de encantar, o de preencher.

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

Pensava que era só eu que sentia isso a respeito da leitura do Gaarder. E olha que só li 3 da vasta lista que mencionou [Mundo de Sofia, Dia de Coringa e o Vendedor de Histórias...

Marcantonio disse...

Mas, Ítalo, não há aqui uma ligeira confusão entre fórmula e estilo? Este é formado por elementos quase inconscientes dos quais o escritor se apercebe e procura elaborar, acentuar. A fórmula é exclusivamente consciente, intencional, feita de elementos medianos,superficiais, comuns a muitas narrativas; e que são repetidos de modo estratégico, visando ou a manutenção de um sucesso comercial, ou algum tipo de propaganda, didática, etc. Margarinas têm fórmula, não estilo. Dostoievski tem estilo e visão de mundo, e seu livros não são repetitivos. Não têm fórmula.
Desconfio que em escritores como Gaarder o estilo é ilusório e incipiente, e por opção própria, talvez. Seja como for, isso dá uma bela discussão.

Abraço.

Vanessa Souza Moraes disse...

Nunca li nada dele, talvez porque todos lessem demais.

Eduardo Trindade disse...

Definitivamente não sou leitor tão assíduo dele, mas concordo contigo. Conheço vários fãs incondicionais de Gaarder, mas, no pouco que li dele, senti falta exatamente disso - de algo que me surpreendesse como leitor, que fugisse daquela linha que, embora excelente a princípio, parece que vai se desgastando ao longo das páginas/livros.

Assis Freitas disse...

há muito que se buscar, uma infinitude


abraço

Regina Carvalho disse...

Comecei pelo Mundo de Sofia, achei um saco aquelas aulinhas de filosofia meio fajutas, larguei no meio, e nunca mais li nada dele. Acho que és um heroi! bj

Fernanda Jimenez disse...

Passa a página, né? É assim mesmo, daqui a um tempo vc pode mudar de opiniao e voltar a curtir Gaarder.

Eu o conheci pessoalmente na Feira do Livro de Madri, foi muito simpático, amável.

Seu blog é muito bom!

Abraços!

Fernanda