quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Entre o encanto e o incômodo durante uma leitura


Às vezes eu me incomodo por me incomodar com trechos e expressões, em livros, músicas ou filmes, que a mim soam como verdadeiros clichês – mesmo concordando com o Bóris (sim, de novo ele) na ideia de que às vezes um clichê é a melhor forma de expressar algo. Eu não sei se isso é chatice, se é criticidade em excesso, se é não sei o que é. Mas me incomodo, é fato.

Há uma história que considero belíssima – com uma penca de escorregões que me assustam. Escrita pelo espanhol Jordi Sierra i Fabra, “Kafka e a boneca viajante” parte de um fato real envolvendo o escritor Franz Kafka para alcançar uma criação literária que destaca o encantamento que a palavra pode exercer (ou ter).

Segundo Dora Dymant (então esposa de Kafka), um ano antes de morrer, seu marido, passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, deparou-se com uma menina chorando porque havia perdido sua boneca. Para acalmar a garotinha, Kafka disse que a boneca fora viajar, e que ele sabia disso porque era um carteiro de bonecas, que inclusive já tinha uma carta de Brígida (o nome da boneca da menina) para entregar a Elsi. E assim pelos dias seguintes, Kafka se encontrava com a menina no parque e lia a ela as cartas que Brígida lhe enviava, de todos os cantos do mundo.

Jordi Sierra i Fabra recria neste livro estar cartas, que se perderam por aí. E constrói uma narrativa que envolve o leitor, com um mistério fino nos curtos capítulos, estes que são pensados cuidadosamente, tornando-se elemento de diálogo para a leitura: “Primeiro sonho: a boneca perdida; Segunda fantasia: as cartas de Brígida; Terceira ilusão: o longo percurso da boneca viajante; Quarto sorriso: o presente”. Dentro destes quatro capítulos, cada texto é uma letra do alfabeto.

Não é fator determinante para a compreensão da história saber que Kafka não teve filhos e não desejava isso, mas é algo que aparece muito no texto da história, assim como referências a este como lidar com um universo infantil que de repente surge diante de si.

Também, é possível se deparar com trechos que clareiam o quanto a literatura e o trato com as palavras podem transformar um ser humano. Primeiro, como eternidade: “Um dia, quando ela deixar de lhe escrever, nós duas vamos saber que nunca chegaríamos tão longe uma sem a outra. Viveremos cada uma na memória da outra, e isso é a eternidade, Elsi, porque o tempo não existe para além do amor”. Segundo, como necessidade: “A infância é o tempo de acreditar em bonecas. É na infância que existem os finais felizes. Mas são muito mais necessários na maturidade os carteiros capazes de receber cartas que só um louco é capaz de escrever”.

Mesmo com esse caminho de bom texto, levo sustos a cada releitura que faço, ao me deparar com frases como: “Bonita como a primavera da vida”; “Quando a vida floresce, tudo são janelas e portas abertas”; “A pena voava com muito mais liberdade e as palavras tinham se encadeado como uma longa trança de emoções e sentimentos”. Frases que me levam mais a temer metáforas do que a apreciar tal figura de linguagem. Como leitores que somos, acabamos por marcarmos nossas leituras com aquilo que já lemos. Óbvio. Continuarei me incomodando, parece-me.

ítalo.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

quase, quintana

mas assim continua não dando liga.


"O poema


O poema
essa estranha máscara
mais verdadeira do que a própria face..."
_ _ _ _ _ 
"Hoje é outro dia


Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova...".


ítalo.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

De guardar e abrir mão

No final do livro “A Bolsa Amarela”, Raquel, a personagem principal que se torna dona da tal bolsa, abriu mão de um par de vontades que antes a preenchiam – e também a bolsa. É quando ela soltou como se fossem pipas as vontades de ser adulto e de ser menino, mantendo consigo uma só, a de ser escritora, uma vez que esta não mais pesava, porque ela não a deixava engordar: escrevia sempre quando sentia que. Também, deixou voar pelo mundo o galo Afonso e a guarda-chuva, que moravam na bolsa. Ficou nela somente o alfinete de fralda, “para espetar a vontade de escrever, se vier a ficar gorda”.
Aí está, “entreguei” o final  da história. Sem peso na consciência. Ler ou assistir a uma narrativa  já sabendo o seu final não me parece tão estranho quanto o mito criado em torno sugere ser. Interessa-me muito mais o durante, cada frase fisgada, cada sentir compartilhado.
A vida é no durante.
Esta é, das histórias que já li, uma das que mais amo. Releio-a quase que todo ano, e me é sempre um reapaixonar-se. E não cabem porquês disso. É questão de sentir, sacumé?
Sinto-me, por exemplo, muito ligado à Raquel. De quando mais novo querer guardar vontades comigo, carregá-las, enchê-las, deixando-me pesar mesmo. E agora não mais. Minha mochila não está mais cheia de livros, não. Minhas prateleiras começam a ganhar espaço (crônica anterior). Meus projetos de futuro são agora dos ventos dos meus pés, dos caminhos que percorro sem saber bem para aonde ir. Voltar a vida à naturalidade que ela merece é o maior bem que já fiz a mim mesmo. Não nos cabe querer explicar, sim apenas dizer. Há uma diferença aí. Chama-se compartilhar.
Ou abrir mão.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Os livros que dou

“Na verdade, todo livro é invisível até que alguém o leia, entenderam? – explicou o ancião, pacientemente. – Os livros se tornam visíveis à medida que vão sendo lidos. Depois, são postos em estantes ou guardados em armário e tornam a ser invisíveis. O importante é que alguém os leia”.
Eis o trecho final de “O livro invisível”, do escritor Santiago García-Clairac, uma história infantil um tanto quanto rasa, mas que ainda assim apresenta alguns fundos falsos em que se torna possível mergulhar. O recorte acima é um deles.
E casa perfeitamente com um movimento que tem me ocorrido, de fazer com que meus livros-invisíveis-porque-nas-prateleiras se tornem livros-visíveis-porque-lidos-por-outros. E, com isso, alguns bons amigos estão sendo presenteados com histórias que já fizeram parte de mim – e que até continuam fazendo, aqui dentro, não mais como objeto-livro-na-estante.
A Francine ganhou “Fica comigo esta noite?”, a Jozi, “A vida que ninguém vê” e “Cartas para o coração”, o Paulo, “Filosofia em comum”, o Jefy, “Crônicos” e “Trem-Bala”, a Jessin, “Mundo infinito” e “Divã”, a Amanda, “Arranjos para assobio” e “O outro” e o Edu, “Corpo Sutil”. É muito livro, né? Sendo lido por muitas gentes. É preciso algo mais para que a leitura aconteça?
Porque deles os livros vão adiante, depois. Porque a ideia de que nada dura para sempre também serve para objetos, parece-me. E que bom. Assim como os sonhos vêm e os sonhos vão (né, Renato Russo?), os livros vão e os livros vêm. Jefy já tem um para me dar. Amanda me presenteou com outro, “O livro de haicais”, Mário Quintana. E quantos ainda circularão por entre nós? Sem contar aqueles emprestados-e-devolvidos e os emprestados-e-nunca-devolvidos. Há coisas que voltam. Há outras que não.
Desapego é o nome desse movimento? Pode até ser. Contudo, é-me preferível lidar com aquilo que não se nomeia. E não se prende. O mesmo para relações (êita palavra forte!) entre pessoas. Como disse o Fox, certa vez, “As melhores coisas da vida são compostas de vem e vai”.

ítalo.

domingo, 20 de novembro de 2011

o nome disso é vida

eu deveria estar no rio de janeiro agora. hoje. de hoje até domingo que vem. eu deveria, sim. porque fui escolhido por uma comissão avaliadora da unesco para integrar o projeto "a gente é agente", destinado ao trabalho de práticas leitoras, de incentivo à leitura. é coisa grande, sim. é em nível nacional, sim. é um puta negócio!

seria.

se eu não me chamasse ítalo puccini.

sou puccini, assim como um monte de gente. e uma dessas gentes trabalha no setor de cultura da prefeitura de joinville. e o fato de eu e ela termos o mesmo sobrenome - e sermos parentes - simplesmente me impediu de participar do projeto para o qual fui escolhido graças ao meu currículo acadêmico e profissional.

culpa de alguém? óbvio que não!
é uma questão de sina.
se eu tivesse o sobrenome da minha mãe, não aconteceria isso.

gritei pra fora, porque pra dentro faz mal, dizem.
soquei o ar, porque bater em mim mesmo não curto.
chorei de ódio, porque humor negro não me agrada.

o calvin pergunta, e eu faço uso da pergunta dele:
"O mundo é injusto, eu sei, mas por que ele não pode ser injusto a meu favor?"

né?

e continuei respirando. talvez porque seja o mais simples de se fazer.

tipo aquele samba do paulinho da viola que diz:
"faça como um velho marinheiro / que durante o nevoeiro / leva o barco devagar".

aliás, ouvir samba foi a melhor coisa que fiz desde que me deram a notícia.

a vida tem paliativo porraí para lidarmos com isto chamado acaso.

ítalo.

sábado, 19 de novembro de 2011

nossa, nossa

assim você me mata, quintana.
[de desgosto]


"A construção


Eles ergueram a Torre de Babel
para escalar o Céu.
Mas Deus não estava lá!
Estava ali mesmo, entre eles,
ajudando a construir a torre."


(Mário Quintana, "A vaca e o hipogrifo").


í.ta**

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

num mesmo ano



assistir ao djavan, a maria rita e ao lenine,
meu deus,


posso morrer, já?

lenine é puro corpo. ele canta com aquela voz maravilhosa, e joga energia demais com aquele corpo que dança do modo mais envolvente possível. ele faz quebrar tudo. com uma alegria que dá vontade de chorar.

ítalo.

De onde têm vindo as crônicas

Ônibus são progenitores de crônicas. Ao menos para mim. A dificuldade é escrever com eles em movimento, né? Mas ao menos rascunhar ideias é possível. Assim começou essa crônica, por exemplo. Enquanto eu estava sentado num ônibus com destino à rodoviária de Joinville. (Rodoviárias são lugares que me pertencem há muito, tamanho meu ir e vir – e estar – entre elas. Nada mais natural do que surgir ideias de escritas nesses trajetos – e até de concretizá-las).

Tenho andado distraído, impaciente e indeciso. Isso quem canta é o Renato Russo em “Quase sem querer”. Eu tenho é andado com um bloquinho e uma caneta nos bolsos. E anotando montes de coisas. Que ouço por aí, de amigos e de desconhecidos. Tem gente sendo refém da minha mão-com-caneta.

É que tem tanta frase boa sendo dita por aí. Tá certo que é linda a ideia de que elas são soltas para ficarem pelo ar, e não presas (vulgo, anotadas). Mas eu as estou anotando. E as twittando. Sim. E delas têm surgido essas crônicas. De frases que me ocorrem, de frases que ocorrem a alguém próximo a mim. De frases que viram twitts. E então croniquetas.

Eu confio mais em crônicas do queem twitts. Estespara mim são carregados de ironia. E de incompletude. Justamente pelo texto curto que propõem, o não-explicar. E eu gosto muito de explorar as ambiguidades possíveis em 140 caracteres. Uso e abuso das dúvidas que as frases deixam, afinal, cada um faz uma leitura do que lê e do que ouve e do que vê pelo mundo. Então pra quê possíveis explicações?

Estou mais pelo samba do que pela conversa. Explicar algo me traz dor de cabeça. É melhor a gente sentir do que querer saber. Algo meio Clariceano: “Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrarem contato.” Interessa-memais a prática do que a teoria. O ouvir do que o falar (melhor ainda, às vezes, o não-ouvir e o não-falar). Um pouco também, o não-escrever. Porque isso de se respeitar é uma descoberta e tanto.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

poemas

poema de três versos


- eu te amo.

é bonito.
e inútil.

_ _ _ _ _

metade não dá

abri mão do mundo
por mim mesmo.

(juntava e afastava os dedos
da mão direita -
a que escreve e a que vira páginas -

e dali fui me despindo
de tudo o que estava
em mim
e não me pertencia
- pelo menos não neste momento).

sê inteiro
para ser do outro.

melhor ainda:
para ser com o outro.


í.ta**


(também aqui)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

De músicas e de gentes

E de outras coisas todas que vivemos.
Foi Jozi quem me apresentou uma cantora de São Paulo, de voz doce/suave (parecem-me sinônimos essas duas palavras, neste contexto) que canta músicas calmas com letras ora cotidianas, ora amorosas, ora naturezas. Tiê. Nome de um pássaro. Nome próprio, não artístico, da cantora dos cd´s “Sweet Jardim” (2009) e “A coruja e o coração” (2011).
            Peguei pelo som, grudei, e agora não solto mais. Tem-me acalentado. Tem-me preenchido. Tem-me feito companhia. Tem-me feito silêncio. Tem dormido comigo todas as noites. Tem me levado a dançar. E a querer dançar. E Jozi tem me ensinado a dançar, veja só.
            Música ajuda a silenciar também, não?
            Ouvindo Tiê eu cheguei à Evelyn, que também a ouve, que também a sente, que também. Vive lendo meus escritos, gostando deles, vê se pode?!
            Uma pessoa leva a uma cantora, a uma música, que leva a uma outra pessoa, que leva.
            E foi Philipe quem me trouxe o novo trabalho da Adriana Calcanhotto, “O Micróbio do Samba”, um cd de doze músicas muito sambísticas e de letras que apresentam várias possibilidades de términos de relacionamentos. Pode doer, mas não parece doer. É como eu e Edu conversamos, músicas que propõem desencontros com batidas tão encontros.
Cd este que agora vive a me deixar a sorrir, como diz a primeira música do cd, que muito me lembra a história narrada pelo personagem Boris em “Tudo pode dar certo”, do Woody Allen. Uma música e um filme que apresentam o acaso em seu estado puro: aquilo que ainda bem existe e ainda bem não avisa quando chega. Nem quando vai embora.
            Uma música que leva a um personagem, a um filme, a uma música, a umas gentes.
            “Pode se remoer”, uma crônica de mim para vocês. Para nós todos.
“Assinado eu”. 

ítalo.
(também postado aqui)


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

uma conversa. ou uma resenha.



ou as duas coisas, vá lá.

e começou assim:

@edu_silveira esse 'micróbio do samba', @ita_puccini, é disco muito bonito e um tantão triste, não? há bem mais desencontros do que encontros aqui.

@ita_puccini @edu_silveira eu o estava ouvindo aqui hoje, e me peguei pensando nisso também. em desencontros, mas com batidas tão encontros.

@ita_puccini @edu_silveira não me passa uma ideia de tão tristeza assim, não. parece-me antes uma consciência tranquila dos desencontros.

@edu_silveira @ita_puccini vdd, pq como vc bem disse, a batida é do encontro, um ritmo pra dançar. vc fica rindo do desencontro. acha ele bonito.

@ita_puccini @edu_silveira maravilhoso, bem isso RT @edu_silveira (...) vc fica rindo do desencontro. acha ele bonito.

e continuou assim, aqui, agora.

afinal, "vai que se materializa o meu príncipe dourado, vai que me espera com boas notícias o inesperado", né, calcanhotto? né edu?

Hmmmm, nego do cabelo dourado,
Vamos de conversa. Antes uma risonha do que uma resenha.
o samba é mais um micróbio pra nossa cabeça.

assim nós vivemos a sorrir. e caminhando sambando.

esperando nosso amor eterno. que dure só até quarta-feira.

Vai saber...Ainda não foi aqui que descobri
O que a cuíca é
que pássaro ela era muito antes
se ela chora ou se ri

lembrando que a sua nova namorada é querida, meu bem, mas ela não samba. pai, ela não requebra. aí o azar é seu, sinto muito.

(já reparô?)

Nisso e em outra coisa: pensa que sabe mentir o homem que eu amo. Humpf!

Vai saber... tem de tudo aqui, marchinha de carnaval, samba de barzinho e violão, tem batuque, guitarra, palma com palma.
Só faltou um partido alto, rs.

aqui quem sabe convidemos o chico pr’essa prosa?

Samba do desencontro... que não há quem ‘guente mais lelêzinho
Se bem que há quem ‘guente, sim e goste dum lerê, lero-lero, lorotinha,

Mas isso não é caso nosso. A orgia é nossa, bem, até segunda ordem do acaso.

Quem é que sabe?

Afinal, eu encontrei alguém que só pensa em beijar. Pode se remoer, se penitenciar...

Ah, Esqueça, esqueça, esqueça, esqueça...

ítalo e eduardo.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

como falar dos livros que não lemos?

resposta: copiando a quarta capa deles.

"Axler não conseguia se convencer de que estava louco, tal como não havia conseguido convencer ninguém, nem mesmo a si próprio, de que era Próspero ou Macbeth. Era um louco artificial também. O único papel que conseguia desempenhar era o de alguém que desempenha um papel. Um homem que não está louco interpretando um louco. Um homem estável interpretando um homem arrasado. Um homem controlado interpretando um homem descontrolado".


("A humilhação", Philip Roth).


eu adorei isso. mas não o lerei. ao menos não agora. vou esperar que a vida o coloque à minha frente em outro momento. 


tô adorando isso de abrir mão dos livros também.


ítalo.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Uma crônica em duas partes

Ou duas croniquetas em um texto.
Isto porque tenho preferido os textos curtos. Aqueles que dizem e pronto. Tem sido assim na escrita, tem sido assim na fala.
Deparei-me com uma frase atribuída ao Johnny Depp (ele não sabe, mas o dia em que eu me casar, será com ele), rolando no Facebook com uma imagem dele: “Se você acha que ama duas pessoas ao mesmo tempo, escolha a segunda. Porque se você realmente amasse a primeira, não teria uma segunda opção!”. Será? Podemos lembrar do Raulzito aqui, né? “Que ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez, uma vez”.
Olha, Depp, se a frase é tua, já temos um problema. Vou repensar a ideia do casório. Porque êta frasezinha ruim. Mas eu acredito que a internet a tenha colocado como tua. E não acredito nenhum pouco nisso de que não se pode amar duas pessoas ao mesmo tempo. Não só acho que é possível, sim, como pra mim é condição natural nossa, de seres humanos. E condição bonita. Porque há algo mais bonito do que amar pessoas? Quem é que não ama os amigos, os de perto e os de longe? E só porque se está relacionando com alguém não se pode amar mais ninguém? Comigo isso não cola e não rola. E jamais se escolhe entre aqueles que você ama.
Eu amo, por exemplo, os meus alunos. É uma forma de amor, não é? E das mais bonitas. Porque me sinto bem pra caramba demonstrando a eles o quanto me sinto bem na presença deles (inclusive nos momentos de esporro geral, sempre necessários).
E amo tanto que compartilho com eles momentos que a mim significam muito: momentos de escrita e de leitura. Possibilidades de criar e de entrar em mundos até então nunca explorados; sequer existidos. Se cada um deles já é um mundo de proporções irreais, imagina o que vem de dentro, as diferentes leituras que brotam por uma sala de aula após a leitura ou a escrita de um texto.
E foi assim que lhes apresentei, nos últimos dias, o Rosamundo, um sujeito cujas distrações distraem até a gente, seus leitores. Personagem do Stanislaw Ponte Preta, Rosamundo é daqueles que entram no apartamento do andar de baixo e só vão se dar conta da distração quando já estão tomando banho e gritando para a mulher trazer a toalha. É, também, daqueles que ligam para a esposa pensando que falam com a amante, e vice-versa. E que erram de casa ao voltar do trabalho. É, na verdade, daqueles que não podem e nem conseguem trabalhar em lugar algum, simplesmente porque é muita distração para se colocar coisas importantes em risco tão iminente.
Rosamundo encanta e conquista. Tipo a leitura. Rosamundo a gente passa a amar porque não há exigência de sentimento, nem de comprometimento. Ama-se quando se deve e se sente bem para isso. Tipo a leitura. Aquela despretensiosa, aquela que vem para preencher, para satisfazer o que há de mais íntimo e mais puro. É quando o personagem se torna nosso. E a gente se ama. Da mesma forma que ama tantos outros. Só que diferente.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

o mundo

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus.
Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
- O mundo é isso ­– revelou –. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoas brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

Eduardo Galeano, página 13, “O livro dos abraços”. 

sábado, 15 de outubro de 2011

a todos os que sabem(os) amar


quero suar
quero sentir o corpo grudar e colar
sozinho

só de ficar parado

quero as gotas em bicas
do queixo e do cotovelo

quero o beijo que gruda
quero o suor azedo

de vida que pulsa e
se renova.

(também aqui)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

a leitura, quando basta

Há semanas em que ler não basta.
Estou vivendo semanas assim. As últimas duas. Ô dificuldade de leitura! De me concentrar em algo a ponto de conseguir entrar no que estou lendo. Não tem dado certo. No máximo, fico nos poemas do Manoel de Barros, naquele livrão que continuará sendo minha bíblia durante não sei mais quanto tempo. Ainda assim, esse ato de entrar nesse livrão tem se dado de maneira bastante rasa, ocasiando até mesmo choques, como se eu estivesse batendo meu corpo e minha cabeça contra o chão. A leitura que não flui, a leitura que trava, machuca. Tenho percebido.
Há semanas em que ler não basta.
Assim me vem saudades dos dias em que quanto mais eu lesse, mais vontade me vinha de continuar lendo. Saudades de quando a leitura era de mergulhar fundo, de ir e ir e ir cada vez mais. E não se afogar nesse movimento. Porque vinha a pausa, o respirar, o levantar a cabeça. E então o afundar novamente. Quando um livro só não bastava. Era preciso ler duas escritas diferentes num mesmo dia. Sem ideia de complementariedade. Poderiam ser leituras que se opunham, tanto fazia. A cabeça estava tão boa que permitia receber estímulos diferentes e bem assimilá-los.
Leitura pode ser compartilhar algo. Fazer tão bem que se deseja, então, ler para o outro, mostrar, fazer tocar mais alguém – sempre de uma forma diferente. E reler. Um sentimento de felicidade. Faço muito disso. Encaminho textos, indico livros e autores, conto e descrevo o que me deixou sem respirar de emoção. Sem contar quando faço da leitura um presente para alguém, acreditando na identificação da pessoa com o mesmo.
Leitura pode ser silenciar o que vem dentro. O despertar da não-necessidade da fala, do explicar. Pode ser a consciência plena que não precisa ser dita. Um sentimento de felicidade. Em que não há o desejo de compartilhar, e sim o de guardar para si, um relicário.
A leitura vem para preencher. Como vem para fazer transbordar. Sem ela eu não consigo.

(também aqui

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

poema pra dentro


fiz da solidão
morada.

casa de concreto
em quadrado,

formato em que
não me cabem
cantos

ou contornos.

exercício de endurecer
por força da vida.

í.ta**

(também aqui)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

eu amo a escrita do saramago

"Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha, Que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado seria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré".

começo do "conto da ilha desconhecida".
_ _ _ _ _ 
í.ta**

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

pena de ganso

"Que febre é essa? Trocar, trocar, expressar para além de todo limite. Essa vontade, essa vontade de não ser pedra, nem bicho, deixar nossa passagem marcada, gravar. Gravar o que vai dentro da gente, deixar para que qualquer um, seja quem for, seja quando for, seja onde for, experimente as mesmas coisas da gente ou reconheça, nas coisas da gente, as próprias coisas, e escape, assim, da tristeza enorme de pensar - é só comigo que acontece assim. Poder ler sozinha a folhinha na parede, as páginas do almanaque, o jornal que conta o mundo para o pai, nos domingos. O mundo, que os irmãos também podem ler, quando querem. Quando se lê o mundo, a gente não está mais sozinha - Aurora não sabe dizer a palavra solidão, e não é por isso que não sabe experimentá-la".

livro pena de ganso, de nilma lacerda, página 72.

í.ta**

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Costumamos achar que o mundo nasce com a gente


Escrevo muito, escrevo para deixar escrito.


            Título e epígrafe do livro “Pena de Ganso”, da Nilma Lacerda – com ilustrações do Rui de Oliveira. Livro que eu reli na última semana. Reli porque tô numas de mais reler do que ler. Porque a gente muda tanto que os livros mudam também, e daí que reencontrá-los é muito bom.
            A história de Aurora encanta. Uma menina que deseja aprender a ler e a escrever, em uma época em que não, meninas não tinham esse direito. O que fazer para ajudar Aurora? Será que ao lermos a sua história acabamos por dar a ela vida e possibilidade de realizar o desejo maior que tinha?
            Como leitores, sabemos que “este não é o melhor dos mundos, mas é o que podemos oferecer a ela”. A escrita não acontece sem tintas e o texto não existe sem um leitor. Uma história também não. Um personagem muito menos. Escrever pode ser solidão. A leitura, na maioria das vezes, também. Mas quando se lê e se escreve, quando se está em contato com algum personagem, jamais se está sozinho.
            “Um mundo em que escrever é um processo muito sofisticado, muito difícil. Ter acesso a isso, em certas circunstâncias, é tão ou mais difícil que o próprio aprendizado”.
            Brotar um texto é fazer nascer um mundo. Presunção? Eu diria que necessária. A vida nunca mais é a mesma depois que se conhece um personagem. Um dia na vida é muito. Uma vida não é brincadeira. Afinal, “o que é que acontece entre a tinta, o dedo da gente e um traço? O dedo da gente pode escolher um caminho, ir andando por ele e deixar registrada a marca dessa passagem”.
            E que venha o leitor para desmarcar tudo, desmontar. Dar novos significados. Fazer doer e arder para curar.

ítalo. (também aqui)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

começando maneca



fui começar o "poesia completa", do manoel de barros, que o enzo me deu de presente.

e já parei na "entrada". e pensei em sublinhar alguma coisa daquele texto. mas seria impossível. teria de sublinhar o texto todo. então resolvi colocá-lo aqui. e não sei se vou passar pras páginas seguintes. porque eu acho que a minha vida pode caber nesse texto. 
_ _ _ _ _ 
"Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com os sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim: O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz. Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem. Perdoem-me os leitores desta entrada mas vou copiar de mim alguns desenhos verbais que fiz para este livro. Acho-os como os impossíveis verossímeis de nosso mestre Aristóteles. Dou quatro exemplos: 1) É nos loucos que grassam luarais; 2) Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades". (Manoel de Barros)
_ _ _ _ _ 
í.ta**

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

twitt fora do twitter #15



"não é a vida como está 
e sim as coisas como são"


pode ser um alívio de esperança
ou um grito de desespero.


ítalo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

fodidos

"Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia.
Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo".


esse eduardo galeano, no texto "celebração das contradições/ 2", no "livro dos abraços", leva-me à palavra. que por si só contradiz. e consequentemente acontece com quem dela faz uso. e que bom que assim é. perfeição de entendimento tornaria o mundo mais caótico do que já é. existimos meio que pela incompletude da linguagem. 


há uma passagem da peça "passport" em que um dos policiais diz ao outro algo mais ou menos assim (porque toda transcrição de fala é imperfeita por natureza): "o que me tranquiliza, chefe, é saber que nessa vida estamos todos fodidos".

e não é assim? 


a sinopse da peça diz: "Tudo acontece em alguma cidade, algum país esquecido. O Oficial e o Soldado exercem suas funções cotidianas sob a ordem dada em outro tempo. E em eterno presente, o Cidadão se vê em alguma cidad, algún país olvidado". a peça, baseada em um texto do dramaturgo venezuelano gustavo ott, explora os limites da linguagem, a incapacidade de comunicação entre as pessoas (de línguas diferentes, mas não só). ela inquieta o leitor que a assiste porque não há o que ser feito numa situação em que duas vozes dialogam cada uma em uma dimensão própria, podemos chamar assim. nós que a assistimos alcançamos essas duas dimensões (quem sabe?), mas não nos cabe intervir. talvez se tornaria, a nossa, apenas uma terceira voz se perdendo entre as outras duas. quanto mais alto o barulho, menos se ouve dele.

mas voltando à frase presente na peça, desde que a assisti duas vezes, ela não me sai da cabeça. e eu vivo a repetindo, às vezes em alto e bom som. como que para internalizá-la mais e mais. e para me sentir mais leve também. porque haja mania grandioloquente de nossa parte em tornar maior aquilo que é tão pouco. 

eu escrevo personagens por aí. dia sim, outro também. vários personagens, às vezes. noutras, grudo-me em um só. sinto-me sempre acompanhado. não só ouço, como também falo. dividimos pedaços de vida. compartilhamos felicidades e frustrações. trilhamos caminhos separados, sim, mas unidos de alguma forma. pela fala. e acreditamos num entendimento mútuo do que falamos entre nós. é melhor assim. por mais que saibamos que entender mesmo a gente continua entendendo só o que queremos dizer e o que queremos ouvir. e o nosso querer não é nosso, no sentido de ser de dois. é um querer de cada um. compartilhados. misturados. mas não tornado um só. 

então que ter essa ciência, de que estamos fodidinhos - graças a deos - no mesmo barco alivia muito a vida. 


é uma forma de nos abraçarmos, talvez. 

ítalo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

esperei mesmo


"nem passar agosto esperando setembro".

ano passado a postagem foi esta.

este ano é o mesmo vídeo, o mesmo verso,
mas eu de fato esperei.

e olha que vivi em agosto dias e felicidades antes nunca vividos.
mas não dava mais pra aguentar esse mês. longo por demais. 

ainda bem que a gente muda. sempre. 

ítalo.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

a função do leitor - 1

"Quando Lucia Peláez era pequena, leu um romance escondida. Leu as pedaços, noite após noite, ocultando o livro debaixo do travesseiro. Lucia tinha roubado o romance da biblioteca de cedro onde seu tio guardava os livros preferidos.
Muito caminhou Lucia, enquanto passavam-se os anos. Na busca de fantasmas caminhou pelos rochedos sobre o rio Antióquia, e na busca de gente caminhou pelas ruas das cidades violentas.
Muito caminhou Lucia, e ao longo de seu caminhar ia sempre acompanhada pelos ecos daquelas vozes distantes que ela tinha escutado, com seus olhos, na infância.
Lucia não tornou a ler aquele livro. Não o reconheceria mais. O livro cresceu tanto dentro dela que agora é outro, agora é dela".

eduardo galeano, página 20 de "o livro dos abraços".
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eu comecei uma aula com a sexta série, ontem, lendo isso. apenas lendo. porque às vezes ler-por-ler é muito mais interessante do que ler-para-cobrar-algo. porque daí você lê, fecha o livro, olha praquelas carinhas miúdas que devolvem o olhar para você como que dizendo "tá, e daí?". e daí você devolve a pergunta "tá, e daí?". e o melhor de tudo é o silêncio que fica. essencial para se tocar a aula adiante. até quem sabe, no meio dela, ser interpelado por uma pergunta: "quem inventou a escada, professor, queria subir ou queria descer?". 

aí você sente que muita coisa nessa vida vale toda uma existência.

ítalo.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

o consumismo em mim


Se há algo que faz disparar meu lado consumista são livros, cd´s e dvd´s (necessariamente nesta ordem), então que o zelo que tenho por estes objetos traz consigo ares de chatice, típico de quem se apega a algum bem material e passa a ter com e por ele uma identificação que às vezes permite ultrapassar a barreira do bom senso (seja lá o que quer que defina esse bom senso).
Costumo cometer alguns “crimes” de vez em quando. Tenho que me policiar constantemente ao andar pelas ruas da cidade. Entrar em livrarias, lojas de cd´s e dvd´s, ou em sebus, é um assassinato ao meu sempre tão controlado bolso. O mais inesperado acontece. Entre tantos e tantos livros, por exemplo, que coincidência, o olho é puxado para aquele que “ah, não, esse eu não posso deixar passar. Procuro há tanto tempo!”.
Ainda que o apego a esses objetos se dê muito mais em função do caráter cultural e sem-sentido (porque as melhores coisas da vida não servem para nada, e nem precisam) que eles trazem consigo, do que propriamente da mera satisfação de tê-los nas estantes espalhadas pela casa, visíveis não só aos próprios olhos, mas, arrisco dizer, principalmente aos olhos alheios, apesar disso, esse apego contém em si um olhar muito cuidadoso na forma como os livros, cd´s e dvd´s são acomodados pela casa, e uma organização rígida no que diz respeito ao empréstimo que é feito deles para os mais próximos (sim, pois é algo fora de cogitação colocá-los em mãos que não inspiram a mínima confiança necessária para tal também dolorosa ação).
Roupas, calçados, decorações para a casa, perfumes, xampus ou sabonetes, o que vier está bom. Não vou atrás para tê-los. Entrar em uma loja para comprar alguma peça de roupa, só em casos extremos, quando não tenho, realmente, o que vestir de tal peça (fato que aconteceu em minha vida apenas duas vezes, para comprar duas calças-jeans). No máximo causa-me um bem-estar ir a brechós atrás de boinas e cachecóis. É a forma com a qual me sinto bem utilizando o dinheiro que ganho mensalmente.  
Certa vez, numa aula da pós-graduação, o professor de Educação Inclusiva trouxe-nos um maravilhoso resgate da exclusão social existente desde a idade antiga, com os gregos e romanos, passando pela idade média e a influência exercida pela igreja católica, até a idade moderna, com o advento do capitalismo e as diversas formas de exclusão conseqüentes do consumismo desenfreado. Foi uma conversa muito boa, muito franca e aberta, sem falsas ideologias, que me levou a construir estas linhas. Senti-me muito bem. Indignar-me diante dos caminhos tortuosos em que o humano faz girar o mundo é inerente ao meu ser. Desde que me conheço por gente não sou ligado ao ato de comprar, de ter cada vez mais um pouco de tudo, de estar numa pseudo-moda mundial, de exibir artigos de luxo-reveladores-do-lixo-interno. No máximo desenvolvi em mim o gosto em possuir livros, cd´s e dvd´s. Bastam para mim. Comida e saúde não entram no caso. São elementos externos ao consumismo desenfreado que atinge a maior parcela da população mundial.
Ainda alimento o desejo de ler nos noticiários policiais mais “crimes” e “assassinatos” como os que eu cometo periodicamente.

Ítalo. (publicado também aqui