quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

um tal de amigo-secreto


nunca gostei de amigo-secreto. na escola, eu odiava. pois a sala inteira se animava em participar, e eu era o "do contra". participava, afinal de contas, eu não tinha peito o suficiente para não participar, diante de tanta choradeira daquele povo. participava e odiava ainda mais. onde já se viu ganhar uma caixa de bombom de presente? e, pior, ganhar um envelope com vinte reais dentro? preferia fazer amigo-secreto num manicômio. acho que seria muito mais bonito. até que... até que entrei no prolij, o grupo de pesquisa em literatura infanto-juvenil da univille. aí redefini minha ideia de amigo-secreto. e agora todo ano eu participo do amigo-secreto do prolij. mas só do prolij. porque com esse grupo tudo é diferente. tudo é muito indescritível, e não serei eu o tolo a tentar descrever aqui como é o amigo-secreto do prolij... tá, só um pouquinho. é uma bagunça maravilhosamente bem organizada. é uma troca de sentires que faz correr uma energia única entre nós, participantes. e é uma troca de livros. livros e outros presentes-lembrancinhas. aqueles presentes que você dá à pessoa por conhecê-la o suficiente para saber que aquilo será muito especial para ela, por algum motivo muito próprio dela, e que não cabe a mais ninguém dar conta de saber. um amigo-secreto gostoso por demais, em que, tão importante quanto a troca de livros - que aguça a curiosidade de todo mundo por querer saber mais sobre o livro que o outro acabou de ganhar - são as palavras ditas sobre aquele que pegamos. um cuidado em descrever tal pessoa. um cuidado sincero de quem passa o ano inteiro lendo, estudando, organizando eventos e contações de histórias. um cuidado de quem escreve assim na dedicatória do livro: "acho que o melhor presente é aquele que gostaríamos de ganhar... eu adoro o manoel de barros, portanto dou a você, meu amigo-secreto, um pouquinho dele". dedicatória que minha amiga-secreta escreveu no livro "memórias inventadas para crianças", do manoel de barros, edição da planeta, de capa dura, ma-ra-vi-lho-sa. sem contar o texto do maneca, que dispensa qualquer apresentação. 


o mais bonito em "memórias inventadas para crianças" é o texto que abre o livro: "escova". é quando descobrimos o manoel que queria escovar palavras, apenas porque vira dois homens sentados na terra escovando ossos, e porque havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos: "eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos".


e há mais nesse livro de dez textos. e de imagens belíssimas. iluminuras da martha barros, filha do maneca. há coisas assim por lá: "agora eu penso uma garça branca de brejo ser mais linda que uma nave espacial. peço desculpas por cometer essa verdade" (do texto "sobre sucatas"). e o manoel vai se desculpando o livro todo. como se devesse mesmo. desculpa-se pelas peraltagens que faz com as palavras. e com as histórias. peraltagens como enfiar água no espeto. como dar respeito às coisas e aos seres desimportantes. pede desculpas por brincar com palavras mais do que com bicicletas.


manoel de barros diz ter nascido poeta aos treze anos. dali em diante ele só queria ser uma coisa: fraseador. e diz também que hoje só usa a palavra para compor silêncios. e finaliza o livro assim (é a última frase do último conto): "agora quem está atônito sou eu". mentira, do manoel. mais uma inverdade dele. quem fica atônito ao lê-lo somos nós, leitores. apanhadores de desperdícios, ensinados por manoel de barros.  

í.ta**

7 comentários:

Roberta Ávila disse...

vai ter um amigo secreto aqui do blog então? =D via correio pro brasil inteiro! hahahahah

bjos!

Assis Freitas disse...

maravilha de presente,


abraço

Flowers disse...

Atônitos ficaram meus olhos ao passear por estas belas palavras a respeito do Meu poeta predileto. Tenho um sentir todo especial pelo maneca. Ano passado meus alunos leram esse livro e ousaram escrever suas memórias também.
Eu, boba que sou, criei um blog para registrar tal façanha.
Esse livro deixa a gente assim, querendo desdizer tudo o que já disse da vida, porque descobre que tudo o que o Manoel não inventa, é falso.
Fiquei apaixonada pelo seu texto e a forma como ganhaste esse rico presente.
Parabéns pela postagem...vou clicar ali no outro link daqui a pouco para saber mais sobre esse seu secreto e indescritível amigo secreto.
=D
Tenho certeza que vou sentir vontade de ter partiipado.
Lembro de um amigo secreto que participei numa igreja quando eu era criança, sabe o que me deram? um sabonete palmolive, sim, daquele sólido de 90 gramas. Fiquei pensando se eu estava precisando tomar banho...
Fiquei traumatizada com aquela brincadeira.

Abraços.

Ramon Alcântara disse...

Manoel de Barros é Deus letrado!
Gostei da idéia da Roberta.

Ann Nothing lhe aguarda!

Eduardo Silveira disse...

haaa, deve tá muito lindo o livro. pelos gostinhos..
e isso de amigo-secreto vale pelo grupo mesmo...pq a estrutura em si costumar ser protocolar. as mesmas frases e piadas. e presentes indiscretos
dar dinheiro é o Ò (que meu chefe me ouça, eh!)

quelhabraço

Sid disse...

Um bom livro é o melhor presente que alguém pode receber...

Vanessa Souza Moraes disse...

Eu morro de medo de amigo secreto, rs.
Não tenho boas lembranças.