domingo, 26 de dezembro de 2010

pra escrever uma crônica

vivo dizendo pra regininha que sinto saudades demais das crônicas que ela escrevia pro anexo (caderno de cultura do jornal anotícia). ela escreveu (pra) lá durante o ano de 2008. e toda quinta-feira era uma maravilha abrir o jornal para lê-la. por motivos “n’s” ela não mais escreve lá. e a saudade é grande, apesar do blog dela ser uma outra forma de crônica diária. ela realmente faz acontecer, naquele espaço virtual, aquilo que ele se propõe a ser: um diário. e a crônica não só pode como deve ser pensada num diário do escritor. num exercício de escrita que deve ser constante – mas constante mesmo – e que tem como elemento fundamental o dia-a-dia. é do cotidiano que advém a crônica.

enfim, de tanto eu escancarar minhas saudades das crônicas da rê, vezemquando ela escreve uma ou outra lá no blog. e dessa vez ela escreveu uma crônica sobre como escrever uma crônica. exercício já utilizado por todos os cronistas que eu já li até hoje. sempre válido, desde que não se torne repetitivo.

segue a crônica da rê, oferecida a mim, o saudoso leitor :)
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Pra escrever uma crônica (aqui também)

(pro Ítalo)


Pra escrever uma crônica, tem que estar de alma leve, tão leve que sobrevoe o mundo que se habita, e observe o que se passa, para escolher, com cuidado, aquilo de que se vai tratar;

Pra escrever uma crônica, tem que deixar que a alma leve, caso veja algo que a deixe indignada, se cubra de chumbo e farpas, e dispare cargas contra crueldades, destruições, injustiças;

Pra escrever uma crônica, tem que se embeber da alma dos cronistas todos que se foram, pensar que o jornal não vai noticiar o canto feliz do canarinho belga da dona Maria, mas o cronista pode (pode e deve!);

Pra escrever uma crônica, tem que lembrar que se diz que um cão morder um homem não é notícia, mas o homem mordendo um cão, sim. Só que se um homem morder um cão, quem vai contar isso será o cronista, não o jornalista - porque a parte "séria" do jornal é depositária de clichês, jamais de originalidades;

Pra escrever uma crônica, tem que ter sentimentos volúveis: ora ser alegre,ora triste, ora poético, ora maldoso, mas sempre, sempre, estar carregado de muita paixão;

Pra escrever uma crônica, tem que ter alma de gueixa, e fazer questão de ser doce e suave a maior parte do tempo, porque o leitor merece te ler na hora do café, e querer estender esse espírito e esse afeto, de forma a suavizar o seu dia;

Pra escrever uma crônica, tem que se arriscar, às vezes, e falar de coisas que ninguém diria, e mostrar lados seus que ninguém mostraria, porque tudo na gente é muito natural - até mesmo ser cruel, até mesmo ser canalha e imperfeito, até mesmo ser apaixonado e tolo, e tolo quando apaixonado;

Pra escrever uma crônica, tem que ser poeta, e não ter vergonha de se mostrar poeta, com um lado lírico, com linguagem adequada, com referências cultas, se preciso;

Pra escrever uma crônica, tem que ter lado humorista, e observar com espírito gozador os fatos ordinários de cada dia;

Pra escrever uma crônica, tem que atualizar a linguagem, e escrever como se fala, sem no entanto sair da forma escrita, mas brincar com isso;

Pra escrever uma crônica não pode querer fazer proselitismo de nenhum tipo, porque isso se faz é em sermões, em aulas ... e em panfletos;

Pra escrever uma crônica, é só começar e ir escrevendo, que um dia se chega lá.
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í.ta**

8 comentários:

Carol Rosa disse...

Olá!

Gostei da sua visita e também do seus blogs!

abraço!

Eduardo Silveira disse...

ah, reli com gosto. :)
e é verdade, tem algumas boas crônicas sobre o próprio ato de cronicar.
abrachu

Assis Freitas disse...

é uma arte,


abraço

Guilherme Sakuma disse...

haha, que divertido, Íta. eu não sabia que eu achava que era assim que se escrevia uma, mas depois que eu li o texto da sua amiga, eu fiquei sabendo que era isso mesmo que eu achava - muito embora eu jamais pudesse escrever sobre como escrever uma crônica, não sei fazer isso, acho. bom mesmo.

Ana Lucia Franco disse...

Dica muito boa, Ita!

bjs.

Por que você faz poema? disse...

Adeus, ano novo!

sidnei olivio disse...

I.ta, Concretos&Abstratos mudou para http://peloapelodapena.blogspot.com (coisas do ano novo).
Como sou analfabyte, mudei sem querer o link para o “concretos”. Me link again.
Beijos, Sidnei
(Um ano novíssimo cheio de saúde e poesia)

Záia disse...

ei Italo,

quando vires morar aqui em Joinville avise.

abs