sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O Velho Graça e o domínio da linguagem escrita

Reli “Vidas secas” e li “São Bernardo” e alguma coisa de “Linhas tortas”. Li Graciliano Ramos por uma semana, já se vão dois meses. E ainda ficaram para depois “Caetés” e “Angústia”. Propositalmente para depois. Para um depois que agora não me pertence e não me importa. Porque a leitura tem muito disso, de tempo, de momento. Estive para Graciliano por uma semana, por três livros. E não mais, por agora. E até uma próxima, Graça. Porque foi marcante.


É possível traçar uma linha por esses três livros de Graciliano. Uma linha chamada linguagem. Prestem atenção no chamado de “Linhas tortas”: "Deve-se escrever da mesma maneira com as lavanderias lá de Alagoas fazem em seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como falso; a palavra foi feita para dizer”.


A palavra foi feita para dizer, e em Graciliano ela diz. E pronto. Em “São Bernardo”, por exemplo, a palavra conta a história do nascimento e crescimento da localidade de São Bernardo, contada por um narrador que vai dividindo com o leitor esse processo de contação, de escrita. Um convite para que o leitor vá percebendo como uma história vai sendo construída, entrelaçada, vai ganhando vida pela escrita e, mais do que isso, pela leitura que dela é feita posteriormente, uma vez que, se há uma escrita que fala com alguém, é porque esta escrita espera pela leitura de alguém para se fazer viva.

E em “Vidas secas”, por exemplo, o leitor depara-se com uma outra forma de narração e de envolvimento entre livro e leitor. Este romance-fragmentado-em-quase-contos é daqueles livros em que o texto é a própria história. A secura da terra e da vida enfrentada por Fabiano, Sinhá Vitória, o filho mais velho, o filho mais novo e a cadela Baleia é a secura do texto com o qual o leitor se depara – e quiçá se assusta. Os fatos são narrados da forma como tem que ser. Pela essencialidade das ações – ou a falta de ações – dos personagens.
São dois os mundos apresentados ao leitor em “Vidas Secas”. Um mundo diz respeito à família do personagem Fabiano: a esposa Vitória, os dois filhos – filho mais velho e filho mais novo –, a cachorra baleia e o papagaio. E no outro mundo encontra-se a sociedade na qual tentam viver Fabiano e sua família. Sociedade esta representada na figura de duas pessoas – ou duas nomenclaturas sociais: o seu patrão (do suado e mal pago emprego de Fabiano) e a polícia (neste contexto do romance, presente na figura do Soldado Amarelo, responsável por prender Fabiano em determinado momento da história).


O que é apresentado ao leitor entre estes dois grupos não é um sistema de trocas, e sim um mecanismo de opressão e de bloqueio. Algo próximo ao que é encontrado na trama de “Fontamara”. Porém, se na obra do escrito italiano Silone encontram-se personagens que lutam pelo menos um pouco por alguma forma de mudança da condição em que vivem e com que são tratados, no romance de Graciliano encontra-se Fabiano, indivíduo inofensivo, um pobre diabo, passivo, incapaz de mudar o rumo dos acontecimentos, e que, quando tenta mudar algo, age de maneira intempestiva, sem pensar no que está fazendo, no que acarretará sua ação.
Há também, em “Vidas secas”, uma relação muito forte entre humanos e animais. Um processo de humanização. Ou de animalização mesmo. Fabiano é, ou pode ser, Baleia, o cachorro que acompanha a família. O animal que vive a caçar preás, enquanto Fabiano caça trabalho. Fabiano é um homem, mas é, ou pode ser, um bicho. Baleia é um bicho, mas é, ou pode ser, quem mais apresenta um equilíbrio humano. Fabiano e Baleia não falam. Grunhem. Rosnam. Entendem-se e fazem se entender para os outros por meio de uma linguagem própria quase que só a eles mesmos. Eis a secura narrativa da obra, mais uma vez. A linguagem é um problema, não uma solução. A linguagem é uma impotência existencial. Uma impotência verbal diante da realidade. Os pensamentos dos personagens são fragmentados. O silêncio é o que mais existe. Na natureza e nos personagens.
A obra de Graciliano Ramos faz uso da linguagem propondo uma reflexão sobre a não-linguagem, em que fica claro que o autor é o inverso dos personagens apresentados por ele ao leitor. “Vidas secas” se constitui como uma obra sobre a miséria da não-linguagem, e mostra que somente o uso de uma linguagem articulada de maneira consciente pode dar conta de refletir o quanto a ausência de linguagem implica na (sobre)vivência do ser humano.

í.ta** 

10 comentários:

Aninha Kita disse...

Que delícia suas leiuras, assim ditas, assim compartilhadas. Não a leitura de ler o que foi escrito, não a leitura de unir letras, palavras, sinais... Essa leitura de ver o além do livro, dos livros, uni-los, dividi-los. Compartilhar, fazer com que nós também leiamos.
Um dia chego aí, já estou exercitando. rs :)

"São Bernardo" eu li, gostei muito. Graciliano é mesmo marcante.

Beijos, beijos!
Ana

Ensaios e Garatujas disse...

Li Sáo Bernardo aos dezesseis, quando não estava ainda às voltas com a Literatura. Mas me marcou muito.
Amo muito essa coisa,de ler o que não está escrito. Como escreve Todorov ( e outros também creio), a Literatura não está presa às palavras. Quase todo ato é literário.
Abraço!

Si Fernandes disse...

GRACILIANO É UM MASTIGADOR: MASTIGA AS PALAVRAS COM OUSADIA E NOS DEVOLVE

"Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras,não deixar vestígio de idéias obliteradas."
Graciliano Ramos

BELÍSSIMA CITAÇÃO!

Assis Freitas disse...

Leituras obrigatórias, Graciliano sabia como poucos o lugar mais preciso da palavra, uma suntuosidade de exatidão,


abraço

Ana Lucia Franco disse...

O último dele que li foi Angústia, a linguagem é um fogaréu de literatura, nada angustiante, mas muito forte, e se sobrepõe à própria história. Aliás, Graciliano é daqueles escritores que pode escrever sobre qualquer coisa, uma gota que cai, uma ranhura no banheiro, que ainda assim a narrativa é magnética. Tuas leituras incitam a tirar Vidas Secas e São Bernardo da estante e colocar na mala para as férias.

bjs.

Cássio Amaral disse...

o sr wilson ramos filho do graciliano ramos morava na minha cidade em araxá-mg, eu o conheci. ele tinha uma loja de sucos e vitaminas a taberninha. ia lá tomar a taberninha q era a vitamina q ele nunca deu a receita pra alguém. muito bom sua dissecada aqui do graciliano ramos que tanto li e tanto gosto. meu tio deixou todos os livros dele pra eue minha irmã lermos na nossa adolescência.

parabéns mano!

braços.

Wilson Torres Nanini disse...

Ítalo,

ótimas leituras do Graciliano.

Pra mim, o ápice da literatura é o cápitulo Baleia de Vidas Secas. Nada me amolece os ossos e me punge o peito mais do que a morte da cachorra.

Forte abraço!

Anônimo disse...

Depois destas linhas tuas sobre os livros, ajeitarei minha listinha para reler Vidas Secas. Sempre bom passar por aqui e também receber tua visita. Com muito carinho,
Denise

Mistério do Planeta disse...

Estou querendo ler Angústia.


esse post me deixou com vontade =)
vou pegar na biblioteca essa semana!


que maravilha querido.
adorei, viu?!

um cheiro.

Si Fernandes disse...

POR ONDE ANDARÁ O GANHADOR DO CONCURSO? NÃO ME MATE DE CURIOSIDADE.
BEIJOS!