quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

entre ler e contar

na aula dessa terça na pós-graduação em contação de histórias e literatura infantojuvenil, o professor pediu para que recortássemos de cinco a dez imagens em diferentes revistas, e que então criássemos uma história envolvendo estas imagens, para depois contarmos ao grupo. e eu escrevi uma história a partir das sete imagens que recortei. mas para variar eu pensei mais no texto do que na história. e a pós é em contação de histórias. e a disciplina é de contação de histórias. o que significa que na hora de contar a minha história, eu a li, o que gerou uma conversa com o professor a partir disso, em que eu argumentei que alguns textos pedem para ser lidos, não contados, porque entre escrita e narração oral há uma distância e uma diferença bastante grande. e é preciso que cuidemos disso no momento de escolhermos uma história para contar, tanto para não exigir dos ouvintes o que não lhes cabe, como para não "estragar" um texto que se propõe a ser lido, e não contado. 

abaixo, então, o texto que escrevi durante a aula. as imagens que eu recortei estão sublinhadas no texto.
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é do mar que ele foge

ele se parece com caetano veloso. dizem que pela cor grisalha dos cabelos, pelo olhar enviesado, mas também pelas unhas dos dedos da mão direita, a mão com que toca também seu violão.
ele compõe músicas. não só. ele lê muito para compor músicas. as estantes de livros na casa dele são muitas. assim como os violões - espalhados pela casa. mas os livros ainda são mais.
ele não bebe enquanto compõe. mas bebe quando sai para tocar. muita cerveja, que pare ele é sinônimo de felicidade, de estar em sintonia com os amigos, também músicos-bebedores-de-cerveja.
a casa dele fica num campo. afastada da cidade. ele precisa disso. é para contrapor a agitação do trabalho, da noite, dos shows. ele é oito ou oitenta, confessa. gosta das montanhas ao redor do lugar onde mora tanto quanto gosta do lago à frente de casa. gosta do que é alto e do que é baixo. gosta do que vem do alto para baixo: cachoeira.
ele só foge é do mar. não como uma criança com medo da onda na beira da praia. ele foge é das lembranças que o mar lhe traz. disso ele faz questão de não lembrar. para isso volta ao violão e compõe. porque compondo ele cria. ele inventa. e inventando a gente vai longe. do mar e do que mais quisermos. 

í.ta**

4 comentários:

Ana Lucia Franco disse...

que lindo texto, Ita, a evasão das lembranças que o mar suscita através da criação, da invenção, quanta magia! E fico pensando como deve ser uma aula de contação de história, pois pretendo estudar literatura ano que vem, embora desde criancinha conte minhas histórias.

beijos

Eduardo Silveira disse...

muito legal!
e esse cuidado de que vc fala com ler/contar é algo bem importante mesmo.
tenho um exemplo, inclusive
dia desses cismei que iria contar
(a um grupo de alunas do magistério - meu TCE) um conto do José Cândido de Carvalho que amo - "Por que Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon", mas desisti. seria uma grande besteira (além de difícil) porque muitos textos (como esse) não combinam com contação, são feitos para ser lidos, cada pedacinho necessitando de máxima atenção, idas e vindas, etc, que só a leitura permite.
sem querer tomar partido, os dois jeitos são ótimos. cada texto pede seu melhor jeito.

valeuuu

Bєzєяяa Guimaŗãeร disse...

Ficou legal. DEvem ter gostado de ter ouvido, me pareceu tão sensível.
Ítalo, eu esqueci do concurso. :(
Mas tenho um micro-conto pra ti, não sei se vais gostar:

À porta está o menino. O menino com olho na fechadura da porta. Do outro lado, a BOAdrasta que se troca. O menino pensa: mamãe, bem que dizias que só querias meu bem.

É ruim?

Beijos, té mais, Ítalo.

Anônimo disse...

Eu penso muito nisso quando vou contar uma nova história. Não adianta forçar certos textos à oralidade eles pedem para ser lidos.

Bjs
Amanda