domingo, 26 de dezembro de 2010

pra escrever uma crônica

vivo dizendo pra regininha que sinto saudades demais das crônicas que ela escrevia pro anexo (caderno de cultura do jornal anotícia). ela escreveu (pra) lá durante o ano de 2008. e toda quinta-feira era uma maravilha abrir o jornal para lê-la. por motivos “n’s” ela não mais escreve lá. e a saudade é grande, apesar do blog dela ser uma outra forma de crônica diária. ela realmente faz acontecer, naquele espaço virtual, aquilo que ele se propõe a ser: um diário. e a crônica não só pode como deve ser pensada num diário do escritor. num exercício de escrita que deve ser constante – mas constante mesmo – e que tem como elemento fundamental o dia-a-dia. é do cotidiano que advém a crônica.

enfim, de tanto eu escancarar minhas saudades das crônicas da rê, vezemquando ela escreve uma ou outra lá no blog. e dessa vez ela escreveu uma crônica sobre como escrever uma crônica. exercício já utilizado por todos os cronistas que eu já li até hoje. sempre válido, desde que não se torne repetitivo.

segue a crônica da rê, oferecida a mim, o saudoso leitor :)
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Pra escrever uma crônica (aqui também)

(pro Ítalo)


Pra escrever uma crônica, tem que estar de alma leve, tão leve que sobrevoe o mundo que se habita, e observe o que se passa, para escolher, com cuidado, aquilo de que se vai tratar;

Pra escrever uma crônica, tem que deixar que a alma leve, caso veja algo que a deixe indignada, se cubra de chumbo e farpas, e dispare cargas contra crueldades, destruições, injustiças;

Pra escrever uma crônica, tem que se embeber da alma dos cronistas todos que se foram, pensar que o jornal não vai noticiar o canto feliz do canarinho belga da dona Maria, mas o cronista pode (pode e deve!);

Pra escrever uma crônica, tem que lembrar que se diz que um cão morder um homem não é notícia, mas o homem mordendo um cão, sim. Só que se um homem morder um cão, quem vai contar isso será o cronista, não o jornalista - porque a parte "séria" do jornal é depositária de clichês, jamais de originalidades;

Pra escrever uma crônica, tem que ter sentimentos volúveis: ora ser alegre,ora triste, ora poético, ora maldoso, mas sempre, sempre, estar carregado de muita paixão;

Pra escrever uma crônica, tem que ter alma de gueixa, e fazer questão de ser doce e suave a maior parte do tempo, porque o leitor merece te ler na hora do café, e querer estender esse espírito e esse afeto, de forma a suavizar o seu dia;

Pra escrever uma crônica, tem que se arriscar, às vezes, e falar de coisas que ninguém diria, e mostrar lados seus que ninguém mostraria, porque tudo na gente é muito natural - até mesmo ser cruel, até mesmo ser canalha e imperfeito, até mesmo ser apaixonado e tolo, e tolo quando apaixonado;

Pra escrever uma crônica, tem que ser poeta, e não ter vergonha de se mostrar poeta, com um lado lírico, com linguagem adequada, com referências cultas, se preciso;

Pra escrever uma crônica, tem que ter lado humorista, e observar com espírito gozador os fatos ordinários de cada dia;

Pra escrever uma crônica, tem que atualizar a linguagem, e escrever como se fala, sem no entanto sair da forma escrita, mas brincar com isso;

Pra escrever uma crônica não pode querer fazer proselitismo de nenhum tipo, porque isso se faz é em sermões, em aulas ... e em panfletos;

Pra escrever uma crônica, é só começar e ir escrevendo, que um dia se chega lá.
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í.ta**

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

twitt fora do twitter #6 (mas são dois)



ganhei um livro de autoajuda num amigo secreto. aceito sugestões do que fazer com o dito cujo.


p.s.: como tudo que está ruim pode piorar: dei, no mesmo amigo secreto, um livro com as versões originais dos contos de fadas mais tradicionais.

ítalo.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

narrativas curtas escolhidas

ediney santana e herculano neto leram e releram as vinte e cinco narrativas curtas que participaram do concurso promovido aqui no um-sentir. e fizeram suas escolhas-leitoras.

a saber:

narrativa sem título, guilherme cardoso contini.

Ouço o soar dos sinos, que freneticamente batem, de um lado para o outro, seu badalo.
Para quem nunca ouviu é só pensar na vida de Eliza, da qual disse ter-se encorajado a perseguir, pelas contradições de seu destino, que só a levava para Igrejas, onde o soar é mais forte.
 Mas qual seria a importância de um soar, que não bastasse escutar uma música e sim um sino?
Seria a forma de pensamento e de vida, vivida por Eliza antes de escrever um poema. Tão importante que a faz perseguir sua ocupada vida. 

narrativa Ele & Ela, larissa santiago

Ele & Ela

Ela: eu queria ver você!

Ele: deixa eu lhe dizer uma coisa...

Ela: Não! Não diz! Você me machuca, e me faz sofrer,
e toda vez que eu ouço você me dizer essas coisas eu...

Ele: Me faz um favor?

Ela: Sim!

Ele: Abre a porta.



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palavras de ediney:

Há dois tipos de concursos literários. Um que sempre é realizado pela indústria do entretenimento e o outro cultural. Aceitei ser jurado desse concurso por ser ele tão somente cultural, dedicado a valorizar a literatura pela literatura independente da valorização comercial das obras. Foi com prazer que li todas narrativas, ter encontrado tanta gente com talento. À revelia da indústria do entretenimento há uma nova literatura talentosa e criativa circulando pelo país, isso tudo me alegra, me agrada.
 
palavras de herculano:

Na narrativa mais curta (ou miniconto ou microconto), muitas vezes há o risco de soar demasiadamente poético, o que foge das caracteristicas de um conto, ou se aproximar do texto piada, a anedota. O miniconto tem a missão de apenas sugerir ao leitor o que aconteceu até chegar ao momento em que está sendo narrado, se quem lê o texto preenche naturalmente as elipses narrativas, certamente o miniconto cumpriu bem o seu papel. A concisão é outra característica que não pode ser desprezada, além do desenlace bem trabalhado, que leve o leitor a uma nova leitura. Não posso negar que a qualidade dos textos inscritos me surpreendeu, não imaginei que o nível pudesse ser tão alto, o que tornou a tarefa de escolher apenas um explicitamente ingrata. Dentro do que foi elencado acima, escolhi o miniconto intitulado “ELE & ELA”, principalmente por utilizar apenas diálogos, que é quase sempre algo perigoso de se fazer, sem a condução do narrador o texto ficou ainda mais sugestivo, e o desfecho abrupto quebrou o tom do melodrama que parecia ganhar formas. Parabéns a todos os participantes.

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a narrativa curta escolhida por ediney é de autoria de guilherme cardoso contini. algo que muito me alegrou, pois o gui foi meu aluno da 5a à 7a séries (mais um bimestre na 8a), até se mudar para outra cidade e etc e tal. senti-me muito feliz com a participação dele desde o concurso de poemas. com esse contato que ele vem fazendo acontecer com a arte de um modo geral, o que pode ser observado nos seus dois blogs, aqui e aqui.

a narrativa curta escolhida por herculano neto é de autoria de larissa santiago, blogueira deste blog, que também escreve sobre futebol aqui, com outras blogueiras-futebolísticas.

guilherme vai receber um exemplar do livro "sob prescrição", de autoria de ediney santana, herculano neto e jorge bóris, publicado em 2006 pela laetita editore, e um exemplar do livro "a revolução dos bichos", de george orwell, sua escolha dos seis livros propostos aos ganhadores, doação da minha biblioteca particular.

larissa vai receber um exemplar do livro "cinema", de autoria de herculano neto, lançado em 2008, prêmio braskem cultura e arte, e um exemplar do livro "amar, verbo intransitivo", de mário de andrade, sua escolha dos seis livros propostos aos ganhadores, doação da minha biblioteca particular.
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o um-sentir, então, finaliza essa ação de concursos no ano de 2010. prometendo para 2011 outras edições e etcs e tal que surgirem.

fica o agradecimento, deste que organiza a bagunça, a todos os que se dispuseram a ler, acompanhar, divulgar e participar dos concursos, direta ou indiretamente.

í.ta**

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O Velho Graça e o domínio da linguagem escrita

Reli “Vidas secas” e li “São Bernardo” e alguma coisa de “Linhas tortas”. Li Graciliano Ramos por uma semana, já se vão dois meses. E ainda ficaram para depois “Caetés” e “Angústia”. Propositalmente para depois. Para um depois que agora não me pertence e não me importa. Porque a leitura tem muito disso, de tempo, de momento. Estive para Graciliano por uma semana, por três livros. E não mais, por agora. E até uma próxima, Graça. Porque foi marcante.


É possível traçar uma linha por esses três livros de Graciliano. Uma linha chamada linguagem. Prestem atenção no chamado de “Linhas tortas”: "Deve-se escrever da mesma maneira com as lavanderias lá de Alagoas fazem em seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como falso; a palavra foi feita para dizer”.


A palavra foi feita para dizer, e em Graciliano ela diz. E pronto. Em “São Bernardo”, por exemplo, a palavra conta a história do nascimento e crescimento da localidade de São Bernardo, contada por um narrador que vai dividindo com o leitor esse processo de contação, de escrita. Um convite para que o leitor vá percebendo como uma história vai sendo construída, entrelaçada, vai ganhando vida pela escrita e, mais do que isso, pela leitura que dela é feita posteriormente, uma vez que, se há uma escrita que fala com alguém, é porque esta escrita espera pela leitura de alguém para se fazer viva.

E em “Vidas secas”, por exemplo, o leitor depara-se com uma outra forma de narração e de envolvimento entre livro e leitor. Este romance-fragmentado-em-quase-contos é daqueles livros em que o texto é a própria história. A secura da terra e da vida enfrentada por Fabiano, Sinhá Vitória, o filho mais velho, o filho mais novo e a cadela Baleia é a secura do texto com o qual o leitor se depara – e quiçá se assusta. Os fatos são narrados da forma como tem que ser. Pela essencialidade das ações – ou a falta de ações – dos personagens.
São dois os mundos apresentados ao leitor em “Vidas Secas”. Um mundo diz respeito à família do personagem Fabiano: a esposa Vitória, os dois filhos – filho mais velho e filho mais novo –, a cachorra baleia e o papagaio. E no outro mundo encontra-se a sociedade na qual tentam viver Fabiano e sua família. Sociedade esta representada na figura de duas pessoas – ou duas nomenclaturas sociais: o seu patrão (do suado e mal pago emprego de Fabiano) e a polícia (neste contexto do romance, presente na figura do Soldado Amarelo, responsável por prender Fabiano em determinado momento da história).


O que é apresentado ao leitor entre estes dois grupos não é um sistema de trocas, e sim um mecanismo de opressão e de bloqueio. Algo próximo ao que é encontrado na trama de “Fontamara”. Porém, se na obra do escrito italiano Silone encontram-se personagens que lutam pelo menos um pouco por alguma forma de mudança da condição em que vivem e com que são tratados, no romance de Graciliano encontra-se Fabiano, indivíduo inofensivo, um pobre diabo, passivo, incapaz de mudar o rumo dos acontecimentos, e que, quando tenta mudar algo, age de maneira intempestiva, sem pensar no que está fazendo, no que acarretará sua ação.
Há também, em “Vidas secas”, uma relação muito forte entre humanos e animais. Um processo de humanização. Ou de animalização mesmo. Fabiano é, ou pode ser, Baleia, o cachorro que acompanha a família. O animal que vive a caçar preás, enquanto Fabiano caça trabalho. Fabiano é um homem, mas é, ou pode ser, um bicho. Baleia é um bicho, mas é, ou pode ser, quem mais apresenta um equilíbrio humano. Fabiano e Baleia não falam. Grunhem. Rosnam. Entendem-se e fazem se entender para os outros por meio de uma linguagem própria quase que só a eles mesmos. Eis a secura narrativa da obra, mais uma vez. A linguagem é um problema, não uma solução. A linguagem é uma impotência existencial. Uma impotência verbal diante da realidade. Os pensamentos dos personagens são fragmentados. O silêncio é o que mais existe. Na natureza e nos personagens.
A obra de Graciliano Ramos faz uso da linguagem propondo uma reflexão sobre a não-linguagem, em que fica claro que o autor é o inverso dos personagens apresentados por ele ao leitor. “Vidas secas” se constitui como uma obra sobre a miséria da não-linguagem, e mostra que somente o uso de uma linguagem articulada de maneira consciente pode dar conta de refletir o quanto a ausência de linguagem implica na (sobre)vivência do ser humano.

í.ta** 

domingo, 12 de dezembro de 2010

em branco


































"(...) quanta coisa está contida numa página não escrita, numa não página, de um não livro. Afinal, o branco é a soma de todas as cores. As possibilidades são infinitas".

heloisa seixas,
"uma ilha chamada livro",
ed: galera record, 2009,
p. 109

p.s.: textos para participar do concurso de narrativas curtas estão valendo até o dia 15 de dezembro. como participar, aqui

í.ta**

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

rota de fuga

entrevistei o rubens da cunha. na correria da escrita final da sua dissertação de mestrado, ele atendeu ao meu pedido e respondeu, por e-mail, as perguntas abaixo.
foi rubens quem me apresentou aos blogs. é muito culpa dele a existência do um-sentir. talvez ele não saiba disso. passa a saber agora. porque sempre que me pedem para indicar um blog só, aquele que para mim é o melhor, que mais marcou, eu cito o casa de paragens, porque desde a primeira vez que eu estive por lá, e até hoje, sempre quando lá estou, deixo de ser eu mesmo e entro em outro plano espaço-temporal.
descubram um pouco do leitor/escritor/oficinador que é o poeta/cronista rubens da cunha.

Que tipos de livros você gosta de ler?
Eu gosto de ler tudo, é quase um ato involuntário. Está escrito, eu estou lendo. Mas a preferência, claro, vai para os livros de literatura, sobretudo, poesia e prosa que tenham algum elemento de ruptura com a linguagem, algo que vá além da história, pura e simples.

Com que frequência você lê livros?
O tempo todo. Agora por causa do mestrado estou mais focado em livros teóricos, de filosofia, ensaios críticos, mas, de vez em quando, retomo à poesia para não esquecer do que sou feito.

Cite alguns autores e alguns livros favoritos? E explique por que para você são favoritos?
O meu critério de preferência, ou de favoritismo, é imaginar que livro eu levaria para uma ilha deserta e ele supriria minhas necessidades por tempo indeterminado. Alguns autores supririam isso facilmente: Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, Jorge de Lima, Lautreamont, T.S. Eliot, Mia Couto, Julio Cortázar, C. Ronald. Adolfo Boos Jr. Kafka.
Mas, hoje, se fosse me dado a trágica missão de escolher um livro pra fugir comigo, eu daria um jeito de escolher um dos quatro que me parecem essenciais:
Poesia – Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão de Hilda Hilst
Contos – Laços de Família – de Clarice Lispector
Romance – Avalovara – de Osman Lins
Filosofia / Ensaio – A experiência interior – de Georges Bataille

dá para se viver um bom tempo apenas com um desses livros.

Agora diz um livro que deixou você assim, sem respirar por um bom tempo? E um que você tenha achado uma bela porcaria?
O que me deixou sem respirar foi qualquer um desses citados na pergunta anterior. Ultimamente ando sem respirar diante da filosofia poética, ou da poesia filosófica de Emil Cioran. Quanto à bela porcaria, há muitos anos eu exerço um dos direitos do leitor pregados por Daniel Pennac que é o de desistir quando a coisa não vai bem. Então, já nem lembro do último livro que eu li até o final e que eu não tenha gostado. A exceção fica por conta de alguns livros teóricos que eu tenho que ler, melhor, tenho que enfrentar mesmo, como se fosse uma luta.

Em que lugares vocês costuma ler? E qual é o seu lugar preferido de leitura?
Leio em casa, no ônibus, na fila do banco, qualquer lugar é lugar de leitura.

Você costuma comprar muitos livros? Empresta-os de bibliotecas? Tem o costume de emprestar seus livros a alguém?
Costumo comprar livros em sebos. Dei uma maneirada agora, pois estava comprando mais livros do que minha capacidade de leitura. Empresto de biblioteca quando o livro não é fácil de encontrar ou está muito caro. Empresto livros sem problema, inclusive se alguém souber para quem eu emprestei um dos meus livros fundamentais: Ascese – os salvadores de Deus, do Nikkos Kazantzakis, é favor me avisar, pois eu não tenho a mínima ideia para quem foi, e nunca mais vi o livro.

Quem é o Rubens da Cunha enquanto leitor?
Um sujeito curioso e que se irrita quando o interrompem durante a leitura

Como você incorporou a prática da leitura? Alguém incentivou, teve um fato marcante?
Foi meio natural, apesar de eu não vir de uma família leitora. Comecei a ler na escola, os livros que estavam por lá e nunca mais parei. O incentivo, acho que veio mesmo da minha vida de menino solitário que precisava de alguma rota de fuga.

Desde quando você é blogueiro? O que o blog representa na sua formação leitora e escritora?
Tenho blog desde 2005. Antes, eu era mais atento, lia os outros blogs, passeava mais por esse universo, e percebia, por exemplo, que a poesia portuguesa contemporânea me diz muito mais do que a brasileira. Hoje, por causa do mestrado, estou mais distanciado, mas gosto dessa ferramenta, acho que tem a cara do futuro, é a democratização, o espaço onde o escritor pode fugir da ditadura do sistema literário, e também do risco de publicar um livro sem estar pronto ainda como escritor. Aconselho muito a adolescentes abrirem um blog no lugar de quererem publicar um livro.

Quer falar um pouco também sobre o que a escrita significa para você?
Escrevo porque foi a forma que eu consegui desenvolver para me expressar artisticamente, e até para sublimar minha inveja dos cineastas e dos músicos. Hoje, a escrita é algo que me fascina, me empolga e mantém em mim a curiosidade. O bom é que a escrita está intimamente ligada com a leitura. Facilita bastante a vida...

Lembro-me de que o conheci participando de uma oficina que você deu na faculdade, há uns anos já. Como é lidar com oficinas de escrita? Como é lidar com esse tipo de público que vem para “aprender a escrever”, digamos assim (talvez até alguns para “pegar dicas”). Enfim, podes falar também sobre as oficinas de escrita e de leitura, tanto as que você coordena, quando as de que participa?
Bom, eu sou partidário da ideia que atribuem a Lautreamont: a poesia deve ser feita por todos. Gosto de ministrar oficinas porque posso transmitir aos outros um pouco da minha paixão pela escrita. Eu não ensino a escrever, mas repasso alguma técnica, uma forma diferenciada de manusear o instrumento, o que o poeta vai produzir com isso, aí depende de fatores que uma oficina não dá conta: leitura, sensibilidade, imaginação. De maneira geral, público responde bem as minhas interpelações. Quanto às últimas oficinas que eu participei, senti falta de um olhar mais acurado, mais direcionado ao texto, por parte dos oficinantes. É algo que eu faço, cada um escreve e lê seu texto e eu opino diretamente sobre o texto, apontando caminhos, possibilidades, questionando o autor para que ele visione aquilo por outro ângulo. Queria muito que fizessem isso comigo, mas não rolou, os oficinantes não usavam essa técnica. Outra coisa também é que quando participo tenho que me segurar muito para não palpitar, não bancar o assessor de quem tá ministrando a oficina.

Deixa uma frase de (d)efeito aí, sobre leitura, escrita, livros, afins...
Ler, assim como viver, é difícil, mas absolutamente necessário. 
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í.ta**

sábado, 4 de dezembro de 2010

concurso de narrativas curtas

promovo aqui no um-sentir um 
concurso de narrativas curtas

passo-a-passo:

1. participa quem quiser (inclusive quem já participou do concurso de poemas).
1.1 com somente uma narrativa.

2. a narrativa curta deve ter no máximo 500 caracteres (com espaço).
2.1 não há obrigatoriedade de título para a narrativa. se houver título, já contará para os 500 caracteres.
2.2 não é preciso que seja inédita.

3. enviar para italopuccini@yahoo.com.br a narrativa digitada em word, com nome do participante ao final.

4. os jurados-convidados serão: ediney santana e herculano neto.
4.1 cliquem nos links nos nomes dos dois para mais conhecê-los.
4.2 juntos, eles escreveram o livro "mais uma dose (microconto)", que pode ser encontrado aqui.

5. cada jurado escolherá uma narrativa curta como a vencedora.
5.1 com isto, poderemos ter dois vencedores, ou somente um, caso os dois escolham, coincidentemente, a mesma narrativa curta. se isto acontecer, os jurados escolherão uma outra narrativa, em comum acordo.

6. os vencedores receberão:
- um livro de autoria do ediney santana;
- um livro de autoria do herculano neto;
- um livro da minha biblioteca particular [a escolher, dentre os seguintes títulos]:


1. a revolução dos bichos (george orwell)
2. admirável mundo novo (aldous huxley)
3. crônica de uma morte anunciada (gabriel garcía márquez)
4. amar, verbo intransitivo (mário de andrade)
5. a hora e a vez de augusto matraga (joão guimarães rosa)
6. laços de família (clarice lispector)


(estes livros eu ganhei ao participar de um concurso promovido pela revista nova escola, na metade do ano. vieram, com esses seis, "cem anos de solidão" e "ensaio sobre a cegueira", mas desses dois eu não abro mão. o edu silveira, deste blog, também ganhou. peçam lá um livro pr'ele também :))

7. o prazo para envio das narrativas curtas é de 05 a 15 de dezembro.

8. o resultado será anunciado aqui no um-sentir até o dia 20 de dezembro. 
8.1 participem porque papai noel pode trazer livros pro'cês.


aliás, não só participem, como convidem amigos, inimigos, afetos e desafetos
e divulguem em seus respectivos blogs e twitters e etc e tal.

e se ficou alguma dúvida,
subscrevam-me.

ítalo puccini, organizador da nova bagunça. 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

um tal de amigo-secreto


nunca gostei de amigo-secreto. na escola, eu odiava. pois a sala inteira se animava em participar, e eu era o "do contra". participava, afinal de contas, eu não tinha peito o suficiente para não participar, diante de tanta choradeira daquele povo. participava e odiava ainda mais. onde já se viu ganhar uma caixa de bombom de presente? e, pior, ganhar um envelope com vinte reais dentro? preferia fazer amigo-secreto num manicômio. acho que seria muito mais bonito. até que... até que entrei no prolij, o grupo de pesquisa em literatura infanto-juvenil da univille. aí redefini minha ideia de amigo-secreto. e agora todo ano eu participo do amigo-secreto do prolij. mas só do prolij. porque com esse grupo tudo é diferente. tudo é muito indescritível, e não serei eu o tolo a tentar descrever aqui como é o amigo-secreto do prolij... tá, só um pouquinho. é uma bagunça maravilhosamente bem organizada. é uma troca de sentires que faz correr uma energia única entre nós, participantes. e é uma troca de livros. livros e outros presentes-lembrancinhas. aqueles presentes que você dá à pessoa por conhecê-la o suficiente para saber que aquilo será muito especial para ela, por algum motivo muito próprio dela, e que não cabe a mais ninguém dar conta de saber. um amigo-secreto gostoso por demais, em que, tão importante quanto a troca de livros - que aguça a curiosidade de todo mundo por querer saber mais sobre o livro que o outro acabou de ganhar - são as palavras ditas sobre aquele que pegamos. um cuidado em descrever tal pessoa. um cuidado sincero de quem passa o ano inteiro lendo, estudando, organizando eventos e contações de histórias. um cuidado de quem escreve assim na dedicatória do livro: "acho que o melhor presente é aquele que gostaríamos de ganhar... eu adoro o manoel de barros, portanto dou a você, meu amigo-secreto, um pouquinho dele". dedicatória que minha amiga-secreta escreveu no livro "memórias inventadas para crianças", do manoel de barros, edição da planeta, de capa dura, ma-ra-vi-lho-sa. sem contar o texto do maneca, que dispensa qualquer apresentação. 


o mais bonito em "memórias inventadas para crianças" é o texto que abre o livro: "escova". é quando descobrimos o manoel que queria escovar palavras, apenas porque vira dois homens sentados na terra escovando ossos, e porque havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos: "eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos".


e há mais nesse livro de dez textos. e de imagens belíssimas. iluminuras da martha barros, filha do maneca. há coisas assim por lá: "agora eu penso uma garça branca de brejo ser mais linda que uma nave espacial. peço desculpas por cometer essa verdade" (do texto "sobre sucatas"). e o manoel vai se desculpando o livro todo. como se devesse mesmo. desculpa-se pelas peraltagens que faz com as palavras. e com as histórias. peraltagens como enfiar água no espeto. como dar respeito às coisas e aos seres desimportantes. pede desculpas por brincar com palavras mais do que com bicicletas.


manoel de barros diz ter nascido poeta aos treze anos. dali em diante ele só queria ser uma coisa: fraseador. e diz também que hoje só usa a palavra para compor silêncios. e finaliza o livro assim (é a última frase do último conto): "agora quem está atônito sou eu". mentira, do manoel. mais uma inverdade dele. quem fica atônito ao lê-lo somos nós, leitores. apanhadores de desperdícios, ensinados por manoel de barros.  

í.ta**

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

twitt fora do twitter #4

a
a
O bom numa leitura, além do que “pegamos” dela/nela, é o que deixamos “escapar”. para isso que há as releituras, que devem ser infinitas.

í.ta**

entre ler e contar

na aula dessa terça na pós-graduação em contação de histórias e literatura infantojuvenil, o professor pediu para que recortássemos de cinco a dez imagens em diferentes revistas, e que então criássemos uma história envolvendo estas imagens, para depois contarmos ao grupo. e eu escrevi uma história a partir das sete imagens que recortei. mas para variar eu pensei mais no texto do que na história. e a pós é em contação de histórias. e a disciplina é de contação de histórias. o que significa que na hora de contar a minha história, eu a li, o que gerou uma conversa com o professor a partir disso, em que eu argumentei que alguns textos pedem para ser lidos, não contados, porque entre escrita e narração oral há uma distância e uma diferença bastante grande. e é preciso que cuidemos disso no momento de escolhermos uma história para contar, tanto para não exigir dos ouvintes o que não lhes cabe, como para não "estragar" um texto que se propõe a ser lido, e não contado. 

abaixo, então, o texto que escrevi durante a aula. as imagens que eu recortei estão sublinhadas no texto.
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é do mar que ele foge

ele se parece com caetano veloso. dizem que pela cor grisalha dos cabelos, pelo olhar enviesado, mas também pelas unhas dos dedos da mão direita, a mão com que toca também seu violão.
ele compõe músicas. não só. ele lê muito para compor músicas. as estantes de livros na casa dele são muitas. assim como os violões - espalhados pela casa. mas os livros ainda são mais.
ele não bebe enquanto compõe. mas bebe quando sai para tocar. muita cerveja, que pare ele é sinônimo de felicidade, de estar em sintonia com os amigos, também músicos-bebedores-de-cerveja.
a casa dele fica num campo. afastada da cidade. ele precisa disso. é para contrapor a agitação do trabalho, da noite, dos shows. ele é oito ou oitenta, confessa. gosta das montanhas ao redor do lugar onde mora tanto quanto gosta do lago à frente de casa. gosta do que é alto e do que é baixo. gosta do que vem do alto para baixo: cachoeira.
ele só foge é do mar. não como uma criança com medo da onda na beira da praia. ele foge é das lembranças que o mar lhe traz. disso ele faz questão de não lembrar. para isso volta ao violão e compõe. porque compondo ele cria. ele inventa. e inventando a gente vai longe. do mar e do que mais quisermos. 

í.ta**