quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Obsessão

            É a partir desta palavra, de uma palavra só, assim, sem nenhuma outra para acompanhá-la e tornar seu significado mais claro, que se pode pensar dois livros. Em um deles, a obsessão de um homem, pescador, por um peixe. Em outro, a obsessão de um homem por uma baleia. Pra quem já leu, sabe que os livros citados são “O velho e o mar”, do escritor norte-americano Ernest Hemingway, e “Moby Dick”, do também norte-americano Herman Melville.
            Obsessão significa ideia fixa, e ideia fixa é o que tem Santiago, ao pescar um grande peixe, em alto-mar, após mais de oitenta dias sem pescar nada. E ideia fixa é também o que sente Ahab pela baleira branca Moby Dick, desde o momento em que esta lhe arrancou uma perna. De um lado, uma obsessão pelo simples instinto de sobrevivência, de pescar para ter o que comer, mas que se torna uma ideia fixa muito mais forte pelas condições externas a esta pesca. E, de outro lado, uma obsessão vingativa, de revanche mesmo.

            A história de Santiago, em “O velho e o mar”, pode ser pensada também como uma história de perseverança, antes de ser pensada como uma obsessão. Perseverar é persistir, é continuar, é não parar de fazer aquilo que se está fazendo. Conservar-se firme e constante. E é isto que faz Santiago, com a ideia fixa (obsessão) de pegar aquele peixe.
            Eram oitenta e quatro dias sem pescar nenhum peixe. Santiago até recebia ajuda de um menino-pescador-da-vila. Mas naquele dia resolvera ir sozinha a alto-mar. Desistir não era possível. Era preciso continuar enfrentando o mar como se pescar peixes diariamente fosse a rotina. Não foi nos últimos quase três meses, mas aconteceu naquele dia. No dia em que um peixe muito grande abocanhou a isca lançada por Santiago. E de lá não soltou mais. Travava-se, ali, uma luta em que sairia perdedor aquele que cansasse antes.
            Cansou o peixe. Depois de três dias. Três manhãs e três noites puxando e repuxando a linha. Alimentando-se do que era possível – ou impossível mesmo. Até que o peixe se rendeu. E Santiago amarrou-o ao barco, em toda a extensão do barco, e começou o trajeto de volta. Até que alguns tubarões começassem a circundar o barco e a atacar o peixe já morto, atraídos pelo odor que saia do peixe – morto e muito machucado por tentar se desvencilhar da isca por três dias.
            A volta, para Santiago, torna-se outro duelo. Contra tubarões. Vários tubarões. Que pouco a pouco vão estraçalhando todo o peixe. Uma luta que vai sendo engolida por tubarões. Uma persistência que vai sendo engolida por tubarões. Uma obsessão que se encaminha para terminar dessa forma.
            Santiago consegue voltar ao vilarejo, onde é recebido pelo menino que lhe acompanhava muito. Fraquíssimo, o velho é levado pelo menino para se deitar. Simplesmente para apagar e recuperar suas forças, que talvez tenham ficado no mar. Na luta contra o peixe. No duelo contra os tubarões. Enquanto o menino cuida do que sobrou do grande peixe, a carcaça.

            Enquanto isso, em “Moby Dick” o leitor se depara com Ahab, o dono do navio “Pequod”, que parte mais uma vez para alto-mar em busca, única e exclusivamente, de Moby Dick, a baleia branca, como é conhecida. E se para os tripulantes do Pequod é interessante capturar qualquer baleia que possa oferecer o âmbar-gris – o que trará ouro a todos –, para Ahab a única baleia que interessa é Moby Dick.
            A história é narrada por Ismael, um dos tripulantes escolhidos para o Pequod, que fica impressionado com a obsessão do capitão pela baleia branca. Obsessão que levará Ahab para um final trágico, como não poderia deixar de ser. Se Moby Dick lhe arrancara uma perna, fora por puro instinto. Se Ahab desejava mais do que tudo matar Moby Dick, era por puro sentimento de vingança. Ismael ainda foi um dos tripulantes que sobreviveu após o “duelo final” entre o animal (e o instinto) e o capitão (e o racional).
            “O velho e o mar” e “Moby Dick” apresentam ao leitor histórias que mexem, que provocam este sujeito-leitor a partir do caráter de mistério que se instaura na narrativa. Conseguirão, os personagens principais, alcançar seus maiores objetivos? Até que ponto são válidos estes objetivos? E, mais ainda, até que ponto cabe a alguém decidir por outro o que é válido ou não de se tentar conquistar?
            Se na obra de Hemingway nos deparamos com a dor de Santiago, com a fome de Santiago, com o cansaço de Santiago (que em determinado momento já beira a loucura), e se ainda aqui nos deparamos com todo o cuidado do menino para com o velho, no final da história, na obra de Melville somos apresentados ao sentimento também de dor, de Ahab e de Moby Dick. Uma dor corpórea, sim, mas muito mais orgulhosa por parte do capitão, que ainda nutre um ódio tão grande da baleia branca que por vezes incomoda o leitor, fazendo com que este deseje tudo de mal a este homem quase-louco.
            Duas narrativas que inquietam. Como toda boa literatura deve fazer. Inquietar o leitor e levá-lo a se confrontar com os sentimentos mais primordiais de sobrevivência.

í.ta** 

25 comentários:

enzo disse...

e o Piglia diz que Moby Dick é uma metáfora para cocaína.

bom, dizem que Like a Prayer - da Madonna - é uma metáfora para sexo oral.

Regina Carvalho disse...

Enzo: acho que depois dessa vou reler Moby Dick, hehehe,porque deve ser uma bela overdose. Mas não vou ouvir Madonna!
Italo: lindo é que o velho Santiago sonhava com leões...
bj

Assis Freitas disse...

duas excelentes narrativas,


abraço

enzo disse...

Regina e Ítalo: Moby Dick é enorme, não é? A última versão que eu peguei na mão era da Cosac, capa dura, maior que uma bíblia.
Não me animei.
E confesso que livros sobre gente embarcada me irrita, acho meio Big Brother, o pessoal confinado num espaço com narradores por todos os lados haahahaha.

Agora comprei um aí, "Lord Jim", do Conrad (autor que fez mutcho sucesso no séc XIX, Virginia Woolf falava muito dele) que também é sobre um marinheiro. Terei de me forçar...

Regina Carvalho disse...

Pros dois:
Lord Jim é lindo, me identifiquei demais com ele: um gauche... LER sobre gente embarcada é legal,porque a gente não está,hehehe... Estamops no seco, a salvo, sem sacolejos nem enjoos. Moby Dick tem uns sermões que, como recuperação de discurso argumentativo são simplesmente geniais. Tenho essa edição da Cosac, não resisti. O velho e o mar é grande história, mas concordo com Daniel Piza: a linguagem do Hemingway. bj envelheceu...

Eduardo Silveira disse...

o do hemingway é demais.
é daqueles livros - 'hora da estrela' é outro-
que vc se pergunta como o autor consegue um livro tão foda com um enredo tão simples.
acho que o Moby Dick é boa sugestão pras férias.^^

Enzo disse...

Vamos fazer uma rede infinita de comentários? haahah. Autor puxa autor.
Eduardo! Conheci e me apaixonei por uma Clarice Lispector no caos, comendo barata em A Paixão Segundo G H.
Quando tentei ler A hora da Estrela, aquele começo tão otimista me deu ânsia de vômito (prefiro baratas!). Ainda mais porque o narrador estava todo indeciso, avancei um pouco mas desisti. De narrador que não sabe o que ou como falar, já basta o Henry James.
Mas voltando à Clarice, "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres" é otimista mas sem açúcar. É como flor entre espinhos, me parece mais real. Foi indicação do Rubens da Cunha, me confidenciando que nem tudo da Lispector é bom, "ao contrário da outra" (ele estava falando da Hilda Quero Ser MUITO Famosa Hilst).

Í.ta** disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Í.ta** disse...

isso não parece ter fim :)

li a edição da cosac de moby dick. mas trabalho com minha 5a série a edição reduzida da ática. é reduzida, ok, mas é excelente também. é preciso desmistificar isso de que só os originais prestam. às vezes edições reduzidas - e bem feitas, que primam ainda o texto e a história - seduzem leitores.

clarice: talvez seja uma ordem de leitura. porque eu comecei por água viva e fui para a hora da estrela, que pra mim é o que há de mais perfeito no mundo. a barata eu ainda não li. fico em dívida, enzo.

Regina Carvalho disse...

Fico imaginando como foi difícil para alguém como Clarice escrever com a perspectiva simplória de Macabeia. A barata vale a pena, Italo! Aliás,trabalhei muito com as crônicas de Clarice, e acho que ela é boa em tudo. Só me decepcionei um pouco com seus conselhos para asmulheres,no Correio Feminino (textos para jornal),não pelo texto, mas por sua concepção do papel feminino, bem tradicional. Não esperava isso dela, bobagem minha...Cada pessoa no seu tempo. bj procês,seus saltintes: pulam dum autor pra outro com a maior facilidade, hehehe...

Enzo disse...

Sim, Regina! Mesmo a Woolf, que escreveu trocentos ensaios feministas, tratava as empregadas dela como vermes.
Bom é gente que faz. Katherine Mansfield sim era uma feminista de primeira, porque não escreveu qualquer linha defendendo um novo comportamento da mulher: ela era o comportamento. Se agradava ou não (inclusive chocava a própria Woolf), "só lamento"...

Não indo muito longe, vocês já leram alguma coisa do Gandhi? É horrível, ele é muito limitado moralmente, e de uma contradição burra (ao contrário de um Osho - gênio que aliás chamava Gandhi de "masoquista"!). Mas essa mesma moral fez ele mudar um país. Como pode? Faça o que eu faço, não faça o que digo.

Aliás, muita gente detesta ele na Índia, né. Adoro casa de ferreiro. Milan Kundera é detestado na República Tcheca. Paulo Coelho no Brasil. Björk na Islândia. Alguém mais para a listinha?!

enzo disse...

puxando outra visão ali sobre o raciocínio da Mansfield, isso me faz ter a certeza de que a nossa arte sempre está relacionada com a nossa busca, e não com o que a gente é.

E só pensar no Michael Jackson, que mudou a cor da própria pele e faz uma música dizendo que não importa if you are black or white.

Não vejo como hipocrisia.

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

fui ao tempo dessas leituras, me re-visitei nestas aventuras

Í.ta** disse...

o enzo é o maior saltitante daqui. #fato. rsrs

o que mais me impressiona em a hora da estrela é justamente macabéa. ela é a mulher da minha vida na literatura.

enzo ainda me ensinará a ler mansfield.

a arte nos faz ser quem somos, não é? através dela é que buscamos nos fazer ser. a gente não sabe quem é. por isso escreve. por isso produz. acho lindo isso. demais.

G. F. Busnardo (Gui) disse...

Fala Íta!

Cara, legal teu post sobre os livros do Hemingway.
Ler ao menos um dos livros dele nessas férias faz parte da minha meta de leitura.

Abrss

Eduardo Silveira disse...

rsrs, tá bom o papo. difícil de acompanhar (acho que o enzo é hiperativo)

enzo: dá pra botar o kundera e o coelho no mesmo saco?
Quanto à Clarice, esse livro da aprendizagem etc e´outra boa pedida (ah meu deus, morro e não vejo - e leio -tudo)
A hora da estrela tem começo enrolador (explosão) mesmo! mas o modo como ela constrói uma narrativa em cima daquele ser ínfimo me comove. não é pra qualquer um.

íta: lembro dessa tua postagem sobre a versão reduzida do melville. Tô contigo. espero poder traçar ideias a partir desse tipo de livro futuramente *---*
Aliás, a Ana Maria Machado, que dispensa apresentações, é grande incentivadora dessas adaptações, não?

da mansfield, li um pequeno comentário do enzo dia desses, acho que sobre bliss. só li ela em portugues, mas amei. amei tudo. um livro chamado "aula de piano e outros contos" baita contista, e mais contista que woolf!
e se o papo é clarice e é conto, tem que deixar claro (explosão) que ela escreveu dos mais bonitos. alguns pra se reler pela vida toda.
quantos autores, tô tonto.
Santiago sonhava com leões e hj sonharei com baratas.
abs

Katherine Mansfield disse...

O Enzo pediu que eu viesse comentar pessoalmente tantas alusões a minha pessoa.

convido a todos que entrem neste perfil e leiam alguns contos meus.
Em especial "As Filhas do Falecido Coronel" e "A Casa de Bonecas" - este faz parte da trilogia de minha infância neozelandesa, que o Enzo tão belamente discutiu no Culture-se.

http://www.culture-se.com/noticias/321

um beijo a todos

P. S.: sim, Eduardo, sou muito melhor que Woolf - aquela vaca frígida.

Enzo Potel disse...

Eduardo, meu conto preferido da Lispector é "A legião Estrangeira".

Olha, o Kundera é visto como auto-ajuda barata no país que nasceu. Mas entendo sua visão: um monte de escritor estrangeiro simpatiza com o Milan, e até hoje nunca vi qualquer escritor contemporâneo deste planeta falar do Coelho.

Isso me faz lembrar de uma entrevista incrível:

O DIA EM QUE PAULO COELHO CHOROU

http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=368

HARE

Gisa Carvalho disse...

Estou com "O velho e o mar" pra ler já faz algum tempo... Bjs

Rubens da Cunha disse...

bom, eu sou um apóstolo hilstiano, como o Enzo está se tornando um apóstolo Mansfieldiano... autora a quem ainda devo meu corpo, já devidamente devorado por Hilda, Clarice e Virgínia, que se bem me lembro de frígida não tinha nada. Quanto a Moby Dick, assim como "A montanha mágica", está esperando minha aposentadoria ;)

Eduardo Silveira disse...

haha, até a mansfield por aqui.
frígida é coisa que eu deveria caçar no dicionário.
não conheço nenhum romance da woolf, onde estão - dizem - suas grandes obras :(
conheço apenas seus contos, que passeiam pelos mais diversos tipos de escrita. Um que gosto muito é Haunted House. Seja lá o que for frígido, este texto não é.
mas mansfield é contista por excelência, nem escreveu romances (chute), daí ficar difícil compará-las.

PS: curti o pelegrinni (sic?) entrevistando o coelho. na lata.

Enzo disse...

Eduardo, bato sempre nesta tecla: se quiser começar a ler Woolf na melhor forma, para entender porque gente como eu surta e lê em seguida nove livros dela, comece por Rumo Ao Farol (na estante virtual tem uma beleza capa dura da coleção Folha, excelente tradução de Luiza Lobo).

É o melhor. É Deus escrevendo.

Eduardo Silveira disse...

tá na lista, tá na lista...

Regina Carvalho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Regina Carvalho disse...

Meninos:andei perdida pela vida e nas minhas leituras, só voltei hoje. Me diverti um bocado com os comments todos. Fiquei pensando no do Enzo: os autores são detestados em seus países. Sim, podem até ser, mas por razões diferentes. E talvez não pelo público em geral: Paulo Coelho vende bem, no Brasil. Nós (mais intelectualizados) é que não. Depois de anos aceitando a crítica como parâmetro, comecei a relativizar e olhar mais de perto OS FATOS... (Não que isso vá me fazer ler Coelho, hehehe...) Mas Kundera tem uns dois romances bons. Não acho que Clarice seja pior escritora por ser FEMININA do jeito que seu tempo exigia: ela é danada de boa! E concordo com a apologia à Mansfield, mas não com a crítica à Virgínia ou à Hilda, a melhor poeta que este país já teve... Quanto a isso, fecho com o Rubens. bj