quinta-feira, 18 de novembro de 2010

de não prestar atenção na fala


(fotógrafa, monica saraiva)

o meu maior erro em natal e em fortaleza, na semanada em que lá estive, foi não ter andando com um bloco de papel mais lápis/caneta para anotar as expressões e o modo de falar do povo de lá. só posso dizer que achei lindo. que me senti acolhido pela oralidade. e eu não lembro de ter pensado anteriormente na fala como algo que acolhe. no tom de voz, sim. mas na fala em si, na sequência de palavras, não. pois penso a partir de agora. lindo, portanto.

em fortaleza eu dei uma mancada (como não poderia deixar de ser) ao me deparar com esta simpática estátua. soltei um sonoro "quem é o vozinho ali?". pronto, foi o que bastou para que quase me colocassem num avião de volta pra casa (drama pouco é bobagem, ok?). mas foi então que o povo querido de lá me explicou quem "ser" ele (que para mim será antes de mais nada o simpático vozinho, com licença). e digo dessa forma como a maior prova de carinho, mesmo.

parágrafo explicativo: o vozinho é patativa do assaré. antônio gonçalves da silva, poeta popular, compositor, cantos e improvisador brasileiro. uma das principais figuras da música nordestina do século xx (deusgoogle, obrigado). aqui vocês encontram uma revista eletrônica com uma matéria completa e especial sobre ele. (gisa carvalho, meu muito obrigado!).

mas não fui tão tapado assim, não. pois comprei livros de cordel, inclusive um deles chamado "o linguajar cearense", escrito por josenir lacerda, com expressões faladas pelo povo do ceará. acompanhem que delícia:

"Quem muito agarra, abufela
Briga pequena é arenga
Enganação, esparrela
Toda prostituta é quenga
Rapapé é confusão
De repente é supetão
Insistência é lenga-lenga.

(...)

"Quem é ruivo é fogoió
O tristonho é distrenado
Tornozelo é mocotó
Cheio de grana, estribado
Jarra de barro é quartinha
O banheiro é a casinha
Sem saída, 'tá pebado'".

a literatura de cordel é feita assim. Popularíssima na parte de cima do pais e infelizmente pouco conhecida ainda aqui no sul. eis-me como exemplo, ok? mas como nunca é tarde para ser feliz... patativa, meu querido, o meu muito obrigado por te conhecer, e aquele abraço de até uma próxima!

í.ta**

6 comentários:

Dezsö Kostolány disse...

literatura de cordel não me encanta...

valéria tarelho disse...

tem sido um prazer acompanhar seu "diário de bordo"; este tópico da fala foi bem ilustrado com o trecho do cordel...nossa 'língua brasileira' é de uma riqueza e mobilidade extraordinária! [o cordel, em si, vem lá de portugal, mas as expressões contidas nesse aí são muito nossas]

tenho aqui alguns folhetos com cordéis de Edmilson Santini, que comprei sabe onde? Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul - pasme...rss [e o cordelista mora no RJ, mas difunde por onde passa a cultura de sua origem nordestina].

beijo, Zé!

Valdir Appel disse...

Italo,
o nordeste é o improvavel, pelo menos para nos. É antítese do sul de manés, de leite quente e de bombachas. É pode não? ao invés de não pode! Vou de 8 horas ao invés de vou às 8 horas.
E não mangue com eles, não!
É tudo cabra da peste, gente boa.
Eita saudade deste povo de Deus, de Padre Cícero e do por de sol do Potengi.

Marcio Nicolau disse...

Ítalo

em viagem, recentemente, aqui mesmo no Rio (onde moro), conheci um nordestino e aprendi um pouco mais a respeito desta monumental expressão que é o cordel.

gosto demais.

Eduardo Silveira disse...

que maravilha.
gosto dum cordel, embora só tenha lido. e o cordel é vivo quando cantado, né, tio?
e o vôzinho assaré?
até a na estátua o cara parece frágil! #malvadeza

um cheiro!

Assis Freitas disse...

cante lá que eu canto cá, na terra de Patativa ai de quem não versar,


abraço