terça-feira, 19 de outubro de 2010

um convite que requer 'cuidado'



Ele é um livro pequeno. De capa toda amarela. Chama a atenção de longe. Atrativo, portanto. Quase que sedutor, ainda mais quando verificado o nome de quem o escreveu: Tim Burton. Sim, o cineasta que dirigiu filmes como "Edward, mãos de tesoura", "Os fantasmas se divertem", "O estranho mundo de Jack", "Batman", "A noiva cadáver", "A fantástica fábrica de chocolate", "Peixe grande" e "Alice no país das maravilhas". Ele mesmo, sim, também na literatura. Com um livro pequeno. De capa amarela chamativa. Chamado “O triste fim do pequeno menino ostra e outras histórias”.
            Se a capa atrai, talvez o título não faça o mesmo. Como assim um menino ostra? Ou menino ou ostra, não? E por que será que é o triste fim desse menino de nome estranho?
            O livro de Tim Burton convida a pensar sobre dois detalhes que entremeiam o ato da leitura: a forma escrita do texto e o seu conteúdo semântico.
            Da forma como o livro é construído, com ilustrações feitas pelo próprio autor –que remetem ao traço já característico em seus filmes, que assusta ao mesmo tempo em que encanta, que ora se apresenta ausente de cor, e ora surge com cores gritantes – e com a escrita das narrativas em versos, passa-se a impressão de ser um livro destinado às crianças, ao público infantil mesmo, que conquiste pelo encantamento entre imagens e histórias, quase como se fossem poemas. Mas é aí que ocorre o engano. A construção em versos pode sugerir que sejam poemas, mas antes disso o texto de Burton é narrativo. São narrativas que ele constrói e apresenta ao leitor. Narrativas poéticas? Pode ser. Mas eu ainda prefiro lê-las como narrativas que apresentam a poesia trágica e desconcertante de viver.
Há, por exemplo, narrativa como esta:

“O melão melancólico

Era uma vez um melão melancólico.
Passava o dia inteiro macambúzio.
Querendo a hora do próprio velório.

Ora, cuidado com os teus pedidos!
Pois o dele foi de pronto atendido.
O último som que entrou em seus ouvidos
Foi o “ploft” em que acabou dissolvido”.

E outras mais, como a de Breno, o Menino Veneno, que encontra seu triste fim quando é colocado para respirar ao ar livre num dia de verão, o que deixa no leitor a indagação se há contradição de vida mais trágica do que esta. Em outro caso, a menina trash, que tinha "a cara suja de carvão/ A pele de puro cascão/ E uma catinga de gambá" foge do casamento com o gari pulando em um triturador de lixo. E o leitor fica assim mesmo, perguntando-se como e por que este fim a ela? Sem contar do menino ostra, o anunciado na capa do livro, que acaba devorado pelo pai, quando este buscava um afrodisíaco para melhorar seu desempenho sexual. E após o enterro do filho a cena é esta: "Já em casa, na cama quentinha/ Papai beija mamãe, se abraçam/ de conchinha:/ 'Vem, meu bem, hoje estou com toda a/ adrenalina!'// 'Ok', ela sussura, 'só que desta vez/ tem de ser uma menina’”. E a vida segue como se comer o filho não fosse nada, afinal, basta fazer outro, desde que seja uma menina, segundo a mãe.
O título da história que dá nome ao livro, “Triste fim do pequeno menino ostra” já indica o que é de mais presente no livro: o tom trágico que perpassa as histórias. Finais que chocam com uma simplicidade narrativa que deixa os leitores com cara de paisagem, perguntando-se realmente como foi possível terminar daquele modo tal história. Há, também, uma construção de personagens "estranhos" a este mundo. Personagens nitidamente fora da construção de normalidade. Personagens que existem - ou ao menos tentam - nas laterais, nas sobras, nas rebarbas da existência. Personagens atordoados que buscam um porquê de existir da forma que existem. Personagens que clamam pelo olhar do leitor sobre eles. Quem sabe para salvá-los. Quem sabe para somente acompanhar suas trajetórias de vida. Conforme consta em uma das orelhas do livro, "Como seus personagens, este livro parece deslocado. Não se enquadra em nenhum nicho. É triste, mas engraçado. É infantil, mas adulto. A mente de Burton é um universo à parte. E este livro parece ser sua melhor radiografia".
Há tudo de infantil na capa do livro, e nos desenhos, e na forma com que é escrito e se apresenta ao leitor. Porém, toda leitura requer um cuidado quando direcionada a crianças. Não um cuidado tolo de proibir que as crianças conheçam o que a vida lhes apresentará a qualquer momento, e sim um cuidado em mediar a leitura de um texto que inspira um olhar para esta vida com o qual muitos ainda podem não estar preparados para sentirem e alcançarem.
Toda leitura pede um momento para acontecer. É preciso respeitar a formação leitora de cada pessoa. E se os filmes de Tim Burton podem ser menos fortes e impactantes, o convidativo livro do cineasta nos propõem um pensar bastante seguro sobre as possíveis formas de condução de uma leitura. 

í.ta**

9 comentários:

Vanessa Souza Moraes disse...

Sou fascinada pelos filmes dele.

Kenia Cris disse...

Gosto muito dos filmes dele, adoro os desenhos e até fiquei curiosa para conhecer o Tim poeta.

O título lembrou-me de uma brincadeira que tenho com um amigo tímido de sorriso fechado, sempre digo que ele tem sorriso de ostra.

Beijo Ítalo. =*

Guilherme Sakuma disse...

darei uma conferida, mas não gosto dos últimos filmes dele. tudo bem, não é a minha área, não sei do que eu tô falando. abraço.

Guilherme disse...

Adorei sua descrição e suas observações sobre este livro. Confesso que fiquei curioso para dar uma olhada, vou ver se acho.. Adorei os filmes dele, e gosto do modo meio "louco" que ele cuida da vida. Parece bem interessante este livro, pois um cara que fez filmes tão fascinantes tem essa capacidade, de investir e colocar toda loucura e subjetivação de seus filmes nesse pequeno livro estranho.

Abraços, e obrigado por acompanhar meu blog...

* Felicidade Clandestina disse...

Aiii... que saudades das sessões-da-tarde :) adoro o mãos de tesoura. Ele é lindo, rs.


Essa semana tinha uma colega na faculdade com este livro - em Francês e Inglês - pense no luxo, rsrsrs...


Pena eu não saber tais línguas :P se ainda fosse no Espanhol, eu arriscava.

Beijos meu caro e uma boa tarde!

Aninha Kita disse...

Mesmo eu, que a princípio mantenho distância de resenhas, encanto-me com as suas. Ótima descrição do livro, do brilhante começo ou sensível final.

Ana

Elzenir Apolinário disse...

Excelente crítica e apreciação. Vc conseguiu tornar o livro interessante. Boa dica para professores. Bom final de semana. Bjs

Ensaios e Garatujas disse...

Olha, esse livro parece ser ótimo!
Sombrio como os trabalhos de Tim Burton no cinema.

Roberta disse...

ótima indicação, curiosidade e encantamento misturados.

eu ainda diria, generalizando: "convite requer cuidado".