segunda-feira, 6 de setembro de 2010

a poesia ao alcance de todos

"1ª lição


            Rosa daninha:
            Você quer que eu te ensine poesia e se confessa envergonhada da própria ignorância. Mea Culpa, Rosante! Não te ofendo por ruindade, mas de leviano que sou. Teus versos são maus, mas puros – o que é uma qualidade. Falta informação, cultura a você – sensibilidade você tem de sobra. Ler O Estrangeiro do Camus e gostar, na tua idade e com a tua formação, é algo admirável por si só. Entretanto, você acha Drummond um chato, o que é um crime de lesa-pátria. Certas coisas são sagradas, Rosinha. Não existisse Drummond e hoje eu seria um próspero vendedor de ações. O mal dele é que encalacra na gente, como certa menininha, princesa de castelo, que eu conheço. Às vezes escrevo versos e percebo que há mais alguém participando da tarefa – esses malditos fantasmas, grandes demais para caberem no túmulo. Vivem se metendo na obra alheia.
            Mas vamos à aula de poesia.
            Artigo único: poesia não se ensina.
            Está encerrada a lição. Mas, para não decepcioná-la por completo, falarei da poesia em geral, já que não posso ensiná-la. Antes de mais nada, dê uma folheada em algum manual de literatura (serve enciclopédias, daquelas que o teu pai compra em metro) para familiarizar-se ligeiramente com a História. Itens de pesquisa: Homero – Classicismo – Barroco-Arcadismo (ou neo-classicismo) – Romantismo – Parnasianismos – Simbolismo – Modernismo – Concretismo.
            Pronto? Ótimo. Se não entender alguma coisa, não faz mal: esse pessoal todo já morreu, e em geral eram muito chatos. Conclusão primeira destes três mil anos:

- a poesia não é rima
                não é forma
                não é metro
                não é papel cuchê de primeira
                não é assunto
                não é necessariamente música

                não é estrofe
                não é profundo mergulho na individualidade humana
                não é uma borboleta voando
a poesia não é nada.
                ou seja
                que porra é a poesia?

            Conclusão segunda da revisão histórica (preste atenção, Rosânida!):
            - como não há mais nenhum discípulo de Homero e a Grécia virou uma bosta, como os clássicos da Renascença eram muito posudos, como os barrocos faziam piruetas, como os árcades só cuidavam de ovelhas, como os românticos morreram todos tuberculosos, como os parnasianos eram a última raspa do tacho da boçalidade acadêmica, como os simbolistas compensavam a falta de assunto com Iniciais Maiúsculas, como os modernistas envelheceram, como os concretistas, práxis, poetas-processo e suas cinco milhões de dissidências cooptaram todos pelas agências de publicidade:

ESTAMOS LIVRES!
HIP! HIP! HURRA

            Não é um alívio, Rosaflor?
            Isto facilita as coisas. Por que buscar um fio de meada que talvez tenha se perdido para sempre? Ora, a solução é cristalina. Não existe a meta-poesia?
            Pois acabo de inventar a mata-poesia.
            A mata-poesia (nada a ver com ecologia!) propõe o assassínio da Poesia. O Esquadrão Matapô não terá piedade: matará, estraçalhará, estrangulará tudo o que aparecer por aí sob o codinome de Poesia. O filho da puta do poeta que aparecer com textinhos mimeografados, com vanguardas obsoletas, com tiradas de cinco estrofes, com rimas ou sem rimas, com vaguezas sonambúlicas, comícios e aquilhos, saudades, dores, fragmentação do ser, trocadalhos e poemas em geral, estes comerá o pão que o diabo amassou. Para se filiar ao Matapô basta ser poeta e colocar seus préstimos a favor da destruição final da poesia. Vamos extirpar de vez esta vergonha nacional, esta horda de mendigos bem nutridos. Ofereçamo-nos em holocausto. Ave!
            Rosance, essas cartas me estimulam! Refaço agora o título da aula: onde se lê A POESIA AO ALCANCE DE TODOS, leia-se A POESIA AO ALCANCE DO BRAÇO DE TODOS.

            Porrada nela!”

Autor: Cristovão Tezza
Livro: Trapo
Ano: 1988
pp. 113-114-115.
Editora: Letras brasilienses
_ _ _ _ _ 
í.ta**

8 comentários:

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

Pois ía guarda aquilo que reside na proto-palavra, no seu nascedouro... berço de estrelas... Escrever [poesia] não serve, é servido - tem posse, mando e domínios próprios... não se enquadra fácil no rótulo utilitarista, como meio para se atingir algo, mas é fim [em si e por si], alvo, seta, alça de mira, disparo e projétil, deixando pólvora incombusta na passagem... é vício e terapia, é brincadeira e agonia [utopia?! - talvez]. A um só tempo ardor do sol e estio da treva, e é muito mais do que nos pareça, sob os véus em que se esconde esta vontade de grafar [como fizeram os primitivos] nossa parca passagem neste mundo full gás... é que é veículo com o que a alma enxerga mais...

Calar que o amor fala mais, que o excesso de palavras só desfaz, a beleza destes tristes ais...

:D

Eduardo Silveira disse...

ahhhhhhhhh, morri!
quero esse livro *0*
A única coisa que conheço do Tezza é o Filho eterno, que pouco tem quer ver com essa prosa irônica e divertida, aí. adorei.
e ó, uma sugestão:
esse trecho aqui:

"como não há mais nenhum discípulo de Homero e a Grécia virou uma bosta, como os clássicos da Renascença eram muito posudos, como os barrocos faziam piruetas, como os árcades só cuidavam de ovelhas, como os românticos morreram todos tuberculosos, como os parnasianos eram a última raspa do tacho da boçalidade acadêmica, como os simbolistas compensavam a falta de assunto com Iniciais Maiúsculas, como os modernistas envelheceram, como os concretistas, práxis, poetas-processo e suas cinco milhões de dissidências cooptaram todos pelas agências de publicidade:

ESTAMOS LIVRES!
HIP! HIP! HURRA"

esse trecho aí tem que ser mostrado a todos os professores de literatura, pois traçar o painel [pré-]histórico dela é um passatempo preferido de boa parte deles. vc que observou aulas, num é assim?

abraço, cara
e obrigado por compartilhar o texto.

* Felicidade Clandestina disse...

ri demais aqui.

mata-poesia? deus me livre.

Ensaios e Garatujas disse...

Muuito bom, preciso ler esse cara!

Záia disse...

Bicho foda. Não conhecia

Camila F. disse...

" Se não entender alguma coisa, não faz mal: esse pessoal todo já morreu, e em geral eram muito chatos." Haha...Muito bom esse texto. Obrigada por compartilhar.

Obrigada também pelas visitas lá no blog. Seus comentários são sempre um incentivo. E Legal que conhece o cd com os poemas da Hilda. Muito bom né. :)

Abração!

Regina Carvalho disse...

Todo escritor começa querendo ser poeta. Não creio que o Cristovão seja exceção. Descobrir que não é, não pode ser, jamais será, deve doer um bocado... e trazer um bocado de ódio pela vida e pela poeisa...
Trapo é o livro mais vendido do Tezza, adotado em mil vestibulares justamente pela temática da revolta adolescente (que LÇeminski chama de bukowskiana, mas Tezza não tinha lido Bukowski, foi ler depois...),mas não creio que seja o melhor.
bj

Enzo disse...

Muito bom!!!