terça-feira, 14 de setembro de 2010

não por si. mas pelo outro.


- Você já desejou ter morrido?
- Não. É bobagem querer luxo em tempos como estes.

Não existe força sequer para chorar. Não se quer ir adiante. Mas se vai, pois ficar não levará a nada, mesmo que ir também não garanta chegar a algum lugar muito diferente daquele em que já se está. Assim podemos pensar “A estrada” (2007, Editora Alfaguara), do norte-americano Cormac McCarthy, autor também de “Onde os velhos não têm vez” (2006, Editora Alfaguara) e “Meridiano de Sangue” (2009, Editora Alfaguara).
A epígrafe desta resenha é um dos diálogos estabelecidos entre pai e filho, os dois personagens a partir dos quais a narrativa deste livro se estabelece. No caso do diálogo acima, é a pergunta do filho para o pai. E há muitas destas perguntas com um pé na ingenuidade. Afinal, o garoto é apenas uma criança de mais ou menos oito ou nove anos, que se vê caminhando para o sul – consequentemente, para o litoral – com seu pai, em um cenário de destruição total, em que não restou nada do mundo como o conhecemos. São pouquíssimas as pessoas que sobreviveram ao “fim do mundo”, tema tão recorrente em produções de livro e de cinema, principalmente na última década.
Esta obra de McCarthy, inclusive, foi filmada para a grande tela em 2009, obtendo grande repercussão. De fato, ficou um bom filme. Nada que possamos aclamar como a maior produção do cinema dos últimos anos, mas está longe de ter ficado mal produzido. Pelo contrário. O roteiro ficou bastante fiel ao livro, o que, neste caso, é importantíssimo. E as atuações dos personagens, principalmente de pai e filho, ficaram muito bem feitas. É possível, sim, assistir ao filme e sentir uma vontade muito grande de ajudar este pai a proteger seu filho naquilo que sobrou do mundo, e também de ajudar o próprio filho a suportar a dor de perceber que as forças de seu pai estão se acabando.
“A estrada” é uma história de persistência. Uma persistência por algo que não se sabe para aonde levará. Mas, retomando o parágrafo inicial, é preciso ir adiante. De uma forma ou de outra é preciso ir adiante e encarar de frente a fome, o frio e os perigos de se deparar com as “pessoas do mal”. É assim que o pai apresenta ao filho as pessoas de quem vez ou outra eles fogem em sua caminhada. Pessoas que buscam por outras pessoas não só para matar, mas para comê-las.
Há um momento da história em que o leitor se sente feliz. Um momento que faz crescer no leitor uma esperança muito grande de que pai e filho logo, logo encontrarão uma rua que os levará de volta ao mundo como ele é hoje, este mundo com todas as construções de pé, este mundo com cores fortes, com pessoas pra lá e pra cá, com comida nos supermercados. É o momento em que pai e filho encontram um esconderijo subterrâneo em uma das casas que ainda restam de pé. Um esconderijo cheio de alimentos enlatados, conservados. Cheíssimo. Um esconderijo onde pai e filho ficam por dias, meses, sabe-se lá (outra característica de “A estrada” é esta ausência de elementos temporais para situar o leitor. O que se torna muito claro: como é possível apresentar alguma ideia de linearidade temporal em um mundo que não conta mais meses, nem dias, nem horas, nem minutos?).
Pai e filho caminham em direção ao sul, onde é menos frio. E em direção ao litoral, à água do mar, onde podem encontrar ainda, quem sabe, animais, alguma coisa da natureza, sabe-se lá. Caminham porque ficar parado não adianta nada. Caminham carregando alguns cobertores puídos, um carrinho de compras com alimentos cada vez mais escassos e um revólver com poucas balas. Poucas e marcantes balas. O mundo pós-apocalíptico descrito por McCarthy, além da cor marrom-cinza, além dos destroços materiais do que uma vez fora o mundo, apresenta ao leitor uma necessidade de sobrevivência que acompanha o ser humano e que não se explica. Ao mesmo tempo em que nos deparamos com um pai sobrevivendo somente pelo filho, encontramos personagens que sobrevivem por e para comerem os outros poucos que ainda vivem.
“A estrada” marca pela forma como é narrada. Uma história que se desenvolve a partir de uma destruição de mundo que não é explicada – e nem há necessidade de. Uma história seca – e não haveria como ser diferente diante de um mundo em que nada mais existe –, contada com uma narrativa também seca, direta, inteligentemente fiel ao que se conta, como é possível observar em mais um diálogo entre pai e filho, em que o pai inicia com a pergunta:
“Quer que eu conte uma história?
Não.
Por que não?
O menino olhou para ele e desviou o olhar.
Por que não?
Essas histórias não são verdadeiras.
Elas não têm que ser verdadeiras. São histórias.
É. Mas nas histórias estamos sempre ajudando as pessoas e nós não ajudamos as pessoas.
Por que você não me conta uma história?
Não quero.
Está bem.
Não tenho nenhuma história para contar.
Você podia me contar uma história sobre você mesmo.
Você já conhece todas as histórias sobre mim. Você estava lá.
Você tem histórias por dentro que eu não conheço.
Quer dizer como sonhos?
Como sonhos. Ou coisas em que você pensa.
É, mas as histórias deveriam ser felizes.
Elas não têm que ser.
Você sempre conta histórias felizes.
Você não tem nenhuma história feliz?
Elas são mais tipo vida real.
Mas as minhas histórias não são.
As suas histórias não são. Não.
O homem o observava. A vida real é bem ruim?
O que você acha?
Bem, acho que ainda estamos aqui. Um bocado de coisas ruins aconteceu mas ainda estamos aqui.
É.
Você não acha que isso seja tão bom.
          Está bem para mim”. 


í.ta**

8 comentários:

Roberta Ávila disse...

acho que a Regininha falou desse livro. deu vontade de ler! e vc nem acredita! coloquei o bendito pacote no correio =D ia fazer uma nova cartinha, atualizada, mas afe, do jeito que eu sou enrolada, quando me vi no correio tratei de dispanhar logo... hahahah

bjão!

Assis Freitas disse...

o ser marcado pela existência, quando a morte é um premio a ser alcançado, mundo estranho, muito


abraço

Eduardo Silveira disse...

ahhhhhh, esse livro é fantástico.
e sua apresentação dele também ficou ótima!

Pensemos: um pai e um filho caminhando por uma estrada deserta (ou quase né). Como carregar um romance com enredo simples como esse? Acho que tua resenha demonstra bem a genialidade do McCarthy.
e bom que, na hora de escolher um trecho, vc tenha posto um desses diálogos entre pai e filho: são partes lindíssimas. Essa 'ingenuidade' da criança que vc falou, se reflete em perguntas instigantes ao pai... e são sempre conversas curtas, secas, mas repletas de silêncio e poesia..
o livro é foda.
Lembrei-me agora do final... que é pura poesia.

Ah, preciso ver o filme!
abraço!

Záia disse...

olha fiquei com muita vontade de ler!

vanessacamposrocha disse...

nossa... você é mesmo um sentidor de literatura. que alegria ver isso!
parabéns pelo site!
abraços

isaias de faria disse...

esse autor me interessou bastante.
massa também a postagem sobre haicai. gosto muito dos q o cássio amaral escreve. também faço uns de bobeira. um dos q rabisquei q ando gostando :

alísios quase visíveis
na manhã cinzaclaro -
ela treme o queixo

Vanessa Souza Moraes disse...

Quem não desejou?

Maria Paula Alvim disse...

Excelente texto - dá vontade de ir direto comprar o livro. Obrigada pela dica.