terça-feira, 28 de setembro de 2010

não é pra se acanhar, não

o legal de fazer essas brincadeiras de "quais destes livros você já leu?" é a possibilidade de cruzar leituras. leituras e sentires de leituras. porque eu posso estar lendo o sexto harry potter, achando o máximo a trama toda e uma bela porcaria a escrita (é culpa da tradução, dizem-me), enquanto que o alguns não conseguem passar do primeiro livro da série. assim como, eu e mais tantos amamos o "leite derramado" do chico, enquanto outros jamais vão querer lê-lo (e pra quem gosta de chico, e já leu mais chicos, aguardem que logo eu venho com resenha completa dos quatro livros dele. e não poupo em críticas e em elogios :)). mas voltando ao que interessa, o bom de um movimento-besta como este é justamente esta troca entre leitores. e não há nada desse negócio de ficar acanhado por não ter lido nenhum livro, ou somente o harry. estes são apenas pouco mais de dez livros que eu tenho aqui espalhados pela casa. não são os melhores muito menos os mais importantes para nada nem ninguém. talvez nem para mim eles sejam. são apenas livros que por diversos motivos estão aqui comigo, para serem lidos. mas eu sei que a cada semana eu vou me deparar com no mínimo um livro que não está nesta lista, e vou largar tudo para ler este "elemento intruso". e a leitura precisa ser isso mesmo para nós, um intrometer-se de livros e de leitores. uma troca de sentires e de leituras. mas nunca acanhamento. é o que diz o manguel na sua bíblia "uma história da leitura": "um livro traz sua própria história ao leitor". e ele também diz que todos lemos a nós e ao mundo ao nosso redor. que a gente nunca deixa de ler. e eu acho também que é muito bom que nos percamos entre nossas leituras. que sejamos jogados de um lado para o outro por elas. sem sossego. ou, bom, pode não ser nada disso que eu escrevi. e tomara que não seja mesmo. eu quero é ouvir de vocês alguma coisa também. digam-me, por onde vai a leitura assim entre nós? ou por onde vamos entre essas leituras? e é melhor, bem melhor, que não alcancemos conclusão nenhuma disso tudo. 

í.ta**

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

quais destes você já leu II?


era uma foto catada na net.

agora, fiz uma. com dezesseis livros que tenho aqui para ler.
aquela listinha que sempre fica ao redor da gente, sabem?
tão aí...

alguns livros já pela metade. outros nem começados.
só o leite derramado já terminado (entrou de metido que é).

digam aí.
quais destes vocês já leram? quais pretendem ler?
(sim, cliquem na imagem para melhor visualizá-la)

ítalo.

p.s.: como fotógrafo, 'cês sabem, sou um ótimo leitor.
portanto, os dois livros da ponta, que quase não dá pra saber,
são "leite derramado", do chico buarque, e
"tête-à-tête", de hazel rowley, sobre o sartre e a beauvoir.

domingo, 19 de setembro de 2010

entre o presente e a memória

depois da série de haicais, vamos com um pouco mais de literatura japonesa, agora tratando de romances.


o primeiro que li foi “minha querida sputnik” (2008, editora alfaguara), do escritor haruki murakami. a história de sumire, miu e k., contada por este último. a história, também, de shin'ichi nimura, o cenoura, aluno do professor k. a história contada por este professor.

há algo de envolvente, sim, neste romance. há uma história, até certo ponto, bem tramada, narrada em primeira pessoa pelo professor k. sendo assim, o que nós, como leitores, sabemos da história, é o que nos conta o personagem-narrador. ou seja, se há outras situações ou olhares para os fatos que acontecem, não sabemos.

o que há é uma relação de amizade muito forte entre k. e sumire. esta, uma jovem garota com 22 anos, sonhando ser escritora. e há também miu, uma executiva bem sucedida que estabelece com sumire uma relação também muito forte. e, mais para o final, há shin'ichi nimura, o cenoura, aluno do professor, um personagem enigmático na história.

confesso não ter gostado da forma como “minha querida sputinik” é narrada. não gostei desde o começo. segui em frente para ver até onde iria. fui até o final, mas a narrativa não me convenceu, não. achei-a muito detalhada sem razão de ser. achei-a enrolada demais, com muitas e muitas páginas desnecessárias, que nada acrescentaram à trama. esta sim, a trama, até que é boa, até que inspira no leitor uma curiosidade e um desejo por continuar a lê-la. talvez tenha sido o que me levou ao final do romance.

pareceu-me um livro estilo best-seller. um livro de fórmula pronta, com trama envolvente, mas que peca demais na maneira como é narrado. como algo positivo é a caracterização dos personagens. há algo que os coloca em relações próximas. há uma solidão escancarada em cada um, e o livro mostra como cada um reage a isto, o que torna interessante, sim, a leitura. não mais que isso. (há outros dois livros do haruki murakami lançados no brasil pela editora alfaguara, de nomes "após o anoitecer", de 2009 e "kafka à beira-mar", de 2008. 


já o outro romance de autor japonês que li, “quando éramos órfãos” (2000, companhia das letras), de kazuo ishiguro (autor também de "noturnos", 2010, companhia das letras), considerei extremamente bem escrito. uma narrativa construída em detalhes precisos. um livro com mais páginas que “minha querida sputinik”, e sem nada da enrolação daquele. muito pelo contrário. além de ser muito bem tramado, deixando pistas pelo caminho ao leitor, conduzindo este leitor para um quê de mistério nas últimas cem páginas, prendendo o leitor a este final que se aproxima, a forma como esta história é narrada é encantadora. há um cuidado na narração em primeira pessoa que impressiona.

esta narração é feita por christopher banks, um garoto que se criou inglês, mas que nasceu em xangai, no início do século xx. o narrador vai deixando pegadas, marcas ao leitor, para que este compreenda que a forma como cristopher narra sua história é guiada pura e simplesmente pela memória, o que significa também dizer, pelos buracos que toda memória deixa. diante disso, pois, o leitor tem à sua frente uma história que se permite linear somente até onde a memória do personagem-narrador permite que ela seja.

assim sendo, a construção do romance em sete partes, com marcação de lugar e de data como títulos destas partes (por exemplo, “parte um: londres, 24 de julho de 1930), ajuda o leitor a acompanhar o desenrolar dos fatos da vida deste personagem que aos nove anos se vê órfão – com todo o mistério que necessariamente cerca um fato deste para uma criança desta idade – e passa a viver na inglaterra, aos cuidados de uma tia. esta mesma criança que quando adulta se tornará um detetive muito famoso e prestigiado na alta sociedade inglesa da época, e que, apesar de todo o prestígio tão sonhado e alcançado, se vê preso ao seu passado, ao local de vivência de sua infância, aos seus pais desaparecidos, e que por isto se vê voltando a xangai justamente no período de uma guerra sangrenta entre china e japão, a década de 30. é sob este fundo histórico que os mistérios da infância de christopher começam a ser apresentados ao leitor.

leitor este que se sente quase que íntimo de christopher diante da narração tão velada, tão cuidadosa que este personagem faz de sua vida. é isto o que mais marca em “quando éramos órfãos”. uma narrativa que se entrega abertamente aos desvãos da memória, ao poder do passado de determinar o presente e o futuro das pessoas, à impossibilidade de se narrar tudo o que se quer, por mais que se queira.

í.ta**

terça-feira, 14 de setembro de 2010

não por si. mas pelo outro.


- Você já desejou ter morrido?
- Não. É bobagem querer luxo em tempos como estes.

Não existe força sequer para chorar. Não se quer ir adiante. Mas se vai, pois ficar não levará a nada, mesmo que ir também não garanta chegar a algum lugar muito diferente daquele em que já se está. Assim podemos pensar “A estrada” (2007, Editora Alfaguara), do norte-americano Cormac McCarthy, autor também de “Onde os velhos não têm vez” (2006, Editora Alfaguara) e “Meridiano de Sangue” (2009, Editora Alfaguara).
A epígrafe desta resenha é um dos diálogos estabelecidos entre pai e filho, os dois personagens a partir dos quais a narrativa deste livro se estabelece. No caso do diálogo acima, é a pergunta do filho para o pai. E há muitas destas perguntas com um pé na ingenuidade. Afinal, o garoto é apenas uma criança de mais ou menos oito ou nove anos, que se vê caminhando para o sul – consequentemente, para o litoral – com seu pai, em um cenário de destruição total, em que não restou nada do mundo como o conhecemos. São pouquíssimas as pessoas que sobreviveram ao “fim do mundo”, tema tão recorrente em produções de livro e de cinema, principalmente na última década.
Esta obra de McCarthy, inclusive, foi filmada para a grande tela em 2009, obtendo grande repercussão. De fato, ficou um bom filme. Nada que possamos aclamar como a maior produção do cinema dos últimos anos, mas está longe de ter ficado mal produzido. Pelo contrário. O roteiro ficou bastante fiel ao livro, o que, neste caso, é importantíssimo. E as atuações dos personagens, principalmente de pai e filho, ficaram muito bem feitas. É possível, sim, assistir ao filme e sentir uma vontade muito grande de ajudar este pai a proteger seu filho naquilo que sobrou do mundo, e também de ajudar o próprio filho a suportar a dor de perceber que as forças de seu pai estão se acabando.
“A estrada” é uma história de persistência. Uma persistência por algo que não se sabe para aonde levará. Mas, retomando o parágrafo inicial, é preciso ir adiante. De uma forma ou de outra é preciso ir adiante e encarar de frente a fome, o frio e os perigos de se deparar com as “pessoas do mal”. É assim que o pai apresenta ao filho as pessoas de quem vez ou outra eles fogem em sua caminhada. Pessoas que buscam por outras pessoas não só para matar, mas para comê-las.
Há um momento da história em que o leitor se sente feliz. Um momento que faz crescer no leitor uma esperança muito grande de que pai e filho logo, logo encontrarão uma rua que os levará de volta ao mundo como ele é hoje, este mundo com todas as construções de pé, este mundo com cores fortes, com pessoas pra lá e pra cá, com comida nos supermercados. É o momento em que pai e filho encontram um esconderijo subterrâneo em uma das casas que ainda restam de pé. Um esconderijo cheio de alimentos enlatados, conservados. Cheíssimo. Um esconderijo onde pai e filho ficam por dias, meses, sabe-se lá (outra característica de “A estrada” é esta ausência de elementos temporais para situar o leitor. O que se torna muito claro: como é possível apresentar alguma ideia de linearidade temporal em um mundo que não conta mais meses, nem dias, nem horas, nem minutos?).
Pai e filho caminham em direção ao sul, onde é menos frio. E em direção ao litoral, à água do mar, onde podem encontrar ainda, quem sabe, animais, alguma coisa da natureza, sabe-se lá. Caminham porque ficar parado não adianta nada. Caminham carregando alguns cobertores puídos, um carrinho de compras com alimentos cada vez mais escassos e um revólver com poucas balas. Poucas e marcantes balas. O mundo pós-apocalíptico descrito por McCarthy, além da cor marrom-cinza, além dos destroços materiais do que uma vez fora o mundo, apresenta ao leitor uma necessidade de sobrevivência que acompanha o ser humano e que não se explica. Ao mesmo tempo em que nos deparamos com um pai sobrevivendo somente pelo filho, encontramos personagens que sobrevivem por e para comerem os outros poucos que ainda vivem.
“A estrada” marca pela forma como é narrada. Uma história que se desenvolve a partir de uma destruição de mundo que não é explicada – e nem há necessidade de. Uma história seca – e não haveria como ser diferente diante de um mundo em que nada mais existe –, contada com uma narrativa também seca, direta, inteligentemente fiel ao que se conta, como é possível observar em mais um diálogo entre pai e filho, em que o pai inicia com a pergunta:
“Quer que eu conte uma história?
Não.
Por que não?
O menino olhou para ele e desviou o olhar.
Por que não?
Essas histórias não são verdadeiras.
Elas não têm que ser verdadeiras. São histórias.
É. Mas nas histórias estamos sempre ajudando as pessoas e nós não ajudamos as pessoas.
Por que você não me conta uma história?
Não quero.
Está bem.
Não tenho nenhuma história para contar.
Você podia me contar uma história sobre você mesmo.
Você já conhece todas as histórias sobre mim. Você estava lá.
Você tem histórias por dentro que eu não conheço.
Quer dizer como sonhos?
Como sonhos. Ou coisas em que você pensa.
É, mas as histórias deveriam ser felizes.
Elas não têm que ser.
Você sempre conta histórias felizes.
Você não tem nenhuma história feliz?
Elas são mais tipo vida real.
Mas as minhas histórias não são.
As suas histórias não são. Não.
O homem o observava. A vida real é bem ruim?
O que você acha?
Bem, acho que ainda estamos aqui. Um bocado de coisas ruins aconteceu mas ainda estamos aqui.
É.
Você não acha que isso seja tão bom.
          Está bem para mim”. 


í.ta**

sábado, 11 de setembro de 2010

também lá



no poema curta-metragem,


a convite da neusa doretto,


com novo poema
(ou tentativa de).


e no cooperativa de letras,
ideia e criação do tiago nascimento,
um blog com escritos e escritores
de jaraguá do sul.


í.ta**

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

outro poema

este, do jb,
excelente poeta. 


"Profecia


A noite abre as pernas devagar
Arreganhando no céu
A nudez negra da perdição


No profundo das horas
O lobo uiva suas porras
A madrugada orgasma


O arrependimento acordará cedo
Não fará a prece da manhã
A dar tempo para aquecer o café
E vestir a pele limpa dos cordeiros


À tarde, no pasto, morrerá".
_ _ _ _ _ 
í.ta**

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

a poesia ao alcance de todos

"1ª lição


            Rosa daninha:
            Você quer que eu te ensine poesia e se confessa envergonhada da própria ignorância. Mea Culpa, Rosante! Não te ofendo por ruindade, mas de leviano que sou. Teus versos são maus, mas puros – o que é uma qualidade. Falta informação, cultura a você – sensibilidade você tem de sobra. Ler O Estrangeiro do Camus e gostar, na tua idade e com a tua formação, é algo admirável por si só. Entretanto, você acha Drummond um chato, o que é um crime de lesa-pátria. Certas coisas são sagradas, Rosinha. Não existisse Drummond e hoje eu seria um próspero vendedor de ações. O mal dele é que encalacra na gente, como certa menininha, princesa de castelo, que eu conheço. Às vezes escrevo versos e percebo que há mais alguém participando da tarefa – esses malditos fantasmas, grandes demais para caberem no túmulo. Vivem se metendo na obra alheia.
            Mas vamos à aula de poesia.
            Artigo único: poesia não se ensina.
            Está encerrada a lição. Mas, para não decepcioná-la por completo, falarei da poesia em geral, já que não posso ensiná-la. Antes de mais nada, dê uma folheada em algum manual de literatura (serve enciclopédias, daquelas que o teu pai compra em metro) para familiarizar-se ligeiramente com a História. Itens de pesquisa: Homero – Classicismo – Barroco-Arcadismo (ou neo-classicismo) – Romantismo – Parnasianismos – Simbolismo – Modernismo – Concretismo.
            Pronto? Ótimo. Se não entender alguma coisa, não faz mal: esse pessoal todo já morreu, e em geral eram muito chatos. Conclusão primeira destes três mil anos:

- a poesia não é rima
                não é forma
                não é metro
                não é papel cuchê de primeira
                não é assunto
                não é necessariamente música

                não é estrofe
                não é profundo mergulho na individualidade humana
                não é uma borboleta voando
a poesia não é nada.
                ou seja
                que porra é a poesia?

            Conclusão segunda da revisão histórica (preste atenção, Rosânida!):
            - como não há mais nenhum discípulo de Homero e a Grécia virou uma bosta, como os clássicos da Renascença eram muito posudos, como os barrocos faziam piruetas, como os árcades só cuidavam de ovelhas, como os românticos morreram todos tuberculosos, como os parnasianos eram a última raspa do tacho da boçalidade acadêmica, como os simbolistas compensavam a falta de assunto com Iniciais Maiúsculas, como os modernistas envelheceram, como os concretistas, práxis, poetas-processo e suas cinco milhões de dissidências cooptaram todos pelas agências de publicidade:

ESTAMOS LIVRES!
HIP! HIP! HURRA

            Não é um alívio, Rosaflor?
            Isto facilita as coisas. Por que buscar um fio de meada que talvez tenha se perdido para sempre? Ora, a solução é cristalina. Não existe a meta-poesia?
            Pois acabo de inventar a mata-poesia.
            A mata-poesia (nada a ver com ecologia!) propõe o assassínio da Poesia. O Esquadrão Matapô não terá piedade: matará, estraçalhará, estrangulará tudo o que aparecer por aí sob o codinome de Poesia. O filho da puta do poeta que aparecer com textinhos mimeografados, com vanguardas obsoletas, com tiradas de cinco estrofes, com rimas ou sem rimas, com vaguezas sonambúlicas, comícios e aquilhos, saudades, dores, fragmentação do ser, trocadalhos e poemas em geral, estes comerá o pão que o diabo amassou. Para se filiar ao Matapô basta ser poeta e colocar seus préstimos a favor da destruição final da poesia. Vamos extirpar de vez esta vergonha nacional, esta horda de mendigos bem nutridos. Ofereçamo-nos em holocausto. Ave!
            Rosance, essas cartas me estimulam! Refaço agora o título da aula: onde se lê A POESIA AO ALCANCE DE TODOS, leia-se A POESIA AO ALCANCE DO BRAÇO DE TODOS.

            Porrada nela!”

Autor: Cristovão Tezza
Livro: Trapo
Ano: 1988
pp. 113-114-115.
Editora: Letras brasilienses
_ _ _ _ _ 
í.ta**

sábado, 4 de setembro de 2010