domingo, 22 de agosto de 2010

pra cá

venham também, 
ó,
tem coisas assim:


"O animal de Calvino

De manhã Calvino dirigia-se à cozinha para dar de comer ao Poema. O bicho devorava tudo: nenhum alimento era desagradável ou esquisito - e tudo para ele parecia ser alimento.
Ao fim do dia, depois de terminadas as tarefas urgentes, o senhor Calvino acariciava-lhe o pêlo com a delicadeza e a hábil distração aparente dos tocadores de harpa. Naqueles instantes, o universo abrandava as rotações ganhando a lentidão inteligente dos pequenos felinos.
Dar banho ao Poema não era fácil; ele como que resistia à limpeza, exigindo de modo saltitante uma liberdade impudica que só a sujidade permite. Mas bem pior ainda era dar ao bicho uma injeção. Era a única altura em que as garras eram dirigidas a Calvino. Aquele animal preferia adoecer, a ser medicado.
Um dia o animal caiu da janela do 2° andar, e morreu.
Calvino, no dia seguinte, adotou outro.
E deu-lhe o mesmo nome".
(Gonçalo M. Tavares, "O senhor Calvino").


e outras mais.

í.ta**

10 comentários:

Eduardo Silveira disse...

Ô, conto foda, esse do gonçalo hein. os aperitivos me deram vontade de conhecer seus livros. >.<

Aninha Kita disse...

Muito muito interessante!
Fiquei intimamente orgulhosa de conhecer um escritor tão perspicaz com meu sobrenome! :D

Este conto mesmo, é lindo! *-* Uma ótima visão do bichinho "poema".

Abraços!
Ana

Kenia Cris disse...

Que coisa linda! Delícia de conto! Sorte a do mundo que o Sr. Calvino não se deixou abater pela morte do primeiro bichinho e adotou outro logo.

Obrigada por compartilhar. =)

Beijo!

Lara Amaral disse...

Que lindo! Coisa boa de ler, gostei da indicação.

Beijo.

Marcio Nicolau disse...

Sim, o teu sentir complementa o meu!! Que coisa extraordinária este texto!!

Convite: www.espacointertextual.blogspot.com
minha casa. Sinta-se à vontade.

Um abraço e até.

aluisio martins disse...

ei, que primor de texto, qta imagem e filosofia, o nome Calvino tb inspira o proprio Italo...
adorei
o cara é bom
abs

Eliana Mara de Freitas disse...

De noite, estou quase fechando os olhinhos, mas preciso te dizer que sua presença me alegra.
e estou em dívida de ler seus textos e comentar com cuidado.
Vou cumprir, tá?
beijos

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

o poema se não ficarmos de olho ele devora e come a poesia , aí sobra pouco

Cultivador de Lagartas disse...

Sinto quando sinto por aqui.
Abraço meu amigo, em breve, carta.

Simplesmente Outono disse...

Saudade do teu carinho em letras.