sexta-feira, 27 de agosto de 2010

haicais

sempre me interessei pelo haicai, este estilo de poema japonês que muitos escritores brasileiros praticam até hoje. então, quando vi na livraria o livro “Boa companhia: Haicai”, comprei-o, tanto para ter vários haicais de diferentes autores nacionais, quanto para saber mais sobre esse tipo de poema japonês que foi abrasileirado com o passar do tempo e do uso que os escritores brasileiros fizeram dele.

a introdução do livro, escrita por rodolfo witzig guttilla, que é também o organizador do mesmo, é muito esclarecedora em termos de história do haicai: do seu surgimento no japão, da sua chegada no brasil (por intermédio de monteiro lobato, com traduções), dos primeiros poetas brasileiros que passaram a escrever haicais em sua forma mais original (três versos, com 5-7-5 sílabas, com a última sílaba do primeiro verso rimando com a última do terceira, e com a segunda sílaba do segundo verso rimando com a última do mesmo verso. Sílabas métricas, importante ressaltar), e dos demais poetas que foram, de fato, abrasileirando a escrita desse tipo de poema, deixando um pouco de lado as regras tão rígidas, e mantendo a estrutura de três versos.

selecionei, é claro, muitos haicais presentes neste livro. ao menos um de cada autor. mas não convém colocá-los todos aqui neste post. vou selecionar alguns, aleatoriamente, porque há tantos tão bons, que ficar na escolha do qual é melhor exigirá muito de mim. mesmo assim, são bastantes.

ah, os autores que constam no livro são: abel pereira, afrânio peixoto, alice ruiz, antonio fernando de franceschi, carlos drummond de andrade, carlos vogt, cyro armando catta preta, décio pignatari, erico veríssimo, guilherme de almeida, haroldo de campos, helena kolody, josé lino grunewald, josé paulo paes, lêdo ivo, luís aranha, millôr fernandes, monteiro lobato, oldegar vieira, olga savary, oswald de andrade, paulo leminski, pedro xisto, waldomiro siqueira jr. e acabaram ficando de fora da coletânea joão guimarães rosa, manuel bandeira e mario quintana, o que é uma perda e tanto.
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”A moenda


Na dureza insana,
girando, range esmagando
toda a calma da cana” (abel pereira).
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“Um aeroplano
Em busca de combustível...
Oh! É um mosquito” (afrânio peixoto).
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“luzes acesas
vozes amigas
chove melhor” (alice ruiz)

“a chuva
nas luzes da casa
uma é minha” (idem)

“por uma fresta
entra toda a vida
que o sol empresta” (idem)

“primavera
até a cadeira
olha pela janela” (idem)

“ouvindo Quintana
minha alma
assobia e chupa cana” (idem)

“rede ao vento
se torce de saudade
sem você dentro” (idem)

“diante do mar
três poetas
e nenhum verso” (idem)

“cerimônia do chá
três convidados
e um mosquito” (idem)
_______
“se o ralo verso
tem halo
é um universo” (antonio fernando de franceschi)
______
“Não tenho dinheiro no banco,
porém,
meu jardim está cheio de rosas” (carlos drummond de andrade)

“O pintor ao meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?” (idem)

“Hipótese

E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo” (idem)
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“Falamos tudo e ainda
há o que
silenciar” (carlos vogt)

“Num guardanapo

O movimento do homem
tende infinitamente
para o finito” (idem)

“Ultrarrealismo

A vida
limita
a arte” (idem)
____
“Instantâneo

Na vidraça fresca,
a lagartixa se espicha
e abocanha a mosca” (Cyro Armando Catta Preta)
_________
“Em nosso universo
Breve, passar com pressa! e
Graça, a borboleta” (Décio Pignatari – todos traduções)

“Vento frio, aonde
Quer ir? Instala-se, hirto,
Num talo de grama” (idem)

“Mordidas de pulgas
Na moça bonita: até
Elas ficam belas!” (idem)
_______
“Jardineiro insensato

Passou a vida
A cultivar sem saber
A flor da morte” (Erico Veríssimo)
________
“Infância

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se ‘Agora’” (Guilherme de Almeida)
____
“Os tristes

Em seus caramujos,
os tristes sonham silêncios.
Que ausência os habita?” (Helena Kolody)
______
“Lar

espaço que separa
o volkswagen
da televisão” (José Paulo Paes)

“Teoria da relatividade

devagar se vai longe
mais perto de deus o ateu
do que o monge” (idem)

“Apocalipse

o dia em que cada
habitante da China
tiver o seu volkswagen” (idem)
________
”Dia a dia


Noite? manhã? tarde?
O meu dia é eterno
sem nenhum alarde” (Lêdo Ivo)

“A cama

Amor silencioso!
Só a cama gemia,
parceira insaciável” (idem)

“Esconderijo

A palavra-chave
sempre se esconde
atrás da porta” (idem)
_____
“Jogaste tua ventarola para o céu
Ela ficou presa no azul
Convertida em lua” (Luís Aranha)
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”Há colcha mais dura

Que a lousa
Da sepultura?” (Millôr Fernandes)

“Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a lua” (idem)

“Poeminha sem nexo queixa

Liderar não é nada duro:
As perguntas são sempre no presente,
As respostas são todas no futuro” (idem)

“Poeminha fora da estação II – Coragem é isso aí, bicho!

Eu sofro de mimfobia
Tenho medo de mim mesmo
Mas me enfrento todo dia” (idem)
_______
“Um filósofo

Um velho coqueiro
- interrogativamente –
mira-se no brejo” (Oldegar Vieira)
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“Praia Grande de Arraial do Cabo

Na sala invadida,
devolvida num búzio
memória do mar” (Olga Savary)
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“3 de Maio

Aprendi com meu filho de dez ano
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi” (Oswald de Andrade)

“Anacronismo

O português ficou comovido de achar
Um mundo inesperado nas águas
E disse: Estados Unidos do Brasil” (idem)
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“Duas folhas na sandália

O outono
também quer andar” (Paulo Leminski)

“a palmeira estremece
palmas para ela
que ela merece” (idem)

“cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença” (idem)

“essa estrada vai longe
mas se for
vai fazer muita falta” (idem).
_____
“na praça da igreja
em graça ou pecado seja
me abraça e festeja” (Pedro Xisto)
____
“Íntimo

Ir e voltar, a esmo,
Estradas abandonadas
dentro de mim mesmo” (Waldomiro Siqueira Jr)

“Erudição

‘Cogito, ergo sum’.
Assim se diz em latim
e em lugar nenhum” (idem)
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í.ta**

11 comentários:

Marcio Nicolau disse...

Muito bacana o post, informativo. Não sabia, por exemplo, de mais esta contribuição do Lobato. Parabéns pelo texto e, sim, deixar o Mario Quintana de fora foi perda. Gosto muito dele.

nydia bonetti disse...

ítalo, sabe que minha meta já foi esta - escrever só haicais - que ilusão. acho muito, muito difícil. para mim, quase um exercício de meditação, ou contemplação talvez. quem sabe um dia, com a mente mais serena, eu consiga me conter em 3 versos. :) também acho que mais do a forma, há que se captar a alma do haicai. sou fascinada por eles. beijos

Eduardo Silveira disse...

ah, velho, acho uma maravilha tbém essa enxurrada de poesia em três versos...nesse nosso corre-corre estamos (generalização! :P) habituados a sintetizar, resumir tudo... mas essa síntese que o haicai propõe nada tem que ver com isso. uma riqueza enorme. nossa, gamei nesses poemas.
e, ó, rosa e quintana fazem falta sempre, sim, mas tá rica demais essa postagem e a ausência não foi grave.
vou mostrar a postagem pra daia, que o projeto dela é sobre o haicai na sala de aula. é uma baita inspiração!


abraço!

Enzo disse...

que otemo esse post. Amei o primeiro do Leminski, mas o melhor de todos foi para mim o último, do Waldomiro Siqueira Jr., "Erudição".

Detestei todos do Drummond! E o Millôr Fernandes, que é craque, não fez gol aqui.

Acrescento alguns desesquecimentos ocasionados pela sua leitura:

HELENA KOLODY:

“Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.”

KEROUAC:

Cruzando o campo de futebol
voltando do trabalho,
O empresário solitário.

茶 (ISSA):

元日も別條
のなき
屑家かな  

Primeiro dia do ano:
Meu barraco,
O mesmo de sempre.

ABRAÇON!

Akemashite omedetto gozaimassu!

Domingos Pellegrini disse...

Olá, Ítalo!
Gostei muito dos haicais que você deixou por aqui. Eu tenho um livro só deles, "Brasigatô", cheio de haicaipiras.. Deixo alguns aqui também.

Todo dia é lindo
tempo fechando
tempestade abrindo.

-

O vento em seu trabalho
varrercéunevoento
quebr ar ve lhos ga lhos.

-

Montanha que brilha
a louça lavada
empilhada na pia.

-

Que chique
caracol traz a casa
pro nosso piquenique.

-

E escreva os seus!
Forte abraço

Domingos P.

Guilan disse...

massa,

e os teus?

Rafael Noris disse...

Bom saber que tem mais gente divulgando o haicai em blogs! Só não ficaria tão encantado assim com esse livre se realmente estiver interessado neste gênero, pois o Paulo Franchetti, um dos maiores estudiosos brasileiros de haicai, fez uma mega-crítica que compartilho com você:

http://www.cronopios.com.br/site/critica.asp?id=4281

O Rodolfo deu umas escorregadas como você poderá ver...

Se quiser trocar umas ideias, tenho um blog só sobre haicais:
http://hai-kais.blogspot.com

Abraço e até mais!

Daiane da Silva disse...

Ítalo,
Como o Edu comentou, meu projeto este ano será sobre haikais. Será aplicado com uma 5ª série. Baita desafio! Mas estou super empolgada.
Adorei tua postagem e fui correndão comprar este livro. *-*

Abraços!

Gisa Carvalho disse...

“rede ao vento
se torce de saudade
sem você dentro”

Sabe quando é um finalzinho de tarde de domingo e vc se identifica com um verso?

Gisa Carvalho disse...

“rede ao vento
se torce de saudade
sem você dentro”

Sabe quando é um finalzinho de tarde de domingo e vc se identifica com um verso?

Paulo Rogério disse...

Gostei bastante da informação. E da crítica também sobre a lacuna de alguns escritores importantes na obra. Admiro o seu ânimo em comprar um livro tão-só pelas razões declinadas.
Abraço!