terça-feira, 13 de julho de 2010

um corte, por ítalo puccini

uma pausa. forçada.

ana e bruno sentiram foi isso mesmo. além da dor, é claro. estirados sobre a cama – bagunçada. não pensavam. respiravam. mas queriam pensar. ana e bruno sentiram foi isso mesmo. uma vontade de pensar. um desejo de não ter que. estirados sobre a cama, ana e bruno. lado a lado. mas não próximos. o suficiente para estar. somente. não para pensar. ou para agir.

ana e bruno transavam. um acaso. começaram não por um beijo, mas pelas roupas. ana e bruno transavam. mas antes tiraram as roupas um do outro. ágeis, para isto. as mãos. não mais que. ana e bruno souberam usar foram as mãos. primeiro nas roupas. não por coincidência, as peças ficaram simetricamente estendidas ao chão. ana e bruno não puderam reparar. mas as peças ficaram lá. simetricamente estendidas. ao chão. mesmo. mas ana e bruno não puderam reparar.

sentiram foi isso mesmo. uma ruptura. enquanto transavam. primeiro foram os corpos. que se romperam. depois das roupas. primeiro foram os corpos. de ana e bruno. que se encontraram. que não se procuraram, mas que se encontraram. antes de transarem. antes as mãos e os corpos. reconhecendo-se. procurando-se. então as roupas. arrancadas. longe. ao chão. ana e bruno não puderam reparar na simetria das roupas. mas sentiam a simetria dos corpos. sentiram a simetria dos seus corpos, antes. sentiam. agora também.

ana e bruno sentiram foi isso mesmo. uma vontade de pensar. porque já sentiam. mas que. ana e bruno transavam. e não mais. uma procura. logo um encontro. as mãos. os corpos. ana e bruno se completavam. frente e verso. um dentro do outro. era assim que ana e bruno transavam. quando.

as mãos de ana desceram logo. as mãos de ana eram ágeis, sim. desceram pelo peito de bruno. arranharam-no. desceram logo. as mãos de ana – e também a língua de ana – procuravam por bruno. por tudo o que fosse de bruno. pelos cabelos no peito de bruno. pelo piercing no mamilo esquerdo de bruno. pelos ossos do quadril de bruno. que.

que não sabia o que sentia. a língua de ana. as mãos de ana. seus olhos. os seus, não os de ana. seus olhos virados, torcidos. seus olhos que sentiam. eles. elas. as pernas tremendo. as coxas sendo arranhadas. os cabelos do peito sendo puxados. bruno não sabia o que sentia. o membro duro, agarrado, apertado, puxado. pralá e pracá. pralá e pracá. pralá e pracá. bruno não sabia.

as mãos de ana desceram logo. chegaram logo aonde. agarraram logo. e forte. as mãos de ana. aquelas mãos. que arranharam. que rasgaram. as mãos. que ritmavam o movimento do membro duro de bruno. pralá e pracá. pralá e pracá. sob os gemidos de bruno. agora os gemidos de bruno. os sons guturais. as entranhas de bruno sob a mão de ana. simbolicamente. mas sim. sob. as mãos de ana.

os sons guturais de bruno. pralá e pracá. bruno que não sabia o que sentia.

sentiram foi isso mesmo. ana e bruno. foi antes. o membro, as mãos. foi antes. até que.

agora deitados não sentem mais. sentiram. não mais sentem. foi um corte só. ou dois, talvez. umemdois. foi de ana. quando as mãos de ana desceram logo. e quando bruno não sabia o que sentia. se era frio ou não. se eram as unhas de ana ou não. mas doeu, sentiu bruno. foi isso o que bruno sentiu. que doeu. mas ana sorria. sorria e ria alto. ana. por isso bruno não sabia o que sentia. quando as mãos de ana desciam. e quando agarravam seu membro duro. foi a última coisa que bruno viu. seu membro duro. de prazer. foi quando bruno fechou os olhos. e de repente sentiu frio. e não entendeu. e não entendeu. mas sentiu.

foi quando.

as mãos de ana. não mais que. as unhas de ana. cortantes. o corte primeiro. as mãos de ana. aquilo que elas escondiam. uma ponta. só uma. não mais que. um corte. só um. depois os outros. um corte. e o frio de bruno. e o riso de ana. um corte e um membro não mais duro. um corte. só. e um membro. e as mãos de ana. e o membro. não mais.

e depois.

um corte. outro. e mais outro. e não mais bruno.

e um último.

um corte.

e não mais ana.
_ _ _ _ _ 
conto premiado com o segundo lugar no concurso de contos jaraguaenses, organizado por joão luis chiodini. presente no livro "mundo infinito", que contém os catorze melhores textos do concurso.

28 comentários:

Lara Amaral disse...

Uau, surpreendente. Parabéns mais uma vez. Mais que merecido o seu conto ter ficado entre os melhores, bom demais!

Beijo.

Aninha Kita disse...

MA-RA-VI-LHO-SO, Ítalo!
Parabéns!

Até me arrepio lendo e relendo, ainda mais com o uso de "Ana"... Sonoro, né? :D haha

Beijos!
Ana

Eliana Mara de Freitas disse...

Italo, chegando aqui pela primeira vez. E seguidora a partir de agora!
Obrigada pela visita no Mundo!

Eduardo Silveira disse...

Demais! Adorei a narrativa e o jeito como vc construiu-a.
maravilhoso mesmo. Uma coisa curiosa: Quem lê o seu blog, te reconhece rapidamente no teu texto. O jeito de como vc fala de livros, por exemplo, você que está sempre na pegada do não-dito, das entrelinhas, está muito presente no teu estilo ao escrever o conto, e ficou mt legal. Original é a palavra.

abraço, cara
e vamos escrever mais! ^^

Canteiro Pessoal disse...

Ítalo, belíssimo! Também, exprimo meu obrigada pelos pousos no jardim secreto, além e partilho outro espaço que me pinta e [re[ pinta:

http://pricaliga.blogspot.com/

Abraços.

Priscila Cáliga

Mary Pereira disse...

Fascinante!

Que achado, este blog. Que sensação-sem-nome esta de encontrar-se em linhas alheias.
"e não mais. uma procura. logo um encontro. as mãos. os corpos."
Este trecho já se faz guardado em meus sentidos, a enfeitar.

Parabéns pela belíssima escrita!

Linda Simões disse...

Fantástico!

Parabéns Italo.


Sei que encontro qualidade quando venho aqui!

Sempre.

Beijinhos

Roberta Ávila disse...

Amei. Original. Adoro o fluxo de pensamentos. Adoro as cenas se formando e dissolvendo. Mas vou falar uma coisinha que eu de fato acho, mas vou falar só para te perturbar. Sei que você não gosta de poesias longas, mas para mim isso não é um conto é poesia. =D Depois conversamos sobre isso.

Super parabéns. Que venham muitos. Bjos

Território Nenhum disse...

Adorei!Fiz uma modesta homenagem lá no meu blog.

abração
Záia

Michele Andrea Mondek disse...

Segundo lugar? O que é isso? Muita injustiça! =)
Adorei Ita. Muito bom!
Parabéns (novamente). Parabéns a você quantas vezes for necessário.

Beijos

Léo Santos disse...

Já tinha te parabenizado pelo concurso, mas, nunca é demais: - Parabéns de novo! Teu conto é ótimo! O bacana é que tu escreve usando neologias e uma pontuação alternativa, e só quem tem um ótimo vocabulário e uma pontuação perfeita pode se dar ao luxo de tais inventividades!

Um abraço!

[jb] jotabê disse...

Parabéns, meu caro.
Gostei das repetições e dos cortes (!) marcados pela pontuação. Faz sentido qdo o alternativo/inventivo cumpre uma função e não é apenas viadagem, com o perdão da palavra politicamente incorreta.

Abraço

Wagner Rengel disse...

Não mais que ritmo
O pulso diante dos olhos. As letras batendo forte, cada vez mais forte, forte na alma.
Muito bom mesmo. Do que vejo por aí, a melhor coisa que encontrei nos últimos tempos.
Abraço

Eliana Mara de Freitas disse...

Nossa!
Eu vim aqui antes, e postei um comentário só pela visita.
Não tinha lido o conto.
Li agora1
E fiquei sem fôlego!
Acho que merecia o primeiro lugar...
Outra forma de narrar, que é raro encontrar nos contistas, e é bom quando encontramos. Porque pra mim é aquela velha máxima: as histórias se repetem, o que muda é o modo de contá-las!

Beijos

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Gostei.

Suzana Mafra disse...

Oi, Italo
Ontem naveguei por aqui. Li teu conto. Os vídeos me inspiraram para escrever, coisa rara ultimamente. Obrigada pela visita ao Borboletras.
Abraço

Rubens da Cunha disse...

mto bom, parabéns...
abraços

aluisio martins disse...

"escrever é dar a cara à tapa.."
escrevi isso hoje no meu perfil também
de tal maneira que penso semelhante
escreves bem, meu amigo
parabéns

Ana Claudia disse...

Realmente, parabéns pelo prêmio. Muito bacana o conto, o jeito entrecortado, que, ao contrário do que se espera, dá velocidade ao texto.

Priscila Lopes disse...

Italo! Italo!
Um dos melhores contos que li nos últimos tempo - minha super humilde opinião, cara, mas além de humilde é bastante sincera.

É um daqueles textos que marcam. Adorei, mesmo. Frente e verso.

Beijão, tua fã.

denise disse...

Ítalo,
que texto incrível!
Parabéns!
Meu, fiquei com frio...
Denise

Kyria disse...

Muito bom, lindo mesmo.
Real, real, parabéns pelo merecido reconhecimento, bjs.

Sylvia Araujo disse...

Rapaz, a estrutura do teu texto prevê ruptura, ao mesmo tempo em que amarra as ações. vai desenhando uma a uma, e a gente aqui acompanhando as pausas em tensão. E que final. Muito bom!

Uma beijoca pra você

MAILSON FURTADO disse...

Belo blog, bela postagem...

Muito bom trabalho!!!

Parabéns!!!

Veja:
http://mailsonfurtado.blogspot.com

Camila disse...

Primeiro eu parabenizo... e nem me presto a vir aqui olhar tuas belezuras de posts.

Quanto ao conto premiado (merecidamente)... devo dizer que toca a imaginação, mais do que qualquer outro. E força a ver, força a visualizar, força a sentir tudo junto. Por isso gostei tanto do conto. Eu quero ser o corte.

Beijoca, Íta.

Anônimo disse...

ita..parabens...um conto...uma narrativa....esplendida p dizer o minimo...como quisiera ter essa "ana" na minha vida.....penso que outras pessoas tbem...gostariam de ter sua "ana" ou seu "bruno"...muito boa....continua assim....

Moni. disse...

Ao mesmo tempo que me sinto em dívida com um comentário aqui, sinto-me um tanto incapaz de fazê-lo.

Até porque vez por outra releio, revejo Ana e Bruno e o Íta mandando e desmandando no leitor com o ritmo imposto, com o vai-e-vem da história, no sobe-e-desce da visualização de seus corpos, de seus atos.

Íta é de tal forma dono dessa escrita que diz inclusive a hora de respirar, com uma pontuação inaugural e leva - pelo menos a mim - quase ao sufocar que confronta a narrativa e a imagem.

No lugar onde estão Ana e Bruno, Íta também nos coloca desconfortavelmente amarrados e amordaçados a assistir, a querer intervir e de vez em quando apaga a luz.

Escritor-algoz!
Um sádico, você!
Dos melhores...
Maestro do conto!

E eu acho que não sei dizer mais nada... pelo menos até a próxima leitura...

Parabéns pelo Dia do Escritor...

E quem venham outros e outros prêmios...

Beijim!

Anônimo disse...

Parabéns!!!! muito merecido!!!!!

bjs!!!Gisele