sábado, 3 de julho de 2010

resenhando lá e cá, traveis

escrevinhei resenha de um livro do pablo neruda, lá no prolij.
é um encanto ler neruda, seja nos livros de poemas, seja
num poema-história infantojuvenil, como o defini.
é o que segue.
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Um poema que se historia

por Ítalo Puccini*

É por aí que podemos pensar em “Ode a uma estrela”, do poeta chileno Pablo Neruda, com ilustrações de Elena Odriozola e tradução de Carlito Azevedo (Cosac Naify, 2009). Um poema longo. Talvez não tão longo, mas também não tão curto. Um poema esmiuçado em vinte e quatro páginas. Uma história construída em vinte e quatro páginas.
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O que o leitor pode encontrar neste poema que se historia – e por que não nesta história que se poemiza? – é a descoberta do primeiro amor. Talvez não a descoberta propriamente dita, em sua completude de entendimento, mas sim um primeiro contato, necessário, muito necessário. É quando alguém consegue “Ao subir à noite / no terraço / de um arranha-céu altíssimo e aflitivo / (...) tocar a abóbada noturna / e em um ato de amor extraordinário / [apoderar-se] (...) de uma estrela celeste”.
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Todo primeiro amor exige um segredo. Um segredo a dois, não mais, senão estraga, atrapalha, avacalha. Um segredo de liquidificador, como “com a estrela roubada em (...) [um] bolso”.
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Um amor assim delicado, como canta Caetano Veloso. Um amor assim que requer cuidado por demais, demais: “De trêmulo cristal / parecia / e era / num átimo / como se levasse / um pacote de gelo / ou uma espada de arcanjo na cintura”. Talvez porque seja a estrela cantada por Vitor Ramil: “Estrela, estrela / Como ser assim / Tão só, tão só / E nunca sofrer”.
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Um amor que se esconde na inocência pueril de não perdê-lo, nem sequer de mostrá-lo: “Guardei-a, / temeroso, / debaixo da cama / para que ninguém a descobrisse, (...)”. Porém, ah, porém: “(...) / sua luz (...) / atravessou / primeiro / a lã do colchão, / depois / as telhas, / e o telhado da minha casa”.
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Um primeiro amor que perturba, sim. Será que só o primeiro amor mesmo faz isso?: “(...) / eu não podia / dar conta de todos / os meus deveres / cheguei a esquecer de pagar / as minhas contas / e fiquei sem pão nem mantimentos”.
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Um primeiro amor que chama a atenção, tem jeito, não, viu?: “Enquanto isso, na rua, / se amotinavam / transeuntes, boêmios / vendedores / atraídos sem dúvida / pelo insólito clarão / que viam sair de minha janela”. Mas que mesmo assim tenta-se, ainda, proteger: “Então / recolhi / outra vez minha estrela, / com cuidado / a envolvi em um lenço / (...)”. Mas e se for mesmo a estrela de Ramil?: “Brilhar, brilhar / Quase sem querer / Deixar, deixar / Ser o que se é”.
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Uma proteção muito própria. Uma proteção a dois, não mais que. Não mais que necessário mesmo. Uma proteção que se sabe definitiva: “Peguei a estrela da noite fria / e suavamente / lancei-a sobre as águas”. Isto porque pode, sim, ser a estrela, aquela: “É bom saber / Que és parte de mim / Assim como és / Parte das manhãs”.
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Porque proteger, sabe-se, ou ao menos dever-se-ia, nada mais é do que libertar. E libertar nada mais do que é dar vida. E dar vida nada mais é do que proteger. Porque só se aprende vivendo. E cantando, como Ramil: “Eu canto, eu canto / Por poder te ver / No céu, no céu / Como um balão”. Não mais que: “E não me surpreendeu / notar que se afastava / como peixe insolúvel / movendo / na noite do rio / seu corpo de diamante”.
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E nasce uma estrela.
E nasce um primeiro amor.
E se faz vida por um poema-história.

*Pesquisador-Voluntário do Prolij e Professor de Literatura para as Séries Finais do Ensino Fundamental.

Referências:

NERUDA, Pablo. Ode a uma estrela. Tradução: Carlito Azevedo. Ilustrações: Elena Odriozola. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

RAMIL, Vitor. Estrela, estrela. In: RAMIL, Vitor. Tambong. Rio de Janeiro: Satolep Music, 2000.

3 comentários:

Eduardo Silveira disse...

muy belo, ítalo!

cara, coincidência. Tô lendo ultimamente o Livro das Perguntas.. que coisa linda. Neruda é genial.

já me coço todo, só de pensar num poema do neruda editado num livro desses! o projeto gráfico deve estar excelente.

Abraço!

Aninha Kita disse...

Muito linda e sensível sua resenha, Ítalo! Como sempre...

Adoro os poemas dele!
Este já ficou anotadinho para uma próxima leitura!
;D

Lembro que na Espanha encontrei um trecho de Neruda, na cobertura de uma obra. "Quiero hacer (...) lo que la primavera hace con los cerezos"

Beijos!
Ana

Por que você faz poema? disse...

Neruda muito me encanta.