sexta-feira, 30 de julho de 2010

esse cara tem me consumido

para cauana

cazuza, vem cá, senta’qui, vâmo conversar. eu sei que tu tá perdido, assim, sem pai nem mãe. eu sei que o que te resta são raspas e restos. e mentiras sinceras. então mente pra mim, vai, pode mentir. mente acreditando na tua mentira. faz isso que tu vai ver como tu vai se sentir melhor. confie em mim, cara, me ame como a um irmão mesmo. como a uma irmã. eu sei lidar com essas coisas. tenho também dezesseis anos e vivo em conflitos que me afastam de todos. brigo com todo mundo mesmo. fico com vários e várias ao mesmo tempo. há quem goste disso, há quem me odeie por isto. mas nem aí, não é mesmo? somos quase maiores-abandonados já. temos de nos virar. não somos pura fama, não é, cazuzinha? por que você tá tão quieto assim? hein? me diz. vem, se abre aqui comigo. a gente meio que ama odiando, né? daí causa essas coisas todas aí nas pessoas. gente que não se garante, que não se satisfaz consigo mesma. a gente não, né, cazuza, a gente tem tudo o que a gente precisa, e mais um pouco ainda, né? a gente vive de pequenas porções de ilusões muito bem construídas, não vive? assim, no lado escuro da vida mesmo. fala, cazuza, pode falar. pode deitar tua cabeça aqui no meu colo e chorar. chorar muito. mas fala também enquanto chora. é bonito isso, alguém chorando e tentando falar, e não conseguindo, e daí fica aquele soluço cortando palavras. isso é muito bonito, cazuza. faz isso pra mim, faz. tô aqui te dando colo e tudo. e, ó, declara guerra a quem finge te amar. chega de passar a mão na cabeça de quem te sacaneia, tá? eu te ajudo com isso. eu lembro que tu já me chamou de amor da minha vida. um negócio daqui até a eternidade. eu lembro. me dizia que me podia me pegar escola e ainda me encheria com todo o teu amor. então, cazuza, vê como é fácil? tu sabe que eu tenho tudo o que tu precisa. e mais um pouco ainda. eu posso ser tuas rosas roubadas. posso ser pétala para ti. posso ser espinho. mas eu quero ser tua comida. quero ser todo o amor que houver nessa tua vida. tu me deixa, cazuza, tu me deixa? nosso amor tem que dar certo. não tem nada de desperdiçar blues de djavan nem de buscar ideologias para viver, não. a gente é e tem que ser um para o outro só. a gente sabe se amar. a gente aprende, pode aprender, então. a gente não consegue ficar amigos sem rancor. a gente tem que se amar mesmo que a nossa música nunca mais toque. a gente não pode desperdiçar nosso mel assim, não. a gente tem que se grudar, cazuza, se grudar. proteger o nome um do outro. por amor mesmo. guardar em um codinome. o que tu acha? tu sabe que eu posso ser tua dentro tua orelha fria. posso dizer segredos de liquidificador pra ti. tu sabe. tu sabe que quando tu sai de perto eu penso em suicídio. por mais que tu sempre volte com as mesmas notícias. eu sinto tua falta, cazuza. eu sinto falta de te ter assim no meu colo. sinto falta das tuas frases feitas, das tuas noites perfeitas. das nossas noites perfeitas. eu queria poder te negar. mas eu não consigo. e tu sempre volta’ssim pra mim. noite sim, noite não tu tá’qui entre meus lençóis. me fazendo cafuné, me chamando de mulher sem razão. até cantando caetano pra mim, dizendo que eu sou apenas uma mulher. e assim eu não consigo te negar, cazuza. assim eu tenho de ser artista nesse nosso convívio, pr’essa nossa poesia que a gente vive e não vive. boca, nuca, mão. tudo de ti, cazuza. um remédio de ti eu quero. que me dê alegria. que não me deixe assim down. porque daí eu fico assim sem saber o que meu corpo abriga. e tento me esquecer, porque nessas horas pega mal sofrer, tu me diz. eu sei que só as mães felizes, mas a gente também pode ser, não pode? eu sei que tu não pode causar mal nenhum a não ser a ti mesmo. mas pensa um pouquinho mais nisso. te ver assim me deixa mal. tu me causa mal algum, sim, tá vendo? e eu tento aqui te ajudar, assim, te amar mais e mais, mas tu fica assim quietinho no meu colo e me deixa mal. porque eu sei que daqui a pouco, quando tu acordar, tu vai embora, vai pra rua, vai por aí, assim, e eu não sei quando tu vai voltar. e já me dá saudade de quando a gente conversa assim deixando escapar segredos. e eu não sei em que hora dizer que me dá um medo. porque eu preciso dizer que te amo. te ganhar ou perder sem engano, cazuza. eu preciso dizer que te amo. tanto.


í.ta**

sexta-feira, 23 de julho de 2010

comemorando

hoje o um sentir complementa o outro está de aniversário. são quatro anos já. parece tanto tempo, sabiam? precisei voltar pra primeira postagem. sensação gostosa de retorno. são, agora, mais de oitenta seguidores. e gente que diariamente passa por aqui pra ver como estão as coisas, o que há de novo e o que não há. gente que registra a passagem por comentários. gente que registra por e-mail. gente que registra por palavras. gente que não registra, mas que aqui está.

acho bonito isso. essa relação que a gente vai criando com blogs e pessoas.

por isso mesmo que, comemorando esses quatro anos deste blog, eu lanço nova ideia aqui: perfis de leitores. vai ser assim. periodicamente (não sei com que frequência exata, ok?), postarei aqui entrevistas com leitores de vários cantos. blogueiros, escritores, leitores não-virtuais. enfim, gentes que conheço. que muito admiro. que acredito que tenham muito de vida para repartir assim, num blog com pretensões de dar a cara a tapa a cada escrito, a cada postagem.

tá lançada a ideia! começa com a entrevista abaixo, com aquele me despretenciosamente me deu a ideia. enzo me entrevistou para um negócio dele lá, um texto que ele tá fazendo. a partir disso eu pensei: por que não entrevistá-lo para o blog? e por que não, a partir da entrevista com ele, entrevistar mais pessoas? deu no que deu. vâmoquevâmo.

parabéns a você, um-sentir!
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Entrevista com Enzo Potel

Que tipos de livros você gosta de ler?
Poesia. Contos. Romances (menos axé, forró e sertanejo).

Com que freqüência você lê livros?
Acho que um por semana.

Cite alguns autores e alguns livros favoritos e explique por que para você são favoritos.
Bento Nascimento do primeiro ao último dia da minha vida, porque ele é simples e original. Atualmente tudo de Katherine Mansfield (pela fragilidade), tudo de Virginia Woolf (pela complexidade, pela versatilidade), tudo de Osho (pelas escuridões aceitas).

Agora diz um livro que deixou você assim, sem respirar por um bom tempo? E um que você tenha achado uma bela porcaria?
Rumo ao Farol, da Woolf: pensei em parar de escrever depois de ler aquilo. E a porcaria: a antologia da Adília Lopes (Cosacnaify). Brochante. Me fez voltar a escrever.

Em que lugares vocês costuma ler? E qual é o seu lugar preferido de leitura?
Em circos e helipontos. Mas nada se compara a ler em casa, durante o banho.

Você costuma comprar muitos livros? Empresta-os de bibliotecas? Tem o costume de emprestar seus livros a alguém?
Só compro na estante virtual. Bibliotecas às vezes. Odeio emprestar, mas empresto.

Quem é o Enzo enquanto leitor?
Um inquieto, coçando a cabeça, contando as páginas que faltam para terminar o capítulo.

Como você incorporou a prática da leitura? Alguém incentivou, teve um fato marcante?
Ah, sempre tem uma professora bipolar que incentiva a gente, que transforma a literatura num universo paralelo e dá gargalhadas quando você não consegue sair mais de lá.

Desde quando você é blogueiro? O que o blog representa na sua formação leitora e escritora?
Há três anos. O blog é ótemo, te faz arquivar as produções, te faz conhecer umas pessoas maravilhosas - pessoas, não escritores; mesmo porque até se a Sylvia Plath tivesse blog, todo mundo ficaria saturado uma hora.

Quer falar um pouco também sobre o que a escrita significa para você?
Escrever é um presente. Reescrever (prosa) é um pesadelo.

Deixa uma frase de (d)efeito aí, sobre leitura, escrita, livros, afins...
“Porque a partir do momento que tu termina o poema, ele já não é mais teu. (...) Tu não vai declamar meu poema assim, né, amado?” Açucena Brandão.
_ _ _ _ _ 
í.ta**

quinta-feira, 22 de julho de 2010

poema sem título II

para enzo potel


deus pra mim é um caramujo,
disse-me ele.


um verso assim, por si só.
que ele não percebeu que poderia ser um verso.
até que falei.
e ele deixou, então, que fosse meu.


não deus.
nem o caramujo.


o verso mesmo.


porque a palavra,
depois de lançada
- publicada ou não –
já não mais é.


que nem deus.


í.ta**

terça-feira, 13 de julho de 2010

um corte, por ítalo puccini

uma pausa. forçada.

ana e bruno sentiram foi isso mesmo. além da dor, é claro. estirados sobre a cama – bagunçada. não pensavam. respiravam. mas queriam pensar. ana e bruno sentiram foi isso mesmo. uma vontade de pensar. um desejo de não ter que. estirados sobre a cama, ana e bruno. lado a lado. mas não próximos. o suficiente para estar. somente. não para pensar. ou para agir.

ana e bruno transavam. um acaso. começaram não por um beijo, mas pelas roupas. ana e bruno transavam. mas antes tiraram as roupas um do outro. ágeis, para isto. as mãos. não mais que. ana e bruno souberam usar foram as mãos. primeiro nas roupas. não por coincidência, as peças ficaram simetricamente estendidas ao chão. ana e bruno não puderam reparar. mas as peças ficaram lá. simetricamente estendidas. ao chão. mesmo. mas ana e bruno não puderam reparar.

sentiram foi isso mesmo. uma ruptura. enquanto transavam. primeiro foram os corpos. que se romperam. depois das roupas. primeiro foram os corpos. de ana e bruno. que se encontraram. que não se procuraram, mas que se encontraram. antes de transarem. antes as mãos e os corpos. reconhecendo-se. procurando-se. então as roupas. arrancadas. longe. ao chão. ana e bruno não puderam reparar na simetria das roupas. mas sentiam a simetria dos corpos. sentiram a simetria dos seus corpos, antes. sentiam. agora também.

ana e bruno sentiram foi isso mesmo. uma vontade de pensar. porque já sentiam. mas que. ana e bruno transavam. e não mais. uma procura. logo um encontro. as mãos. os corpos. ana e bruno se completavam. frente e verso. um dentro do outro. era assim que ana e bruno transavam. quando.

as mãos de ana desceram logo. as mãos de ana eram ágeis, sim. desceram pelo peito de bruno. arranharam-no. desceram logo. as mãos de ana – e também a língua de ana – procuravam por bruno. por tudo o que fosse de bruno. pelos cabelos no peito de bruno. pelo piercing no mamilo esquerdo de bruno. pelos ossos do quadril de bruno. que.

que não sabia o que sentia. a língua de ana. as mãos de ana. seus olhos. os seus, não os de ana. seus olhos virados, torcidos. seus olhos que sentiam. eles. elas. as pernas tremendo. as coxas sendo arranhadas. os cabelos do peito sendo puxados. bruno não sabia o que sentia. o membro duro, agarrado, apertado, puxado. pralá e pracá. pralá e pracá. pralá e pracá. bruno não sabia.

as mãos de ana desceram logo. chegaram logo aonde. agarraram logo. e forte. as mãos de ana. aquelas mãos. que arranharam. que rasgaram. as mãos. que ritmavam o movimento do membro duro de bruno. pralá e pracá. pralá e pracá. sob os gemidos de bruno. agora os gemidos de bruno. os sons guturais. as entranhas de bruno sob a mão de ana. simbolicamente. mas sim. sob. as mãos de ana.

os sons guturais de bruno. pralá e pracá. bruno que não sabia o que sentia.

sentiram foi isso mesmo. ana e bruno. foi antes. o membro, as mãos. foi antes. até que.

agora deitados não sentem mais. sentiram. não mais sentem. foi um corte só. ou dois, talvez. umemdois. foi de ana. quando as mãos de ana desceram logo. e quando bruno não sabia o que sentia. se era frio ou não. se eram as unhas de ana ou não. mas doeu, sentiu bruno. foi isso o que bruno sentiu. que doeu. mas ana sorria. sorria e ria alto. ana. por isso bruno não sabia o que sentia. quando as mãos de ana desciam. e quando agarravam seu membro duro. foi a última coisa que bruno viu. seu membro duro. de prazer. foi quando bruno fechou os olhos. e de repente sentiu frio. e não entendeu. e não entendeu. mas sentiu.

foi quando.

as mãos de ana. não mais que. as unhas de ana. cortantes. o corte primeiro. as mãos de ana. aquilo que elas escondiam. uma ponta. só uma. não mais que. um corte. só um. depois os outros. um corte. e o frio de bruno. e o riso de ana. um corte e um membro não mais duro. um corte. só. e um membro. e as mãos de ana. e o membro. não mais.

e depois.

um corte. outro. e mais outro. e não mais bruno.

e um último.

um corte.

e não mais ana.
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conto premiado com o segundo lugar no concurso de contos jaraguaenses, organizado por joão luis chiodini. presente no livro "mundo infinito", que contém os catorze melhores textos do concurso.

domingo, 11 de julho de 2010

sexta-feira, 9 de julho de 2010

carta ao ítalo: da arte de fazer pesquisa

ítalo, tu és muito babaca, mesmo, né? não, mais do que isso. antes disso. tu és um tremendo de um ingênuo. ora, onde já se viu, acreditar em órgão público? qualé a tua, cara? ainda mais um órgão público que cuida de pesquisas de iniciação científica. pesquisas acadêmicas. quem é que dá bola para pesquisas, piá? quem? e tu ainda te inscreves em coisas assim! tu mereces uma surra mesmo, viu?! não é possível! agora ficas aí esbravejando contra eles. mas é claro que tu não vais conseguir falar com eles! eles não existem, seu trouxa! ah, sim, mais isso que tu és, um trouxa de marca maior! é claro que ninguém responde a e-mail nenhum teu. é claro que ninguém atende a ligação nenhuma tua. é claro, seu ítalo, é mais do que claro! burro! mas, ó, vou te dizer uma coisa. assim, na boa, como amigo, como irmão mesmo. eles não fingem que te pagam? pois então, agora finjas que pesquisas. simples. eles não vão deixar de te pagar metade das parcelas que no edital diz que tu terias direito? pois então. tu não trabalhastes até agora metade dos meses propostos? pronto. elas por elas. se eles fingem que te pagam, tu finges que fazes algo. agora faz assim, daí. a grana que receberes de agosto a dezembro (não, não, nem precisas me lembrar que deverias tê-la recebido desde março, e que deverias continuar recebendo-a até fevereiro do próximo ano. lembra disso, não, rapaz. bola pra frente. escuta o que tô te dizendo). a grana que vais receber agora, tu gastas em cerveja com os amigos. eu já me convido, tu sabes. gastas em cervejas, em viagens com tua noiva, em jogos de sinuca. tudo simples, cara. não tem mais nada dessa de comprar livros. quê comprar livros o quê, rapaz?! bora se divertir! livros só fazem mal às pessoas. não tá vendo aí o estado em que tu estás? pegas esses dez dias de férias, agora em julho, e somes do mapa. ah, eles só paragão em agosto? e tu acreditas mesmo nisso? capaaaaz?! somes, rapaz. somes mesmo. aí, assim, outra coisa. outra dica de irmão mesmo. não tem que entregar um troço lá no final da pesquisa? lá no ano que vem? um texto, uma parada assim, mostrando os resultados e tals? pois então, entrega um texto pela metade. ah, tá, é um artigo. tá, tu sabes que eu não sei essas palavras chiques, não. mas, enfim. entregas pela metade. vê lá quantas páginas eles pedem, e faz na metade. aí colocas assim um p.s. bem bonitinho, tipo o p.s. daquela história da lygia, do livro "tchau", lembras, da qual tu já me falastes? isto, "a troca e a tarefa". lindo aquele p.s., né?! sim, eu não li, mas é que tu falas tanto dessa história, que até já decorei. faz igual, bobo, faz. conselho de irmão, hein?! não quero te ver comprando mais um livro, hein?! vou ficar de olho em ti. aprendas a fingir, cara. se te perguntarem como tá a pesquisa, digas que está tudo ótimo. digas até que estás recebendo a bolsa. povo vai achar muito chique isso! e, claro, continuas lá com teu grupo de pesquisa. isso é bom, isso faz bem, a ti e a eles, os participantes. isso não faz mal a ninguém. só larga mão dos livros, das escritas pra essa tal de pesquisa. ah, qualé, cara, tu sabes fingir, sabes fingir super bem! olhaí, ó, já estás fingindo que está tudo bem. para muitos. são pouquíssimos os que sabem desse teu infortúnio aí. visse que palavra chique usei? aprendi contigo, cara! até aprendi outra coisa, uns versinhos de um tal de pesssoa aí. eles combinam contigo, ó: "O poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente". meu, cara, tudo a ver contigo! taí, tu és um poeta! um poeta com e sem palavras! é isso aí, meu, abre esse sorriso aí e manda tudo à merda. aí, faz assim também, ó. nisso eu te ajudo ainda mais. quando eles fingirem te pagar de novo a bolsa, o pouco que receberás, ok, tu finges de novo que estás recebendo. aí, fingindo como um poeta que és, devolve-a a eles, e mande-os enfiarem em seus respectivos cus. e bora jogar sinuca e tomar cerveja, porque ainda haverei de te embebedar num bar para enfim ganhar de ti uma partida! com amor e admiração, ítalo.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

leituras que lembram outras



já escrevi aqui no blog. quando leio algo, sempre me lembro de alguém. sempre penso que tal livro seria excelente para tal pessoa. as leituras me levam a isso, muito, a pensar nos outros. taí um paradoxo de que gosto muito, de como uma ação solitária nos leva a outros. comigo a leitura é assim.

mas agora foi um levar a algo, não a alguém. dentre os tantos livros que li no mês passado, “o gato diz adeus”, do michel laub, e “o fim de semana”, do bernhard schlink, levaram-me a relembrar outros livros lidos.

vou exemplificar um cadim mais isso:

conheci o michel laub na 1ª feira do livro de itajaí. havia lido, há pouco tempo, e escrito aqui sobre, três livros dele. três romances, ou novelas, como eu havia descrito (enzo, calma, ainda vamos aprofundar essa conversa sobre o termo “novela”). aí, conheci-o, e fiquei sabendo também de um novo livro dele, lançado ano passado, “o gato diz adeus”. comprei-o, ele autografou, voltei pra casa e o li. e assim que o li – livrim curtim, 78 páginas – lembrei-me de “a caixa preta”, do amós oz, que eu havia lido em janeiro, junto com uns outros desse escritor israelense. porque as duas histórias, desses dois livros, são contadas por cartas. não há um narrador, nem em primeira nem em terceira pessoa. há narradores, vários, em primeira pessoa, claro, uma vez que são cartas. várias cartas de vários personagens. e a partir das cartas de cada um deles é que o leitor vai conhecendo a história. tudo por fragmentos mesmo. de repente um personagem comenta algo que outro personagem vai comentar mais adiante. e assim o texto – a história, o romance – vai jogando com o leitor. ou vai jogando o leitor mesmo, sem o “com” da frase anterior. porque eu, quando leio algo assim, sinto-me sendo jogado, pra lá e pra cá, como quem estivesse presenciando uma conversa, ora olhando pr’um interlocutor, ora olhando pr’outro. tá, só para deixar mais claro, no livro do laub não são cartas que os personagens trocam entre si. mas é como se fossem. o detalhe é que o livro do oz apresenta marcações de cartas, como data de envio, de quem para quem e etc. mas o livro do laub tem uma coisa que “a caixa preta” não tem. uma metaliteratura muito bem feita. que, além de jogar o leitor dum lado pr’outro, leva-o a quase se perder na história. a ideia de uma história dentro da outra, de um dos personagens ler o livro que o leitor está lendo. pura loucurada. muito bem amarrada, diga-se de passagem. ah, e para finalizar, assim que o romance acaba, na página seguinte à última página, há três explicações sinalizadas pelo autor, e uma delas diz respeito ao quanto, “Em sua temática, linguagem e estrutura é possível que este romance deva algo a (...) “A caixa preta”, de Amós Oz”.

ok, esta foi uma relação que eu fiz.
a outra diz respeito ao “fim de semana”, do alemão bernhard schlink, autor do “o leitor”, sobre o qual também já escrevinhei aqui, e também de narrativas curtas como “o outro” e “a menina com a lagartixa”. narrativas curtas, por sinais, muito bem construídas por schlink. são algo mais que contos. são algo menos que romances. são novelas (alô enzooo, haha). livros para serem lidos assim, de uma pegada, tranquilamente. livros envolventes. porém, “o fim de semana” foge dessa proposta do autor. é livro maior, é proposta de romance mesmo. vários personagens, várias ações e situações. duzentas e tantas páginas. e aí o alemão, ao meu ver, perdeu-se na escrita. criou um romance chato, tedioso. fui até o final de birra mesmo. mas em cinquenta páginas já foi possível sentir a narrativa se arrastando. ao menos a história de “o fim de semana” me fez lembrar do “ensaio da paixão”, do cristovão tezza, que li nos idos de 2007 (como se fosse há muito tempo mesmo). a ideia de um grupo de pessoas reunidas num local para curtir um determinado período de dias. foi isso o que me levou a relembrar o livro do tezza, do qual gostei muito, por sinal. porque há uma diferença não só de narração entre os dois (o tezza consegue prender o leitor por quase quatrocentas páginas), mas também de como ocorre essa “reunião” de amigos. “ensaio da paixão” retrata toda uma década de “pourralouquice”, de experimentação, de jovens em busca da vida em sua máxima potencialidade. já “o fim de semana” apresenta um grupo de amigos – já adultos – que se re-encontra após vários anos, para aparar arestas, para reviver uma época que não existe mais. há todo um discurso do tipo “o que são os tempos de hoje comparados a nossa época de juventude” no livro do alemão. mas é enfadonha a história, a forma como ela é conduzida. em alguns momentos é possível subentender discursos morais de comportamento, algo pra mim abominável na literatura.

sei que o schlink tem outro livro de mais fôlego assim, “a volta pra casa”, que, parece-me, apresenta uma situação da qual gosto muito: uma história dentro da outra, sendo esta “de dentro” sem um final definido, cabendo ao leitor preenchê-la. bem possível eu encará-la, quem sabe pra desconstruir essa ideia de que o negócio dele são narrativas não-muito-longas. ou para confirmar isso mesmo. mas sou grato ao alemão. reviveu em mim a leitura do tezza. assim como sou grato ao laub, por trazer de volta a mim a história densa de “a caixa preta”. leituras que chamam outras. que lembram. quase como se fossem humanas. talvez sejam mesmo.

í.ta**

sábado, 3 de julho de 2010

resenhando lá e cá, traveis

escrevinhei resenha de um livro do pablo neruda, lá no prolij.
é um encanto ler neruda, seja nos livros de poemas, seja
num poema-história infantojuvenil, como o defini.
é o que segue.
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Um poema que se historia

por Ítalo Puccini*

É por aí que podemos pensar em “Ode a uma estrela”, do poeta chileno Pablo Neruda, com ilustrações de Elena Odriozola e tradução de Carlito Azevedo (Cosac Naify, 2009). Um poema longo. Talvez não tão longo, mas também não tão curto. Um poema esmiuçado em vinte e quatro páginas. Uma história construída em vinte e quatro páginas.
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O que o leitor pode encontrar neste poema que se historia – e por que não nesta história que se poemiza? – é a descoberta do primeiro amor. Talvez não a descoberta propriamente dita, em sua completude de entendimento, mas sim um primeiro contato, necessário, muito necessário. É quando alguém consegue “Ao subir à noite / no terraço / de um arranha-céu altíssimo e aflitivo / (...) tocar a abóbada noturna / e em um ato de amor extraordinário / [apoderar-se] (...) de uma estrela celeste”.
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Todo primeiro amor exige um segredo. Um segredo a dois, não mais, senão estraga, atrapalha, avacalha. Um segredo de liquidificador, como “com a estrela roubada em (...) [um] bolso”.
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Um amor assim delicado, como canta Caetano Veloso. Um amor assim que requer cuidado por demais, demais: “De trêmulo cristal / parecia / e era / num átimo / como se levasse / um pacote de gelo / ou uma espada de arcanjo na cintura”. Talvez porque seja a estrela cantada por Vitor Ramil: “Estrela, estrela / Como ser assim / Tão só, tão só / E nunca sofrer”.
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Um amor que se esconde na inocência pueril de não perdê-lo, nem sequer de mostrá-lo: “Guardei-a, / temeroso, / debaixo da cama / para que ninguém a descobrisse, (...)”. Porém, ah, porém: “(...) / sua luz (...) / atravessou / primeiro / a lã do colchão, / depois / as telhas, / e o telhado da minha casa”.
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Um primeiro amor que perturba, sim. Será que só o primeiro amor mesmo faz isso?: “(...) / eu não podia / dar conta de todos / os meus deveres / cheguei a esquecer de pagar / as minhas contas / e fiquei sem pão nem mantimentos”.
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Um primeiro amor que chama a atenção, tem jeito, não, viu?: “Enquanto isso, na rua, / se amotinavam / transeuntes, boêmios / vendedores / atraídos sem dúvida / pelo insólito clarão / que viam sair de minha janela”. Mas que mesmo assim tenta-se, ainda, proteger: “Então / recolhi / outra vez minha estrela, / com cuidado / a envolvi em um lenço / (...)”. Mas e se for mesmo a estrela de Ramil?: “Brilhar, brilhar / Quase sem querer / Deixar, deixar / Ser o que se é”.
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Uma proteção muito própria. Uma proteção a dois, não mais que. Não mais que necessário mesmo. Uma proteção que se sabe definitiva: “Peguei a estrela da noite fria / e suavamente / lancei-a sobre as águas”. Isto porque pode, sim, ser a estrela, aquela: “É bom saber / Que és parte de mim / Assim como és / Parte das manhãs”.
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Porque proteger, sabe-se, ou ao menos dever-se-ia, nada mais é do que libertar. E libertar nada mais do que é dar vida. E dar vida nada mais é do que proteger. Porque só se aprende vivendo. E cantando, como Ramil: “Eu canto, eu canto / Por poder te ver / No céu, no céu / Como um balão”. Não mais que: “E não me surpreendeu / notar que se afastava / como peixe insolúvel / movendo / na noite do rio / seu corpo de diamante”.
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E nasce uma estrela.
E nasce um primeiro amor.
E se faz vida por um poema-história.

*Pesquisador-Voluntário do Prolij e Professor de Literatura para as Séries Finais do Ensino Fundamental.

Referências:

NERUDA, Pablo. Ode a uma estrela. Tradução: Carlito Azevedo. Ilustrações: Elena Odriozola. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

RAMIL, Vitor. Estrela, estrela. In: RAMIL, Vitor. Tambong. Rio de Janeiro: Satolep Music, 2000.