quarta-feira, 2 de junho de 2010

a vez do rubens aqui

saldando uma dívida comigo mesmo.
eu gosto tanto, mas tanto da escrita do rubens da cunha, há tanto, mas tanto tempo, e acho que nunca postei nenhuma crônica dele aqui. que vergonha! eu praticamente comecei a gostar de crônicas pelas crônicas dele, há bons anos já, no an. aí tive a oportunidade de fazer uma oficina de escrita  na univille, sob orientação dele. e dali passamos a manter um contato frequente - virtual, mas frequente. vezemquando esbarramo-nos por aí, jguá, jlle ou floripa. algumas cervejas, algumas conversas. poucas vezes, mas sempre boas. e hoje ele matou a pau - isso mesmo - na crônica publicada no an, o que não é novidade, ele matar a pau no que escreve. vai esta, então. mas há tantas e tantas que eu guardo aqui no pc ainda. sem contar o blog dele, os versos e as narrativas curtas. deliciem-se aqui. rasgação de seda mesmo. escritor bom, e ainda tão próximo assim, a gente tem que exaltar mesmo, mesmo. não é, regininha?
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Despedida

Despedida. Despedir. Entre outras acepções significa desfechar, arremessar, desprender, soltar, terminar, licenciar, separar. Todos esses verbos podem também ser reflexivos: arremessar-se, ausentar-se, terminar-se. Despedir é um gesto duplo, direcionado ao outro e a si mesmo. É uma ruptura, um corte na alteridade e em si próprio. O patrão despede seu empregado. O general despede o soldado liberando-o da batalha. O amado despede-se da amada nos umbrais de um romantismo perdido. Os vivos despedem-se dos mortos em velórios e rituais de choro. Despedir, despedir-se é da condição humana. Há sempre os que ficam e os que partem. Estes recuperam de certa forma aquele nomadismo ancestral que nos tangenciou há muito.

Há no despedir aqueles dois lados da mesma viagem, tão bem colocados na letra da canção de Milton Nascimento e Fernando Brant. Trata-se de um ato que carrega em si a dor de não saber o futuro, dos laços rompidos, talvez por isso seu correlato seja o adeus, o sem deus, sem guarida, sem a segurança da proximidade, sem a certeza do pertencimento. Por outro lado a despedida é uma forma de liberdade, de alargamento da visão, de novos territórios para a vida, então o a de adeus já não é um prefixo de negação, mas de encaminhamento. Adeus é um paradeus, para a vida que te chama e que está prenhe de liberdade para ser usufruída, basta você se despedir, se soltar, se desprender. Tanto um lado como o outro o que se tem pela frente é o enfrentamento do novo, a necessidade de se encarar a mudança.

Apesar das possibilidades benéficas do despedir-se, ele tem muito parentesco com o despedaçar-se. A etimologia não aproxima as raízes dessas palavras, porém, não por acaso, elas caminham próximas nos dicionários. Despedir vem do latim expetere, que significa reclamar, reivindicar, palavra derivada de petere, pedir. Despedir: deixar de pedir, deixar de suplicar, apartar-se com um cumprimento e despedaçar-se no silêncio, no devir, na espera da morte. Despedir. Partir. Repartir-se em pedaços de pessimismo. Essa dubiedade, essa fronteira entre ir embora e quebrar-se em pedaços faz da despedida um acontecimento muitas vezes extremado, muitas vezes dolorido. Belo e dolorido como o aceno dos lenços do navio que parte; como os próximos distanciados nos campos de concentração do passado, ou nos campos de refugiados do agora. Despedir-se sobre e sob os escombros de um terremoto, as noturnidades de uma violência qualquer, os achaques dos senhores da guerra. Despedir. Despedaçar. É um romper, um atravessar a fronteira da segurança, um pisar nos escuros, nos silêncios do que será.

A despedida pode ser bonita ou triste, longa ou repentina, imersa na aceitação ou na discórdia. A despedida pode se amigar com a liberdade ou com a prisão, pode se embrenhar numa vida mais plena, escorreita, ou cair na escuridão. A despedida tem sempre duas faces, menos num aspecto: nenhuma despedida é fácil.

Rubens da Cunha
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í.ta**

9 comentários:

Ana Márcia de Lima disse...

Gostei da crônica dele. Também concordo que temos que incentivar os autores locais, ou não locais, sempre. Ítalo, brigada pela atenção de sempre no meu blog, fico imensamente feliz com suas visitas. Abraço

Regina Carvalho disse...

O Rubens é grande cronista, grande poeta,grande estudioso, é um nojentinho completo!
bj

Rubens da Cunha disse...

obrigado Italo,
o teu apoio à minha escrita aumenta minha honra e minha responsabilidade :))

rubens - o nojentinho

Aninha Kita disse...

Gostei da crônica. Várias possibilidades.
Não sabia que era tão próximo dele. Muito legal! ;D

Beijo!

Léo Santos disse...

Bah! Desculpe-me Ítalo! Não quero te encher a paciência, nem tirar o teu tempo, mas é que eu tenho uma lembrancinha - parece tia velha né? - pra te dar lá no Nota Preta! Passa lá?

Um abraço pra ti!

Rodrigo disse...

Fala, macunaímico
Temos que pensar na foto de capa da apresentação. Meninos do Prolij. huhuahuaha
O Rubens é fantástico, gosto muito do que ele escreve. Precisamos cada vez mais divulgá-lo.
Abraços, Rodrigo

Rodrigo disse...

Gostei tanto do que escreveste no blog do Prolij que reproduzo minhas palavras aqui. Essa é a pós-modernidade, recortada até nos seus textos. Abraços!!

Rodrigo disse...
Um globo de óculos, vira glóbulos
Um lobo de óculos, vira lóbulos
e um óculos de óculos, vira binóculos. Repetindo as palavras do Caparelli que levamos a Portugual. Nada mais está preso ao que é, tudo é passível de transformação. A escrita não ficaria longe disso, com certeza. Um novo tempo, um novo jeito de expressa-se. Multi-facetado, eu diria. Muito legal, Ítalo. Parabéns!
Rodrigo

4 de junho de 2010 15:35

Eduardo Silveira disse...

Olha, vou dar uma de chatinho e dizer que, dos cronistas dos nossos jornais diários, o Rubens é um dos poucos que gosto. o cara é bão. E que bom que é daqui ^^

Atriz disse...

aprendi a gostar de Rubens através de vc. ele é simplesmente maravilhoso, mesmo. beijoo! Gisele