sábado, 26 de junho de 2010

um conto, sem título

eu gosto de meninos e meninas. não sei bem o porquê. mas eu gosto. e as pessoas próximas a mim não gostam que eu goste de meninos e meninas. e ainda que eu cante isso, bem alto: e eu gosto de meninos e meninas!, fazendo careta, como fazia o renato russo. dele eu gosto, por exemplo. gosto muito. o renato não sabe, ou não sabia, é verdade, mas ele era meu namorado, quando eu tinha dezessete anos e ele subia nos palcos para cantar uma menina me ensinou quase tudo que eu sei, era quase escravidão, mas ela me tratava como um rei. era cedo ainda, era cedo. mas eu gostava. gostava da menina que me ensinou a gostar de meninos e de meninas. da menina que me ensinou o que era sexo, da menina que pegou pela primeira vez no meu pau, que o deixou duro, duríssimo, que o alisou, para cima e para baixo, para cima e para baixo, para cima e para baixo, e que me sorria, um sorriso lindo, gostoso, de prazer. foi ela quem me ensinou, depois, que poderia ser bom fazer o mesmo em outros meninos. o mesmo que ela fizera em mim. e foi ela quem marcou encontro com o outro menino, o eduardo, e eu fiz no eduardo o que a mônica fez em mim. e a mônica acabou fazendo em mim de novo aquilo, de para cima e para baixo, para cima e para baixo. e foi tão gostoso, foi tão intenso, que eu só pensava no renato russo, em fazer aquilo nele, em ficar em cima dele, para cima e para baixo, bem naquela coisa assim quem me dera ao menos uma vez trazer você de volta pra mim, insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vivi. porque depois de imaginar aquilo com o renato russo, ele se tornou o meu namorado. ele não sabia, nunca soube, mas ele se tornou meu namorado. ele morreu sendo o meu namorado, mesmo. e por isso eu não vivi mais nada daquilo que a mônica me ensinou, não. não com outros meninos como fora com o eduardo. eu mudei. eu não quis mais. eu nunca quis trair o meu namorado. mas eu continuei gostando de meninos e meninas. mas ele não sabia que eu gostava, porque daí eu não fiquei mais para cima e para baixo em meninos, não. porque daí eu conheci a maria lúcia, um tempo depois da mônica ter morrido na minha frente, numa briga de ciúmes com o eduardo. eu conheci a maria lúcia e me apaixonei por ela quando eu fugi de casa, com saudades dos nossos planos, meu e da mônica e do eduardo, e a encontrei na rua, a maria lúcia, indo pra casa e daí eu pedi posso dormir aqui com vocês, quando chegamos na casa dela, e ela me aceitou e nós dormimos juntos naquela noite em que eu disse pra ela acho que estou gostando de alguém, e ela me disse é de ti que não me esquecerei. e daí eu resolvi esquecer do que eu já havia vivido até ali. menos do meu namorado. dele, eu jamais esqueceria. por isso que eu falei para a maria lúcia que eu sempre gostaria de meninos e meninas, mas que eu ficaria só com ela a partir dali, porque assim como eu não trairia o meu namorado, eu não trairia a minha namorada, não, porque enquanto a vida vai e vem, você procura achar alguém que um dia possa lhe dizer quero ficar só com você, e então que quando você encontra esse alguém, você não deve fazer mal a ele nunca, você não pode deixar o vento levar nada embora, não, e vocês devem continuar olhando na mesma direção, lembrando que o plano é ficarmos bem. e eu falei isso tudo de novo pra maria lúcia antes dela morrer, na cama do hospital em que ela viveu os últimos doze anos da nossa vida. sim, porque desde o dia em que eu fugi de casa e encontrei a maria lúcia, não era mais a vida dela e a minha vida. era a nossa vida. porque o amor tem sempre a porta aberta, a gente pensava junto. e por isso ela me contou toda a vida dela, e eu falei para ela, no primeiro dia, e no último dia de nossas vidas, que eu gostava de meninos e meninas, fazendo nosso o meu segredo mais sincero, quando o momento dela passou a ser o meu instante.

í.ta**

12 comentários:

Elenice disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elenice disse...

Amei essa costura que fizesse com as músicas da Legião.
Me identifiquei muito com ele, pois para mim Renato será sempre o meu primeiro namorado.


Sua "Maria Lúcia"
Nice

Eduardo Silveira disse...

ha! muito boa essa costura, como falou a Elenice! Caraca, viajei pelas letras do Renato agora. Pois sô vidrado nesse cara também. Há outros... Jim Morrison, por exemplo, acho que foi o "meu namorado dos 17 anos", pra entrar no jogo desse teu narrador ^^

ps: obrigado pela homenagem ali no conto, eu tbém não te esqueci, nem a mônica, mas é da vida, e etc xP ;*

Abraço!

Aninha Kita disse...

Putz, estou com 17 anos e o Renato já morreu... O que fazer? O que fazer? hahaha
Eu também adoro adoro legião!
Mas, pra contrariar, dedico meu amor platônico ao Humberto Gessinger! *-* Embora, um amor paternal também!

No começo do texto, mesmo com a citação que tanto conheço "eu gosto de meninos e meninas", pensei numa outra onda. Algo como professor ou um mestre mesmo. Sei lá, foi uma visão bonita. Queria compartilhar.

Enfim, gostei muito do conto! Como você já sabe, adoro quando compartilha com seus seguidores de blog sua literariedade. Acompanhado de um repertório tão perfeito, ah, daí "ba-bei"! hehe

Beijo!
Ana

Camila F. disse...

Mas bah! Amei também!!
Lembrou a Ana c.
Beijãoo

Ensaios e Garatujas disse...

Muito bom mesmo, legal pra caramba essa "costura". Ainda faço um conto utilizado trechos de Nirvana haha
Abraço!

Lara Amaral disse...

Adorei sua mistura com as letras, ótima experimentação.

Beijo!

Moni. disse...

Ok, Saramago da pós-modernidade, vou dizer: Arrasaste. Mataste a pau. Sabes disso.

Passível de várias versões.
Passivo, ativo,
A experimentar sensações...

Adorei esse negócio.
Teatral. Sensual. Surreal.Genial.

Moni é fã!

Maeles Geisler disse...

os trechos das letras do Renato ganharam outra vida com seu conto. Outra vida e nova vida. Adorei! mexeu na carne...

Abraços

maeles

Roberta Ávila disse...

adoro colagens =D

bjo bjo

Paulo Rogério disse...

Muito bom!
(À Monte Castelo).Abr!

Sylvia Araujo disse...

Colcha de retalhos pra ninguém botar defeito!

Ótimo!

Beijoca