domingo, 6 de junho de 2010

mais um poeta, pra fechar: facadas

a capa é essa aí, ó, aí em cima. um desenho. uma estrela, uns riscos, umas manchinhas, um não sei o quê por trás da estrela. um desenho. uma singeleza. e o que dizer, então, de um desenho assim, como este abaixo?
foi esta a dedicatória do enzo para mim neste seu livro. o terceiro. a terceira dedicatória. antes de escrever estas breves palavras aqui, voltei-me ao escrito que fiz dos dois livros primeiros do enzo, o “afeganistão” e o “cura”. pra doidiar mesmo, sabem? porque ao ler e reler este “conto de facas” – é este o nome do terceiro livro, como cês já puderam perceber – eu fiquei tontim-tontim. mas também, pudera, né, ao ler uns versos-facas assim, ó: “Quer que a mamãe / traga de novo a pazinha? // Olha, a gente pode / modelar uma mentira / bem bonitinha agora // onde o mais forte / não dá // dói”.






o que mais admiro na escrita do enzo são duas coisas: é a poesia que há no poema – e aqui é preciso entender bem que as duas coisas não são uma mesma coisa. que uma, a primeira, lida com a questão do sentir, daquilo que emociona, que toca a sensibilidade, e que, portanto, pode advir de um poema como de qualquer outra forma de expressão. já a outra coisa, a segunda, diz respeito à estrutura do que é dito, a um gênero de escrita –, tá, ok, bagunça feita, volto ao que escrevia: que muito me admira a poesia que há nos poemas do enzo, e também, mais ainda, as releituras de mundo que ele consegue apresentar – e fazer chocar – ao (no) leitor.






este livrim tá assim dividido, só pra mostrar mais essa coisa do reler. “O gasto de botas”, “Vinte mil éguas submarinas”, “Des”, “Cinzarela” e “A falta mágica”. o enzo desestrutura as palavras e os seus significados prontos. a começar mesmo pelo nome deste livro. conto de facas. mas aí o leitor vai ler e vai se perguntar que contos são estes, se ali o que mais há são poemas? dessa forma, e também assim, o enzo lida com o absurdo, com a impossibilidade das coisas. olhem estes versos, soltos em páginas separadas no livro: “Ela vê sombra ao meio dia”. “Eu não era feliz e não sabia”. “A mentira é dita com os olhos brilhantes de uma criança”. “A gente tem tudo para dar errado”. “Nunca se viu uma sombra tão brilhante”. e só pra fuder mesmo, com a licença e o perdão da palavra: “Um dia você vai acordar fudido / e você vai lembrar de mim”.






aí é que eu vejo as releituras que o enzo propõe aos seus leitores. é preciso ler os versos deste guri – ele é só três anos, acho, mais velho que eu. somos novinhos, novinhos, né não? – sem pré-definições. mais ainda, sem pré-conceitos. porque o que ele propõe mesmo é esse desestabilizar, tirar o chão do leitor. é preciso, leitor, estar preparado a isto. assim, ó: “Tradições mantidas: / o índio usa / bermuda da Adidas”. “Se Deus é por nós / quem será contra / o traficante / que reza / antes de matar?”.






a contra-capa do livro tem uma foto séria do autor, e quatro versos que, acredito, preparam o leitor: “Assim como o objetivo da minha poesia / não é ofender, e sim registrar. / Nem que seja registrar / uma ofensa”. versos estes do texto “Dança sobre pênis”, mais na parte final do livro, “A falta mágica”, que contém uns poemas-em-prosa, se é que assim podemos chamar. Faltas mágicas que são algumas assim, ó: “O moço varrendo o silêncio do salão depois / da festa de casamento”. ou: “A mãe escondendo na varanda o filho com / síndrome de down”. ou: “O dia em que o garoto de pai falecido / aprende a fazer a barba sozinho”.






são faltas. ausências. ofensas. facadas mesmo o que enzo potel entrega aos seus leitores. é preciso preparar-se, mesmo, para lê-lo. e quando vocês pensarem que chegou ao fim o livro, ou tudo, cuidem. deem mais uma boa olhada. e vejam a única coisa que enzo espera dos seus leitores. e o que ele oferece em troca.






í.ta**

6 comentários:

Enzo Potel disse...

Puccini!
Parfait. Merci! Beaucoup!

Que bão que gostou das minha pornofacadas. Elas estão vivas!!

abraçon

enzo

Aninha Kita disse...

Genial! Genial! Genial!
Bate-me a dúvida: será o poeta Enzo ou o próprio Ítalo tão instigante? Não faço questão da certeza, é certo de que a vontade de ler tais facadas surgiram como chama em mim. :D

Beijo!
Ana*

Aninha Kita disse...

Dúvida sanada! Enzo e Ítalo igualmente instigantes! haha
O livro é realmente muito genial! Mas, sem dúvida esta "propaganda" foi fatal!

Parabéns, aos dois.
E na minha humilde opinião "um não sei o quê por trás da estrela" é um olho, um olhar.

Beijo!
Ana

Eduardo Silveira disse...

bah, tem que dizer pro enzo que um exemplar lá na univille caía bem.... rs :P gostei muito desses trechos, gostaria de ler o livro!

Abraço!

Roberta Ávila disse...

hahhaha pornofacadas é uma delícia hein... Adorei tb! Vc e a Regininha tão tirando meu sono com essas indicações =D

Bjão

Roberta Ávila disse...

e o desenho?! o máximo de dedicatória! =DDD