segunda-feira, 28 de junho de 2010

puta felicidade

sabem, é uma sensação estranha, gostosa pra caramba, que faz bambear as pernas mesmo. pra muitos pode ser coisa pouca, bobagem. ok. pra mim, não. eu sou assim mesmo, de sentir quase tudo na intensidade máxima. seja um livro, seja um time, seja uma música, seja uma escrita. seja um segundo lugar num concurso de contos aqui da cidade com quase sessenta inscritos.

é isso.

tirei segundo lugar no concurso de contos aqui de jaraguá do sul, organizado pelo joão luis chiodini.

recebi ligação hoje. precisei sentar para compreendê-la em seu todo.

agora em julho vai sair livro com os catorze melhores textos. o meu é o segundo. tô bobo por demais!

os leitores-juris foram carlos henrique schroeder, rodrigo schwarz e regina carvalho.

e aqui 'cês podem ver meu nomezinho ali, em segundo lugar, bonitim, e saber também qual a premiação por esta maravilha!

p.s.: daqui uns dias postarei aqui o conto, claro. afinal, prum segundo lugar, coisa ruim não deve de ter sido, acho. por enquanto, fica só a notícia, como a causar algumas coceiras das boas nos leitores :)

í.ta**

sábado, 26 de junho de 2010

um conto, sem título

eu gosto de meninos e meninas. não sei bem o porquê. mas eu gosto. e as pessoas próximas a mim não gostam que eu goste de meninos e meninas. e ainda que eu cante isso, bem alto: e eu gosto de meninos e meninas!, fazendo careta, como fazia o renato russo. dele eu gosto, por exemplo. gosto muito. o renato não sabe, ou não sabia, é verdade, mas ele era meu namorado, quando eu tinha dezessete anos e ele subia nos palcos para cantar uma menina me ensinou quase tudo que eu sei, era quase escravidão, mas ela me tratava como um rei. era cedo ainda, era cedo. mas eu gostava. gostava da menina que me ensinou a gostar de meninos e de meninas. da menina que me ensinou o que era sexo, da menina que pegou pela primeira vez no meu pau, que o deixou duro, duríssimo, que o alisou, para cima e para baixo, para cima e para baixo, para cima e para baixo, e que me sorria, um sorriso lindo, gostoso, de prazer. foi ela quem me ensinou, depois, que poderia ser bom fazer o mesmo em outros meninos. o mesmo que ela fizera em mim. e foi ela quem marcou encontro com o outro menino, o eduardo, e eu fiz no eduardo o que a mônica fez em mim. e a mônica acabou fazendo em mim de novo aquilo, de para cima e para baixo, para cima e para baixo. e foi tão gostoso, foi tão intenso, que eu só pensava no renato russo, em fazer aquilo nele, em ficar em cima dele, para cima e para baixo, bem naquela coisa assim quem me dera ao menos uma vez trazer você de volta pra mim, insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vivi. porque depois de imaginar aquilo com o renato russo, ele se tornou o meu namorado. ele não sabia, nunca soube, mas ele se tornou meu namorado. ele morreu sendo o meu namorado, mesmo. e por isso eu não vivi mais nada daquilo que a mônica me ensinou, não. não com outros meninos como fora com o eduardo. eu mudei. eu não quis mais. eu nunca quis trair o meu namorado. mas eu continuei gostando de meninos e meninas. mas ele não sabia que eu gostava, porque daí eu não fiquei mais para cima e para baixo em meninos, não. porque daí eu conheci a maria lúcia, um tempo depois da mônica ter morrido na minha frente, numa briga de ciúmes com o eduardo. eu conheci a maria lúcia e me apaixonei por ela quando eu fugi de casa, com saudades dos nossos planos, meu e da mônica e do eduardo, e a encontrei na rua, a maria lúcia, indo pra casa e daí eu pedi posso dormir aqui com vocês, quando chegamos na casa dela, e ela me aceitou e nós dormimos juntos naquela noite em que eu disse pra ela acho que estou gostando de alguém, e ela me disse é de ti que não me esquecerei. e daí eu resolvi esquecer do que eu já havia vivido até ali. menos do meu namorado. dele, eu jamais esqueceria. por isso que eu falei para a maria lúcia que eu sempre gostaria de meninos e meninas, mas que eu ficaria só com ela a partir dali, porque assim como eu não trairia o meu namorado, eu não trairia a minha namorada, não, porque enquanto a vida vai e vem, você procura achar alguém que um dia possa lhe dizer quero ficar só com você, e então que quando você encontra esse alguém, você não deve fazer mal a ele nunca, você não pode deixar o vento levar nada embora, não, e vocês devem continuar olhando na mesma direção, lembrando que o plano é ficarmos bem. e eu falei isso tudo de novo pra maria lúcia antes dela morrer, na cama do hospital em que ela viveu os últimos doze anos da nossa vida. sim, porque desde o dia em que eu fugi de casa e encontrei a maria lúcia, não era mais a vida dela e a minha vida. era a nossa vida. porque o amor tem sempre a porta aberta, a gente pensava junto. e por isso ela me contou toda a vida dela, e eu falei para ela, no primeiro dia, e no último dia de nossas vidas, que eu gostava de meninos e meninas, fazendo nosso o meu segredo mais sincero, quando o momento dela passou a ser o meu instante.

í.ta**

sexta-feira, 25 de junho de 2010

sobre o escrever, por clotilde zingali

Eu escrevo sobre coisas que não sei para saber delas. Descobrir. Também a mim. Porque daí “A gente não escreve um livro. A gente se livra dele.” Então eu escrevo e vou me livrando daquilo tudo. Até de mim. Daquela que escreveu e já não é mais. É outra. Penso isso descascando uma tangerina. Espirra na minha pele o perfume com fixador made in natura. É bom. Mas preciso lavar as mãos muitas vezes depois. De todo modo, vou soltando um a um os gomos e pensando na herança. Na genética. Vou sendo enquanto escrevo e então vou deixando de ser, afinal, está escrito. Eu me livro disso e posso me escrever outra. Falsear. Nesse fingimento que nunca se acaba vou me vendo furo. Cheia de abismos. Uma fraude. Uma ficção que crio e onde me enredo. Sou DNA e sou livro. Sigo sendo a partir dos olhos que me olham, das mãos que me folheiam e me tiram da estante. Me colocam de volta ou me largam sobre a mesa. Quando tornam a mim já sou outra. Cada vez uma. Gosto ou não de ir até o fim. Vou decidindo se como a caixa inteira de bombons ou um só e ainda largo um pedacinho. “Não gostei”. Decidindo o tempo verbal pra esconder a paixão. Jogar num cantinho e dizer: me esquece. Aí vem aquela fulana me dizer pra eu não colocar minhoca na cabeça. Será que você não sabe que para isso é preciso fazer uma cirurgia? Hein? Ela me olhou assustada quando eu afirmei assim bem afirmado. Depois deu uma gargalhada e saiu. Tonta. Ela é muito tonta. Eu bem sei que minhocas entram pelo nariz: é só respirar que elas vêm. Uma ninhada delas. Cirurgia precisa pra tirar. Procedimento feito em salas escuras. Sem anestesia. Com fórceps. E ainda tem esse cara que me sonha. Essa instância psíquica que sabe mais de mim que eu mesma. Pode isso? Mas deixa.... Eu te pego na curva. Te leio imagem em cima de imagem. Transformo em palavra em cima de palavra. Associo. Encadeio. Vira texto na minha boca que fala sem parar. Eu vou interpretando e descendo. Interpretando e descendo. Você não sabe, mas rondo seus escuros, suas sombras. E sabe o que faço? Te escrevo e você mesmo vira outro. Vira até mulher. Bárbara, Patrícia, Mara. Vira Eduarda. Eu te lapido e apelido. Duda. Eu te digo: Sou mais que uma porção de palavras enredadas num livro. Mais que moléculas empilhadas nessa ou naquela ordem. Eu é mais. Eu é ser que finge. “E finge tão assustadoramente, que finge acreditar no que deveras sente”. Dionisicamente. Apolineamente. Ou numa alquimia sem revés. Não importa. Não tem pudor. Portanto, Duda, você não assusta nem comove. Eu te escuto sem estetoscópio. Te enxergo sem radiografia. Te fatio. Te ultrassono. Te metabolizo. Eu é mais. É timbre. Tilinta e constrói com as palavras. E mente, assustadoramente. É você, Eu, ele, ela ou simplesmente um cachorro espreguiçando na calçada. Nada está separado. Nada é instância estanque. Que não se mistura. Eu é alquimia, e entre um bombom e outro, vai a cada segundo decidindo se vai comer a caixa inteira ou largar para as formigas. E se elas vêm, acata. Convive com elas. E as minhocas.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

de como lidar com a morte de alguém distante e próximo


Eu não sei. Aliás, eu gosto de pensar sempre que eu não sei. Essa coisa da incompletude. Essa constante humana. Eu não sei. Faltou-me chão. Veio por mensagem a notícia, via celular. Da Moni. Dizia assim (e eu li embarcando num ônibus para a faculdade): “Íta, o saramago morreu... pqp... triste pra caralho =((((“. Inda bem que eu já tava dentro do ônibus, pois se estivesse a caminho – e ele já tava saindo – eu o perdia. Porque eu travei. Eu simplesmente travei. Eu fiquei sem reação. Assim: =O.

E daí eu fico pensando assim, mas pô, não é o caminho natural? Nascer, viver e morrer? Por que todo esse espanto assim, =O, então? E me passou pela mente aquelas idiotices mesmo, “Ah, mas tava velhinho já”. Não, não, mas não. Velhice não pode significar um “ah, tá, mas tava velho”. Velhice não pode ser um não-espantar-se diante da ausência de alguém cá em terra.

A primeira coisa na qual pensei, depois que consegui retomar o equilíbrio corpóreo dentro de um ônibus, foi: não vou ler mais nada novo dele? Num tom choroso mesmo. Depois é que vim a pensar, procurando um otimismo: ele pode ter deixado algo pronto, ou muitos algos prontos, a serem lançados por muitos anos ainda.

Mas por que um escrito sobre a morte de um escritor? Porque quando nós temos uma identificação com algo, seja uma pessoa, seja um time, seja uma música, um livro, um escritor ou simplesmente uma caneta, tudo o que acontece com este algo, atinge-nos, quer queiramos, ou não. Não é uma escolha. É um sentir. E um sentir não pode e não deve ser explicado. Jamais.

Portanto, o José Saramago morreu. E eu não consigo pensar quase nada sobre isso. Somente sentir. Uma falta. Uma ausência. De leituras tão tão críticas e humanas com as quais nos deparamos em cada livro seu. É para lá que eu vou. Agora. E amanhã. E depois. E sempre. Voltar aos livros saramaguianos. Porque toda falta precisa ser sentida em sua intensidade máxima. Precisa ser incorporada. Precisa ser vivida, e não explicada.

í.ta**

quarta-feira, 16 de junho de 2010

lá. espero-os.

povo,

tô aqui agora, ó,
hoje, amanhã e sexta,

no blogdoprolij,

postando tudo e um pouco mais sobre
o que acontece no Abril Mundo 2010.

e tô aqui também, ó,
postando ainda mais tudo e um pouco mais,
no twitter do prolij.

espero-os por lá.

com a literatura correndo em nossas veias.

í.ta**

domingo, 13 de junho de 2010

sem título

eu sempre quis escrever um poema com sapatos.
vesti-los
e andar por aí a amaciá-los,
como que fazendo brotar dali um poema.

porque o poema, quando brota,
traz consigo um susto,
um estranhamento,
como de quem veste sapatos
para fazê-los,
ou usá-los,

poema e sapato.

mesmo que incompleto,
mesmo que sem sola,
eu sempre quis escrever um poema com sapatos.

ítalo puccini.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

passem lá. ou cá.

depois de um poemaços assim,

(de trechos de poemaços, ok)

venham aqui, ó,

conferir algumas possibilidades

de leituras machadianas.

mas venham mesmo, hein?!

í.ta**

domingo, 6 de junho de 2010

mais um poeta, pra fechar: facadas

a capa é essa aí, ó, aí em cima. um desenho. uma estrela, uns riscos, umas manchinhas, um não sei o quê por trás da estrela. um desenho. uma singeleza. e o que dizer, então, de um desenho assim, como este abaixo?
foi esta a dedicatória do enzo para mim neste seu livro. o terceiro. a terceira dedicatória. antes de escrever estas breves palavras aqui, voltei-me ao escrito que fiz dos dois livros primeiros do enzo, o “afeganistão” e o “cura”. pra doidiar mesmo, sabem? porque ao ler e reler este “conto de facas” – é este o nome do terceiro livro, como cês já puderam perceber – eu fiquei tontim-tontim. mas também, pudera, né, ao ler uns versos-facas assim, ó: “Quer que a mamãe / traga de novo a pazinha? // Olha, a gente pode / modelar uma mentira / bem bonitinha agora // onde o mais forte / não dá // dói”.






o que mais admiro na escrita do enzo são duas coisas: é a poesia que há no poema – e aqui é preciso entender bem que as duas coisas não são uma mesma coisa. que uma, a primeira, lida com a questão do sentir, daquilo que emociona, que toca a sensibilidade, e que, portanto, pode advir de um poema como de qualquer outra forma de expressão. já a outra coisa, a segunda, diz respeito à estrutura do que é dito, a um gênero de escrita –, tá, ok, bagunça feita, volto ao que escrevia: que muito me admira a poesia que há nos poemas do enzo, e também, mais ainda, as releituras de mundo que ele consegue apresentar – e fazer chocar – ao (no) leitor.






este livrim tá assim dividido, só pra mostrar mais essa coisa do reler. “O gasto de botas”, “Vinte mil éguas submarinas”, “Des”, “Cinzarela” e “A falta mágica”. o enzo desestrutura as palavras e os seus significados prontos. a começar mesmo pelo nome deste livro. conto de facas. mas aí o leitor vai ler e vai se perguntar que contos são estes, se ali o que mais há são poemas? dessa forma, e também assim, o enzo lida com o absurdo, com a impossibilidade das coisas. olhem estes versos, soltos em páginas separadas no livro: “Ela vê sombra ao meio dia”. “Eu não era feliz e não sabia”. “A mentira é dita com os olhos brilhantes de uma criança”. “A gente tem tudo para dar errado”. “Nunca se viu uma sombra tão brilhante”. e só pra fuder mesmo, com a licença e o perdão da palavra: “Um dia você vai acordar fudido / e você vai lembrar de mim”.






aí é que eu vejo as releituras que o enzo propõe aos seus leitores. é preciso ler os versos deste guri – ele é só três anos, acho, mais velho que eu. somos novinhos, novinhos, né não? – sem pré-definições. mais ainda, sem pré-conceitos. porque o que ele propõe mesmo é esse desestabilizar, tirar o chão do leitor. é preciso, leitor, estar preparado a isto. assim, ó: “Tradições mantidas: / o índio usa / bermuda da Adidas”. “Se Deus é por nós / quem será contra / o traficante / que reza / antes de matar?”.






a contra-capa do livro tem uma foto séria do autor, e quatro versos que, acredito, preparam o leitor: “Assim como o objetivo da minha poesia / não é ofender, e sim registrar. / Nem que seja registrar / uma ofensa”. versos estes do texto “Dança sobre pênis”, mais na parte final do livro, “A falta mágica”, que contém uns poemas-em-prosa, se é que assim podemos chamar. Faltas mágicas que são algumas assim, ó: “O moço varrendo o silêncio do salão depois / da festa de casamento”. ou: “A mãe escondendo na varanda o filho com / síndrome de down”. ou: “O dia em que o garoto de pai falecido / aprende a fazer a barba sozinho”.






são faltas. ausências. ofensas. facadas mesmo o que enzo potel entrega aos seus leitores. é preciso preparar-se, mesmo, para lê-lo. e quando vocês pensarem que chegou ao fim o livro, ou tudo, cuidem. deem mais uma boa olhada. e vejam a única coisa que enzo espera dos seus leitores. e o que ele oferece em troca.






í.ta**

sábado, 5 de junho de 2010

mais poetas: um silêncio que verbaliza

gabriel gómez é contista. antes, é borgeano. conhecedor impecável de tudo sobre borges. vida e obra mesmo. um primor de conhecimento. digo que é contista pelo seus dois primeiros livros publicados: “A culpa é do livro” e “Borges e outras ficções”. só clicar ali que ‘cês saem nos textos que já escrevi – e publiquei – sobre a escrita de gabriel.

é amigo “ao vivo”, antes de amigo “blogueiro”. conhecemo-nos cá por jaraguá, em uma das feiras de livro. e por outras vezes cá estivemos. e outra, a mais recente, em floripa, quando do lançamento do seu terceiro livro, “Cerimônias do silêncio”, o primeiro livro da coleção de poesia “Câmera-verso”, organizado pela Design Editora, do Carlos Henrique Schroeder.

então, gabriel, além de contista, borgeano e amigo, é poeta. poeta que, assim como contista, vai na palavra, em sua estrutura, e a remexe por completo, e a vira do avesso mesmo, assim, ó: “Queda: o balão caiu no céu”. querem outra prova, é: “Prova: Estranho / Um adjetivo, / uma palavra, / (que se junta a esta) outra, / uma voz que articula. / Vírgulas, / pontos. // Pausas. // Eu continuo escrevendo / no ar / com meus cadarços / e me deixo dizer / pelo silêncio”.

o silêncio. as cerimônias deste silêncio. um silêncio que palavra. ou que emudece mesmo: “O pior: Tinha para dizer-me / o pior dos silêncios. // Então calou”. às vezes, sem cerimônia nenhuma: “Fim: Cansado de ouvir-se, encheu seu revólver de silêncios, e, / sem parar de falar, / o apontou para sua boca / (...)”.

como escreveu o rubens da cunha, na primeira frase da orelha do livro (alô, regininha, eu continuo lendo e relendo orelhas – de livro), “’Tem muito silêncio queimando aqui’, afirma um dos poemas de Gabriel Gómez”. silêncios que queimam também aqui, ó, nós, leitores. jogados aos silêncios que são nossos. talvez só nossos mesmo. talvez nossos – meus e teus. mas assim, ó, inabitados: “Pronto: Debaixo das palavras / havia / este / silêncio inabitado”.

pois que habitemos estes e outros silêncios. é preciso. do livro do gabriel, ou dos livros do gabriel. ou de outros tantos livros que contenham o silêncio de quem escreve o silêncio de quem lê. porque, lembremo-nos, o livro que você escreve nunca é o livro que eu leio. uma “Pequena ação: A pequena ação transcorre sem linguagem / O falso silêncio acaba aqui / e não se parece com nenhuma palavra”.

resta-nos a procura mesmo.

do silêncio.

da palavra.

daquilo que silencia mesmo palavrando.

ou que palavra mesmo silenciando.

í.ta**

sexta-feira, 4 de junho de 2010

a hora e a vez de uns poetas, que tal?

ó, povo blogueiro, vâmo combinar um negócio hoje, amanhã e depois de amanhã?
a hora e a vez da poesia por aqui, que acham?
bora lá, então,
quem quer coloca o dedo aqui (ih, nem tem link, não, nesse "aqui").
é assim. ou será assim. enfim.
começa hoje, agora, com o... (ah, vê ali embaixo quem é o poeta da vez)
aí, amanhã posto aqui mais um e algo de sua obra
e, dai, domingo, mais um outro.
aí a gente fecha com chave de ouro, não?
agradicido, viram?
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o poema que rasga

recebi do cláudio b. carlos (o “cc”), há um tempinho já, novo livro dele: “lírica fedentina”. um livro, não. um poema-livro, conforme consta na capa. novo livro, não. e sim segunda edição deste livro publicado primeiramente em formato e-book.

não é o primeiro livro que cc faz chegar até mim, não. são vários já. e do que mais gosto nos livrinhos dele, é do fato de serem quase todos produzidos artesanalmente. à mão mesmo. na cara dura, como diz o ditado.

conheci a escrita deste poeta e radialista gaúcho por meio do universo da blogsfera. de blog em blog, vezemquando deparamo-nos com escritos maravilhosos que merecem leitura e comentários. o blog balaio de letras merece isto.

inclusive, é por meio do blog que cc propõe movimentos de escrita e de leitura interessantíssimos. ele consegue explorar muito bem toda essa tecnologia que nos amarra constantemente. citando dois exemplos, livros em formato e-book, e leituras em voz alta, postadas como vídeo. tanto que ele expandiu seu “balaio”. criou agora o balaio de letras 2, justamente para apresentar a leitura em práticas pouco pensadas. o que eu acho ótimo. um explorar das nossas sensações leitoras.

pois a escrita de cc também apresenta características que, se não são inovadoras ao extremo, são pouco usuais de encontrarmos em meio a tantos livros-comuns publicados dia sim, outro também. este “lírica fedentina”, por exemplo, é de fato um poema-livro. da página 3 à página 46, um longuíssimo poema. uma disputa por pontos com o leitor, na qual, por alguns momentos, o livro desfere cruzados sensacionais: “um querendo o cu do outro / viver é concorrer / e numa pronúncia indefectível / em alto e bom som / prosódia: / - desculpe-me cavalheiro / se lhe dei as costas / enquanto fodia-me a bunda! / como dizem os franceses: c’est l avie”.

este novo livro do cc me levou a alguns outros dele que tenho cá comigo. ao “liberdade vigiada & outros pequenos poemas que gritam”: “pra / minha fome / a etiqueta de teu prato raso / com porções minimalistas”; ao “temporais atemporais tempo temporão”: “o que estraga / o ambiente familiar / é a família”; ao “desnascer do nada”: “carne humana tem gosto / de sobrevivência”; e à “pedra da realidade”: “para sonhos de papel / o peso / da pedra da realidade”.

todos livrinhos artesanais com muita poesia e poemas viscerais. mas há também dois livros de narrativas curtas, publicados pela editora “maneco”, de caxias do sul/rs. o primeiro deles se chama “um arado rasgando a carne”: “tenho a garganta sufocada por palavras e palavras e palavras e palavras e palavras que da minha boca como que costuradas não são não caem como o cuspe cai como os dentes podres caem (...) não sei nominar o que sinto que nome se dá a um arado rasgando a carne?”; e o segundo é “o uniforme”: “descobri que humildade demais é defeito, quando, aos doze ou treze anos de idade, ao receber o envelope com o primeiro salário, agradeci efusivamente ao patrão, que riu de mim”.

são recortes mínimos dos livros do cc. da forma insinuante como ele escreve. do modo com que ele propõe diferentes leituras para palavras já gastas, para maneiras de se ler que extrapolem o contato do leitor com o livro. uma leitura mais física, eu diria, se que é possível entender isto.

mas poesia não é muito pra se entender, não, né, cc? tá mais para ser devidamente explorada por escritores e leitores. que assim continuemos a fazer, pois então.
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í.ta**

quarta-feira, 2 de junho de 2010

a vez do rubens aqui

saldando uma dívida comigo mesmo.
eu gosto tanto, mas tanto da escrita do rubens da cunha, há tanto, mas tanto tempo, e acho que nunca postei nenhuma crônica dele aqui. que vergonha! eu praticamente comecei a gostar de crônicas pelas crônicas dele, há bons anos já, no an. aí tive a oportunidade de fazer uma oficina de escrita  na univille, sob orientação dele. e dali passamos a manter um contato frequente - virtual, mas frequente. vezemquando esbarramo-nos por aí, jguá, jlle ou floripa. algumas cervejas, algumas conversas. poucas vezes, mas sempre boas. e hoje ele matou a pau - isso mesmo - na crônica publicada no an, o que não é novidade, ele matar a pau no que escreve. vai esta, então. mas há tantas e tantas que eu guardo aqui no pc ainda. sem contar o blog dele, os versos e as narrativas curtas. deliciem-se aqui. rasgação de seda mesmo. escritor bom, e ainda tão próximo assim, a gente tem que exaltar mesmo, mesmo. não é, regininha?
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Despedida

Despedida. Despedir. Entre outras acepções significa desfechar, arremessar, desprender, soltar, terminar, licenciar, separar. Todos esses verbos podem também ser reflexivos: arremessar-se, ausentar-se, terminar-se. Despedir é um gesto duplo, direcionado ao outro e a si mesmo. É uma ruptura, um corte na alteridade e em si próprio. O patrão despede seu empregado. O general despede o soldado liberando-o da batalha. O amado despede-se da amada nos umbrais de um romantismo perdido. Os vivos despedem-se dos mortos em velórios e rituais de choro. Despedir, despedir-se é da condição humana. Há sempre os que ficam e os que partem. Estes recuperam de certa forma aquele nomadismo ancestral que nos tangenciou há muito.

Há no despedir aqueles dois lados da mesma viagem, tão bem colocados na letra da canção de Milton Nascimento e Fernando Brant. Trata-se de um ato que carrega em si a dor de não saber o futuro, dos laços rompidos, talvez por isso seu correlato seja o adeus, o sem deus, sem guarida, sem a segurança da proximidade, sem a certeza do pertencimento. Por outro lado a despedida é uma forma de liberdade, de alargamento da visão, de novos territórios para a vida, então o a de adeus já não é um prefixo de negação, mas de encaminhamento. Adeus é um paradeus, para a vida que te chama e que está prenhe de liberdade para ser usufruída, basta você se despedir, se soltar, se desprender. Tanto um lado como o outro o que se tem pela frente é o enfrentamento do novo, a necessidade de se encarar a mudança.

Apesar das possibilidades benéficas do despedir-se, ele tem muito parentesco com o despedaçar-se. A etimologia não aproxima as raízes dessas palavras, porém, não por acaso, elas caminham próximas nos dicionários. Despedir vem do latim expetere, que significa reclamar, reivindicar, palavra derivada de petere, pedir. Despedir: deixar de pedir, deixar de suplicar, apartar-se com um cumprimento e despedaçar-se no silêncio, no devir, na espera da morte. Despedir. Partir. Repartir-se em pedaços de pessimismo. Essa dubiedade, essa fronteira entre ir embora e quebrar-se em pedaços faz da despedida um acontecimento muitas vezes extremado, muitas vezes dolorido. Belo e dolorido como o aceno dos lenços do navio que parte; como os próximos distanciados nos campos de concentração do passado, ou nos campos de refugiados do agora. Despedir-se sobre e sob os escombros de um terremoto, as noturnidades de uma violência qualquer, os achaques dos senhores da guerra. Despedir. Despedaçar. É um romper, um atravessar a fronteira da segurança, um pisar nos escuros, nos silêncios do que será.

A despedida pode ser bonita ou triste, longa ou repentina, imersa na aceitação ou na discórdia. A despedida pode se amigar com a liberdade ou com a prisão, pode se embrenhar numa vida mais plena, escorreita, ou cair na escuridão. A despedida tem sempre duas faces, menos num aspecto: nenhuma despedida é fácil.

Rubens da Cunha
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í.ta**