sábado, 22 de maio de 2010

sobre contar, envolver e cativar

publiquei resenha no diário catarinense de hoje, no caderno de cultura do diário. resenha sobre o box de livros lançado pelo escritor maicon tenfen. o link para o texto no jornal tá aqui. o título da resenha é o título do post.
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Um brincar com a escrita e com suas possibilidades de leitura. É o que propõe o escritor Maicon Tenfen em suas produções literárias. Um brincar não no sentido infantil do termo, e sim no sentido de reinventar a palavra e a narrativa e recriar junto a elas significados.
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Conheci os livros do Maicon Tenfen ao acaso, numa passada de olho em prateleiras de uma livraria, como vez em quando é bom que aconteça. Esse "choque" imediato entre livro e leitor. Essa química que induz a uma leitura prazerosa desde o princípio, cabendo, então, ao autor a incumbência de conduzir a narrativa com o cuidado necessário para não afastar dela o leitor tão empolgado por isto.
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Os livros do escritor blumenauense-adotivo propõem ao leitor esta curiosidade inicial. Um perguntar-se algo como "mas do que é capaz um livro com este nome?". Ou estes nomes, por exemplo: Um Cadáver na Banheira, O Impostor, Casa Velha Night Club e Mistérios, Mentiras e Trovões.
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Destes, com exceção de Um Cadáver na Banheira, que é mais um romance-quase-novela, ou o contrário, os outros três são livros de contos, o gênero narrativo com que o escritor estabeleceu uma relação muito próxima e própria, sabendo domar e explorar com extrema habilidade as características do mesmo.
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Como professor de literatura, trabalho em sala de aula a envolvente história de Um Cadáver na Banheira. Os alunos, de fato, envolvem-se muito com a aventura do pretendente a escritor Jorge, e em pouco tempo me apresentam a leitura concluída. Assim sendo também com os contos dos três livros já citados, sobre os quais a “gurizada” se diverte recriando-os, interpretando-os, dramatizando-os. É isto o que permite a escrita de Tenfen, um aproximar o leitor do texto literário, um abrir caminhos e possibilidades de leitura. Com uma escrita simples e envolvente, estes livros são “abraçados” pelos alunos. A identificação com os personagens e suas incógnitas, com a trama da história, os inesperados que pegam de surpresa até o mais desatento, cativam e conduzem não só a uma releitura, mas a um "buscar outros livros como este".
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Ganhador de importantes prêmios desde o primeiro livro O Impostor (1999, primeiro lugar no Concurso de Contos Paulo Leminski (Toledo, PR); em 1997, de âmbito nacional, com o conto Diablo), Maicon Tenfen vem se firmando como contista nesses 10 anos de livros publicados, um ciclo “fechado” com o lançamento de Casa Velha Night Club, em 2009, livro que contém um conto, Nick Fourier, vencedor do Concurso de Contos de Araçatuba (SP), de âmbito nacional.
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Comemorando, então, essa jornada de escritas e publicações, Tenfen apresenta aos seus leitores – os atuais e os que ainda virão – um box intitulado Contos (editora La Ventana, 2010), reunindo os três livros publicados pelo autor no gênero, O Impostor (1999), Mistérios, Mentiras e Trovões (2002) e Casa Velha Night Club (2009), um projeto muito bem desenvolvido que vem para reforçar o domínio da narrativa conduzida pelo autor.
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Nada melhor do que uma releitura para de fato ler com propriedade algo. E as releituras dos contos de Maicon Tenfen reforçam a condução que o texto exerce sobre o leitor. Seja pela temática abordada, de narrativas urbanas e interioranas carregadas de suspense, seja pelo próprio suspense criado durante o conto. É desta forma que o autor conduz a leitura. A partir de um texto que convida o leitor a não largá-lo senão com a mesma finalizada.
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E nessa proposta há uma outra inovação de escrita. Há uma expansão dos limites de gêneros apresentados pela literatura. O que é um conto é também apenas um recorte de uma trama maior. As histórias de O Impostor, mesmo que não se liguem necessariamente, já apresentam uma condução narrativa e temática que leva o leitor a um ir e vir na leitura. Um ler de rota alterada. Um ler de dois em dois. Avançar sob as páginas, e voltar a elas também. Conhecer o impostor do primeiro conto e pensá-lo no impostor do último conto. Aventurar-se nas diabruras infantis da arte de voar ou nas coceiras corpóreas que corroem os adolescentes. Sem deixar de fora os "rurais" crimes de Noé Gonçalves e a vergonha de um filho perante o pai, ou o contrário.
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Porém, é com Mistérios, Mentiras e Trovões que Tenfen desconstrói a estrutura de um livro de contos sem ligação entre si. Todos os contos se passam na bucólica cidade de Bocaina (ingênuo nome relacionado ao adjetivo?), onde causos se espalham como rastilho de pólvora. A própria condução do tempo na narrativa é um piscar de olhos. Tudo acontece num curto espaço de nem 12 horas. O raiar de um dia é elo entre personagens tão díspares, como uma misteriosa moça, proveniente de cidade grande, ou uma outra, ingênua, moradora da própria Bocaina, seduzida por um homem "repórter de um jornal local", de quem ninguém desconfia, mas que ao final da história revela-se algo mais do que um simples jornalista. Sem deixar de contar do prefeito e de seus tantos segredos, e de um pistoleiro contratado para a tarefa de vingar o nome do coronel, além de uma misteriosa mulher que dirige um Maverick vermelho de capota branca. Personagens presentes nos contos do início e nos contos do final. Ou, podemos dizer, nos recortes de uma história só, apresentada em fragmentos ao leitor.
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E, por fim, em Casa Velha Night Club oito narrativas com um quê em comum, amarradas por um narrador as conduzindo em tom de diálogo com o leitor, quase como um monólogo apresentado em forma de escrita. Personagens enigmáticos. Tramas bem urdidas. Ruas estreitas e localidades misteriosas a serem desbravadas. A história em sua fugacidade máxima. Aquilo que aparece e desaparece num piscar. Que interroga o leitor: mas será que é isso mesmo? Que convida ao ato de reler: preciso voltar e esclarecer isto.
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As histórias de Tenfen aproximam o leitor do objeto livro. Despertam um querer mais, um desejo de que a história seguinte seja tão boa quanto a anterior. Propiciam, ainda, a surpresa de reencontrar personagens e lugarejos. A crença na força da narrativa aí se faz presente. Um presente ao sujeito-leitor, um prisioneiro feliz por esta condição, enredado nas possibilidades de uma trama bem contada e, mais do que isso, que conquista pela própria escrita, pela palavra em seu estado bruto de enunciar algo.
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Ítalo Puccini, Professor de Literatura para as séries finais do ensino fundamental em Jaraguá do Sul.

5 comentários:

Atriz disse...

vi agora em meu mail e vim aqui prestigiá-lo e parabenizá-lo por mais este belo trabalho.

que xik, tenho um amigo blogueiro famoso! rsrs

bj, sucesso sempre!! Gisele

Enzo Potel disse...

Italo!
ça va?
só um a parte aqui, à procura de novas percepções: você realmente cogita a existência do intermediário "novela", entre conto e romance?
não consigo. Parece que só no Brasil existe isso. Katherine Mansfield, a maior contista de língua inglesa, escrevia contos com 50 páginas. aliás, no inglês, é short fiction (conto) ou novel (romance), não existe um meio termo aí.

eu acho que isso nasce de uma necessidade inútil de rotular criações literárias. porque quando chega um borges, um calvino, uma lispector - elevando a escrita ao máximo - todo mundo vacila quando tenta catalogar.

abraçon!

Enzo Potel disse...

aliás o Cristiano Moreira, quando vai falar que um livro é infantil, até dá uma risadinha - porque se é bom, é de todos!

Í.ta** disse...

taí, enzo,
tuas colocações me fizeram pensar mesmo nessa nomenclatura na qual nos agarramos.

confesso que durante a escrita da resenha não me ative a este detalhe.

enriquecedora tua leitura.

e teus exemplos, mais ainda.

abraçón!

Í.ta** disse...

ah, só me explica este "ça va".

rsrs