quinta-feira, 27 de maio de 2010

há livros e livros, não?

o záia, professor izaias de souza freire, amigo meu, e também blogueiro, publicou artigo pra lá de interessante no jornal anotícia da quarta-feira que passou. taqui o link para o texto no jornal. taqui o blog dele. e taqui o texto dele, abaixo. há livros e livros, não?
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A escola e a desonestidade
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Na condição de professor e de cidadão, causou-me imenso aborrecimento a publicação de um livro do comediante Danilo Gentili lançado ano passado sob o título Como se tornar o pior aluno da escola. O livro é uma apologia às praticas de desonestidade na escola. Genilli ensina como colar nas provas, fingir doenças para faltar às aulas, espalhar fofocas e comportamentos do gênero. No mês de abril o ministério público avaliou que o livro seria inadequado para menores de 18 anos e decidiu colocar um selo de advertência na capa.
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Tenho sérias dificuldades de lidar com o tema da censura, mas idéias como estas que contribuem para a naturalização de práticas de corrupão numa cultura sobejamente farta desses vícios como a nossa, precisam ser duramente combatidas. O mesmo se aplica a idéias que incitam o racismo e outras formas de degradação do ser humano. Numa democracia as idéias só deveriam ter livre circulação quando não conspirassem contra o bem comum ou contra valores tidos como universais.
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O livro de Gentili é uma exaltação ao velho “jeitinho brasileiro”. Um mal que se estende das práticas cotidianas às velhas práticas políticas de suborno, compra de votos, mensalinhos e mensalões que se perpetuam na vida política do país. É sempre bom lembrar em ano de copa do mundo que não somos apenas campeões de futebol, mas também de corrupção, e isso não deveria ser nenhum motivo de orgulho. Estas práticas tem longa história entre nós e de tão arraigadas no dia-à-dia, chegamos ao ponto de concebê-las como algo pertencente a uma suposta “natureza humana”. É papel do educador combatê-las, desnaturalizá-las. Se nossa polícia é uma das mais corruptas do mundo, é preciso lembrar aos nossos alunos que ela é composta por membros da sociedade a qual fazemos parte e não de um grupo de alienígenas que cairam de pára-quedas por aqui, o mesmo se aplica aos políticos.
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Tenho estalecido em minha prática pedagógica um combate a esses vícios que se manifestam no cotidiano escolar, lugar onde eles começam a dar os primeiros sinais nas práticas de plágios, de furar a fila, de colar na prova, pequenos deslizes que acabam se estendendo à vida adulta numa fraqueza de caráter a qual estamos muito bem familiarizados. A sociedade brasileira é corrupta e mudar isso depende de todos nós. Depende do exemplo dos pais dado aos seus filhos, depende do papel da mídia em continuar denunciando os maus políticos, depende da escola, depende da sociedade civil.
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O autor do livro disse em entrevista a uma importante revista de circulação nacional ter sido o pior aluno da sala. Ao ser perguntado sobre sua popularidade na escola, Gentili responde que sempre foi popular entre os idiotas. Isso é péssimo. Uma publicação como esta endereçada ao público jovem é nociva, e pior, parte de um sujeito capaz de influências, de alguém que está na mídia. Uma atitude que preconiza uma pedagogia da desonestidade, que no mínimo, se constitue num insulto ao bom senso. A “obra” já vendeu 13 mil exemplares e o autor comemora o selo colocado na capa de seu livro pelo ministério público afirmando que “venderá muito mais”, numa clara referência ao poder que tem o anti-marketing diante de uma restrição ou censura.
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Izaias de Souza Freire é professor de história do Ensino Médio na Sociesc em Joinville.e-mail: sr_iluminista@hotmail.com
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í.ta**

7 comentários:

Eduardo Silveira disse...

Aix, como me irrito tbém com livros como esse. A crítica do Izaías é pertinente. Quanto ao tom malandro/idiota que o livro do Danilo Rudilii, digo, Gentilli traz, isso esbarra na questão do humor. são muitas as piadas (e livros) cheias de preconceito ou então tema nada agradáveis pra quem tem mais de um neurônio na cabeça, mas de outro lado, tem-se os humoristas:boa parte deles se une, e defende a liberdade de expressão no humor, ainda que liberdade de expressão signifique - e esse livro é um exemplo - permissão para publicar um besteirol. Não há como evitar a publicação. Como o proprio Izaias lembra, esses livros costumam estar revestidos por forte marketing.
Há livros e livros. vamos, pois, cuidar dos nossos, daqueles que realmente dizem algo, e ignorar aqueles que são um depósito de.... é disso aí mesmo.
E se falamos de professores, a importância cresce. Que sejam todos como o autor do artigo, que haja revolta, e que essa revolta contra esses pseudo-livros seja transformada em aulas/conversas/debates para que os alunos se deem conta das grande porcarias publicadas por aí.

abraço!

Mary Sobre Tudo disse...

Parabens!!! seu blog é fantástico ,gostei muuuito.Sou apaixonada por livros,tenho uma pequena biblioteca em casa.Tambem sou professora,casada com a biologia ,mas amante da literatura.To seguindo.Meu blog é novo mas quando puder d uma passadinha no meu.Abç...

http://marysobretudo.blogspot.com/

Roberta Ávila disse...

Ai vou discordar muito agora. Todas as sociedades são corruptas, muito errado dizer sempre que brasileiro isso e aquilo, existe em todo lugar e é maior ou menor, acredito, dependendo dos mecanismos de punição e para se evitar.

Outra coisa, o Danilo Gentilli passa sim do ponto, mas tem um outro lado nessa história: sero pior aluno da escola é necessariamente ruim? Não se adaptar à escola é o fim do mundo então. Muita gente não se adapta à escola e tem sucesso na vida, como o próprio Danilo, meu pai e muitas outras pessoas que eu conheço.

Se na escola existe o plágio talvez seja por preguiça mas também porque o aluno não se identifica com a disciplina, não gosta, não quer aprender aquilo, é obrigado e depois nunca mais vai usar aquilo na vida. Defender que todos devam ser bons alunos nas escolas como elas são atualmente, em sua maior parte, é ignorar que as pessoas são diferentes. E é ótimo que sejam.

Enfim, acho que o Danilo Gentilli passa da linha às vezes, mas acho que não foi o caso e acho que muita gente tem baixa auto-estima por ser um mau aluno e não é má ideia alguém dizer: olha vc pode ser o pior aluno e ainda assim ser capaz de realizar coisas e de ser popular e bem sucedido.

Pronto, falei!

Bjos

Território Nenhum disse...

Obrigado Ítalo pelo espaço!

Vou fazer breves considerações sobre o que disse a Roberta.

Penso que sua argumentação passa por aquilo que chamo de naturalização destas práticas. Ou seja, se todas as sociedades são corruptas é porque deve existir algum mecanismo natural na constituição humana de propensão a corrupção e disto discordo frontalmente. Procuro partir de outra premissa, a cultural, àquela que se perpetua pelas práticas cotidianas e que passam de geração a geração.

Outrossim, em nenhum momento está dito no texto que em outras sociedades não exista corrupção, mas sim que o Brsil é um dos campeões no ranking. Não acredito que possamos acabar com a corrupção num passe de mágica, mas podemos combatê-la sim e ter esperança de diminuí-la daqui a algumas gerações como fizeram vários países de 1° mundo.

Quanto a forma de como Roberta procura justificar o plágio na escola, que me perdoe a impaciência, este tipo de argumento é parte dessa mentalidade tupiniquim da qual discordo. É preciso pensar que os indivíduos mudam e parar de achar que o mundo é assim mesmo ou porque a natureza nos fez assim ou deus ou seja lá o quer for...

abs

Izaias Freire

Regina Carvalho disse...

Pois eu gostaria de ler. Talvez seja ironia, sei lá! E pode servir de alerta para os professores - que precisam estar por dentro dessas coisas. Professores sofrem de excesso de moralismo, muitas vezes - e queremos demais ser sempre levados a sério - deveríamos,sim, mas não é assim a realidade. E precisamos estar preparados para o feijão,não para o sonho...
Vou ver se acho!Depois conto o que achei.
bj

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

E eu que julgava a forma de jornalismo do CQC como um todo pudesse traduzir politização com bom-humor e não perpetuar idiotices como estas do livro do Gentili... :(

G. F. Busnardo (Gui) disse...

Também discordo do texto e concordo com a Robeta Ávila.

Acho que devemos saber separar aquilo que é escrito para se tornar divertido daquilo que é escrito para se fazer. Essa é uma condição ou pensamento que a pessoa que está disposta a ler o livro deve ter, e acredito que tenha.

Quero ler o livro, e se tiver a oportunidade de encontrar o livro por aí, vou fazer isso. Mas não porque quero me tornar um mau aluno, mas sim porque quero me divertir com que está escrito lá.
Pode ser sim que ele (o Danilo) tenha exagerado. Pode - não li o livro ainda para afirmar.

E também acho que o livro tem seus pontos politicamente corretos. Só acho que eles não estão explícitos. Por exemplo: Ele pode não ter sido um bom aluno na escola, mas ainda assim conseguiu um bom emprego. Isso pode servir de estímulo aos maus alunos. Sem falar que, para conseguir o emprego que tem hoje, ele deve ter passado por uma faculdade. Ou seja: uma hora ou outra, ele teve que se dedicar aos estudos. Sem falar que, mesmo sendo um mau aluno, ele conseguiu entrar em uma faculdade. E por aí vai...

Tudo tem seu lado bom, se bem analisado for.