segunda-feira, 5 de abril de 2010

a escrita sobre livros e leituras

Há livros que não pedem uma leitura na íntegra logo num primeiro contato. Há livros que exigem uma leitura mais lenta, mais pausada, mais atenta (em seus detalhes e referências), e até mais espaçada no que diz respeito ao tempo que ela exige. Como é bom, por exemplo, “enrolarmos” com um livro, muito bem dividido em capítulos e temas, por meses? Como é bom o movimento de leitura-atropelada: lermos um capítulo aqui, outro acolá; voltarmos para algum trecho já lido; ou até, curiosos como somos, avançarmos aos capítulos finais (desde que não seja um romance, o que, presumivelmente, colocaria um fim a todo mistério e envolvimento com o livro). E não me refiro aqui a livros teóricos demais como os que são cobrados pelos cursos de graduação e de pós-graduação.
Minha referência é a livros como “Uma vida entre livros: reencontros com o tempo” e “O leitor apaixonado”. Dois livros sobre livros e leituras. Dois livros que escancaram seus autores aos leitores que os leem.
Autores estes que são, seguindo a ordem dos livros citados, José Mindlin e Ruy Castro.
Li, pois, estes dois livros-sobre-livros ao mesmo tempo. Propositalmente. Como se fossem um só. Duas leituras que se complementam.
“Uma vida entre livros”, escrito por José Mindlin, o maior bibliófilo brasileiro, é um convite a entrar na casa do autor e conhecer sua imensa biblioteca, de tanto que o leitor se sente bem durante a leitura. Uma leitura não só de palavras, mas de imagens, sim, e muitas. Uma riqueza todos os livros apresentados em imagem por Mindlin, este apaixonado pela leitura e pelo livro em si, enquanto objeto.
Mindlin, que morreu há poucos dias, conseguiu formar uma biblioteca, segundo ele, com pouco mais de um quilômetro de prateleiras. Ou seja, mais de 30 mil livros (é o que consta no livro, escrito em 1997. Li que, ao morrer, ele já tinha quase 40 mil, com cerca de 10 mil só de livros raros). Todos doados para a biblioteca da USP, parece-me.
A leitura de “Uma vida entre livros” não se faz interessante somente pelas imagens dos livros ali presentes, como também pelos relatos tão bem escritos pelo autor. Para cada livro mostrado, há uma história de como foi consegui-lo. E, ainda mais. Para muitos livros, além de contar como foi consegui-los, Mindlin descreve o que sentiu ao lê-los. Ao dispor do leitor, marcas leitoras de um apaixonado por livros.
E é nisto que “O leitor apaixonado”, escrito por Ruy Castro, aproxima-se do livro de Mindlin. Nas marcas leitoras de um apaixonado leitor tão compulsivo por livros quanto o outro.
Se Mindlin faz referência e apresenta livros e leituras de livros raros e, principalmente, de autores clássicos que marcaram sua formação como leitor (para citar alguns: Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Balzac, Cervantes, Dostoievsky, e Tolstoi), Ruy Castro convida o leitor a conhecer um pouco mais das produções de autores como Carlos Heitor Cony, Oswald e Mário de Andrade, Nelson Rodrigues, Paulo Francis, Gertrude Stein, Oscar Wilde e Herman Melville, por exemplo.
A escrita do “rei das biografias” é mais impessoal no sentido de que o foco dela recai muito mais nos autores e suas obras, do que nas sensações dele, Ruy Castro, ao ler tais obras. É possível conhecer muito sobre a vida de alguns autores nacionais e de outros países. As contextualizações de cada autor e de cada obra apresentadas por Castro apenas reforçam seu conhecimento biográfico de vários escritores.
São dois livros, estes aqui descritos, que levam a tantos outros livros. A um desejo incontrolável de se ler tudo o que seja possível, em um tempo tanto quanto impossível. Mas como fazer isto? De que forma dar conta? Lendo estes livros que levam a livros outros, estas leituras que levam a leituras outras, talvez seja uma possibilidade. Tornamo-nos, assim, leitores que levamos a outros leitores. Porque uma leitura nunca é algo isolado, por mais que ela com frequência aconteça de forma individual. Há sempre mais e mais livros que clamam por mais e mais leitores e leituras.
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í.ta**

8 comentários:

Léo Santos disse...

Então cumpristes o teu objetivo, pois, lendo tua indicação vou procurar os tais livros que pela explanação já sinto que são ótimos! Tenho muito a aprender contigo ô catarino!

Um abraço!

Nydia Bonetti disse...

Não lí nenhum dos dois, Ítalo. Preciso arrumar tempo. Quero ler muito e não consigo! Como você consegue? E tem toda razão: nenhuma leitura é algo isolado. Tudo chama por mais. Bom te ler! Beijo.

Camila F. disse...

É...De que forma dar conta de tantas leituras? rs

Sempre muito bom te ler, Íta! Difícil não ficar com vontade de ler os livros que vc indica. Vou atrás também.
Beijo

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

Belíssimo!!! Vou à cata!!! ;)

Território Nenhum disse...

Eita que inveja da biblioteca do Mindlin Italo! Só queria 10% deles...Li umas coisas parecidas do Harold Bloon e do Calvino há uns 3 anos atrás, mas as escolhas por uns em detrimento de outros autores como eles fazem, me parecem sempre arbitrárias. Mas tá valendo.

abração e obrigado pelas visitas e contribuições ao territorio nenhum.

Záia

A Moni. disse...

Ítalo, eu já te disse que é muito bom te ler? se não que fique aqui (bem) dito.

Gosto dessa propriedade, dessa fluidez de quem sabe o que quer dizer e diz de maneira crente, fiel e apaixonada ao que sente. Tanto aqui quanto no Ópio do Povo.

Lá eu diria até que há paixão demais...rs. Mesmo eu discordando tantas vezes, pois o rubro do meu coração não combina com o negro de jeito nenhum, que é pra não parecer flamenguista.rsrs. Mesmo assim é bom de ler, porque quem lê não procura um partidário, ao contrário, busca a diversidade. Se não fosse assim, redundaríamos sobre os nossos próprios escritos numa órbita sem graça, sem cor.

Fica claro que é bom te ler, porque você gosta de ler. Esse texto mostra esse gosto, a forma como partilha, numa felicidade de quem fez uma maravilhosa descoberta e precisa repartir desse sorriso e do brilho no olhar que eu aposto, também há.

É a maravilha dos livros. Eu também os adoro, suas histórias e eles próprios. os meus são todos marcados com lápis de cor, porque eu sempre retorno. Tem quem diga que isso é um crime, mas acho que é o mínimo que posso fazer. De tanto que eles deixam em mim, eu tinha que deixar algo meu neles. Vou doá-los, um dia, quando não puder mais lê-los...rs

Um beijo, querido. Obrigada sempre pelas visitas, pelos comentários tão carinhosos!

Lívia disse...

Nossa, eu adoro livros que fazem referência a outros livros e realmente você sente que nunca terá tempo de ler tudo. Ótima dica! =)
abs!

Bєzєяяɑ Guimɑŗãeร disse...

+ + +

Só falta o tempo.
Ano passado li muitos, mas este ano... sei que não consigo a mesma proeza - o que é uma pena.

Adorei a postagem.

Muito obrigada pela visita e comentários.



Beijos,
Ry.