terça-feira, 13 de abril de 2010

carta para roberta: a primeira


há uns dias já, roberta escreveu carta  no blog dela. carta pra mim e pra regininha. disse ela que, por ter metido o bedelho nas trocas entre mim e rê, achou por bem escrevinhar uma carta a nós dois. e uma senhora carta. mas eu nem acho que ela tenha metido o bedelho, não. achei foi muito bom ela ter contribuído para a conversa (assim como ela, outros três ou nove blogueiros fizeram o mesmo, participando do papo).
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pois eu gostei demais, demais da carta da roberta. e gostei porque, para apresentar o ponto de vista dela sobre a questão boa ou má literatura, o que ensinar ou não em sala de aula, ela resgatou a formação dela como leitora, dizendo sempre ter gostado de ler e que lia – e lê – o que mandam a ela, sem dor no coração, e ainda que parte da sua formação leitora vem do exemplo dos pais, leitores que sempre foram.
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se tem coisa que eu trabalho insistentemente com meus alunos é isto: a formação leitora deles. ao chegar à 5ª série, que leitores são eles? durante a 6ª e a 7ª séries, que leitores têm se formado ali? e na 8ª série, que leitor sairá dali para uma nova etapa da vida de estudante?
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caminham por aí as muitas conversas, leituras e produções feitas em sala, uma vez que eu acredito ser importantíssimo ao aluno conhecer a si próprio como leitor: o que leio hoje, o que tenho à disposição para ler, quem pode me orientar a novas leituras, pra que leio, onde isso poderá me levar. coisas assim. que nós, como professores, vamos plantando naquelas cabecinhas-quase-ocas (rsrs). nem sempre germina, não, sabemos. mas vezemquando sai lindos frutos dali.
tá, passada essa metáfora-quadrada, volto à carta da roberta. ou melhor, a partir da carta da roberta, volto à minha formação como leitor. uma formação que começou tardia já. passei a ler, mesmo, ler por vontade própria, indo atrás do que me interessava e tudo o mais, só no ensino médio. ali pelos catorze, quinze anos. foi quando engatei uma segunda marcha e não parei mais.
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não tive incentivo em minha formação leitora. meus pais são leitores. leitores, principalmente, de jornais. o que não faltou nunca lá em casa foram jornais. depois revistas. depois livros. agora há mais livros do que tudo, pois além de leitor compulsivo, sou comprador compulsivo de livros. e de assinaturas de jornais e de revistas também. mas tento me controlar, embora nem sempre obtenha êxito.
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não era leitor de livros literários quando pequeno, não. ali quando guri, dos dez aos treze anos, lia muito sobre futebol. mas muito mesmo. jornais e revistas (ainda não tinha acesso à internet, naquela época). fiz coleção de revistas placar. depois, agora já maior e mais chato, passei tudo adiante. nem lembro pronde. mas fora tomei o cuidado de não deixar ir...
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e foi a leitura de tantas coisas sobre futebol que me levou aos livros. ainda sobre futebol. e daí é que me perco todo. pois não há quase que relação nenhuma entre livros de futebol e livros de literatura, mas foi este o caminho que segui. não me perguntem como nem por quê. simplesmente meti a cara nas histórias de sidney sheldon, danielle stell e agatha cristhie, e não parei mais. toda essa balaiada de escritores de língua inglesa eu encarei, paralelamente a outra balaiada de romances espíritas.
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até que comecei a faculdade de letras, e daí entrei nos autores nacionais. primeiro nos clássicos, depois nos contemporâneos, e daí não larguei mais. indo e vindo entre os dois. misturando tudo. foi quando conheci também autores portugueses que me marcam até hoje, como os heterônimos de pessoa e o saramago. e é assim até hoje, mas agora com mais leituras acadêmicas acumuladas, fruto das pesquisa nas quais me meti – e continuo me metendo – durante a faculdade.
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daí que entendo essa coisa de ser um leitor diletante, conforme classificação apresentada num posts abaixo (link). já tive essa fase de ler o que era muito falado, de ler sem indicação. hoje não consigo. a linguagem dos best-sellers, por exemplo, me enoja. a formulazinha pronta para prender o leitor a mim não prende. hoje gosto mais do texto escrito com mais cuidado, do texto que exige mais do sujeito-leitor.
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são fases. acredito muito, muito nisso. nos leitores que somos durante a vida. e são muitos. por isso que insisto, com os alunos, nesse pensar e repensar os leitores que já foram, os leitores que são, e os leitores que podem vir a ser. por isso insisto no caminho de ler com eles, e não de obrigá-los a ler. leitura orientada. a leitura, para gerar prazer, precisa ser ensinada. precisa ser mostrada em suas múltiplas possibilidades. precisa ter sempre um final inacabado, uma vontade de querer mais, um desejo. nenhuma leitura pode acabar nela mesma. é acreditando nisso que vou tentando formar novos leitores conscientes dos leitores que são. e, para isto, nada melhor do que esse repensar constante do leitor que se é.
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í.ta**

12 comentários:

Regina Carvalho disse...

Ih,lá vamos nós traveis, hehehe...Tá me dando cócegas!
bj

Gabriel Gómez disse...

Que foto é essa? O tempo te melhorou... Igual que a um bom clássico. Abraço.

Valdir Appel disse...

Regina e Italo, tamoaí na platéia pra bater palma.

Robson disse...

4/15/2010
Reversos



O poeta tem que rir mar!


Solarizar a lua!


Queimar sem fogo!


Voar sem pena!


Estranhar o normal!


O poeta mente a verdade!


Revela com químico próprio!


Ri de si, num gaguejar constante...


...enquanto:


Portas com aeromoças.


Postos com aeroviários.


Câmeras sem cinema.


Tiros sem alvo.


As falas dos outros.


Os cursos dos moços.


Palavras da hora.


Ponteiros do jogo.


As vias são leitos do mesmo rio.


Os leitos querem margens.


Notas falsas fecham portas.


Motes frágeis abrem postos.
Postado por Robson

Nydia Bonetti disse...

Adoro esta troca de cartas. Que bom ser apenas a primeira - outras virão. :) Abraço, Ítalo.

Lara Amaral disse...

Obrigada pelos comentários lá no Teatro. Feliz com sua presença! =)

Beijo.

Simplesmente Outono disse...

Postei algumas poucas palavras ou quem sabe até fiz do meu Outono o meu próprio confessionário.
Quando puder leia e se quiser, fique à vontade para registrar o teu pensamento.
Minhas folhas com carinho, SEMPRE!
Simplesmente Outono.
Ps.: Sua ausência continua sendo sentida. Uma hora me acostumo.

Roberta Ávila disse...

Oi íta, agora sim, reestabelecida, vamos lá! Sabe que sua carta me surpreendeu muito! Eu nunca pensei que a gente refletir sobre o tipo de leitor que a gente é fosse essencial para a mudança nesse sentido, mas sim a gente refletir sobre o tipo de leitor que a gente quer ser, que se for ver, é quase a mesma coisa que refletir sobre o tipo de pessoa que a gente quer ser, não acha?

Bjo!

Kyria disse...

Ítalo, tudo bem?
Concordo plenamente com você. Orientação para a boa literatura é fundamental, depois cada qual escolhe o seu caminho. Boa ou não tão boa leitura, ler ou não ler e por aí vai.
Adoro ler quase tudo e moraria com tranquilidade em uma biblioteca. Morro de ciúmes dos meus livros e atualmente depois que vários foram e não voltaram não estou gostando nadinha de emprestá-los. Prefiro comprar a pegar carona no livro do outro.
Sempre lí muito, sou de pouca televisão, mas escrevo mal. Gostaria bastante de aprender a me expressar com "letras" e partir para criar literatura infantil (com direito a ilustração, fotografia), contos, poesias. Vou deixando esta vontade sempre para depois e nunca me sinto a altura de escrever por aí afora.
Acostumei os meus filhos com os livros, bem selecionados, desde pequenininhos.
O caçula de 6 anos adoora mas o de 12 não quer mais nem saber e não encontro maneira de motivá-lo, embora seja inteligente e criativo. Atualmente histórias com finais indefinidos e que podem ser concluídos pelos próprios leitores o atrai mais.
Sempre fui ótima em interpretação de texto, já o meu filho que escutou histórias e leu até os 11 anos não se sae tão bem.
Enfim, fiz um comentário tipo salada mista, espero ter deixado minhas idéias.
Um grande abraço

Simplesmente Outono disse...

Obrigada por não me acostumar com tua ausência. Adorei tua visita.
Não suma por tanto tempo assim. Gosto de te "ver" por lá.
Com o mesmo carinho de sempre.
Simplesmente Outono.

Maeles Geisler disse...

o prazer da leitura invade os sentidos alheios como um perfume. por mais que você não goste dessa essência ela domina.

Abraços
Maeles

Eduardo Silveira disse...

Gabriel tem razão: na foto parece um irmão seu mais velho e gordo. Teu pai! haha :P
Pô, Italo, o post tava tão bom... :D

Abraço!