quinta-feira, 29 de abril de 2010

entre escrever, criticar e comentar

"Pero ¿qué conseguimos comentando las obras de otros autores, se pregunta Blanchot? ¿Qué conseguimos comentando otros comentários? La repetición no es imitación, la repetición añade siempre algo nuevo, añade lo que no dice la obra, lo que ha tenido que callar para poder producirse. Ésta sería una razón, ¿seria también su justificación? Pero ¿por qué habría de justificarse el comentario de obras que se reconocen y se definen como injustificables? ¿Acaso la respuesta a la pregunta de por qué comentar no sería la misma, caso de haber alguma, que la de por qué escribir? ¿No será tal vez la escritura más que un eterno, interminable, comentario?"
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Manuel Arranz, prólogo entitulado "Blanchot, La literatura y la muerte", do livro "Los intelectuales en cuestión", de Maurice Blanchot, Éditions Farrago, Tours, 2001.
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í.ta**

terça-feira, 27 de abril de 2010

para uma resposta...

gosto por demais da escrita da clotilde zingali. acompanho os escritos dela no blog, nas crônicas de quinta-feira do jornal anotícia, e nos livros que ela já publicou.
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tem um texto, do livro "bricolagens para geladeira", de que gosto muito. um texto que vezemquando releio. sempre naquela de escrever mesmo uma resposta para ele. mas minhas confusão de fazer mil coisas ao mesmo tempo me atrapalha nisso.
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então taí o bichinho. para quem interessar, vale o rabisco de uma resposta, não vale? vale postar aqui nos comentários, vale postar em outro blog, sei lá. sei que vale uma organizaçãozinha que eu inda não tive para um rabisco-resposta assim.
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“Escrevo-te às duas da tarde, não tem sol lá fora e aqui o som das teclas permeia a música ao fundo. Queria que soubesse de meus dias, vezes êxtase, outros madeira em chamas, outros ainda, chuvarada. Hoje não sinto aquela febre do outro dia. Penso que aquele calor fez-se palavra e desfez-se nas que proferi. Escrever é anti-histamínico doutores! mas, sabe aquela tatuagem que fiz um dia na praia? Ela escreve em meu corpo lembranças daquele dia entre outras tantas... e sabe? Não enxergo meu corpo sem ela e vezes, converto-me toda naquele desenho – sou uma espécie estranha de ovíparo – fecundada, transfiro as sementes para serem gestadas, sou frágil e solitária e acham-me afrodisíaca...qual o quê! Você sabe de minhas covardias e é bom que divido as tuas. Trocamos peso, não é? Nossas expressões moldadas não escondem a ânsia que por sua vez ou outra se atravessa, não escondem a saia justa e as notas fora do compasso. Sabe que agora já sei diferenciar compasso binário de ternário e quaternário? Bom, vou me despedindo que me apressam outras urgências. Conte-me de você. Saudade”.
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ítalo.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

uma editora que não é uma editora...

dois livros que se propõem a ser mais do que dois livros.
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Há tempo já, fins do ano passado, li dois livros de uma editora nova no mercado de livros. Uma editora contraditória em seu nome: “Não Editora”. Isto mesmo, o nome da editora é “Não Editora”. E ainda, na primeira página de cada livro editado, há a frase “Isto não é uma editora”, com as palavras “não” e “editora” em fontes maiores.
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Enfim, uma contradição proposital, é claro, cujo significado não consegui entender. O que não interferiu em nada, é verdade, nas leituras que fiz. Depois é que me caiu a ficha de buscar no google algo sobre este nome, e encontrei o seguinte texto (os negritos não são meus):
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Isto não é uma editora. É um gatilho. É um rádio-relógio. É um ônibus espacial.
Tudo começou com o cachimbo. O cachimbo de Magritte na obra A traição das imagens. Na tela, o desenho de um cachimbo com a inscrição em francês: “Isto não é um cachimbo”. E, oras, não era mesmo. Era a imagem de um cachimbo.
Somos traídos pelas imagens todos os dias. Quando nos apaixonamos não caímos de amores pela pessoa, mas pelos pedaços de nós mesmos que encontramos nela. Quando essa identificação passa e começamos a perceber nossas diferenças com o ser amado, dói. Mas quando o relacionamento amadurece, percebemos que amamos também o que faz dessa pessoa um ser único.
A Não Editora quer que seus leitores sejam traídos. Que eles se apaixonem por um pedaço de si mesmos que viram em nossos livros ou personagens. Que se identifiquem com a editora, imaginando que ela é como qualquer outra que viram antes. E, depois, percebam o autoengano. Para começarem a ver, aqui e ali, as diferenças em nossas publicações e no visual de nossos livros. Incorporando, também em suas vidas, a fuga do que é estanque, dos conceitos pré-estabelecidos e da fórmula repetitiva.
Assim como a tela é a manifestação do pintor, que contém os seus pensamentos e contestações, o livro deve ser um meio para os escritores e suas obras. Por isso, valorizamos o design de nossos livros, fazendo com que eles reflitam a qualidade do texto que estamos oferecendo aos leitores. Queremos que o nosso público não tenha vergonha de assumir que julga o livro pela capa. E por que não?
Isto não é uma editora. É o disparo. É o despertar. É o empuxo". (aqui: http://www.naoeditora.com.br/)
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Taí, então, o porquê de tal nome. Uma nova editora, com uma ideia, digamos, original. Dando a cara a tapa. Ao menos não será mais uma editora de best-sellers ou livros de auto-ajuda, o que já é grandiosíssima coisa.
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O fato é que os dois livros que li, de um total de poucos já lançados por esta Não Editora (13, segundo o catálogo deles no site), são muito bem escritos. São propostas de texto contemporâneo mesmo, um texto meio sem começo nem meio nem fim, mas que pega o leitor de jeito nessa falta de parâmetro. Uma falta tão proposital quanto do nome da editora, penso.
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O primeiro que li, “Pó de parede”, de uma escritora porto-alegrense, Carol Bensimon, é um livro pra lá de bom em se tratando de livro de estreia de um autor. E não só por ser livro de estreia desta novata (em idade também, uma vez que nasceu em 1982) escritora que o livro é bom, não. É bom porque é bem escrito, porque a narrativa é conduzida com precisão, e porque o leitor se sente atraído pela(s) história(s). É quando a narrativa conduz a relação livro-leitor mesmo.
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São três histórias que compõem “Pó de parede”: “A caixa”, “Falta céu” e “Capitão Capivara”. Três histórias com quase nada em comum. Três histórias com personagens muito diferentes uns dos outros, com situações vividas também muito diferentes, mas com um ponto em comum: a moradia. A questão do lar, da estrutura familiar, é muito bem escancarada nas três histórias. Daí eu associo ao nome do livro. O pó que fica de cada parede de cada divisória de cada casa. O pó que fica de cada relação (des)construída.
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Um livro de histórias curtas e precisas. Histórias densas e que chegam até a incomodar. Mas a literatura é isso também, sim, um incômodo, algo que desestrutura o leitor. A narrativa de Carol Bensimon leva a isto. Ao menos me levou.
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O outro livro que li tem por nome “Areia nos dentes”, do escritor Antônio Xerxenesky. Um romance curto. Quase um conto, mas não um conto. Durante a leitura, lembrei-me da Regininha e do Cormac McCarthy, uma vez que o texto se passa no velho oeste, no caso específico, a fronteira dos EUA com o México, em fins do século 19, envolvendo amor, morte, tiros e zumbis. Uma declaração do próprio Xerxenesky leva a entender isto: “Somente depois de ler Cormac McCarthy que vi que era possível uma literatura que rompesse a obviedade e as limitações de trabalhar-se com o gênero faroeste. A mescla com o horror (no caso, os filmes de zumbis) também veio por meio dessas paixões naturais”.
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Um faroeste. Uma escrita entre-cortada. Feita de brechas. Uma leitura idem.
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“Areia nos dentes” pode ser a história da busca de um pai para vingar a morte de seu filho (assassinato), como pode ser também a história de zumbis habitando uma localidade pequena. Algo próximo à ideia de estratégias narrativas sinalizadas por Piglia, de uma história de frente e uma de fundo. O texto propondo ao leitor leituras várias. O livro que instiga, que prova a inteligência do leitor.
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í.ta**

terça-feira, 13 de abril de 2010

carta para roberta: a primeira


há uns dias já, roberta escreveu carta  no blog dela. carta pra mim e pra regininha. disse ela que, por ter metido o bedelho nas trocas entre mim e rê, achou por bem escrevinhar uma carta a nós dois. e uma senhora carta. mas eu nem acho que ela tenha metido o bedelho, não. achei foi muito bom ela ter contribuído para a conversa (assim como ela, outros três ou nove blogueiros fizeram o mesmo, participando do papo).
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pois eu gostei demais, demais da carta da roberta. e gostei porque, para apresentar o ponto de vista dela sobre a questão boa ou má literatura, o que ensinar ou não em sala de aula, ela resgatou a formação dela como leitora, dizendo sempre ter gostado de ler e que lia – e lê – o que mandam a ela, sem dor no coração, e ainda que parte da sua formação leitora vem do exemplo dos pais, leitores que sempre foram.
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se tem coisa que eu trabalho insistentemente com meus alunos é isto: a formação leitora deles. ao chegar à 5ª série, que leitores são eles? durante a 6ª e a 7ª séries, que leitores têm se formado ali? e na 8ª série, que leitor sairá dali para uma nova etapa da vida de estudante?
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caminham por aí as muitas conversas, leituras e produções feitas em sala, uma vez que eu acredito ser importantíssimo ao aluno conhecer a si próprio como leitor: o que leio hoje, o que tenho à disposição para ler, quem pode me orientar a novas leituras, pra que leio, onde isso poderá me levar. coisas assim. que nós, como professores, vamos plantando naquelas cabecinhas-quase-ocas (rsrs). nem sempre germina, não, sabemos. mas vezemquando sai lindos frutos dali.
tá, passada essa metáfora-quadrada, volto à carta da roberta. ou melhor, a partir da carta da roberta, volto à minha formação como leitor. uma formação que começou tardia já. passei a ler, mesmo, ler por vontade própria, indo atrás do que me interessava e tudo o mais, só no ensino médio. ali pelos catorze, quinze anos. foi quando engatei uma segunda marcha e não parei mais.
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não tive incentivo em minha formação leitora. meus pais são leitores. leitores, principalmente, de jornais. o que não faltou nunca lá em casa foram jornais. depois revistas. depois livros. agora há mais livros do que tudo, pois além de leitor compulsivo, sou comprador compulsivo de livros. e de assinaturas de jornais e de revistas também. mas tento me controlar, embora nem sempre obtenha êxito.
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não era leitor de livros literários quando pequeno, não. ali quando guri, dos dez aos treze anos, lia muito sobre futebol. mas muito mesmo. jornais e revistas (ainda não tinha acesso à internet, naquela época). fiz coleção de revistas placar. depois, agora já maior e mais chato, passei tudo adiante. nem lembro pronde. mas fora tomei o cuidado de não deixar ir...
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e foi a leitura de tantas coisas sobre futebol que me levou aos livros. ainda sobre futebol. e daí é que me perco todo. pois não há quase que relação nenhuma entre livros de futebol e livros de literatura, mas foi este o caminho que segui. não me perguntem como nem por quê. simplesmente meti a cara nas histórias de sidney sheldon, danielle stell e agatha cristhie, e não parei mais. toda essa balaiada de escritores de língua inglesa eu encarei, paralelamente a outra balaiada de romances espíritas.
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até que comecei a faculdade de letras, e daí entrei nos autores nacionais. primeiro nos clássicos, depois nos contemporâneos, e daí não larguei mais. indo e vindo entre os dois. misturando tudo. foi quando conheci também autores portugueses que me marcam até hoje, como os heterônimos de pessoa e o saramago. e é assim até hoje, mas agora com mais leituras acadêmicas acumuladas, fruto das pesquisa nas quais me meti – e continuo me metendo – durante a faculdade.
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daí que entendo essa coisa de ser um leitor diletante, conforme classificação apresentada num posts abaixo (link). já tive essa fase de ler o que era muito falado, de ler sem indicação. hoje não consigo. a linguagem dos best-sellers, por exemplo, me enoja. a formulazinha pronta para prender o leitor a mim não prende. hoje gosto mais do texto escrito com mais cuidado, do texto que exige mais do sujeito-leitor.
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são fases. acredito muito, muito nisso. nos leitores que somos durante a vida. e são muitos. por isso que insisto, com os alunos, nesse pensar e repensar os leitores que já foram, os leitores que são, e os leitores que podem vir a ser. por isso insisto no caminho de ler com eles, e não de obrigá-los a ler. leitura orientada. a leitura, para gerar prazer, precisa ser ensinada. precisa ser mostrada em suas múltiplas possibilidades. precisa ter sempre um final inacabado, uma vontade de querer mais, um desejo. nenhuma leitura pode acabar nela mesma. é acreditando nisso que vou tentando formar novos leitores conscientes dos leitores que são. e, para isto, nada melhor do que esse repensar constante do leitor que se é.
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í.ta**

quinta-feira, 8 de abril de 2010

misturando. e marcando. e rabiscando.

um escrito bagunçado, já aviso. 
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estou cá no apê da regininha. hoje teve lançamento do novo livro do gabriel gómez, "cerimônias do silêncio", na livraria "livros e livros", no centro da capital do estado.
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como toda quinta-feira estou cá em floripa, na ufsc, fazendo uma disciplina do mestrado como aluno especial, resolvi ficar por aqui, para prestigiar o gabriel, revê-lo, dar um abraço nele, parabenizá-lo por mais um "rebento". aí, gentilmente, regininha acolheu-me. volto amanhã pela manhã com joão chiodini e carlos "xireda" pra xarraguá.
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depois do lançamento, e de algumas biritas no bar, voltamos, eu e rê, pra cá, pro devido sono. ela já se foi. eu cá fiquei na net, nos blogs, nos sites de informação. vício. ah, e nos e-mails, claro. 
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pois foi lendo os e-mails e fuçando os blogs que vi comentário da moni no post anterior que fiz, sobre os livros do mindlin e do castro. e amei um trechinho do comentário da moni, em especial. este aqui, ó: "É a maravilha dos livros. Eu também os adoro, suas histórias e eles próprios. os meus são todos marcados com lápis de cor, porque eu sempre retorno. Tem quem diga que isso é um crime, mas acho que é o mínimo que posso fazer. De tanto que eles deixam em mim, eu tinha que deixar algo meu neles. Vou doá-los, um dia, quando não puder mais lê-los...rs".
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encantei-me com tal comentário. porque sou tão rabiscador de livros quanto ela. e sou tão relax para isso quanto ela. e brigo tanto com quem defende que em livros não se pode escrever, quanto ela (quer dizer, não sei se ela briga, mas sou ranzinza com isto, sim). 
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aí, pra misturar bem as coisas, recordo-me do gabriel, e dos tantos e tantos livros autografados que ele tem. e do quanto ele valoriza isso (e eu também, muito). o rabisco do autor no livro do leitor. e é um rabisco, como o rabisco do leitor no próprio livro. essa conversa que por meio de uma nova escrita o leitor estabelece com o livro. e até com um futuro leitor daquele livro. um redemoinho no qual nos deparamos com a ausência de autoridade já. no qual todos nos tornamos autores e leitores. e por aí que as práticas de leituras podem caminhar. 
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e por aí que ficam registradas essas misturas de comentários, dizeres, escritos e leituras.
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í.ta**

segunda-feira, 5 de abril de 2010

a escrita sobre livros e leituras

Há livros que não pedem uma leitura na íntegra logo num primeiro contato. Há livros que exigem uma leitura mais lenta, mais pausada, mais atenta (em seus detalhes e referências), e até mais espaçada no que diz respeito ao tempo que ela exige. Como é bom, por exemplo, “enrolarmos” com um livro, muito bem dividido em capítulos e temas, por meses? Como é bom o movimento de leitura-atropelada: lermos um capítulo aqui, outro acolá; voltarmos para algum trecho já lido; ou até, curiosos como somos, avançarmos aos capítulos finais (desde que não seja um romance, o que, presumivelmente, colocaria um fim a todo mistério e envolvimento com o livro). E não me refiro aqui a livros teóricos demais como os que são cobrados pelos cursos de graduação e de pós-graduação.
Minha referência é a livros como “Uma vida entre livros: reencontros com o tempo” e “O leitor apaixonado”. Dois livros sobre livros e leituras. Dois livros que escancaram seus autores aos leitores que os leem.
Autores estes que são, seguindo a ordem dos livros citados, José Mindlin e Ruy Castro.
Li, pois, estes dois livros-sobre-livros ao mesmo tempo. Propositalmente. Como se fossem um só. Duas leituras que se complementam.
“Uma vida entre livros”, escrito por José Mindlin, o maior bibliófilo brasileiro, é um convite a entrar na casa do autor e conhecer sua imensa biblioteca, de tanto que o leitor se sente bem durante a leitura. Uma leitura não só de palavras, mas de imagens, sim, e muitas. Uma riqueza todos os livros apresentados em imagem por Mindlin, este apaixonado pela leitura e pelo livro em si, enquanto objeto.
Mindlin, que morreu há poucos dias, conseguiu formar uma biblioteca, segundo ele, com pouco mais de um quilômetro de prateleiras. Ou seja, mais de 30 mil livros (é o que consta no livro, escrito em 1997. Li que, ao morrer, ele já tinha quase 40 mil, com cerca de 10 mil só de livros raros). Todos doados para a biblioteca da USP, parece-me.
A leitura de “Uma vida entre livros” não se faz interessante somente pelas imagens dos livros ali presentes, como também pelos relatos tão bem escritos pelo autor. Para cada livro mostrado, há uma história de como foi consegui-lo. E, ainda mais. Para muitos livros, além de contar como foi consegui-los, Mindlin descreve o que sentiu ao lê-los. Ao dispor do leitor, marcas leitoras de um apaixonado por livros.
E é nisto que “O leitor apaixonado”, escrito por Ruy Castro, aproxima-se do livro de Mindlin. Nas marcas leitoras de um apaixonado leitor tão compulsivo por livros quanto o outro.
Se Mindlin faz referência e apresenta livros e leituras de livros raros e, principalmente, de autores clássicos que marcaram sua formação como leitor (para citar alguns: Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Balzac, Cervantes, Dostoievsky, e Tolstoi), Ruy Castro convida o leitor a conhecer um pouco mais das produções de autores como Carlos Heitor Cony, Oswald e Mário de Andrade, Nelson Rodrigues, Paulo Francis, Gertrude Stein, Oscar Wilde e Herman Melville, por exemplo.
A escrita do “rei das biografias” é mais impessoal no sentido de que o foco dela recai muito mais nos autores e suas obras, do que nas sensações dele, Ruy Castro, ao ler tais obras. É possível conhecer muito sobre a vida de alguns autores nacionais e de outros países. As contextualizações de cada autor e de cada obra apresentadas por Castro apenas reforçam seu conhecimento biográfico de vários escritores.
São dois livros, estes aqui descritos, que levam a tantos outros livros. A um desejo incontrolável de se ler tudo o que seja possível, em um tempo tanto quanto impossível. Mas como fazer isto? De que forma dar conta? Lendo estes livros que levam a livros outros, estas leituras que levam a leituras outras, talvez seja uma possibilidade. Tornamo-nos, assim, leitores que levamos a outros leitores. Porque uma leitura nunca é algo isolado, por mais que ela com frequência aconteça de forma individual. Há sempre mais e mais livros que clamam por mais e mais leitores e leituras.
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í.ta**

sexta-feira, 2 de abril de 2010

tipologias de leitores

Tava eu lendo umas coisitas teóricas sobre práticas de leitura e sobre a questão dos professores serem, ou não, sujeitos-leitores, quando me deparei com um texto em que a autora, com um embasamento teórico bem apresentável, indica uma “tipologia de leitores”, na qual ela classifica os professores participantes da pesquisa dela em “grupos de leitores”. Algo bem interessante de se pensar, nos tipos de leitores que somos. Porém, com a relevância de não nos limitarmos a essas categorias, uma vez que a leitura – e consequentemente os leitores – não pode ser pensada somente dentro de categorias.
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Identifiquei-me em três das tipologias apresentadas pela autora (inclusive, preciso fazer referência a ela, ora pois: Ângela da Rocha Rolla, Doutora em Teoria Literária/PUCRS). E importante ressaltar que as descrições dessas tipologias apresentam como fundamento as vozes dos professores por ela entrevistados para a pesquisa.
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Leitor compulsivo: É eclético: da história em quadrinhos ao último lançamento de um escritor valorizado pela crítica, tudo lhe desperta a curiosidade. Lê o que lhe cai nas mãos, mas mostra um espírito crítico em relação aos textos, emitindo opiniões a respeito de autores e obras. Tem livro espalhado por toda a casa, a leitura está em primeiro plano: são pilhas de livros que compra ou pede emprestado. Adora frequentar bibliotecas ou tem a sua própria. Lê de tudo a toda hora, lê no ônibus, no banheiro, lê na hora de dormir. Qualquer minuto livre que tem, ocupa nessa atividade. Às vezes até esquece que tem corpo, embriaga-se com a leitura.
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Leitor profissional: Não é um leitor ingênuo, ele lê para analisar estilos, buscando o valor estético das obras. A leitura literária e a produção de textos fazem parte de seu cotidiano profissional, são o instrumento do seu trabalho. Suas leituras constituem-se de obras técnicas sobre teoria literária e obras literárias de autores clássicos e modernos. Frequenta livrarias e círculos de leitores, tem um apreço especial por livros, que adquire com frequência, na medida de suas condições financeiras. Lê ficção para fundamentar as atividades voltadas ao ensino de literatura, oficinas de leitura, redação de artigos, projetos de pesquisa e também para seu lazer. A produção de textos é exigência do trabalho profissional, que apresenta oportunidades de realização de palestras, conferências, defesas de tese, publicações, etc. Faz leituras informativas, técnicas e literárias. É um iniciado em estudos literários. A leitura é prioritária na sua vida, constituindo-se não em trabalho penoso, mas em atividade realizadas com prazer.
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Leitor escolar: Lê com um objetivo principal: indicar obras literárias para os alunos. Há uma preocupação com o trabalho didático, que absorve toda a sua disponibilidade para a leitura. Esta se reveste de obrigatoriedade, com a finalidade única de desenvolver seu trabalho docente, que consiste na análise e comentário das obras solicitadas, cujo assunto não diz respeito aos seus interesses, nem ao seu gosto literário, principalmente quando se trata de literatura infantojuvenil. Por força da necessidade imediata e do pouco tempo disponível, realiza leituras rápidas, sem fruição. As leituras escolares não são consideradas leituras de lazer, para as quais na há espaço no cotidiano desse leitor.
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Há, ainda:
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Leitor Diletante: É um leitor ingênuo, que lê sem conhecimento prévio, por puro prazer. Tem um livro de ficção na cabeceira. Lê obras de autores consagrados ou popularmente conhecidos. Prefere literatura de consumo fácil: histórias de amor e de suspense, enredos de folhetim. Gosta também de ler poesia e literatura intimista. Os critérios de escolha para ler são aleatórios, ao sabor do momento. Não possui bagagem teórica para avaliar as leituras que realiza, escolhendo obras de acordo com critérios pessoais, em que predomina o gosto. Faz pouca leitura informativa, predomina a ficção.
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Leitor apressado: Caracteriza-se por ser um sujeito dinâmico, muito ocupado com o trabalho, que lhe deixe poucas horas diárias de lazer. Lê para se informar dos acontecimentos recentes e para se atualizar em assuntos diversos como política, religião, pedagogia, psicologia, espiritismo, etc. Dedica pouco tempo à leitura, passando os olhos em notícias de jornal, artigos de revistas, crônicas. Compra jornal diariamente e assina uma revista mensal, ou pede emprestado. Não lê ficção ou lê eventualmente.
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Leitor superficial: Lê eventualmente, sem privilegiar um tipo de leitura. Não manifesta preocupação com o valor estético das obras, nem mesmo as avalia. Escolhe os textos ao acaso, o que lhe cai nas mãos, geralmente a literatura de massa ou gêneros já consagrados, como o romance romântico. Não costuma realizar leituras para aprimoramento profissional, preferindo as de caráter utilitário e informativo: o poder da mente, o milagre das plantas, o exoterismo, o espiritismo, etc. Conhece poucos escritores e se limita a poucas obras. A leitura não é prioritária na sua vida.
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Leitor técnico: Faz leituras para estudo do trabalho docente ou de algum curso de especialização que está realizando. São leituras técnicas que versam sobre assuntos relativos às disciplinas que está cursando como aluno ou para aprofundamento teórico no campo profissional: Linguística, Direito, Gramática do Texto, Pedagogia, Educação. As leituras informativas se reduzem a uma rápida olhada no jornal do dia, sem espaço para as reportagens de revistas. A leitura literária está ausente, raramente lê ficção, porque a leitura científica lhe toma todo o tempo disponível. O contato com os livros é diário, o ritmo da leitura é acelerado, há uma preocupação com o cumprimento de tarefas. O leitor técnico não considera a leitura que realiza uma atividade prazerosa, é um trabalho cansativo, que faz por obrigação. Ele lê pressionado pelas circunstâncias do trabalho profissional ou do curso de pós-graduação. A preocupação com a defasagem em termos de leitura literária existe, mas não é resolvida.
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Não-leitor: Com uma história de vida distante dos livros, sem valorização da família na primeira infância, o não-leitor apresenta um comportamento avesso à leitura literária. Tem um contato esporádico com periódicos, que lê para se informar dos acontecimentos recentes e não consegue acompanhar um texto ficcional até o fim. Não dispõe de uma biblioteca, estando a leitura como lazer distante do seu cotidiano, que também dispensa hábitos culturais como cinema, teatro, músicas, esporte e outros. Profissionalmente, não demonstra interesse em ascender na carreira, limitando-se a executar suas tarefas docentes, sem buscar inovações.
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E eu lanço aqui a proposta de que os leitores deste blog possam registrar com quais tipologias se identificam, em que tipos de leitores acreditam que se encaixam. Enfim, coloquei isto aqui para pensarmos um pouco nos leitores que somos, ou que ainda podemos ser.
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í.ta**