sexta-feira, 19 de março de 2010

carta para todos: remendando

despretenciosamente, regininha escreveu a mim uma carta-via-blog, a partir das conversas que estabelecíamos nos comentários das postagens do blog dela. e das duas primeiras cartas dela, nasceu uma minha, e depois mais duas dela, e então mais uma minha (pra verem como ela escreve o dobro de mim. rs...).
_____
e o mais legal nessa troca de cartas-virtuais foram as contribuições de outros blogueiros que se interessaram pelo assunto, e que propuseram pensares diferentes, o que é gratificante, uma vez que é sempre possível observar um ponto por um novo ângulo.
________
a troca de cartas começou tratando das histórias infantojuvenis que são construídas a partir de uma colagem barata de várias outras histórias. regininha citou isto fazendo referência à saga harrypotteriana, da qual ela diz não ter ‘guentado ler. ao contrário, por exemplo, da saga crepuscular, também um remendo de várias histórias, mas desta ela gostou, no sentido de que as achou bem construídas, apesar de remendadas (o primeiro livro foi o melhor, segundo ela. os demais caíram em qualidade). e essa ideia de remendo nos levou a constatar que grande parte das histórias infantojuvenis contadas hoje em dia são recriações daquelas que já existem (principalmente recriações de tantos clássicos). e que são muitos também os autores renomados nacionalmente que pendem para este caminho. pedro bandeira é um deles, por exemplo, com seu “fantástico mistério da feiurinha”, só para citar um exemplo.
____________
a partir daí, entrou na conversa um outro detalhe, oriundo do primeiro assunto: estas obras-colagens são boa literatura? até que ponto é válido trabalhá-las em sala de aula buscando construir nos alunos um gosto pela leitura? é possível, será, definir boa literatura e má literatura? com que critérios?
___________
aí é que o laço apertou. e foi aí que outros blogueiros tomaram a palavra e colocaram uns temperinhos a mais no caldo da conversa. o que acabou, mesmo, sendo bom por demais, uma vez que uma discussão como esta não pode nunca chegar a um término, a uma conclusão do tipo “é isto, não é isto”. muito pelo contrário, há veredas aos montes para abrirmos nessa prosa.
__________
lancei a opinião de que há, sim, boa literatura e má literatura. de que é possível estabelecer uma diferenciação como esta tendo como parâmetro a qualidade do texto escrito pelo autor, algo com que o eduardo disse concordar. contudo, a roberta ávila levantou a questão do leitor. ou seja, o que é boa literatura para os críticos, por exemplo, geralmente não cai no gosto dos leitores-comuns, daqueles que leem por lê, que leem um aqui outro acolá, que não estabelecem critérios e parâmetros para suas leituras. e que os livros criticados pelos “literatos” são os que mais agradam ao público de maneira geral. o que nos impossibilita, de fato, de estabelecermos uma definição para a boa ou a má literatura (se é que devamos chegar a estabelecer algo).
_____________
se há algo com que concordamos, nesse momento, é que, novesfora a qualidade da obra literária, infantojuvenil ou não, os chamados best-sellers tem feito muita gente ler (quem sinalizou isto também foi a priscila lopes). o que é muito, muito salutar, ora pois. se tanto reclamamos que as pessoas não leem, o fato delas lerem esses livros super grossos é um bom sinalizador, claro. a questão que eu acredito que surja a partir deste dado é: até que ponto estas leituras-robotizadas de livros de fórmulas-prontas de fato continuarão acrescentando a estas pessoas que hoje leem livros assim? disse o gabriel que o importante é o leitor se sentir bem com o que lê, a ideia apresentada por ele de que para cada leitor parece existir um livro certo. e a roberta também sinalizou que há momentos em que até mesmo nós, que tanto gostamos de ler, buscamos algo água-com-açúcar que não vá exigir de nós tanto esforço.
________
pensando em nós, pessoas adultas, formadas ou formandas academicamente, enfim, que já temos mais ou menos consciência dos leitores que caminhamos a ser, e que até já somos, e pensando também naqueles que admitem de boca cheia que não leem mais do que best-sellers ou livros de autoajuda, ok, se para nós e para eles o que lemos está bom, então está bom, bem naquela: cada um sabe o que é melhor para si. ninguém é obrigado, a essa idade, a ler o que não quer, o que não gosta, o que não interessa. ninguém é obrigado a ler porque fulanos dizem que é boa literatura, assim como ninguém é obrigado a ler só porque há uma febre em torno de alguma coleção. mas e com as crianças? estes seres que, ao menos na escola, precisam se submeter a ordens (de comportamento e de atividades) às quais jamais se submeteriam se lhes coubesse o poder de escolha, o que fazer com estes adoráveis seres que, em seus 80% vêm de casa com uma ojeriza enraizada junto à prática da leitura.
________________
sugeriu-me, a roberta, trabalhar e propor a leitura, por exemplo, de livros como harry potter e crepúsculo, dizendo-me, ela, que dessa forma eu conseguiria provocar o gosto da leitura em pelo menos meia-dúzia. porém, respondi a ela, livros como estes quase metade dos meus alunos trazem a cada aula de literatura, justamente para me mostrar, para sugerir que eu trabalhe com eles, para conversar comigo e com os demais sobre aquelas histórias. e há outras séries em livros que eles vêm apresentar a mim. ou seja, estão lendo. e lendo bastante, se pensarmos na quantidade de títulos e de páginas destes livros. entretanto, a questão que surge é uma levantada pela regininha: cabe ao professor decidir se vai trabalhar com estes livros aos quais os alunos têm acesso por conta própria (às vezes, leia-se familiar), ou se iremos, como professores, justamente propormos aos alunos a oportunidade de conhecer e de praticar leituras diferentes das que eles já conhecem e às quais estão acostumados.
___________
e aí, acredito eu, ao invés do bel-prazer, do cada um por si, eles precisam ser orientados no que leem e no que podem ler. não que sejam obrigados a sair da escola gostando de amos óz, de lygia fagundes ou da literatura produzida aqui na região, mas que eles possam no mínimo conhecer e estudar livros um pouco diferentes dos que eles estão acostumados a ganhar e a comprar. que eles possam ser mediados a práticas de leituras um pouco diferentes, a pensares diferentes, a conceber uma obra como boa ou ruim não somente por uma questão de gosto popular, de mídia, ou de tema, mas por um viés mais literário, que os possibilite descobrir o que torna uma obra literária e outra não, por exemplo. ou o que caracteriza a escrita de um autor, que não caracteriza a do outro. ou porque uma obra mais lenta pode ser mais bem escrita, e melhor de ser lida, do que uma obra de escrita rápida que não propõe pensar nenhum ao leitor?
___________
por mais que cada um de nós nos identifiquemos com um estilo de escrita e de leitura – e com eles, alunos, ocorre o mesmo –, não podemos, como professores, deixar de apresentar a eles novas possibilidades de leitura. não podemos cair no simplismo do “gosto /não-gosto” tão tradicional deles. o gostar ou não-gostar de uma leitura, muitas vezes, é um detalhe de mediação da leitura proposta, não mais do que isso.
________
e é por aqui que encerro esta carta-endereçada-a-todos. este apanhado de opiniões, agora carregado de novas opiniões, e que, acredito, suscitará novos pensares e opiniões. sem a necessidade de que fechemos o assunto.
_______
í.ta**

5 comentários:

Gabriel Gómez disse...

Gostei do "mapa da mina" que descreves e seus diferentes caminhos propostos por todos... Lendo tudo ainda lembrei da leitura e "literatura" virtual tão presente... Num dos meus textos já disse "hoje a Internet é a nova fronteira sem contorno. Acaso não representa um único livro que contém todos os outros? Não guarda todos os volumes de todos que já foram escritos, que serão escritos, e inclusive, os que nunca serão? Textos que se reproduzem, que se recriam, que nada criam e se perdem. A história nunca contada e a última. O que hoje está disponível pode não estar amanhã. Um espaço caótico com o qual poderia afirmar que não significa que “tudo” esteja enfim acessível, mas sim definitivamente fora de alcance. Acredito que o Mundo Virtual procura adulterar todos os livros existentes, modificando autorias e conteúdos. Sabemos que o processo já começou... Afinal, que importa o nome do autor, passados três mil anos? Restarão obras célebres de autores anônimos ou autores notáveis dos quais não se conhecerá nenhuma obra."
O importante é que nessa rota parece não haver caminho... Como disse Machado: se faz caminho ao andar... Abraço.

Regina Carvalho disse...

Bem isso,Gabriel. E nenhum professor (ou intelectual, ou artista) pode se entregar a certezas: hace el camino al andar...Das dúvidas se constroem mais dúvidas, e os caminhos levam longe!
beijão procês.

Linda Simões disse...

" por mais que cada um de nós nos identifiquemos com um estilo de escrita e de leitura – e com eles, alunos, ocorre o mesmo –, não podemos, como professores, deixar de apresentar a eles novas possibilidades de leitura..."

Concordo contigo e acho que a música (ou a letra dela)pode também despertar para fatos tais como a decadência musical,a mudança de valores ou inversão,a falta de romantismo, desvalorização da mulher etc.

...

Gostei muito, Italo.


Linda Simões

TOOP disse...

Gostei. Muito bem escrito.

Sobre a literatura: Penso que não há boa ou ruim... a questão é o leitor. O que ele se deixa afetar por ela.

Eduardo Silveira disse...

tô gostando muito da discussão. Arejando bastante minhas ideias a respeito da leitura que andavam bem empoeiradas. Acho que é isso mesmo, cada leitor com seus livros, que lhe fazem bem. Uma sala de aula reune vários gostos diferentes, aí aperta um pouco o laço. Fugir dos best-sellers parece mesmo um caminho ineficaz. Quem sabe usá-los como ponte para outros textos, os textos que o professor quer apresentar aos alunos... é uma boa. Devem existir pontes que liguem HP, Meyer, Rick Riordan a outros textos. Cabe ao professor chamar a turma fuçar uns caminhos (utopia de aluno de letras sonhador?). Vou perguntar pra tia Taiza.. ela odeia best-seller. O que será que ela sugere? rs.
abraço, velho, vou continuar no encalço da discussão, que tenho muito a aprender. ;)