quarta-feira, 17 de março de 2010

manguel e as bibliotecas

"catei" esta reportagem no blog do gabriel gómez. um blog riquíssimo em referências literárias. pedi a ele e ele concordou em eu fazer uso da postagem dele. pois então aqui segue uma entrevista com alberto manguel, o cara que leu para borges, o cara que escreveu vários livros sobre livros, sobre práticas de leituras, sobre bibliotecas. o cara que consegue nos levar a um encantamento pelos livros sem cair em linguagem acadêmica ou em vendagem barata. ele pega o leitor pelo que há de beleza e de desimportância na literatura (uma coisa meio manoel de barros que eu relaciono). tá, chega de blá blá blá. segue a entrevista: (esse da foto aqui embaixo é o manguel). e alguns livros dele estão nestes links: uma história da leitura; a cidade das palavras; os livros e os dias; no bosque do espelho; a biblioteca à noite.
"Sim, eu falo sempre sobre o mesmo assunto." Não é muito comum, nos dias de hoje, entrevistar um artista que admita ser monotemático. Mas é o caso de Alberto Manguel, escritor argentino-canadense que começa seu livro, "A Biblioteca à Noite", com uma confissão: quando adolescente, sonhava ser bibliotecário.
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Não por acaso, o tal assunto de que ele sempre trata em seus escritos é, justamente, o mundo dos livros. O autor agora desenvolve uma reflexão que começou dentro do seu quarto de trabalho, numa pequena colina ao sul do rio Loire, na França. Ali, num edifício construído inicialmente para ser um celeiro, no século 15, Manguel montou sua biblioteca particular e a ela passou a fazer dificílimas perguntas --como por exemplo, para que, afinal, servem os livros?
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Manguel conversou com Jornal Folha de S.P. e aqui estão os principais trechos.
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Folha de São Paulo - Por que bibliotecas?
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Alberto Manguel - Eu queria responder à pergunta: de onde vem nosso otimismo de pensar que algo tão caótico como o universo pode ter a ordem que os livros pretendem lhe dar? Nós acreditamos que os livros contêm o que sabemos sobre o mundo. Mas o que sabemos é que ele não tem sentido e que a ordem do universo é, para nós, equivalente ao caos. Então por que continuamos a ler e a escrever livros?
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Folha - Segundo sua explicação, as bibliotecas funcionariam como uma defesa inconsciente do homem diante do caos do conhecimento.
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Manguel - Sim e, além disso, uma defesa contra o esquecimento. A biblioteca que nos parece organizada também é um caos. É um caos no qual, às vezes, podemos suspeitar que existe uma ordem.
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Folha - Você diz que os escritores são uma espécie de subespécie de leitores. O leitor ocupa para você um posto mais elevado na literatura?
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Manguel - É claro! Um escritor escreve seu livro e quer que ele seja lido. Pensa que esse livro tem um certo conteúdo, uma certa importância, mas, no final, são os leitores que decidem algo que esse escritor não pode suspeitar. Essencialmente, é o leitor quem decide o que é o livro, se esse livro vai sobreviver e, ainda, se esse escritor vai sobreviver. Todo escritor quer ser um clássico. Mas os leitores são impiedosos e decidem que só uma pequeníssima parte dos que escrevem serão recordados. O poder do leitor é imenso.
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Folha - Jorge Luis Borges, de quem você foi secretário particular, tinha uma obsessão com a idéia de como seria possível ordenar o conhecimento. Isso o influenciou?
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Manguel - A forma de pensar de Borges sobre esse tema é muito antiga, mas ele foi quem melhor o concretizou até hoje. Esse tipo de pensamento que permite uma grande liberdade e uma grande generosidade aos sistemas de pensamento é também muito antigo.
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Folha - Você está acompanhando a discussão entre o Google e as bibliotecas públicas européias com relação ao projeto de disponibilizar todos os seus títulos? O que acha?
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Manguel - Antes de tudo é preciso lembrar que o Google não é uma companhia filantrópica. E que, portanto, visa um benefício comercial. E que esse benefício governa todas as decisões. O que o Google propõe, colocar uma infinidade de textos na internet, em princípio é muito bom. Mas isso aponta para muitos problemas. Em primeiro lugar: Quem vai colocar os textos? Quem vai organizar, e com que critérios? Depois, os textos das obras clássicas que temos hoje passaram por muitas revisões, são textos mais ou menos consolidados. E, cada vez que se escaneia um manuscrito para colocar na rede, fatalmente se introduzem novos erros. Existe, ainda, o problema que se refere a obras mais recentes, que é o dos direitos do autor. O Google diz que nós, escritores, devemos ser generosos e deixar que todo mundo leia nossas obras. Muito bem, no dia em que o Google virar uma instituição de caridade, que ofereça grátis a todo mundo todos os seus benefícios, eu também posso fazer o mesmo. O grande problema é que o impulso por trás da eletrônica não é intelectual, é econômico. E como é econômico não aceita argumentações intelectuais.
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Folha - E que riscos corremos?
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Manguel - Muitos, mas um dos mais graves é que estamos perdendo nossos arquivos. Antes, tínhamos como reconstituir o modo como se criou algo, uma seqüência de textos que chegam até o texto definitivo. Notas, manuscritos, correções. Agora temos apenas um texto que parece ser o definitivo cada vez que é corrigido. E isso traz uma infinidade de problemas para a construção do conhecimento humano.
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2 comentários:

Rubens da Cunha disse...

O Manguel é muito bom, valeu dispor a entrevista.
abraços

Eduardo Silveira disse...

realmente, grande achado do gabriel. Vou "roubar" ^^