terça-feira, 30 de março de 2010

da adélia prado

“A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela”.
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Autora: Adélia Prado,
Livro: Bagagem,
Ano: 2007
p. 62
Editora Record.
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í.ta**

sábado, 27 de março de 2010

seriam 50 anos, hoje


Neste dia 27 de março de 2010 completaria 50 anos de vida, se vivo fosse, o líder e vocalista da Legião Urbana, e também compositor, Renato Russo. Acredito que desde 1997, muitos são os fãs que sentem de maneira forte a ausência de um ídolo de uma geração, porém, neste ano de 2010, como seria o aniversário de 50 anos do músico, o murmurinho em cima disso está consideravelmente maior.
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Sei que o Serginho Groisman fará uma homenagem ao Renato Russo em seu programa na TV Globo, o “Altas Horas”. Parece-me que estarão por lá, tocando juntos pela primeira vez desde o fim da Legião, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. E também sei que a Editora Record lançará hoje mesmo, dia 27, no Rio de Janeiro, um livro de contos chamado “Como se não houvesse amanhã”, organizado por Henrique Rodrigues, no qual haverá vinte contos de vinte escritores do país, baseados em músicas da Legião Urbana. Inclusive, o Carlos Henrique Schroeder, escritor residente aqui em Jaraguá do Sul, faz parte deste livro, e estará lá no Rio no lançamento (até onde sei, em abril, não sei ainda em qual dia, haverá o lançamento deste mesmo livro na Livraria Livros & Livros, em Floripa. Neste, tentarei ir).
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Enfim, algumas homenagens póstumas que reascendem ‘inda mais toda a admiração e o respeito devotados àquele que é, ainda, um dos maiores nomes da música brasileira.
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Inclusive, o fato de as músicas da Legião fazerem sucesso 14 anos após o fim da banda levou-me a pensar no porquê disso, no como isso ainda acontece. Daí que me veio uma ideia: as composições do Renato Russo foram se tornando cada vez mais líricas. É fácil de perceber isso ouvindo, por exemplo, o primeiro disco da banda, “Legião Urbana” e o disco cinco, o “V”, ou até o sombrio “A tempestade”, sétimo disco. E, sabemos, o texto lírico é atemporal. Daí um porquê de até hoje as músicas compostas por ele continuarem na boca do povo. Sem contar aquelas que ficaram quase que já no inconsciente coletivo de tanto que são tocadas, como “Será”, “Eduarda e Mônica”, “Faroeste Caboclo” e “Pais e filhos”. Inclusive, há quem já muito ouviu e curtiu Legião, e diz que hoje não gosta mais das músicas porque cansou de ouvi-las. Então, diria eu, que ouvidinhos sensíveis à repetição. Ou que limitação. Pois o universo de composições do Renato Russo permite que ouçamos por mais 50 anos e que, a cada vez, possamos estabelecer novas leituras às letras.
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Taí outro ponto chave nas composições do cara. As referências que não se acabam nunca. Uma letrinha singela como “Eduardo e Mônica”, por exemplo, contém referências das mais variadas: Godard (cinema), Van Gogh e Bauhaus (artes plásticas) Bandeira e Rimbaud (literatura), Caetano e Os mutantes (música). E na música “Monte Castelo” é possível encontrar versos de Camões, poeta português: “O amor é o fogo / Que arde sem se ver / É ferida que dói/ E não se sente / É um contentamento / Descontente / É dor que desatina sem doer”.
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Já escrevi aqui outras vezes sobre algumas músicas da Legião. Já postei letras, imagens e afins. (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui). E também já fui um fã muito mais ardoroso. Era daquele que brigava em discussões para fazer a pessoa enxergar o quanto o cara foi bom pra cacete. Coisas da juventude. Se me arrependo? Nenhum pouco! São fases pelas quais eu precisava passar. Dias e dias ininterruptos só ouvindo toda a discografia da Legião, sem contar os cd´s solos lançados pelo Renato.
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Hoje, não. Hoje sou muitíssimo mais contido. Malemal falo dessa minha adoração pelo cara. Não vale à pena. Há tanta gente sem o mínimo de capacidade de dialogar sobre opiniões diversas, que faço questão de me manter calado quando tocam nesse assunto. O tanto de que gosto e admiro esse músico e todo o seu trabalho é algo muito, muito pessoal. Algo que não deve tentar sequer ser explicado. Ou respeitam e aceitam isto, ou não temos conversa. Diz o ditado que gosto não se discute; lamenta-se. Às vezes, creio muito nisso. Este é um caso. Não me importam ouvir os motivos que levam alguém a odiar profundamente as músicas da Legião. Eu gosto, e ponto final. Eu me sinto bem as ouvindo, e ponto final. Eu não faço questão de compartilhar com ninguém essa adoração, e ponto final. Há uma necessidade de exposição hoje em dia que contamina tudo. Não basta se encantar por algo. É preciso escancarar que “eu demonstro gostar mais disso do que você gosta”. Aí é que a confusão se estabelece.
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Faço este post com os dois pés atrás. Mas faço. Porque de tanto guardar para mim toda essa admiração, creio que é neste meu espaço que tenho a liberdade necessária para deixar clara uma admiração que ultrapassa os limites da razão. E que dificulta até na escrita de um texto como este. E nada melhor do que aproveitar a maré, não é mesmo? Então, já que hoje se comemora pelo país esse aniversário de 50 anos do Renato Russo, ficam aqui minhas palavras sobre um alguém de quem não canso de ler, muito menos de ouvir, porque vai ter uma voz com essa potência lá na pqp. E vai transbordar sensibilidade e inteligência assim, lá também, faz favor.
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Escolher uma música, uma só, da Legião, é um tiro no pé. Mas eu deixo abaixo o vídeo (regininha quem me ensinou a postar vídeos!!) da música “Giz”, que é a música de que a Nice, minha noiva, mais gosta. E, como ela ama e conhece Renato Russo e Legião Urbana muito mais do que eu, ela merece isto (a foto é do pezinho dela. Tatuagem de um verso, "Teu espírito alegra minha mente", da música “Uma outra estação”, composta pelo aniversariante do dia).
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í.ta**

segunda-feira, 22 de março de 2010

mafalda e o livro.

surrupiei do blog da regininha, que já havia afanado do blog do gabriel.
fecha legal com as discussões propostas nas cartas.
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aliás, roberta escreveu carta pra mim e pra regininha. aqui, ó.
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internet é mais ou menos isso, né não? é que nem aquele deitado: c* de bêbado não tem dono.

:))
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í.ta**

sexta-feira, 19 de março de 2010

carta para todos: remendando

despretenciosamente, regininha escreveu a mim uma carta-via-blog, a partir das conversas que estabelecíamos nos comentários das postagens do blog dela. e das duas primeiras cartas dela, nasceu uma minha, e depois mais duas dela, e então mais uma minha (pra verem como ela escreve o dobro de mim. rs...).
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e o mais legal nessa troca de cartas-virtuais foram as contribuições de outros blogueiros que se interessaram pelo assunto, e que propuseram pensares diferentes, o que é gratificante, uma vez que é sempre possível observar um ponto por um novo ângulo.
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a troca de cartas começou tratando das histórias infantojuvenis que são construídas a partir de uma colagem barata de várias outras histórias. regininha citou isto fazendo referência à saga harrypotteriana, da qual ela diz não ter ‘guentado ler. ao contrário, por exemplo, da saga crepuscular, também um remendo de várias histórias, mas desta ela gostou, no sentido de que as achou bem construídas, apesar de remendadas (o primeiro livro foi o melhor, segundo ela. os demais caíram em qualidade). e essa ideia de remendo nos levou a constatar que grande parte das histórias infantojuvenis contadas hoje em dia são recriações daquelas que já existem (principalmente recriações de tantos clássicos). e que são muitos também os autores renomados nacionalmente que pendem para este caminho. pedro bandeira é um deles, por exemplo, com seu “fantástico mistério da feiurinha”, só para citar um exemplo.
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a partir daí, entrou na conversa um outro detalhe, oriundo do primeiro assunto: estas obras-colagens são boa literatura? até que ponto é válido trabalhá-las em sala de aula buscando construir nos alunos um gosto pela leitura? é possível, será, definir boa literatura e má literatura? com que critérios?
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aí é que o laço apertou. e foi aí que outros blogueiros tomaram a palavra e colocaram uns temperinhos a mais no caldo da conversa. o que acabou, mesmo, sendo bom por demais, uma vez que uma discussão como esta não pode nunca chegar a um término, a uma conclusão do tipo “é isto, não é isto”. muito pelo contrário, há veredas aos montes para abrirmos nessa prosa.
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lancei a opinião de que há, sim, boa literatura e má literatura. de que é possível estabelecer uma diferenciação como esta tendo como parâmetro a qualidade do texto escrito pelo autor, algo com que o eduardo disse concordar. contudo, a roberta ávila levantou a questão do leitor. ou seja, o que é boa literatura para os críticos, por exemplo, geralmente não cai no gosto dos leitores-comuns, daqueles que leem por lê, que leem um aqui outro acolá, que não estabelecem critérios e parâmetros para suas leituras. e que os livros criticados pelos “literatos” são os que mais agradam ao público de maneira geral. o que nos impossibilita, de fato, de estabelecermos uma definição para a boa ou a má literatura (se é que devamos chegar a estabelecer algo).
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se há algo com que concordamos, nesse momento, é que, novesfora a qualidade da obra literária, infantojuvenil ou não, os chamados best-sellers tem feito muita gente ler (quem sinalizou isto também foi a priscila lopes). o que é muito, muito salutar, ora pois. se tanto reclamamos que as pessoas não leem, o fato delas lerem esses livros super grossos é um bom sinalizador, claro. a questão que eu acredito que surja a partir deste dado é: até que ponto estas leituras-robotizadas de livros de fórmulas-prontas de fato continuarão acrescentando a estas pessoas que hoje leem livros assim? disse o gabriel que o importante é o leitor se sentir bem com o que lê, a ideia apresentada por ele de que para cada leitor parece existir um livro certo. e a roberta também sinalizou que há momentos em que até mesmo nós, que tanto gostamos de ler, buscamos algo água-com-açúcar que não vá exigir de nós tanto esforço.
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pensando em nós, pessoas adultas, formadas ou formandas academicamente, enfim, que já temos mais ou menos consciência dos leitores que caminhamos a ser, e que até já somos, e pensando também naqueles que admitem de boca cheia que não leem mais do que best-sellers ou livros de autoajuda, ok, se para nós e para eles o que lemos está bom, então está bom, bem naquela: cada um sabe o que é melhor para si. ninguém é obrigado, a essa idade, a ler o que não quer, o que não gosta, o que não interessa. ninguém é obrigado a ler porque fulanos dizem que é boa literatura, assim como ninguém é obrigado a ler só porque há uma febre em torno de alguma coleção. mas e com as crianças? estes seres que, ao menos na escola, precisam se submeter a ordens (de comportamento e de atividades) às quais jamais se submeteriam se lhes coubesse o poder de escolha, o que fazer com estes adoráveis seres que, em seus 80% vêm de casa com uma ojeriza enraizada junto à prática da leitura.
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sugeriu-me, a roberta, trabalhar e propor a leitura, por exemplo, de livros como harry potter e crepúsculo, dizendo-me, ela, que dessa forma eu conseguiria provocar o gosto da leitura em pelo menos meia-dúzia. porém, respondi a ela, livros como estes quase metade dos meus alunos trazem a cada aula de literatura, justamente para me mostrar, para sugerir que eu trabalhe com eles, para conversar comigo e com os demais sobre aquelas histórias. e há outras séries em livros que eles vêm apresentar a mim. ou seja, estão lendo. e lendo bastante, se pensarmos na quantidade de títulos e de páginas destes livros. entretanto, a questão que surge é uma levantada pela regininha: cabe ao professor decidir se vai trabalhar com estes livros aos quais os alunos têm acesso por conta própria (às vezes, leia-se familiar), ou se iremos, como professores, justamente propormos aos alunos a oportunidade de conhecer e de praticar leituras diferentes das que eles já conhecem e às quais estão acostumados.
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e aí, acredito eu, ao invés do bel-prazer, do cada um por si, eles precisam ser orientados no que leem e no que podem ler. não que sejam obrigados a sair da escola gostando de amos óz, de lygia fagundes ou da literatura produzida aqui na região, mas que eles possam no mínimo conhecer e estudar livros um pouco diferentes dos que eles estão acostumados a ganhar e a comprar. que eles possam ser mediados a práticas de leituras um pouco diferentes, a pensares diferentes, a conceber uma obra como boa ou ruim não somente por uma questão de gosto popular, de mídia, ou de tema, mas por um viés mais literário, que os possibilite descobrir o que torna uma obra literária e outra não, por exemplo. ou o que caracteriza a escrita de um autor, que não caracteriza a do outro. ou porque uma obra mais lenta pode ser mais bem escrita, e melhor de ser lida, do que uma obra de escrita rápida que não propõe pensar nenhum ao leitor?
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por mais que cada um de nós nos identifiquemos com um estilo de escrita e de leitura – e com eles, alunos, ocorre o mesmo –, não podemos, como professores, deixar de apresentar a eles novas possibilidades de leitura. não podemos cair no simplismo do “gosto /não-gosto” tão tradicional deles. o gostar ou não-gostar de uma leitura, muitas vezes, é um detalhe de mediação da leitura proposta, não mais do que isso.
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e é por aqui que encerro esta carta-endereçada-a-todos. este apanhado de opiniões, agora carregado de novas opiniões, e que, acredito, suscitará novos pensares e opiniões. sem a necessidade de que fechemos o assunto.
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í.ta**

quinta-feira, 18 de março de 2010

delineando. aparando arestas.

tô eu bolando nova carta aqui pro blog. uma carta a todos que estão pitaqueando a conversa sobre livros, práticas de leituras, literatura boa ou ruim. é assunto para não se chegar à conclusão nenhuma. pelo contário. é assunto para se conversar mais e mais.
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pois então, enquanto me embolo em minha carta por aqui, regininha já lançou no blog dela um novo escrito, costurando algumas opiniões lançadas nas cartas cá e acolá.
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e, já que minha cartinha inda não fica pronta, lanço aqui a dela. e assim damos continuidade à boa prosa. ah, e até coloco a imagem que ela colocou no blog dela. amei!
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As cartas pro Italo, as dele pra mim, e os comentários recíprocos e mais alguns, especialmente os da Roberta, me conduziram ao óbvio. E já sei, por larga experiência, que o que é óbvio pra mim pode não ser evidente pros outros. E é bom tocar nisso.
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Uma vez li em Antonio Candido: "a leitura de um poema [expressa em publicação] é a soma de todas as leituras que se fizer sobre ele". A partir daí, adotei este princípio para tudo que leia: não existe A LEITURA, aquela definitiva, e cada uma acrescenta algum elemento para aprofundar/ampliar minha opinião, porque cada uma parte de uma outra perspectiva, se baseia em outro repertório, enfatiza momentos diversos do que foi lido.
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Italo, Roberta e eu servimos bem para ilustrar isso. Italo e eu temos a mesma formação, mas completada em momentos bem diferentes,em universidades diferentes. Ensinar literatura, pra mim, sempre foi uma atividade essencial dentro de minha tarefa na UFSC,que era a de ensinar redação. Se me perguntam o que ensinava lá, respondo: leitura e produção de textos. Não dá pra ensinar um sem o outro, só que era leitura de livros para adultos, incluindo muitas grandes reportagens. Leio infanto-juvenis de forma muito aleatória, porque escrevo infanto-juvenis, mas nunca me preocupei em sistematizar tais leituras. Só que elas são processadas pelos critérios acumulados ao longo desses anos todos de aprender para ensinar.
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Italo ensina literatura infantil para as próprias crianças, pesquisa leitura. Assim, pra ele é importante ter esse universo organizado, atualizando tanto os autores como os teóricos. Roberta é jornalista, foi minha aluna, é muito ligada em artes, gosta de ler e lê muito, mas eu diria que é leitora mais "normal". Assim, seus pitacos são de extrema relevância pros outros dois.
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Saber em que mundo - contextualizar - um autor viveu/vive é importante para a leitura de sua obra. Posso ler Tolstoi sem saber que era conde, rico proprietário de terras...e anarquista convicto. Vou amar seus livros da mesma forma. Mas saber quem ele era e o que pensava ajuda a compreender o COMO e o PORQUÊ do que escreveu. (E não vejo contradição entre ser rico e ser anarquista, façam-me o favor, se pensarmos o anarquismo de forma ampla,como a recusa em aceitar governos...É o óbvio, mas há tanto desconhecimento sobre o anarquismo enquanto ideologia, razão de eu dizer isso: e me perdoem a obviedade!).E mesmo em Tolstoi os gostos são diversos:Italo declarou preferir Ana Kariênina; eu prefiro Guerra e Paz...
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Assim também com os leitores, que o estudo dos leitores é bem mais recente. Somos aqui três leitores, cada um com sua formação, sua experiência de vida, sua forma de reagir aos estímulos, seu gosto pessoal. E tratamos de enriquecer uns aos outros com nossas opiniões, expondo a cara a tapa. Até que não muito, né mesmo?

quarta-feira, 17 de março de 2010

manguel e as bibliotecas

"catei" esta reportagem no blog do gabriel gómez. um blog riquíssimo em referências literárias. pedi a ele e ele concordou em eu fazer uso da postagem dele. pois então aqui segue uma entrevista com alberto manguel, o cara que leu para borges, o cara que escreveu vários livros sobre livros, sobre práticas de leituras, sobre bibliotecas. o cara que consegue nos levar a um encantamento pelos livros sem cair em linguagem acadêmica ou em vendagem barata. ele pega o leitor pelo que há de beleza e de desimportância na literatura (uma coisa meio manoel de barros que eu relaciono). tá, chega de blá blá blá. segue a entrevista: (esse da foto aqui embaixo é o manguel). e alguns livros dele estão nestes links: uma história da leitura; a cidade das palavras; os livros e os dias; no bosque do espelho; a biblioteca à noite.
"Sim, eu falo sempre sobre o mesmo assunto." Não é muito comum, nos dias de hoje, entrevistar um artista que admita ser monotemático. Mas é o caso de Alberto Manguel, escritor argentino-canadense que começa seu livro, "A Biblioteca à Noite", com uma confissão: quando adolescente, sonhava ser bibliotecário.
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Não por acaso, o tal assunto de que ele sempre trata em seus escritos é, justamente, o mundo dos livros. O autor agora desenvolve uma reflexão que começou dentro do seu quarto de trabalho, numa pequena colina ao sul do rio Loire, na França. Ali, num edifício construído inicialmente para ser um celeiro, no século 15, Manguel montou sua biblioteca particular e a ela passou a fazer dificílimas perguntas --como por exemplo, para que, afinal, servem os livros?
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Manguel conversou com Jornal Folha de S.P. e aqui estão os principais trechos.
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Folha de São Paulo - Por que bibliotecas?
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Alberto Manguel - Eu queria responder à pergunta: de onde vem nosso otimismo de pensar que algo tão caótico como o universo pode ter a ordem que os livros pretendem lhe dar? Nós acreditamos que os livros contêm o que sabemos sobre o mundo. Mas o que sabemos é que ele não tem sentido e que a ordem do universo é, para nós, equivalente ao caos. Então por que continuamos a ler e a escrever livros?
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Folha - Segundo sua explicação, as bibliotecas funcionariam como uma defesa inconsciente do homem diante do caos do conhecimento.
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Manguel - Sim e, além disso, uma defesa contra o esquecimento. A biblioteca que nos parece organizada também é um caos. É um caos no qual, às vezes, podemos suspeitar que existe uma ordem.
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Folha - Você diz que os escritores são uma espécie de subespécie de leitores. O leitor ocupa para você um posto mais elevado na literatura?
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Manguel - É claro! Um escritor escreve seu livro e quer que ele seja lido. Pensa que esse livro tem um certo conteúdo, uma certa importância, mas, no final, são os leitores que decidem algo que esse escritor não pode suspeitar. Essencialmente, é o leitor quem decide o que é o livro, se esse livro vai sobreviver e, ainda, se esse escritor vai sobreviver. Todo escritor quer ser um clássico. Mas os leitores são impiedosos e decidem que só uma pequeníssima parte dos que escrevem serão recordados. O poder do leitor é imenso.
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Folha - Jorge Luis Borges, de quem você foi secretário particular, tinha uma obsessão com a idéia de como seria possível ordenar o conhecimento. Isso o influenciou?
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Manguel - A forma de pensar de Borges sobre esse tema é muito antiga, mas ele foi quem melhor o concretizou até hoje. Esse tipo de pensamento que permite uma grande liberdade e uma grande generosidade aos sistemas de pensamento é também muito antigo.
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Folha - Você está acompanhando a discussão entre o Google e as bibliotecas públicas européias com relação ao projeto de disponibilizar todos os seus títulos? O que acha?
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Manguel - Antes de tudo é preciso lembrar que o Google não é uma companhia filantrópica. E que, portanto, visa um benefício comercial. E que esse benefício governa todas as decisões. O que o Google propõe, colocar uma infinidade de textos na internet, em princípio é muito bom. Mas isso aponta para muitos problemas. Em primeiro lugar: Quem vai colocar os textos? Quem vai organizar, e com que critérios? Depois, os textos das obras clássicas que temos hoje passaram por muitas revisões, são textos mais ou menos consolidados. E, cada vez que se escaneia um manuscrito para colocar na rede, fatalmente se introduzem novos erros. Existe, ainda, o problema que se refere a obras mais recentes, que é o dos direitos do autor. O Google diz que nós, escritores, devemos ser generosos e deixar que todo mundo leia nossas obras. Muito bem, no dia em que o Google virar uma instituição de caridade, que ofereça grátis a todo mundo todos os seus benefícios, eu também posso fazer o mesmo. O grande problema é que o impulso por trás da eletrônica não é intelectual, é econômico. E como é econômico não aceita argumentações intelectuais.
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Folha - E que riscos corremos?
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Manguel - Muitos, mas um dos mais graves é que estamos perdendo nossos arquivos. Antes, tínhamos como reconstituir o modo como se criou algo, uma seqüência de textos que chegam até o texto definitivo. Notas, manuscritos, correções. Agora temos apenas um texto que parece ser o definitivo cada vez que é corrigido. E isso traz uma infinidade de problemas para a construção do conhecimento humano.
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domingo, 14 de março de 2010

carta pra regininha - a segunda

pois entonces, rê, tu me destes ganas de conhecer inda mais lobato. pois se tem coisa em que tô atrasado, é nas leituras dos livros de lobato. mas “a chave do tamanho”, colocado por ti na terceira carta, este eu li, há dois anos. e amei tanto, mas tanto. aí fui ler “histórias de narizinho”, e empaquei, devido a tanta leitura acumulada com que eu tava. acho que pra ler mais de lobato, precisarei de orientação. te ofereces??? (mas não nessas edições da globo, aí, que melaram as imagens com essas coisas super coloridas e nhénhénhé).
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sabes, deparei-me com dois livros infantojuvenis que exemplificam muito bem esta nossa conversa, do que consideramos como boa literatura, como um livro bem escrito, seja para adultos, seja para crianças (por mais que nossas referências estejam, agora, sobre os infantojuvenis).
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li “o olho bom do menino”, do daniel munduruku. é, o daniel, escritor indígena. super-reconhecido e tudo, inclusive com histórias belíssimas nas quais ele reconta mitos indígenas. mas este livro é uma afronta à boa literatura. é tudo aquilo que criticas em tua terceira carta: literatura mastigada, prontinha para o leitor não pensar nada, apenas concordar com a cabeça. é discurso moral do tipo: devemos dar valor a nossa vida, a tudo o que temos, a nossa visão, aos nossos amigos (isto porque o personagem da história é cego e, diz o narrador-personagem que se encanta com este menino-cego, que é um cego daqueles que sabem ver a beleza interior de cada um. gente, que discursinho mais horroroso!).
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af, rê, quanta babozeira. e me dá urticárias pensar em quantas crianças ouvem ou leem um livro assim e justamente concordam com a cabeça e acham o máximo, que livro tem que servir pra isso mesmo, pra “instruir”.
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aí, passado esse susto, li “o gato e o escuro”, do mia couto. recém-lançado, 2009 e tudo. e mia couto, sabemos, é de um trato com as palavras, de uma capacidade de contar histórias que nos encanta por aquilo que a literatura deve encantar, pela beleza, pelo cuidado das palavras bem escolhidas para que não leiamos discursos moralistas cheio de bobagens. e pela oportunidade que o livro oferece a nós, leitores, de encantarmo-nos por personagens, de reconhecermo-nos na história, tornando-nos parte dela também.
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então me pergunto, rê e demais leitores dessa troca de correspondências blogueiras, será que é tão difícil assim definirmos o que é boa literatura do que não é? antes: será que há má literatura? pensemos naqueles que começam lendo abobrinhas (quem é que não começou a ler sem critério nenhum?). faz mal isto? acho que não, né? talvez o “mal” (e este mal é muito, muito relativo, uma vez que ‘tá lendo, tá valendo”, quase isso) esteja em ler sempre as mesmas coisinhas simplórias e et céteras com que começamos a ler. exemplificando, e voltando ao harry potter e ao crepúsculo: quanta guriada não começou a ler com estes livros que são, para nós, literatura de massa, coisa pré-produzida, feita sob medida e blábláblá, ok, mas que cativaram a muitos, não? e isso não é bom? mas e se eles continuarem lendo só livros assim, continuará sendo tão bom? teremos aí leitores em formação, ou soldadinhos de chumbo?
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e é nisso que vivo pensando ao trabalhar minhas leituras com meus alunos, em sala. o quanto me cobram de solicitar leituras crepusculares, por exemplo, e o quanto é difícil de explicar a eles a diferença entre “o sofá estampado” e “crepúsculo”, ou entre “de repente, nas profundezas do bosque” e “harry potter”. e é lendo, lendo muito, conversando sobre as leituras, associando-as, relacionando-as, distanciando-as, que aos poucos conseguimos perceber o que as diferencia em termos de qualidade, de forma de escrita, de modos de leitura.
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inclusive, falando um bucadin sobre traduções, tô eu lendo o primeiro livro do harry potter, e com muita determinação de conseguir ler todos os sete, porque nice me falou tão bem da história, té me explicou já detalhes e afins que nos filmes não damos contar de pegar. tá, mas o fato é que tá brabo de prosseguir na leitura. é uma escrita muito chata, muito mastigadinha, que não exige nada do leitor. são ações que a gente consegue imaginar que vão acontecer, frases prontas e blábláblás. aí eu falei a ela disso, que tá ruim de ler o troço, aí ela me disse que eu não posso crucificar a autora, a tal da j.k., pois é muito provável que a tradução tenha tornado a escrita assim ruim. até levei em consideração, mas não sei até que ponto é isso mesmo. tentasse ler em inglês a história? é tão ruim assim mesmo? de fato, estou duvidando de mim mesmo em conseguir chegar até o sétimo livro.
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tá, paro por aqui esta. senão embaralhamo-nos por demais. vamos vendo por quais caminhos essa conversa ruma.
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í.ta**

sábado, 13 de março de 2010

espalhando

duas resenhas minhas,
mais um artigo,
já publicados aqui no blog,
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foram postados nesta semana
grupo de pesquisa em literatura
infantojuvenil da univille.
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uma sobre um dos novos livros da marina colasanti.
outra sobre a belíssima história "o voo da guará vermelha",
da maria valéria rezende,
e o artigo "a vida são histórias".
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assim seguimos, pois então,
espalhando textos por aí,
dando a cara a tapa mesmo.
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í.ta**

segunda-feira, 8 de março de 2010

carta pra regininha - a primeira

se me chamas de parceirinho, chamo-a de parceirinha também. parceirinha de escritas, de livros e de leituras.
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não pensei que minhas simplórias opiniões e indagações fossem despertar em ti um pensar mais aprofundado sobre questões como: gostar/não-gostar de leituras: até que ponto a experiência influencia? ou: o que há de colagem de histórias em harry potter, que não há nas outras produções infantojuvenis (perdeu o hífen, sabias? nem seu sabia, até hoje, graças ao eduardo), que provêm, justamente, de mitos e lendas e afins.
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pois sim, pois sim. comentários despretensiosos assim resultaram, até o momento, em duas cartas tuas endereçadas a mim, explicando-me um pouco dessas indagações por mim levantadas.
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e então segue aqui uma carta-resposta (vai hífen nesse bagaço?!) as tuas duas cartas. e o desejo de que possamos ir “trocando” mais e mais. e de que mais leitores possam tirar algum proveito disso.
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gosto de pensar da forma como você escreve na primeira carta: da literatura que deve encantar ao invés de ensinar. que deve conquistar pelo que há de beleza nela, pela representação da condição humana que ela impõe a nós, leitores, e também pelo que ela nos impele a “pensar-além”, estranhando justamente estes humanos que somos. e isso pensando também, e muito, nas obras infantojuvenis, destinadas à criançada, mas que não contenham, mesmo, essa ideia de moral educadora.
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para também tornar mais concreto o assunto, vou-me utilizar do meu trabalho como professor.
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e é mais ou menos por aí que desenvolvo minhas aulitas com a guriada de 5ª a 8ª séries (6º ao 9º anos). pela possibilidade de encantamento junto ao texto literário. pela beleza de uma história, pela identificação com alguns personagens, pela delicadeza no trato com as palavras. pelo que ela leva eles, leitores, a esse “ir-além”.
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de fato, esses leitores-em-formação (ok, todos somos, ainda bem, leitores-em-formação, mas é que eles estão no início mesmo da caminhada independente de leitores). então, esses leitores-em-formação de fato se identificam com as leituras em série lançadas pelo mercado editorial. e me cobram isto com todos os argumentos possíveis. e é nesse toma lá da cá que faço a argumentação de histórias como “moby dick”, “robinson crusoé”, “o sofá estampado”, “o menino do pijama listrado”, e “de repente nas profundezas do bosque”, por exemplo, que são algumas das que trabalho com eles. e que são histórias com as quais eles, no durante e no após a leitura, identificam-se demais, demais. envolvem-se mesmo. mas, como não poderia deixar de ser, continuam a me cobrar leituras de séries como “crepúsculo” e “harry potter”, citadas por ti em tua primeira carta.
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gostei da comparação que apresentastes, na segunda carta, de “o ladrão de raios” e “os doze trabalhos de hércules”. certamente que conhecer as duas histórias me facilitaria muito, muito, um entendimento mais aprimorado do que dizes, mas já me foi suficiente para entender tua argumentação de que “harry potter” é uma história feita de colagens de outras. eu tô lendo o primeiro dos sete. muito porque a nice leu todos e tanto me falou, falou, falou, que comecei a lê-los. se vou ‘guentar até o final, não sei. mas é algo que a mim mesmo será interessante de observar. pois com a saga crepuscular, por exemplo, nem do primeiro consegui chegar perto.
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talvez eu tenha me desvirtuado de teus dizeres nas cartas. mas acho que isso é bom, sabes. nossas cartas vão, assim, abrindo novos horizontes de pensares e de assuntos relacionados a essa coisa que tanto nos envolve: o ler.
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í.ta**

sábado, 6 de março de 2010

tudoaomesmotempoagora

esta semana atualizei minha página no skoob, mais um dos sites de relacionamento, só que este voltado aos livros, às leituras, ao que cada um leu, tá lendo, vai ler, tem, empresta ou troca. enfim, é mais uma ferramenta de interação válida, dessas que a internet tanto nos possibilita. também não é motivo de achar isto o máximo dos máximos, mas ignorar talvez não seja o caminho.
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pois assim fiz. tenho lá meu perfil, meus livros lidos, os que estou lendo, e outras coisitas mais (e ainda há detalhes a organizar por lá. mas uma coisa de cada vez). e por lá consigo contatar várias pessoas, vários livros, numa troca bastante interessante.
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e foi justamente ao atualizar minha página no skoob que fiquei matutando sobre a quantidade de coisas que lemos bem no estilo "tudoaomesmotempoagora". a listar o meu caso, por exemplo. nesta semana li monte de livros: terminei "o olho da rua", da eliane brum. reli partes do "antes de nascer o mundo", do mia couto. li contos do rubem fonseca, do livro "64 contos de rubem fonseca". li crônicas do rubem braga, do livro "200 crônicas escolhidas de rubem braga". li um pouco de "o pequeno príncipe", mais um bocado do "ensaio sobre o cegueira", do saramago, e mais um pouco do "harry potter e a pedra filosofal". sem contar as revistas, os jornais, os blogs e os livros teóricos-de-cada-dia.
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é leitura por demais da conta, às vezes acho. e quantas leituras a cada dia desejo fazer e não dou conta? e é aí que me encuco: até que ponto é salutar isto, este ler aos montes num mesmo tempo? é a isso que se chama contemporaneidade, mundo pós-pós-moderno? não é assim que somos vendidos hoje em dia? do fazer tudo em tempo recorde, tudo ao mesmo tempo, relacionando até o que não se é possível estabelecer relações?
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será que ler um livro só de cada vez é tão bom assim? ganha-se mais com uma leitura assim, será? ou torna-se uma limitação? ou, na verdade, o importante, e ponto final, é ler, independentemente do quanto, do quando, do que, e etecéteras e tals?
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não sei, não sei. e me sinto confortável neste não saber, tão importante quanto um saber. a insegurança às vezes é mais convidativa do que a segurança. a dúvida à certeza. será?
___enfim, um post cheio de interrogações. um post inacabado. como deve ser, acho. como são nossas leituras. pois terminar de ler um livro não significa exatamente tê-lo terminado, não é mesmo?
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í.ta**, embaralhado.

quinta-feira, 4 de março de 2010

entre viagens e leituras

já escrevi aqui no blog sobre "a arte de ler e escrever em um ônibus".
mas esta semana voltei a pensar sobre isto, de uma forma um pouco diferente.
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o texto anterior fazia referência ao ônibus-de-cidade, o transporte coletivo-urbano mesmo. o andar entre-bairros. a dificuldade em ler e escrever nesses ônibus.
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pois agora, esta semana, o que andei de ônibus entre-cidades não foi brincadeira! e isso que é só quarta-feira!
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jaraguá-joinville, joinville-floripa-joinville, joinville-jaraguá. haja viagem!
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horas dentro dos busões pelas cidades, com monte de livros na mochila, cheio de planos de lê-los e 'escrevê-los', e nada me aconteceu. nada.
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como dormi nesses ônibus! a única viagem em que fiquei acordado foi a última, de jlle pra jguá, em que li mais um bocado do "ensaio sobre a cegueira", do saramago. de resto, dormi horrores.
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o que me fez pensar na dificuldade em ler e escrever em um ônibus circular. mas senti dificuldade ainda maior em um ônibus intermunicipal. simplesmente por não conseguir manter meus olhos abertos.
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e é bem possível que eu viaje mais vezes com essa frequência. e que eu tenha coisas mais importantes para ler e estudar nesse tempo de viagens. o que me preocupa, sim.
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mas haverei de conseguir. haverei.
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ou não?
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alguém receita um remedinho, uma técnica infalível para melhor aproveitar o tempo nos ônibus dessa vida??
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í.ta**