sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Feiurinha, BBB e livros

por Elizete Feliponi.
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"Reclamamos da falta de tempo e de dinheiro, mas dificilmente ouvimos alguém reclamar da falta de conhecimento e da falta de leitura. “Ah, hoje li pouco, parece que está me faltando algo, preciso saber mais sobre determinado assunto.” Ler é como atividade física: quando vira um hábito, o corpo “pede”, caso a ação não aconteça. A mente também atrofia e existem fatores que contribuem para isso.
Mas temos o poder de escolha. Compete a mim, e a mais ninguém, optar entre assistir o BBB ou ler um livro. Sou eu que decido se desligo a televisão ou inicio a leitura de um novo romance. O que nos é apresentado e o que fazemos com este conteúdo também é decisão nossa: assimilamos, como se fosse parte das nossas vidas, ou descartamos antes mesmo da decodificação da mensagem. O que acontece é que ligamos o “piloto automático”, amanhecemos e anoitecemos num ritmo muito acelerado e não fazemos a interpretação da nossa realidade. E a realidade muda constantemente; sem compreendê-la, não evoluímos para a vivência em um planeta sustentável.
O contexto é muito camuflado e, para não desvelá-lo, aceitamos o pacote pronto, como se fosse um fast food versão cultura, movimento pelo menor esforço. Da mesma forma, é mais fácil assistir ao filme do que ler a história. Pergunto-me sobre o filme da Xuxa, “O Mistério de Feiurinha”, baseado na excelente obra “O Fantástico Mistério de Feiurinha”, do também excelente escritor Pedro Bandeira. O filme, recheado de princesas loiras, ultrapassou rapidamente mais de um milhão de espectadores. Já virou regra estes filmes serem lançados no período de férias, justamente no momento em que “pensar” está em últimos planos. Mas é necessário lembrarmos que nem todas as princesas são loiras e nem todas as bruxas são morenas. Se almejamos um mundo menos preconceituoso, conceitos devem ser eliminados urgentemente, e todas as nossas atitudes permeiam essa dinâmica.
O livro de Pedro Bandeira já rendeu trabalhos fantásticos por escolas do Brasil inteiro. Ele traz uma versão diferente para os contos de fadas e o tradicional “viveram felizes para sempre...”. Lê-lo é muito mais prazeroso do que assistir ao filme. Na leitura você viaja, imagina cenários, épocas e faz interpretações referentes. A linguagem cinematográfica tem seus aspectos, mas nada substitui a riqueza da linguagem escrita. Quantas pessoas já leram esse livro ou ficaram sabendo dele apenas com o lançamento do filme? É difícil especificar, mas sabemos que estamos envolvidos nisso até o pescoço. Há filas para comprar o ingresso do cinema; perfeito seria se cada pessoa que assistisse a “O Mistério de Feiurinha” também lesse o livro. Poderíamos dizer: é o triunfo da cultura sobre o entretenimento sucateado.
Mas a conquista deste triunfo é uma batalha contínua, possível com o despertar da consciência. É necessário ligar o “alerta” e ser mais seletivo, priorizando importâncias. Se faltam dinheiro e tempo, é fundamental arregaçar as mangas e buscar soluções. Se faltam conhecimento e sabedoria, pré-requisitos para a convivência saudável, é necessário rever escolhas: Feiurinha, BBB e livros dizem muito sobre o que temos, somos e queremos". feeling_ef@yahoo.com.br
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este texto apresenta muitos dizeres e ideias que são também minhas, mas que não tive a capacidade de bem organizá-las em forma de texto, como conseguiu a professora e estudante de neuropsicologia, elizete feliponi, que escreve às sexta-feiras no jornal "anotícia". aliás, não é o primeiro texto dela que me encanta. é um de muitos. toda sexta, é leitura obrigatória minha.
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ítalo.

Um comentário:

Ensaios & Garatujas disse...

Realmente, cabe somente a nós a escolha entre o "lazer sem esforço", ou seja, aquele aonde você senta em frente a uma TV e escolhe um programa de entretenimento que não dá a possibilidade de criação de ideias, ou até mesmo lê um best-seller com histórias mirabolantes, mas no fundo vazias de sentimento, de formação de opinião, ou então, assiste a um programa, ou lê a um livro que favoreça a expressão.