quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

aos poucos, voltando

Já escrevi sobre isto aqui no blog. Um texto muitíssimo parecido com este. Porém, atualizei este texto que segue abaixo. Por isso a viabilidade de sua postagem. Pra começar o ano, tá bom, acho.
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O ler: por e para mim
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“Pois o desejo de ler, como todos os outros desejos que distraem nossas almas infelizes, é capaz de análise” (Virginia Woolf, citada por Alberto Manguel, em Uma história da leitura, 1997, p. 9, Companhia das letras).
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O ato de ler está diretamente relacionado ao desenvolvimento da consciência do ser humano como cidadão participante de uma sociedade, e que o influencia na maneira de pensar e agir.
Ler transcende a força que a própria palavra carrega em si. Ler é enxergar além do campo de visão que um olhar abrange. Ler é transbordar pelas páginas e amolecer a dureza que as palavras contêm quando isoladas, quando não sentidas – lidas. Ler é alcançar um porto antes nunca alcançado por alguém. É criar um sentido próprio a si mesmo e ao mundo ao redor de si. É manter-se firme e seguro num terreno tortuoso, ora belo, ora traiçoeiro. É encontrar-se em um eu ainda desconhecido.
Ler comporta diversas práticas, milhares de significados, diferentes estados de espírito.
A prática da leitura, o contato vivo com as letras, palavras, sons e imagens e os significados e sentidos construídos a partir desse contato, assim como o gosto pela leitura desenvolveram-se em minha vida quando eu cursava o primeiro ano do Ensino Médio. Antes dessa época eu também lia, porém inconsciente de que lia e do que a leitura provocava em mim. Sobretudo, era uma leitura em menor quantidade e entusiasmo, e apenas a leitura impressa: livros, revistas e jornais.
Buscando um aperfeiçoamento, junto com o desejo de me sentir tocado pela leitura, passei da leitura das páginas de esporte dos jornais, e das revistas que tratavam sobre futebol, à leitura do jornal quase que em seu todo, depois para revistas, semanais e mensais, que tratavam de política, história, religião, entre outros assuntos. Um livro passou a me acompanhar a todos os lugares em que eu ia.
Hoje, no mínimo um livro continua me acompanhando por aonde vou – para filas em repartições públicas ou agências bancárias, por exemplo, não há, a meu ver, melhor solução. Minhas leituras hoje também são mais variadas, envolvendo gêneros literários (romances, coletâneas de crônicas e contos, poemas), publicações mais específicas das áreas de Letras, e jornais, diariamente. Espanto-me ao constatar o quanto o ato de ler se incorporou ao meu ser de uma maneira em que hoje não consigo me imaginar sem a presença do mesmo guiando-me diariamente.
Posso afirmar que estes anos iniciais como sujeito-leitor me propiciaram um amadurecimento bastante considerável no que faz referência ao ato de ler em si. Consigo, não sei como, um senso de organização que me permite ler materiais de gêneros diferentes e também realizar leituras de modos diferentes.
Leio, por exemplo, por prazer e por necessidade. Duas formas de prazer, e duas formas de necessidade. O prazer do conhecimento elaborado a partir da junção das palavras – esta possuidora de um quê de sedução e aprisionamento –, e o prazer de simplesmente ler, de nada mais fazer a não ser ler, de rir e ignorar comentários do tipo: “levanta daí e vai fazer alguma coisa”. A necessidade que minhas próprias escolhas me impõem (leituras voltadas aos cursos de graduação e de pós-graduação; leituras voltadas à minha atividade como professor de Literatura; leitura voltada às pesquisas às quais me proponho realizar anualmente), e a necessidade que incorporei a mim de sempre estar lendo algum material escrito.
Não concebo um dia proveitoso sem a leitura de algo escrito. Atitude um tanto quanto radical, sim. O hábito que deixou de significar apenas algo a ser feito quando nada mais tinha a se fazer se tornou o vício de primeiro destinar quais as leituras serão feitas no dia, para depois se pensar no que fazer após tais leituras.
Reconheço que a prática da leitura vai para muito além do texto escrito. A leitura de imagens, de gestos, de expressões, de sons, de situações vividas. A leitura corporal. A leitura sensitiva. Mas acredito que é a prática constante da leitura do texto escrito que possibilita ao sujeito-leitor essa consciência e prática de encarar a leitura sob diferentes formas.
Hoje sou professor de literatura, bibliotecário, e pesquisador. Consegui alcançar esse patamar de me envolver com aquilo de que mais gosto como uma forma de trabalho, com uma recompensa financeira que possibilita a mim me aperfeiçoar em termos de leitura e de escrita. Tenho objetivos maiores, sim, de pesquisar muitos outros temas relacionados à leitura e suas práticas, de evoluir como professor de literatura (incluindo uma docência em ensino superior), e de me tornar um escritor reconhecido naquilo a que me proponho fazer.
O caminho vem sendo construído. Compartilhar um pouco disso faz bem, é salutar. É o registro de um momento.
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í.ta**

2 comentários:

Eduardo Silveira disse...

Parabéns pelo texto, velho. exato, perfeito. Sempre compartilhei das suas ideias sobre o ato de ler. E esse teu texto.. total empatia por ele. ^^

abraço!

Rubens da Cunha disse...

legal, e aí esse ano rola mestrado?