sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

"literatura da vida real"

o último artigo que escrevi para o jornal, ano passado, era assim entitulado: "a vida são histórias". esta é uma frase muito recorrente em mim. que me percorre dia sim, outro também. cada livro que leio me faz pensar, e sentir, a vida como histórias. não somente no sentido de dar vida a personagens, mas também nas histórias de vida que construímos.
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e agora nesse começo de ano engatei-me com um livro que transborda histórias, vidas e sentires. pedi emprestado à
rosane, que já havia me falado muito, e muito bem deste livro: "o olho da rua", da eliane brum, "uma repórter em busca da literatura da vida real", como está escrito na capa do livro.
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é, como me disse a rosane, um livro para se ter como uma bíblia. não no sentido religioso da bíblia, e sim em tê-lo como um livro de cabeceira, para ser lido bem aos pouquinhos. para ser re-lido ao mesmo tempo que é lido.
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e estou nesse vai e vem com o livro. não o terminarei logo, não. voltarei inúmeras vezes aos relatos tão bem escritos pela autora. por isso, deixo aqui o texto de apresentação do livro, escrito pela própria eliane brum. creio que será o bastante para sentir o que há em "o olho da rua".
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“Não sei muito sobre mim mesma. Quando acho que sei um pouco, eu mesma me desmascaro e escapo de mim. Mas se tenho alguma certeza é a de que sou repórter. Ser repórter é algo profundo, definitivo, do que sou. Todo o meu olhar sobre o mundo é mediado por um amor desmedido pelo infinito absurdo da realidade. E pela capacidade de cada pessoa reinventar a si mesma, dar sentido ao que não tem nenhum. São estes os únicos milagres em que acredito, os de gente. E é desta matéria teimosa que são feitas as histórias reais deste livro.
Em cada rua do mundo, seja de floresta ou de concreto, busco aquilo que faz tantos brasileiros andar pelo mapa, às vezes descalços. Aquilo que move tantos de nós a ancorar no dia seguinte – e um dia depois do outro. Meu ofício é encontrar o que torna a vida possível apesar de tudo, a delicadeza na brutalidade do cotidiano, a vida na morte. É esse o mistério que me fascina. E o olhar que escolhi como farol nas andanças pelos muitos Brasis é o da compaixão, aquele que reconhece no outro a fratura que já adivinhou em si mesmo.
Este livro contém dez reportagens que fiz nos últimos anos na revista Época. Muitas outras ficaram de fora, algumas delas com dor. Me consolo pensando que talvez haja um próximo livro para contá-las. Eu acredito na reportagem como documento da história contemporânea, como vida contada, como testemunho. Exerço o jornalismo sentindo em cada vértebra o peso da responsabilidade de registrar a história do presente, a história acontecendo. Por isso, exerço com rigor, em busca da precisão e com respeito à palavra exata. Mas também com a certeza de que a realidade é complexa e composta não apenas de palavras. É feita de texturas, cheiros, nuances e silêncios. Na apuração de minhas matérias, buscar dar ao leitor o máximo dessa riqueza do real, para que ele possa estar onde eu estive e fazer suas próprias escolhas.
Este livro é também uma confissão de fé na reportagem, aquela que vai para a rua se arriscar a ver o mundo. E uma confissão de minhas escolhas, meus sustos, meus dilemas e também de meus erros. Porque, como diz Sérgio Vaz, grande poeta da periferia de São Paulo, quem ama erra. Para cada reportagem há uma reflexão sincera, vísceras à mostra, sobre o que fiz e o que vivi – como repórter, como gente.
Quis fazer um livro para ser lido por qualquer pessoa que goste de histórias tão reais que parecem inventadas. E também para estudantes de jornalismo que tenham tantas dúvidas sobre a melhor forma de exercer a profissão como eu sempre tive – e sigo tendo. Sou alguém que tenta viver duvidando o tempo todo das certezas, das minhas e das alheias. E por isso estou sempre em carne viva. Neste livro, como na vida, tudo o que tenho a oferecer sou eu mesma. Espero que seja suficiente”.
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í.ta**

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

aos poucos, voltando

Já escrevi sobre isto aqui no blog. Um texto muitíssimo parecido com este. Porém, atualizei este texto que segue abaixo. Por isso a viabilidade de sua postagem. Pra começar o ano, tá bom, acho.
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O ler: por e para mim
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“Pois o desejo de ler, como todos os outros desejos que distraem nossas almas infelizes, é capaz de análise” (Virginia Woolf, citada por Alberto Manguel, em Uma história da leitura, 1997, p. 9, Companhia das letras).
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O ato de ler está diretamente relacionado ao desenvolvimento da consciência do ser humano como cidadão participante de uma sociedade, e que o influencia na maneira de pensar e agir.
Ler transcende a força que a própria palavra carrega em si. Ler é enxergar além do campo de visão que um olhar abrange. Ler é transbordar pelas páginas e amolecer a dureza que as palavras contêm quando isoladas, quando não sentidas – lidas. Ler é alcançar um porto antes nunca alcançado por alguém. É criar um sentido próprio a si mesmo e ao mundo ao redor de si. É manter-se firme e seguro num terreno tortuoso, ora belo, ora traiçoeiro. É encontrar-se em um eu ainda desconhecido.
Ler comporta diversas práticas, milhares de significados, diferentes estados de espírito.
A prática da leitura, o contato vivo com as letras, palavras, sons e imagens e os significados e sentidos construídos a partir desse contato, assim como o gosto pela leitura desenvolveram-se em minha vida quando eu cursava o primeiro ano do Ensino Médio. Antes dessa época eu também lia, porém inconsciente de que lia e do que a leitura provocava em mim. Sobretudo, era uma leitura em menor quantidade e entusiasmo, e apenas a leitura impressa: livros, revistas e jornais.
Buscando um aperfeiçoamento, junto com o desejo de me sentir tocado pela leitura, passei da leitura das páginas de esporte dos jornais, e das revistas que tratavam sobre futebol, à leitura do jornal quase que em seu todo, depois para revistas, semanais e mensais, que tratavam de política, história, religião, entre outros assuntos. Um livro passou a me acompanhar a todos os lugares em que eu ia.
Hoje, no mínimo um livro continua me acompanhando por aonde vou – para filas em repartições públicas ou agências bancárias, por exemplo, não há, a meu ver, melhor solução. Minhas leituras hoje também são mais variadas, envolvendo gêneros literários (romances, coletâneas de crônicas e contos, poemas), publicações mais específicas das áreas de Letras, e jornais, diariamente. Espanto-me ao constatar o quanto o ato de ler se incorporou ao meu ser de uma maneira em que hoje não consigo me imaginar sem a presença do mesmo guiando-me diariamente.
Posso afirmar que estes anos iniciais como sujeito-leitor me propiciaram um amadurecimento bastante considerável no que faz referência ao ato de ler em si. Consigo, não sei como, um senso de organização que me permite ler materiais de gêneros diferentes e também realizar leituras de modos diferentes.
Leio, por exemplo, por prazer e por necessidade. Duas formas de prazer, e duas formas de necessidade. O prazer do conhecimento elaborado a partir da junção das palavras – esta possuidora de um quê de sedução e aprisionamento –, e o prazer de simplesmente ler, de nada mais fazer a não ser ler, de rir e ignorar comentários do tipo: “levanta daí e vai fazer alguma coisa”. A necessidade que minhas próprias escolhas me impõem (leituras voltadas aos cursos de graduação e de pós-graduação; leituras voltadas à minha atividade como professor de Literatura; leitura voltada às pesquisas às quais me proponho realizar anualmente), e a necessidade que incorporei a mim de sempre estar lendo algum material escrito.
Não concebo um dia proveitoso sem a leitura de algo escrito. Atitude um tanto quanto radical, sim. O hábito que deixou de significar apenas algo a ser feito quando nada mais tinha a se fazer se tornou o vício de primeiro destinar quais as leituras serão feitas no dia, para depois se pensar no que fazer após tais leituras.
Reconheço que a prática da leitura vai para muito além do texto escrito. A leitura de imagens, de gestos, de expressões, de sons, de situações vividas. A leitura corporal. A leitura sensitiva. Mas acredito que é a prática constante da leitura do texto escrito que possibilita ao sujeito-leitor essa consciência e prática de encarar a leitura sob diferentes formas.
Hoje sou professor de literatura, bibliotecário, e pesquisador. Consegui alcançar esse patamar de me envolver com aquilo de que mais gosto como uma forma de trabalho, com uma recompensa financeira que possibilita a mim me aperfeiçoar em termos de leitura e de escrita. Tenho objetivos maiores, sim, de pesquisar muitos outros temas relacionados à leitura e suas práticas, de evoluir como professor de literatura (incluindo uma docência em ensino superior), e de me tornar um escritor reconhecido naquilo a que me proponho fazer.
O caminho vem sendo construído. Compartilhar um pouco disso faz bem, é salutar. É o registro de um momento.
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í.ta**