quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

continuação para o robinson crusoé

Este ano li com minha 7ª série o livro “As aventuras de Robinson Crusoé”, do Daniel Defoé. Claro que não li a edição completa, gigantesca. Li uma adaptada, organizada pelo Werner Zotz (não é a da foto, infelizmente).
A turma adorou a história. Acompanhou a cada aula o desenrolar da mesma, o naufrágio do Robinson, sua fase de adaptação à ilha e o desenrolar de seus quase trinta anos vivendo nela, construindo moradias e criando rebanhos.
Após a leitura, e a consequente conversa que desenvolvemos sobre a história, pedi-lhes para que escrevessem como se fossem o Robinson Crusoé, contando como foram os dez anos seguintes dele à saída da ilha, nos quais ele voltou para a Europa, constituiu família por lá, mas continuou visitando sua ilha periodicamente. Então, os alunos escreveram, em primeira pessoa, como se fossem o próprio Crusoé continuando a contar a história de sua vida, indo e vindo para/da ilha.
Gostei tanto tanto de duas histórias, de duas alunas, que pedi permissão a elas para colocá-las aqui no blog. São as que seguem.
São histórias não muito curtas, sim, mas que valem muito a leitura, por estarem tão bem escritas, tão criativas, e tão completas. As histórias que nos significam. As histórias que contamos para nos contarmos. Algo tão escrito neste blog.

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Memórias (Bárbara Duwe Lima)
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Reencontrei meu amigo Sexta-Feira, no meio de uma feira em Londres. Conversamos durante duas longas horas, contei a ele sobre minha família e o apresentei a meu sobrinho e lhe falei que pretendia voltar à ilha.
Ele me contou sobre sua noiva Channelle, e convidou a mim a e meu sobrinho para ir a festa de casamento que seria no fim de semana. Ele me contou como conheceu Channelle, e ouvir esse relato me fez lembrar de meus pais, e como eles gostavam de me contar, repetidas vezes, como se conheceram.
Ficamos hospedados em sua casa e dois dias depois fomos à cerimônia de casamento. Me senti desconfortável e deslocado ao conversar com nobres e ricos das redondezas. Foi quando percebi o tamanho da vontade que eu tinha de voltar à ilha, novamente lembre que Sexta-Feira não teria lua-de-mel e ofereci carona, para que Channelle conhecesse o local onde Sexta-Feira ‘renasceu’.
Partimos três dias depois, tivemos uma viagem tranquila, e senti que tudo daria certo. E a princípio deu. Chegamos lá no fim da tarde, Sexta-Feira e Channelle puderam contemplar o pôr-do-sol, abrigados em minha casa de campo.
Essa tranqüilidade durou os dois meses que ficamos lá. Sexta-Feira e Channelle tiveram que voltar. Senti uma onda de agonia me invadir só de pensar em partir. Estava muito acostumado com aquele paraíso para dar as costas para ele. Decidi ficar por mais um tempo, que acabou virando seis maravilhoso anos na paz e na tranqüilidade do melhor lugar do mundo.
A maneira como saí de lá foi a pior possível. Eu estava prestes a completar sete anos vivendo lá quando a ilha foi ‘invadida’ por habitantes londrinos. Em aproximadamente três anos, vi o paraíso, único e inacabável, se acabando e se tornando comum, assim como os outros. Me senti impotente, assistindo às cabanas, à casa de campo e ao castelo se tornarem simples casas, minha pequena horta virar um restaurante.
Fui embora. Não aguentei ver a minha criação virar a criação de outra pessoa. Depois de seis meses voltei para a ‘ilha’. Afinal, de que adiantava viver em Londres se agora o paraíso era igual a Londres?
Comprei uma pequena casinha, me ‘acostumei’ com aquela vida monótona, mas o menos fiquei com as lembranças de um paraíso que ainda vive na minha memória”.
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Minha ilha (Izabella Häfele Gularte)
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Depois de alguns anos em minha cidade natal, pensando no destino de meus amigos e de minha adorada ilha, decidi voltar e levar alguns habitantes, queria formar uma sociedade com as minhas definições de ideal.
Reuni algumas mulheres aventureiras e damas procurando um novo e diferente lar. Também vários homens conhecidos meus.
A viagem durou um longo e cansativo mês, mas quando chegamos, com uma porcentagem a menos de homens, pois demais mais atenção às mulheres, foi maravilhoso!
A ilha já tinha bastantes pessoas habitando-a, depois percebi que eram amigos de Sexta-Feira, legal! Mais gente para minha sociedade!
Desembarquei e vi Sexta-Feira me esperando com um enorme sorriso no rosto e os braços estendidos, esperando um abraço. Não sei como ele sabia que era eu no navio, mas estava lá todo alegre e satisfeito.
Dei um abraço apertado em meu amigo, enquanto meu ‘povo’ e o dele nos olhavam, pasmos com nossa intimidade.
Depois de um tempo conversando com Sexta-Feira, vi que ele tinha a mesma intenção que eu, formar uma cidade, com seus conceitos de sociedade ideal. Decidi, então, juntar-me a ele.
Passamos dias discutindo as formas de governo, as moradias, as leis. Mas chegamos a um acordo. O governador seria escolhido pelo povo e as leis e todas as decisões com relação à sociedade só seriam tomadas depois de consultar também o povo.
Após alguns meses, fizemos um congresso com o povo de nossa cidade (ainda sem nome) e decidimos parte das leis, então, era hora de decidir as moradias e institutos públicos.
Eu e Sexta-Feira queríamos uma biblioteca, também uma escola, para que todos pudessem ler e escrever. Então tive de voltar para a Europa, fui buscar livros e professores, junto com alguns aliados. Sexta-Feira ficou.
A viagem de volta pareceu ser mais longa ainda, com a ansiedade pela terra firme, mas quando chegamos, éramos todos os que partiram e em ótimo estado de saúde.
Passamos alguns anos na ‘sociedade moderna’, pesquisamos muito sobre formas de governo, leis e como se governa um povo. Também procuramos livros de ensino ou somente uma boa literatura para meu povo, e ótimos professores, capazes de dar ao meu povo o dom da leitura e da escrita.
Foi em um dos momentos em que estava remexendo uns livros que decidi fazer um diário com anotações importantes sobre o processo de desenvolvimento de minha pequena cidade.
Depois de muito estudo e procura, decidimos voltar a minha amada ilha. Partimos satisfeitos com o que conseguimos, mas quando chegamos, minha impressão da minha ilha não era muito satisfatória.
Estava tudo ao contrário do que Sexta-Feira e eu tínhamos planejado. Um revoltado do grupo de ‘amigos’ meus (homens da Europa) se rebelou, junto com muitos seguidores e conseguiu se tornar a nova grande autoridade de Fanópolis (nome dado por ele próprio).
Richard Rudolph só queria saber de toda a riqueza e poder pra si próprio. Ele apoiava o capitalismo e a inferiorização dos mais pobres.
Durante o tempo em que estive na ilha tentando mudar o governo de não-mais-tão-minha-ilha houveram muitos debates e lutas, mas os capitalista venceram todos, deixando o conceito meu e de Sexta-Feira, de sociedade ideal, de lado.
Decidi, então, que não adiantava mais ficar naquela ilha que não era mais minha e viver numa sociedade em que o povo é mal educado. Aliás, já tinha feito minha parte, grande maioria das pessoas de Fanópolis já sabia ler e escrever.
Então, parti com Sexta-Feira, deixando aquela ilha para trás, com um enorme sentimento de tristeza no coração.
Mas não foi só porque eu desisti da ilha que eu iria desistir da minha vida, minhas conquistas. Publiquei um livro com base no meu diário e foi um sucesso.
Anos se passaram, meu livro se tornou um clássico e, de novo por causa de meu instinto aventureiro, decidi levar minha obra ao meu antigo povo, para deixar pelo menos um pedaço de minha história naquela ilha, que já chamei de minha. Então fui, em busca de aventura e reconhecimento”.
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í.ta**

3 comentários:

Eduardo Silveira disse...

adorei, adorei
quero ser seu aluno, ha-ha

abração!

Camila F. disse...

Que coisa boa,Ítalo!
Seus alunos tem muita sorte... Por ter um professor tão apaixonado por leituras. :)
Bom seria se todos fossem assim, não é? Mas nem sempre...
Abraço!

Território Nenhum disse...

Parabéns Ítalo!! Queria ter sido eu aluno! hehehe. Li a edição completa do Defoé logo após ter visto "O Náufrago" no cinema. Amei.

abs